Mainardi é minha Anta

22, janeiro, 2014 Sem comentários

“A grande mídia é golpista e tendenciosa!”. Ela direciona o foco para aquilo que quer e manipula a opinião pública sem deixar explícita a própria opinião ou o porquê de sua atitude. Ela se auto-declara “isenta”, muito embora saibamos que este quesito não existe. Ela é muito bem organizada e articulada. Há pessoas muito inteligentes trabalhando nela e o foco, seja ele qual for, é fruto de algo elaborado, às vezes nem tanto. Muitos usam essa frase citada no começo do texto, inclusive eu. É uma tese que defendo, mas tenho dificuldades para encontrar exemplos para ilustrar o raciocínio. Eis o exemplo que aguardava.

Inicialmente, não tem a ver com enxergar o Brasil com otimismo ou pessimismo. É possível dosar ambos e enxergá-lo com esperança, mas ter senso crítico suficiente para não descambar para nenhum dos extremos é fundamental para não cair em armadilhas da mídia, cujo modelo vigente funcionou bem por muito tempo, mas as coisas mudam, a realidade muda e a realidade do Brasil tem se modificado ao longo dos últimos anos. A grande mídia sempre foi “o filtro” e o que não é noticiado por ela, não é fixado no imaginário da opinião pública de um modo geral, logo tende a não ser verdade. Felizmente, como se diz por aí: shit happens. O modelo já começa a dar sinais de que algo não vai bem. Foi o que percebi quando vi o vídeo no qual a CEO de uma das maiores redes de lojas de varejo do país desconcerta os apresentadores de um dos programas mais queridos das classes A e B e o mote vira hit na internet. #gênio.

Luíza Trajano (presidente do grupo Magazine Luiza) foi recentemente entrevistada no programa Manhattan Connection e, por sua vez, confrontada com a própria síntese do pessimismo (em todos os sentidos, inclusive profissional): Diogo Mainardi. Digo péssimo porque Mainardi é um personagem que figura no “jornalismo”, mas não é jornalista. É filho de publicitário, mas não atua na publicidade. Diz-se que é escritor (?!?), mas, na verdade, a profissão de Mainardi é ser comentarista em TV e revista. Não sei se isso é profissão. Até aí, problema nenhum. Porém, Mainardi ganhou espaço na grande mídia por ser polêmico (?!?) e pára por aí.

Mas algo deu errado na fórmula pronta da Globo, a coisa ficou tão evidente que Mainardi acabou desnudado. Tentou “emparedar” Luiza de várias formas, porém antes se esqueceu de ler, se informar. Por não ter feito a lição de casa, Mainardi (que se auto-intitulou: o copo vazio, e nisso ele tem toda a razão) deu várias gafes durante o debate. Como garoto mimado que é (e amparado pelo empregador), tentou de todo modo enfiar goela abaixo suas afirmações de que “os juros aumentaram”, “o crédito diminuiu”, “a inadimplência aumentou pelo segundo ano consecutivo”, “a inflação aumenta”, “a indústria nacional foi sucateada”, etc. Perguntou quando Luiza irá vender sua empresa para a Amazon. Disse ainda “eu não vejo caminho pro varejista brasileiro”. E como bom vidente que é, disse que “se ainda não há crise, vai haver”.

Luiza porém, foi bastante hábil. Comentou sobre a questão da inadimplência do varejo, que, segundo ela, diminuiu (depois foi amplamente confirmada pela própria grande mídia). Explicou que o setor varejista é um mercado bastante promissor e também mostrou dados interessantes que tenho certeza de que os espectadores do Manhattan Connection não conheciam: apenas 8% da população tem TV de tela plana (acredito que de LCD, LED, etc.). 54% tem lavadora de roupas em casa. Enfatizou também a ação do governo federal como o Minha Casa Minha Vida enquanto alavanca para proporcionar infra-estrutura necessária para a organização dessa fatia específica da sociedade, consumidor em potencial. Já Mainardi soltou um “me poupe, por favor, Luiza, hehehe” quando esta se ofereceu para lhe enviar dados sobre o que ela estava defendendo. O escritor (?!?) não gosta de ler.

Luiza levantou os problemas em relação à burocracia brasileira, mas que o aumento de vendas no varejo é uma tendência mundial, que a Amazon, inclusive, pretende criar lojas físicas. Esse fato, no Brasil, significa, que vale a pena investir em melhoria na infra-estrutura das classes mais baixas, pois são as que tem bom poder de consumo e potencial em contribuir para o aquecimento da economia e isso é fato comprovado, com base nos dos últimos anos. Luiza, após questionada por Ricardo Amorim acerca do baixo crescimento do varejismo em relação a outros setores, afirma que o mercado de vendas no varejo é novo e está praticamente começando no país, que é o setor que mais gera emprego depois do governo (um dos maiores empregadores). Considerei este dado muito importante e acredito que muitos o desconheçam já que a grande mídia sempre coloca a indústria como grande empregadora, em especial as montadoras, que são estrangeiras, além de “queimar” os sindicatos, enfim, sacou a manipulação?

Lucas Mendes foi obrigado a concordar com Luiza, fez o mea culpa, meio na base do “eu acho que” e mudou o foco do debate, perguntou acerca da segurança nas compras on line feitas no Brasil e depois sobre o atendimento ao cliente. Luiza comentou sobre ambos os assuntos e foi novamente surpreendida por Mainardi dizendo que o problema no Brasil é preço, que no “Brasil tudo custa três vezes mais”, justamente no momento em que ela explicava uma situação presenciada numa farmácia em Nova Iorque sobre atendimento ao cliente e que não tinha nada a ver com preço. Mais uma gafe, mas que se tornou um momento divertido no programa e, mais uma vez, Lucas Mendes vem em socorro da entrevistada e cita uma escritora norte-americana que afirma a importância do atendimento em detrimento do preço, corroborando com o comentário de Luiza.

E Luiza é uma senhora simpática, respeitada, com linguajar mais popular, amiga da presidenta Dilma, mas é, antes de tudo, capitalista, dona de uma rede de lojas, empreendedora, próspera e tem como público-alvo o consumidor de classe B e C emergente. É afinada com o governo federal, mesmo porque o setor no qual ela atua sai beneficiado. Sim, ela tem seus interesses. Uma vez tive problemas ao comprar no Magazine Luiza, fui muito bem atendido e meu problema foi prontamente resolvido. Luiza é uma capitalista, mas a empresa dela me tratou com respeito.

Já Mainardi é minha Anta, não aprecio a pessoa dele, bem como não sou fã do Manhattan Connection. Nas poucas vezes em que assisti a esse programa, percebi que existe um script. Se Mainardi não é bem informado, não fala bem, não é lá muito polido, então qual a função dele no programa? A resposta que me ocorre é que Mainardi é algo como um bobo-da-corte. Um arquétipo que se contrapõe aos demais apresentadores. Alguém que fala justamente para ser contestado. É o Didi do Manhattan Connection, ou seja, uma Anta. Digo isso pois ele teve o mesmo comportamento em outro episódio, o mesmo comentário sem-graça, no mesmo time e no mesmo momento do programa. Coincidência? De todo modo, qual o problema dele ser uma Anta? Um brasileiro que vive em Veneza (coincidentemente a cidade ícone das máscaras da Commedia Dell’Arte) bancar o bobo na TV paga para um público que o adora? Quantos brasileiros gostariam de ser uma Anta como ele? Mainardi, como ele mesmo disse, é uma personificação, um personagem pago para tal e que usa uma máscara: a de alguém que olha de longe o Brasil com desdém.

Mais anta é quem acredita.

Ano-Bom

31, dezembro, 2012 Sem comentários

Stanislaw Ponte Preta

Felizmente somos assim, somos o lado bom da humanidade, a grande maioria, os de boa-fé. Baseado em nossa confiança no destino, em nossas sempre renovadas esperanças, é que o mundo ainda consegue funcionar regularmente deixando-nos a doce certeza – embora nossos incontornáveis amargores – de que viver é bom e vale a pena. E nós, graças as três virtudes teologais, às quais nos dedicamos suavemente, sem sentir, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; graças a elas, achamos sinceramente que o ano que entra é o Ano-Bom, tal como aconteceu no dezembro que se foi e tal como acontecerá no dezembro que virá.

Todos com ar de novidade, olhares onde não se esconde a ansiedade pela noite de 31, vamos distribuindo os nossos melhores votos de felicidades:

Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

E os dois que se reciprocaram tão belas entradas seguem seus caminhos, cada qual para o seu lado, com um embrulho de presentes debaixo do braço e um mundo planos na cabeça.

Ninguém duvida de que este, sim, é o Ano-Bom.

Pois se o outro não foi!

E mesmo que tivesse sido, já não interessa mais – passou. E como este é o que vamos viver, este é o bom. Ademais, se é justo que desejemos dias melhores para nós, nada impede àqueles que foram felizes de se desejarem dias mais venturosos ainda. Por isso, lá vamos todos, pródigos em boas intenções, distribuindo presentes para alguns, abraços para muitos e bons presságios para todos:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

A mocinha comprou uma gravata de listas, convencida pelo caixeiro de que o padrão era discreto. O rapaz levou o perfume que o contrabandista jurou que era verdadeiro. Senhoras, a cada compra feita, tiram uma lista da bolsa e riscam um nome. Homens de negócios se trocarão aquelas cestas imensas, cheias de papel, algumas frutas secas, outras não e duas garrafas de vinho, se tanto. Ao nosso lado, no lotação, um senhor de cabeça branca trazia um embrulho grande, onde adivinhamos um brinquedo colorido. De vez em quando ele olhava para e embrulho e sorria, antegozando a alegria do neto.

No mais, os planos de cada um. Esta vai juntar dinheiro, aquele acaricia a possibilidade de ter o seu longamente desejado automóvel. Há uma jovem que ainda não sabe com quem, mas que quer casar. Há um homem e o seu desejo, uma mulher e a sua esperança. Uma bicicleta para o menininho, boneca que diz “mamãe” para a garotinha; letra “O” para o funcionário; viagens para Maria; uma paróquia para o senhor vigário; um homem – para Isabel – a sem pecados; Oswaldo não pensa noutra coisa; o diplomata quer Paris; o sambista um sucesso; a corista uma oportunidade; muitos candidatos vão querer a presidência; muitas mães querem filhos; muitos filhos querem um lar; há os que querem sossego; dona Odete, ao contrário, está louca para badalar; fulano finge não ter planos; por falta de imaginação, sujeitos que já tem, querem o que tem em dobro, e, na sua solidão, há um viúvo que só pensa na vizinha. Todos se conhecem com maior e menos grau de intimidade e, quando se encontram, saúdam-se:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Felizmente somos assim. Felizmente não paramos para meditar, ter a certeza de que este ano não é o Ano-Bom porque é um ano como outro qualquer e que, através dos seus 365 dias, teremos que enfrentar os mesmos problemas, as mesmas tristezas e alegrias. Principalmente erraremos da mesma maneira e nos prometeremos não errar mais, esquecidos de nossos defeitos e virtudes, os defeitos e virtudes que carregaremos até o último ano, o último dia, a última hora, a hora de nossa morte… amém!

Mas não vamos nos negar esperanças, porque assim é que é o ser humano; nem nos neguemos o arrependimento de nosso erros, embora, no Ano-Bom, voltemos a errar da mesma forma, o que é mais humano ainda.

Recomeçar, pois – ou, pelo menos, o desejo sincero de recomeçar – a cada nova etapa, com alento para não pensar que, tão pronto estejam cometidos todos os erros de sempre, um ano novo virá, um outro Ano-Bom, no qual entraremos arrependidos, a fazer planos para o futuro, quando tudo acontecerá outra vez.

Até lá, no entanto, teremos fé, esperança, caridade bastante para nos repetirmos mutuamente:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Dia 22 de julho, há quinze anos

22, julho, 2012 4 comentários

Sempre gostei de tirar férias em julho ou dezembro/janeiro (ou melhor ainda, dividir as férias entre os dois períodos). Nesse ano, reservei uns dias em julho e resolvi conhecer a fazenda dos Hari Krishna em Pindamonhangaba/SP, Nova Gokula. Meu professor de ioga, na época, me deu as coordenadas, disse que havia uma pousada e me animei em passar uns dias por lá.

No dia 21, estava no quarto, dando aquela cochilada depois do almoço (pra quem conhece, praxada) e escutei uma voz feminina, conversando com a zeladora da pousada. Ela fazia muitas perguntas, queria saber como as coisas funcionavam por ali. Me interessei em saber quem era a dona daquela voz. Peguei meu livro e fui à varanda “ler um pouquinho”. Ela saiu do quarto e logo voltou. Pude ver quem era e continuei a leitura.

Minutos mais tarde, a dona da voz veio falar comigo. Me pediu licença, se apresentou e se desculpou por interromper minha leitura perguntando se eu tinha interesse em fazer uma caminhada ecológica, um passeio oferecido pelo dono da pousada, mas que só era feito com um número mínimo de pessoas. Eu já sabia da condição e disse a ela que poderia contar comigo, pois também queria fazer a caminhada. Ela ainda comentou sobre o lugar (um tanto incomum) e conversamos por alguns minutos. Logo ela se foi.

Ao anoitecer, bateu a fome e, como lá não ofereciam jantar (praxada era só de manhã e à tarde), acabei indo à lanchonete ao lado do templo. Vi que ela estava lá, conversando com um devoto. Demorei um pouco para entrar, antes fui visitar o templo, cujo altar estava aberto naquela hora. Entrei na lanchonete, cumprimentei-os e fui comer numa mesa próxima, parecia que ela estava meio entediada com o papo do devoto, mas ouvia-o educadamente.

Mais tarde ela resolveu voltar à pousada, pegou o guarda-chuva e me perguntou se eu queria uma “carona”. Agradeci mas recusei. Quis ficar um pouco mais e conversar com os Hari Krishna. Naquela época, entendia um pouco da filosofia deles. O suficiente para provocá-los até certo ponto.

No dia 22 fui ao refeitório, pela manhã, tomar a praxada e depois retornei à pousada. Ao sair do quarto, encontrei-a no pátio. Disse que ia fazer uma caminhada e perguntei se gostaria de me acompanhar. Demos uma volta pela fazenda, que é bem extensa, e pudemos nos conhecer melhor. Horas mais tarde, ela me pediu para avisá-la sobre a hora do almoço, já que tinha perdido o horário do café-da-manhã.

Fomos almoçar juntos e, mais tarde, ela teve a brilhante ideia de contrariar o dono da pousada e fazermos a tal caminhada ecológica por conta própria. E assim fizemos. Mal sabíamos que aquela caminhada seria o início de tantos outros “primeiros”. A primeira traquinagem, os primeiros papos, as primeiras afinidades, os primeiros olhares, o primeiro beijo, o primeiro por-do-sol.

Na volta, algumas horas depois, nos perdemos na trilha e já havia escurecido. Ela levou uma lanterna consigo, que nos ajudou a chegar a um lugar relativamente seguro: o quintal da casa do dono da pousada. Apesar de constrangidos (nós e ele), conseguimos voltar, rindo da situação em que os dois recém conhecidos haviam se metido. Eis a primeira história pra contar.

Momentos mais tarde, próximo à lanchonete, comentamos o assunto com alguns dos devotos. De repente, um deles apontou e disse, “olha lá”. A lua estava nascendo por detrás das montanhas. Nunca tinha visto aquilo e ela me disse que também não. Foi a primeira vez, foi assim que tudo começou.

Suportes tecnológicos: a obra e os produtos derivados

Observar as diversas expressões de arte e seus respectivos suportes tecnológicos é algo muito interessante. Conforme a evolução da tecnologia, novos suportes são criados e, quando a obra é boa, ela “renasce” sob esses novos suportes, bem como obras lançadas originalmente em livro e que viram filmes. Ou filmes que viram jogos (ou o contrário). Gostaria de ater-me, nesse caso, exclusivamente ao primeiro exemplo.

Li vários livros e pensava, quando lia: “isso daria um ótimo filme”. Coincidência, ou não, a obra “renascia” como filme. Talvez, a idéia de filmar determinada obra fosse um tanto óbvia e outros também a tivessem, de preferência aqueles que tem condições de torná-la realidade. Sorte minha (ou não).

Obras devem ser apreciadas sempre no original, creio nessa afirmação, nunca se deve trocar um suporte tecnológico por outro, já que são distintos entre si e, nem sempre, visam o mesmo objetivo. Essa afirmação não se refere, obviamente a todas as obras. O mercado se encarregou de modificar a lógica ou de criar uma nova, criando obras que sugerem a continuação em outros diversos suportes tecnológicos. Hoje em dia existe uma infinidade destes. É algo planejado nesse caso.

Mas, produções distintas, isto é, quando o livro é escrito em uma época e o filme (por exemplo) é feito em outra, há que se ter a certeza de que um não deve substituir o outro, pois os formatos são diferentes e obviamente deve haver adaptações de um suporte para outro. Além destas, opiniões do diretor, roteirista e outros também são aspectos que interferem no resultado final, bem como no objetivo.

O expectador mais atento percebe a diferença entre ambos, quando consegue ter acesso a elas e, certamente ficará frustrado. É o meu caso. Já assisti a inúmeros filmes originados de livros. Na grande maioria dos casos, o resultado do produto é frustrante, se comparado à obra original. Alguns exemplos a citar: Carandiru, Diários de Motocicleta, Ensaio sobre a Cegueira, Crash – Estranhos prazeres e alguns tantos. Não há ordem que conduza à frustração, assistindo ao filme primeiro e lendo o livro depois, ou o contrário, ambos são incompatíveis entre si. O curioso é que são filmes belíssimos, possuem o aval dos respectivos autores – José Saramago, por exemplo, se emocionou ao assistir o filme de seu livro -, com exceção de Carandiru, cujo resultado achei péssimo, analisando-o individualmente e principalmente comparando-o com o excelente livro de Dráuzio Varella.

Esses filmes perdem muito do crédito, se comparados às respectivas obras originais. São tantas modificações feitas no roteiro, tantas “invenções”, tantas adaptações que o resultado fica quase outro. Se é assim, poderia-se criar uma outra narrativa diferente da obra original e não fazê-la parecer com a mesma do livro e ter tantas alterações que a tornam uma obra-original-mutante figurando noutro suporte tecnológico.

Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças. Imagem: Divulgação Mudar o contexto no enredo, por exemplo, é uma saída muito interessante, como no caso do filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, que partiu da história no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano, e a recriou em um contexto completamente diferente. O filme de Laís, cujo autor do livro foi um dos roteiristas, faz total referência à obra original, mas o filme tem um contexto próprio que o desvincula do livro, atribuindo identidade própria ao mesmo. Esse foi um dos livros que li pensando que daria um ótimo filme, e deu.

Porém, a maioria não é assim. Infelizmente, fazem modificações grotescas na história, inventam, mudam, costuram trechos e mudam muito o fluxo original da narrativa, o que torna o resultado muito diferente do original, uma pena. Sempre que assisto a filmes baseados em livros, procuro ler as obras e compará-las aos mesmos. Quase sempre é uma decepção.

A exceção à regra

Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Felizmente, há quem busque a preocupação de “verter” a obra em livro para o cinema sem destruir o original. Gostaria de saber de outros exemplos, mas conheço somente este: Meu Pé de Laranja Lima, lançado em 1970. Conheço a película desde a década de 80. Antes disso, assistia a novela de vez em quando, na TV Bandeirantes. E foi uma situação curiosa, em 1986, quando meu pai adquiriu o primeiro aparelho de videocassete. Nós todos empolgados em alugar filmes na locadora. A dúvida era sobre qual seria o primeiro filme a ser locado e minha mãe foi taxativa: “vai ser Meu Pé de Laranja Lima”! E foi. Todos assistimos, mas só eu fiquei com ele na memória. Já no início do século 21, achei o filme numa locadora e fiz questão de locar para a família assistir. Minha filha, ainda pequenina, chorou um bocado. Depois desse episódio, nunca mais vi esse filme em nenhuma locadora.

Apesar de gostar muito desse filme, nunca me interessei em ler a obra original e eis que, dia desses, fui ao shopping, precisava comprar o presente de aniversário para um colega de classe da minha filha. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o próprio, comprei dois. E qual não foi minha surpresa ao ler todo o livro e descobrir que o enredo do filme é praticamente o mesmo do livro. Tive de procurar o referido filme na rede, achei e reassisti para ter certeza do que estou falando, posto que faz anos que não o assisto. Felizmente, não estava enganado.

Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação O diretor Aurélio Teixeira (o “Portuga”), que é um dos atores principais e também um dos roteiristas, juntamente com o autor da obra, José Mauro de Vasconcelos, teve todo o cuidado de preservar o enredo original. A montagem deixou a desejar, a narrativa ficou um pouco rápida e o filme, em relação ao livro, perdeu um pouco da riqueza de detalhes. Mas, nada que o desabone. Manteve-se o respeito para com a obra original, até os diálogos do livro foram mantidos, algo raro. E o resultado é do tipo que eu gosto, bem próximo dos filmes de arte europeus, desprovido de efeitos, apenas a simplicidade de uma linda história, embora muito triste.

Nesse caso, é possível que a narrativa tenha contribuído para o desenvolvimento do filme como um todo, os atores desempenharam muito bem seus personagens, como o pequeno Júlio César Cruz, que interpreta Zezé, o protagonista da história. A ambientação do filme é muito boa, as locações, ou seja, uma confluência de fatores que permitiram, como resultado, um filme muito singelo, simples e direto, com um profundo respeito à obra original.

Meu Pé de Laranja Lima (o filme) é um exemplo de que é possível adaptar a narrativa de um livro para o cinema sem alterá-la geneticamente, como normalmente se faz, como manda a lógica da indústria “lucrativa” do entretenimento. Talvez, naquele tempo, a lógica fosse outra.

Fonte dos filmes: Filmow.com

Relações sociais: o passado e o presente-virtual

O motivo deste texto surgiu a partir de um ocorrido há alguns dias. Foi o estopim que me fez lembrar de outros exemplos que me levaram a uma reflexão mais aprofundada sobre o título-tema. O advento da internet tornou o computador (e também os dispositivos advindos dele) uma ferramenta, peculiar, de comunicação. Os aplicativos de redes sociais o consagraram com tal função. As relações de contato nesses aplicativos se transformaram em complexas redes de interconexão de pessoas (exclusivamente no ambiente virtual), o que, por si só, já é um universo interessantíssimo a ser abordado. Entretanto, as relações que se constituíram no passado e que, por algum motivo, retornaram ao presente de forma virtual, ou até mesmo presencial em alguns casos, trazem implicações intertemporais que mesclam aspectos do ontem e do hoje em uma coisa só. Eis os exemplos:

Tenho, ou melhor tinha, um antigo conhecido que chegou a ser meu “melhor amigo” na década de 80, na adolescência. Houve um distanciamento natural com o passar dos anos, na metade da década de 90, e uma re-aproximação, no ambiente virtual, na década seguinte. Um outro exemplo: Meu pai tinha um colega de trabalho de origem grega que morava no Brasil, que se casou com uma brasileira, tiveram um filho e se mudaram para a Grécia, em 1979, e perderam o contato conosco na década de 80, mas re-aproximaram-se virtualmente no início de 2011. Um reencontro virtual até emocionante após uma lacuna temporal de mais de 20 anos. Outro exemplo: Um primo que era muito amigo meu e não nos vemos presencialmente há mais de 15 anos. Nos re-aproximamos virtualmente há pouco mais de cinco anos, mas de uma maneira extremamente lacônica. Os três exemplos citados possuem, de certa forma, uma mesma estrutura: um passado presencial, uma lacuna temporal e uma re-aproximação virtual.

O passado, nas relações sociais, torna-se complexo quando associado ao ambiente virtual, por meio dos aplicativos de redes sociais, pois a noção de pertencimento entre ambos (o passado presencial e o contato no ambiente virtual) são incompatíveis entre si, apesar de conviverem juntos no presente. A lacuna temporal é responsável pela desconstrução da afinidade, que é o laço que, a rigor, mantém viva uma relação social (tanto presencial como virtual).

Reatar um antigo contato virtualmente pode ser perigoso, uma vez que corre-se o risco de anulá-lo definitivamente, dadas as “configurações” de ambos os lados no presente. Um re-enlace virtual traz à tona muitas das reminiscências do passado, mas também força o confronto de características do presente, como divergências de ordem política, social, religiosa, etc. Características essas que foram construídas individualmente durante a ausência de contato. De todo modo, seria leviano supor que todas as relações sociais com semelhante estrutura estão fadadas a ter o mesmo desfecho. Cada um dos três exemplos possui elementos próprios que os conduzem a desfechos distintos, assim como no período em que havia o contato presencial.

Além disso, em um ambiente de rede social (como o Facebook, por exemplo) há centenas de contatos ligados a um único usuário e que interagem entre si em uma linha do tempo. Ali todos estão no mesmo plano, independentemente das relações presenciais e de pertencimento, “tudo junto e misturado” e de forma atemporal, convivendo, inclusive com pessoas cuja interação iniciou-se de forma virtual, mas que está acontecendo ao mesmo tempo, junto com outras que trazem reminiscências do passado. Usuários que, às vezes, até interagem entre si.

Se a interação (virtual ou presencial) diária com pessoas constrói afinidades, modela conceitos (ou preconceitos muitas vezes) e gera convicções, é óbvio que essa construção de valores e sentidos vai esbarrar na construção de sentidos de outros, afinal, a pessoa pode ter uma leitura diferente do próprio passado em decorrência de experiências posteriores e que pode gerar divergências as características individuais desenvolvidas durante a lacuna temporal.

Isso, talvez, explique o que ocorre, nos meus exemplos, com pessoas cujo contato está findo há muitos anos e que, de repente, são reatados no ambiente virtual. São relações sociais de pouca intensidade, com pouca reciprocidade, pouco contato e interação mútua na rede. Na verdade, as reminiscências do passado são o único elemento disponível que tornam esses contatos possíveis.

De outro modo, uma pessoa é abruptamente “adicionada” ao cotidiano (virtual) de outra, acompanha o comportamento da mesma na rede social e manifesta-se positiva ou negativamente, ou nem se manifesta. A ausência presencial corrobora para que o contato permaneça com pouca intensidade e isso ocorre em dois dos exemplos acima, nos quais o contato persiste, mas há pouca ou nenhuma comunicação. No outro exemplo, a divergência de opiniões evoluiu para uma discussão que culminou no rompimento definitivo. Esse é típico exemplo do distanciamento entre passado e presente, no qual a pessoa faz uma re-leitura do próprio passado e a interação com o outro gerou o conflito.

Passado presencial, lacuna temporal e re-aproximação virtual são fatores que podem determinar o re-enlace de uma relação social, ou o fim da mesma. É necessário ter consciência de que uma relação baseada nos três itens será do tipo “museu”, na qual as reminiscências do passado serão o “fiapo-de-cabelo” que a sustentará. Afora isso, serão duas pessoas praticamente desconhecidas que, se não fosse por essas reminiscências, talvez nem se conhecessem. Portanto, a relação será de pouca intensidade. Mas, nada impede que a mesma possa evoluir para um novo convívio virtual ou até mesmo presencial. Mas, há que ser ter consciência de que tratar-se-á de uma nova relação, independentemente das reminiscências do passado.

Considerações sobre a promoção de lançamento do Nokia Lumia em BH

29, março, 2012 Sem comentários

Que a interface do novo Windows 8 Mobile é extremamente inovadora, ninguém duvida. Que os novos aparelhos a serem lançados com esse sistema operacional tem grande chance de serem competitivos, ninguém duvida também. Já a Nokia e Microsoft copiarem (ou pelo menos, tentarem) a estratégia de marketing da Apple para lançamento do novo aparelho, o Nokia Lumia, é de se duvidar.

Lançado na semana passada, entre os dias 22 e 24 de março, chegou ao mercado brasileiro o primeiro celular com novo sistema operacional da Microsoft, o Windows Phone 8. Uma interface que, sem dúvida, vai dar o que falar.

Promoção: compre o novo Nokia Lumia 800 e ganhe um XBox

Particularmente, já o conhecia, pois meu irmão trouxe um aparelho HTC dos EUA, no final do ano passado, com Windows. Gostei muito do que vi; é, de fato, um novo conceito em termos de navegabilidade e usabilidade, o conceito impressiona. Integração nativa com os app’s de redes sociais, facilidade de acesso por meio dos “quadros” e ainda um formato de atualização dos app’s (de notícias, por exemplo) que aparecem diretamente na tela principal, sem a necessidade de acessar o app. É realmente inovador, fiquei impressionado quando o vi pela primeira vez. Não tenho dúvidas de que o novo conceito deve gerar moda daqui há alguns anos.

Quanto à Nokia, não há muito a dizer. Os aparelhos dessa marca são muito bons. O maior problema da marca, segundo me disseram, foi o fato da mesma estar “defasada” no que diz respeito ao novo sistema operacional a ser adotado em novos modelos de celulares, ainda trabalhavam com o Symbian, que é um bom SO, mas caminhando para o desuso. Esta foi a forma que a empresa encontrou para voltar ao páreo com tudo em cima, e foi uma boa escolha. Tem tudo para dar muito certo.

Evento de lançamento do Nokia Lumia em Belo Horizonte/MG A estratégia de marketing para o lançamento do aparelho foi a seguinte: entre os dias 22 e 24 de março (até onde sei), os dois modelos com Windows seriam lançados nas lojas Nokia Store e cada um dos primeiros 20 compradores seriam contemplados com um video game XBox 360. Um brinde, sem dúvida nenhuma, para lá de atraente. Fui avisado na sexta-feira à noite que haveria esta promoção na Nokia Store do BH Shopping. Como estou interessado em adquirir um XBox (e não um Nokia Lumia, embora minha filha esteja, e muito) e nunca havia participado de nenhum evento semelhante, resolvi ir até o Shopping no sábado pela manhã.

Havia várias pessoas aguardando para entrar no Shopping, supus que era por conta da promoção, tratei de garantir um lugar estratégico, que pudesse me garantir uma posição “competitiva” ao sair correndo em direção à loja. Alguns minutos antes das 10h, permitiram a entrada. Só que o segurança demorou uns segundos para sair da frente e deixar-nos subir pela escada rolante, ainda desligada. Foi aquela loucura, sair correndo doidamente pelos corredores do shopping, pulando poltronas até chegar à loja. Os primeiros da fila, inclusive, começaram a se agredir, provavelmente disputando o primeiro lugar (para um nerd, é uma questão de honra). Dois seguranças interviram e o tumulto foi rapidamente controlado.

Os contemplados recebiam uma senha e entravam, um-a-um, na loja para adquirir o celular e ganhar o “brinde”. Foi um processo um tanto demorado, pouco mais de uma hora, ainda bem que levei um livro para ler enquanto aguardava. Entretanto, não percebi muita empolgação dos presentes acerca do celular, eles queriam mesmo era saber do XBox. Alguns que resolveram não entrar na fila, tinham colegas na mesma, como o rapaz que estava na minha frente. Eles perambulavam e sempre apareciam com alguma informação, como, por exemplo, o modelo do vídeo-game, que seria o top de linha.


Momento em que os compradores chegaram à loja Nokia Store

Porém, enquanto aguardava, me toquei de um detalhe crucial: eram dois os modelos que estavam sendo lançados pela Nokia, eu tinha interesse no modelo 710 (o mais barato). Como não tinha ido atrás de mais informações sobre a promoção, intui que o modelo participante seria o 800 (o mais caro). Procurei saber mais e obtive a informação de que era, de fato, o 800 que garantia o XBox. A essa altura do campeonato, percebi que não estaria entre os 20 primeiros, apesar do esforço. Percebi também que os que estavam próximos a mim estavam bem desgostosos com a situação, pois não ganhariam o “brinde”. Foi então que cutuquei o rapaz da frente e perguntei se ele compraria o aparelho e ele respondeu: “Que nada, queria o XBox, esse aparelho não vale o que custa [por volta de R$ 1700 ]“. Um dos colegas desse rapaz (um dos contemplados) apareceu para conversar com ele, meio bravo, disse que se recusou a tirar fotos (cada contemplado era fotografado dentro da loja) e disse “não vou entrar nesse jogo sujo de vocês” aos funcionários.

Por fim, um dos funcionários apareceu e nos disse que os vídeo games tinham acabado. Mas, como estávamos na fila, teríamos direito a comprar os novos aparelhos com desconto, R$ 200 para o modelo 800 e R$ 100 para o 710, a fila desintegrou-se em instantes. Nesse momento, era minha vez de entrar na loja, o rapaz revoltado que estava na minha frente e disse que não compraria o aparelho, entrou, fiquei sem saber se comprou ou não, mas os outros saíram, inclusive eu.

Saí da frente da loja e fui tratar de assuntos mais importantes (leia-se fazer compras no Carrefour). Fui rindo internamente, pensando na desastrosa estratégia de marketing das duas empresas, na qual o brinde da promoção roubou a cena. Os participantes tinham mais interesse no vídeo game do que no celular (independentemente da qualidade do mesmo). Foi como se o celular fosse uma espécie de obrigação para chegar ao principal. Pensei também se o interesse delas teria sido vender apenas 20 unidades do aparelho por unidade participante no Brasil, o que seria bem pouco se comparado ao lançamento do iPhone ou qualquer outro lançamento da Apple, no qual o produto em si já é uma conquista e os lotes dos mesmos são esgotados em pouquíssimo tempo. Difícil comparar. Fiquei imaginando se não teria sido mais interessante ter vendido o XBox e oferecer o celular como brinde, de repente, ou mais unidades de uma versão mais simples do XBox.

De todo modo, a experiência mostra que não adianta saber a receita, o modo de fazer é igualmente importante e, se a estratégia não for bem preparada, o resultado pode ser desastroso, como acredito que foi no caso que presenciei. As duas empresas sabem que o lançamento tanto de um novo celular quanto de um novo sistema operacional não causará tanto alvoroço quanto gostariam, nem fazendo uma promoção com um “brinde” tão generoso como esse. É bem capaz de alguns contemplados optarem por vender o celular e ficar só com o XBox e reaver boa parte do investimento.

Mas, valeu a experiência, a diversão e o alívio de saber que não precisei gastar aquela quantia toda para comprar algo supérfluo num momento em que não preciso (a filhota pode esperar). Só acho que as duas empresas deveriam tomar certo cuidado e procurar estruturar a estratégia de uma forma mais eficiente. Fica a dica.

Mais informações sobre o evento

Vai um CMS aí?

24, novembro, 2011 Sem comentários

Dias desses, recebi a solicitação de um cliente: “Gostaria de mudar o sistema do nosso site. […] Recentemente, fiquei sabendo de um programa que permite que a atualizações sejam feitas de forma simples e descomplicada”. Sem pensar muito, respondi: “[…] se permite uma observação, ‘simples e descomplicada’ só a propaganda”.

Não sei o que ele achou da resposta, vou me reunir com ele ainda, só então saberei o que ele achou da minha observação, ou se vou levar um cartão vermelho. De todo modo, isso trouxe à tona uma inquietação que me incomoda há algum tempo: até que ponto um CMS torna as vidas de cliente e prestador de serviço mais fácil?

A questão é delicada e envolve algumas variáveis. A adoção de um CMS traz, de fato, praticidade, as atualizações podem ser feitas por qualquer pessoa, desde que seja devidamente capacitada, o conteúdo é ajustável ao layout. Ou seja, o resultado é bastante promissor, mas, na minha modesta opinião (infelizmente), utilização nunca é simples e descomplicada.

CMS’s, (Content Management Systems ou sistemas de gerenciamento de conteúdo) atualmente, são uma tendência e um estímulo para que o site fique mais “dinâmico” e esse estímulo faz com que os mesmos tenham, cada vez mais, recursos e isso torna os sistemas, de um modo geral, mais difíceis de se utilizar. E isso é válido para o cliente? Vai depender do quanto o cliente quiser investir em tempo para se dedicar à produção de conteúdo para o site.

A adoção de um CMS gera um custo maior tanto no desenvolvimento do site quanto no treinamento para uso do mesmo. Se o cliente tende a produzir conteúdo com certa periodicidade, o CMS pode se revelar uma solução definitiva, até porque os mesmos dispõem de inúmeros recursos adicionais (plugins) que permitem ao site ser cada vez mais funcional. Além disso, site atualizado constantemente gera índice de visitação bem maior.

Entretanto, essa solução não é para qualquer site, não porque os outros sejam tão pobrezinhos a ponto de não merecer a dádiva. É uma questão de projeto. Há sites que são projetados para ter um conteúdo mais dinâmico e que necessitam de um CMS. Entretanto, há outros em que a solução simplesmente não cabe, eu costumo chamar esses de sites referenciais. São aqueles que necessitam existir e figurar em buscadores, servem para divulgar o cliente, servem como forma de contato, ou seja, uma referência na rede, mas não vão além disso. Quando o cliente tem ciência desse “destino”, fica feliz com o resultado. Isso não significa que o site deva ser simplório, medíocre.

De outra forma, às vezes a temática sob a qual o site é desenvolvido pede que seja adotada uma solução que permita atualizações de forma mais rápida, que não se tenha que intervir diretamente no código html o tempo todo, que não haja necessidade de subir arquivos para o servidor remoto o tempo todo, enfim, uma solução para cada caso.

Ter essa noção de limites é fundamental ao contratar o prestador de serviço. Às vezes o mesmo, com o objetivo de querer oferecer o melhor, pode sugerir uma solução equivocada ao cliente e este, por sua vez, além de pagar mais, não vai se utilizar de todo o potencial que um CMS pode dar. Do contrário, constantes solicitações ao prestador de serviços acerca de alterações pode gerar atrito, desgaste de relação e até o rompimento da relação. Aprendi isso por experiência própria.

Mas e a “forma simples e descomplicada”? É uma afirmação verdadeira, se comparada à interferência direta no código html. Entretanto, a forma simples corresponde ao arroz-com-feijão, tentar incrementar o prato significa uma boa dose de dor-de-cabeça para o desenvolvedor, porque a forma simples leva o cliente a, naturalmente, esperar mais da aplicação e a limitação pode frustrar o mesmo.

O que fazer? Acredito que a solução esteja no planejamento. Gastar tempo planejando favorecerá muito o resultado, pois os detalhes serão pensados e calculados. Uma outra dica é informar o cliente sobre o que a aplicação faz e não faz, lembrá-lo que o layout do site foi criado para determinado objetivo e que, portanto, a aplicação será adaptada para o mesmo. Fugir do planejado implicará em retrabalho e custos extras. Reflita: Essa mudança é realmente necessária?

Enfim, adotar (ou não) um CMS é uma decisão que deve levar em conta vários aspectos, mas a principal delas é perguntar ao cliente: você realmente vai precisar disso? O resultado pode ser um tremendo ganho de qualidade, ou uma tremenda enrascada. Pesquise sem moderação antes de decidir.

Marketing viral, a gente vê por aqui

17, novembro, 2011 122 comentários

“Um mundo melhor, mais consciente e solidário”. De fato é a “Gota D’Água”!

Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação Marketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.

Me refiro a este “Movimento Gota D’Água“, uma “entidade” que, da noite para o dia, aflorou na rede  e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.

De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma “mobilização nacional” em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve “vestir a camisa” e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito “de repente” para o meu gosto.

Ao acessar o site do Movimento, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a “missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma” e que o movimento “surgiu da necessidade de transformar indignação em ação” e com o objetivo de “usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais”, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito “de repente”.

Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste “projeto”, diz que o mesmo “apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum” e ainda “é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas”, que o “braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: ‘Movimento Xingu Vivo Para Sempre‘ e o ‘Movimento Humanos Direitos‘”. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: “direitos humanos são para os humanos direitos”.

Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG’s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos ou mesmo a Avaaz.

Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que o domínio do movimento Gota D’Água é do ator Sérgio Passarela Marone, criado em 09/2011. Já o do Xingu Vivo foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. O  do Humanos direitos pertence ao Instituto Humanitare e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.

Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em “protestos” desse tipo.

E tudo o que o Movimento Gota D’Água pede é “a sua assinatura”, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de “coletivos”) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de não-se-sabe-quem-ou-o-quê.

Sobre o vídeo, um “coletivo” de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo novela-das-oito. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como “Quem vai pagar?! Você vai pagar!”. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…

Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: o Xô CPMF! Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de manipulação, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.

Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca “na história desse país” vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.

De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. Vox populi vox Deo, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes “globais” que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via Facebook e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua “credibilidade”, amém.

Espaço do leitor:

Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):

Jobs se foi. E agora?

6, outubro, 2011 Sem comentários

Ontem (05/10/2011), ao saber da morte de Steve Jobs (fundador da Apple), pelo meu pai durante uma conversa via Skype, não consegui pensar em outra coisa, o que vai ser da Apple agora? Imagino que a mesma inquietação esteja na cabeça de muita gente, inclusive dos investidores.

Home page da Apple em 05/10/2011

Em matéria de Apple, sou um leigo quase completo. Conhecia a marca sempre de ouvir falar, desde os anos 80. Sabia da existência dela e que vendia computadores diferenciados, bem mais caros por sinal e só. Por volta de 2002, tive de dar umas aulas particulares de Corel Draw para uma cliente minha e ela tinha um Mac, era um G3, aqueles tipo “bolinha”, lindo. Mas, minha dificuldade em operar aquele computador era grande, um desconforto que me fazia perguntar: por que as pessoas gostam disso?

Somente por volta de 2006/2007 que, lendo os boletins do Clube do Hardware, tomei ciência de quem era o “dono” da Apple, Steve Jobs. Nem o nome dele eu sabia. O que me atraía eram as notícias sobre a Apple, sempre polêmicas, ousadas. Aos poucos, fui me inteirando mais sobre o mundo da “maçã”. Dentre as notícias que chamavam minha atenção, a de que a empresa teria rompido com a IBM e passaria a adotar processadores da Intel e que, então, os macs poderiam ser multi-plataforma. Rodar, além do MacOSX, Windows, Linux ou até mesmo os três me interessou bastante. Até o afastamento dele da empresa, quando fez uma cirurgia para o tratamento do câncer no pâncreas. Já naquela época pensei: Se um cara desse morre, como ficaria a empresa?

Ainda em 2007, passei a lecionar em uma instituição de ensino que possuía laboratórios de computadores com Mac’s, me lembrei da minha antiga cliente. Comecei a usá-los mais cotidianamente, Mac’s mini e G3, sentia sempre o desconforto com a interface, mas me virava bem com eles. Na mesma época, estava pesquisando qual seria uma boa configuração de um notebook para mim. Considerei várias possibilidades, nunca um Mac. Conheci o Venâncio, em 2008, um fanboy da Apple e, dentre outros motivos (Apple estava em franca expansão naquela época), não só passei a considerar a possibilidade de ter um Mac como adquiri um MacBook e o tenho até hoje como equipamento principal.

Engraçado que, quando você tem um PC, por mais entusiasta que seja, é como votar no PSDB, ninguém te chama de “tucano” por isso e nem de “fanboy”. Mas, se você tiver preferência pelo PT, por exemplo, então você é um “PTista” com tudo de pejorativo a que o título tem direito. E se você tiver um Mac, então você é um fanboy, com tudo (de bom e de ruim) que o título tem direito, mesmo que você não seja um, como é o meu caso.

O fato é que me acostumei à interface do Mac e, mesmo ainda sentido algum desconforto, não me imagino voltando a usar Windows e isso me prende à Apple, porque não posso rodar o MacOSX em um PC (o resultado é horrível em termos de performance) e sou obrigado a usar o hardware da Apple, muito mais caro e que, eventualmente, apresenta problemas assim como os PC’s e o atendimento pós-venda da Apple é igualmente ruim. O fato de não ser um fanboy atrapalha bem pois me impede de enxergar um lindo “mundo-branco” ou de “alumínio-escovado”.

De todo modo, já sendo um Mac user, em 2009, ganhei o livro A Cabeça de Steve Jobs, num concurso promovido pela editora Arteccom e, aí sim, pude conhecer mais sobre o universo da Apple, a vida de Jobs e tudo o que isso significa para a sociedade atual. Apesar do livro ser celebrativo demais para meu gosto, ele mostra que Jobs, além de genial, era genioso, um sujeito arrogante, mal-educado, egoísta, ditador, controlador. Esse é o cara. Mas o que é o mundo dos negócios senão uma selva cheia dos piores monstros? Com a Apple não seria diferente, Jobs apenas defendeu seus interesses, a partir da maneira como entende e encara o mundo. O resultado tem dado certo, mas até quando?

Toda minha inquietação me faz pensar se a Apple merece toda essa algazarra promovida no mundo, toda essa mídia gratuita. Os produtos dela são realmente tudo isso ou tem excitação a mais história? Jobs foi, de fato, um visionário e teve condições de colocar suas idéias em prática e promover os resultados (tanto em equipamentos quanto em serviços e softwares). Foi responsável por uma série de inovações no mundo dos computadores. Sem a Apple, tudo seria mais lento nesse mercado, Apple fazia os concorrentes correrem atrás dela. Mas, o Mac enquanto produto vale todo esse “status”? O iPhone é realmente um aparelho diferenciado dos demais? E o iPad?

Na verdade, a Apple demora demais, às vezes, para anunciar uma novidade ao mundo. Mas, quando o faz, aquilo se torna um padrão (conhece o Magic Mouse? E o USB? E a iTunes Store?). A importância da Apple está mais para uma espécie de conceito do que a de, necessariamente, um produto de qualidade. Sim, porque a Apple, devido ao tamanho e ao alcance, já não controla satisfatoriamente o relacionamento com o cliente. Sou testemunha disso.

Em um comparativo com a Intel, por exemplo, sobre a qual li um belíssimo texto de Tom Wolfe acerca do fundador dela (e co-inventor do microchip), Bob Noyce, Jobs pode ser tranqüilamente comparado com ele em termos de importância, cada um na sua época, bem como todos os outros “gênios” que surgiram e que seguem apresentando inovações no mundo dos computadores.

Mas a Apple merece toda essa mídia gratuita? Minha resposta: Não. Ela trabalha para isso, é tudo estratégia de marketing (está dito no livro que li), só a inovação não é suficiente, é necessário manter os fanboys excitados ao redor do mundo todo o tempo. E, como resultado, eis a maior festa mundial quando a empresa lança novos produtos. Passei a chamar esses eventos de AppleFoolsDay. Não compartilho desse “espírito”, não acho que seja tudo isso (e o lançamento deste último iPhone exemplifica bem o fato) e tenho ressalvas acerca da forma “vertical” com que a Apple trabalha. Exploração predatória do mercado. Isso um dia acaba.

Daí refaço a pergunta do título deste texto: E agora? Jobs está para a Apple assim como Silvio Santos está para o SBT (Alguém coseguiu substituir o Lombardi?), assim como Lula está para o PT, assim como Edir Macedo está para a Igreja Universal, assim como Renato Russo está para a Legião Urbana (e ainda está), assim como Salvador Arena estava para a Termomecânica (conhece esse cara? Deveria). É impossível pensar a criatura sem o criador. No caso da Apple, isso fica mais evidente, a empresa quase faliu nos tempos em que ficou sem seu criador. Um sujeito que “metia o bedelho” em praticamente tudo, fazia questão da beleza, do design, da textura (tanto física como visual), ajudava a definir até a tipografia e o material usado na embalagem, pensava em como seus produtos poderiam proporcionar uma “melhor experiência” ao usuário (princípio básico da usabilidade, apesar do desconforto que sinto até hoje). Ao meu ver, essa é a essência da Apple. Coisa que só o dono é capaz de fazer e, infelizmente, o dono morreu.

Pensando por esse viés, o futuro da Apple é incerto. Certamente continuará a ser uma empresa bem sucedida, assim como a Microsoft, a Dell, a Intel, a Sony, a HP e tantas outras. Mas, jamais a Apple será a Apple, que agora entrará para a história. Os investidores também sabem disso.

Agora resta esperar para ver como será a nova fase da Apple. As bases da empresa estão intrinsecamente calcadas nos preceitos de Jobs. Como Luli Radfahrer disse numa palestra, “Apple tem mentalidade de empresa dos anos 70″. Tem mesmo! Você consegue imaginar o que significa mudar uma filosofia de décadas? Nem eu. E continuo a me perguntar: e agora?

O “Mustang” e “O Martelo” de Carlos Lopes ou depois de quebrar a “Dorsal”

6, janeiro, 2011 4 comentários

“Recordar é viver”, diz o ditado e quando recordo de algo recorro à rede para conferir a quantas anda esse algo, principalmente quando lembro de algumas bandas que curtia na minha adolescência. Corro pra rede pra saber se elas ainda existem, o que estão fazendo, se tem MP3 pra baixar e “relembrar” os tempos idos.

Dia desses me lembrei de uma banda dos tempos do thrash metal dos anos 80 chamada Dorsal Atlântica (nome curioso, não?). Procurei na rede por MP3, discografia ou algo parecido (já que não tenho nada dela no momento), achei praticamente toda a discografia, inclusive os dois álbuns que mais gosto: Antes Do Fim (1986) e Dividir E Conquistar (1988). Momento lembrança, foi bom poder recordar alguns riffs de guitarra, alguns trechos de letras e comecei a me questionar: por que Dorsal Atlântica não era uma banda como todas as outras?

Dorsal Atlântica - Guga, Carlos e Cláudio Lopes. Foto: Divulgação. Sobre a banda, um trio inicialmente formado por Carlos “Vândalo” Lopes (vocal e guitarra), Cláudio “Cromagno” Lopes (baixo) e Hardcore (bateria), lançou o primeiro disco solo em 1986, o Antes Do Fim, as letras eram em português (este é um dos detalhes) e o som era, apesar da péssima gravação, algo muito bem elaborado. Vocal e instrumental casavam muito bem (mais um detalhe). Além disso, a banda tinha um respeito muito grande dos fãs, nunca escutei ninguém falar mal dela, com exceção da qualidade de gravação dos discos. Costumavam se referir a Dorsal Atlântica com muito respeito. Certa vez, em 1992, assisti a um show da banda (o único), no Move’s Bar, em Santo André/SP. Esse é outro caso a parte, era um espaço minúsculo para shows situado no andar de cima de uma padaria no centro da cidade. Achei interessante a postura do Carlos “Vândalo” e a forma como ele se dirigia ao público, uma postura séria e de muito respeito. Max Cavalera (nos tempos do Schizophrenia) também era assim. E o público retribuía da mesma forma. Dorsal Atlântica não era uma banda como todas as outras.

Nunca fui atrás pra saber mais sobre a banda, gostava daqueles dois discos, em especial duas faixas: Guerrilha (do Antes Do Fim) e Vitória (do Dividir e Conquistar). Mas agora, depois de ouvir novamente o som, depois de tanto tempo, achei o trabalho dela genial, algo inédito no metal brasileiro (nunca existiu outra igual). Ouça a faixa Violência É Real, do Dividir…, ela conta toda uma história, com começo, meio e fim. Você não encontra um trecho como esse em lugar algum: “Nascemos com a missão de fazer um sonho viver, mesmo com pessoas e pedras fechando nosso caminho. Faz-se necessário que não tenhamos nenhuma paz. Porque alma descansada não briga jamais” (faixa Vitória). E algo assim, para poder ser absorvido pelo público brasileiro, só estando em português. Mostrei o trecho a minha esposa, ela gostou tanto que o escreveu como dedicatória em um livro que iria dar de presente a um colega de trabalho. Comecei a me perguntar, por que a banda acabou (e isso foi em 2005)? O que deu errado?

Dei uma busca na rede para saber um pouco mais sobre a história da banda e o que ela havia feito enquanto eu estive ausente. Achei informações na Wikipédia, no Youtube e em diversos sites como este em que tem até um relato do próprio Carlos Lopes. Dorsal Atlântica foi uma banda incomum, mas com o mesmo destino de tantas outras. O caminho foi duro nesses quase 20 anos de existência. Dorsal Atlântica foi uma banda profissional com infra-estrutura amadora, apesar de ter mais de 10 trabalhos gravados. Soma-se também o fato de ter começado (tardiamente) a cantar em inglês. A proposta era ótima, mas, na minha opinião,  faltou uma maior reflexão sobre o que se havia construído até o Dividir E Conquistar. O fato é que a banda perdeu o bonde, que culminou no próprio fim e, pelo visto, é fato consumado.

Se morreu, que haja, ao menos, um obituário decente

Internet é, antes de tudo, um repositório de informações e, na minha opinião, isso é o mais importante, ela é um grande baú no qual pode-se achar de tudo. Apesar dessa rica possibilidade, não consegui encontrar informações precisas e concentradas sobre Dorsal Atlântica (bem como sobre seu fim). Encontrei algumas, mas informações desencontradas. Depois de um tempo, acabei achando um vídeo de uma entrevista recente com o Carlos Lopes, já mais velho, e pude então saber mais detalhes do que anda fazendo atualmente. Carlos tem uma banda chamada Mustang, que surgiu um pouco “antes do fim” do Dorsal, um rock n’ roll mais light, com algumas canções em português, nada a ver com a antiga banda, parece que Carlos resolveu esquecer o passado. “Um dia você acorda e decide que não rola mais”, disse nesta entrevista.

Achei o ex-Dorsal um tanto simpático, descolado, disse ele que é jornalista, gosta de literatura, comanda um programa de metal numa rádio on line, além da atual banda, enfim, vai vivendo depois de ter “quebrado a dorsal”. Recolhi os endereços virtuais que o mesmo citou: uma revista on line chamada O Martelo, a rádio Venenosa FM (na qual disse ter um programa de Metal) e o site da Banda Mustang. Fui conferir cada um deles e então pude. de fato, entender porque Dorsal Atlântica acabou e porque Carlos Lopes é e será um eterno underground, apesar do conteúdo profissional. Ninguém vive apenas de boas ideias e intenções, know how é fundamental no mundo dos negócios e ter uma banda profissional é estar no mundo dos negócios. Uma banda como Dorsal Atlântica, com a repercussão que teve, com a proposta que apresentou e com o que pôde mostrar durante sua existência, não merecia ter encerrado as atividades. Porém, a gerência da banda, por força das circustâncias, ficou muito na mão do próprio Carlos, e se você visitar os sites descritos acima, vai entender parcialmente porque Dorsal Atlântica acabou.

A internet hoje é um veículo de propaganda extremamente barato, é interativo e permite uma série de possibilidades que são bem pouco exploradas, principalmente por bandas mais antigas. Aliás, os músicos, de um modo geral, são os que menos sabem interagir na rede. Triste, porém, verdade e não é só no Metal, a inexperiência é percebida em todos os estilos e oriundos de diversos países. Eu me decepciono sempre que me aventuro nesta busca. Sites horríveis, navegação ruim, falta de coesão visual, arquitetura de informação deficiente, bem como o próprio conteúdo e, sobretudo, pouco aproveitamento das apps de mídia social. Na revista de Carlos Lopes, O Martelo, isso fica evidente.

No ambiente virtual não existe mídia alternativa, o paradigma se rompe quando uma plataforma oferece possibilidades multimídia e de interação. Não há mais a necessidade de fanzines, como existiam na mídia impressa. Acredito que, sabendo utilizá-las, não há porque uma banda encerrar as atividades, mesmo que as tenha encerrado. Mas, conteúdo e suporte são coisas que necessitam andar juntas e em sintonia. Stanislavski diz que “a arte está do detalhe”, mas se todos os detalhes estiverem fragmentados, então não haverá um conjunto. Não havendo um conjunto, a informação não será comunicada em totalidade. E o objetivo da arte não é comunicar?

Se a comunicação se dá a partir do conjunto da obra e internet é o suporte que sustenta o conteúdo, então ambos devem complementar-se. Deve haver coesão. O conteúdo é o principal, mas é o suporte visual que o conduz. É necessário ter equilíbrio para que o produto final seja adequado e legível ao visitante do site.

Em suma, é bem mais fácil ser profissional na rede, sendo independente ou não, muito embora o mercado queira criar meios de limitar esta independência. Apesar das tendências, a rede ainda é democrática, é cada vez mais orgânica, tem espaço para todos e não há necessidade de competição. Dorsal Atlântica, com o nome e o reconhecimento que tem por parte dos fãs, poderia ser independente, desde que soubesse utilizar melhor os recursos da rede e depender, cada vez menos, do mercado, que, de fato, é bastante tendencioso e injusto. Quem sabe Carlos Lopes, um dia, mude de ideia e resolva reconstituir Dorsal Atlântica, ainda que seja “depois do fim”.