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Arquivo de novembro, 2011

Vai um CMS aí?

24, novembro, 2011 Sem comentários

Dias desses, recebi a solicitação de um cliente: “Gostaria de mudar o sistema do nosso site. […] Recentemente, fiquei sabendo de um programa que permite que a atualizações sejam feitas de forma simples e descomplicada”. Sem pensar muito, respondi: “[…] se permite uma observação, ‘simples e descomplicada’ só a propaganda”.

Não sei o que ele achou da resposta, vou me reunir com ele ainda, só então saberei o que ele achou da minha observação, ou se vou levar um cartão vermelho. De todo modo, isso trouxe à tona uma inquietação que me incomoda há algum tempo: até que ponto um CMS torna as vidas de cliente e prestador de serviço mais fácil?

A questão é delicada e envolve algumas variáveis. A adoção de um CMS traz, de fato, praticidade, as atualizações podem ser feitas por qualquer pessoa, desde que seja devidamente capacitada, o conteúdo é ajustável ao layout. Ou seja, o resultado é bastante promissor, mas, na minha modesta opinião (infelizmente), utilização nunca é simples e descomplicada.

CMS’s, (Content Management Systems ou sistemas de gerenciamento de conteúdo) atualmente, são uma tendência e um estímulo para que o site fique mais “dinâmico” e esse estímulo faz com que os mesmos tenham, cada vez mais, recursos e isso torna os sistemas, de um modo geral, mais difíceis de se utilizar. E isso é válido para o cliente? Vai depender do quanto o cliente quiser investir em tempo para se dedicar à produção de conteúdo para o site.

A adoção de um CMS gera um custo maior tanto no desenvolvimento do site quanto no treinamento para uso do mesmo. Se o cliente tende a produzir conteúdo com certa periodicidade, o CMS pode se revelar uma solução definitiva, até porque os mesmos dispõem de inúmeros recursos adicionais (plugins) que permitem ao site ser cada vez mais funcional. Além disso, site atualizado constantemente gera índice de visitação bem maior.

Entretanto, essa solução não é para qualquer site, não porque os outros sejam tão pobrezinhos a ponto de não merecer a dádiva. É uma questão de projeto. Há sites que são projetados para ter um conteúdo mais dinâmico e que necessitam de um CMS. Entretanto, há outros em que a solução simplesmente não cabe, eu costumo chamar esses de sites referenciais. São aqueles que necessitam existir e figurar em buscadores, servem para divulgar o cliente, servem como forma de contato, ou seja, uma referência na rede, mas não vão além disso. Quando o cliente tem ciência desse “destino”, fica feliz com o resultado. Isso não significa que o site deva ser simplório, medíocre.

De outra forma, às vezes a temática sob a qual o site é desenvolvido pede que seja adotada uma solução que permita atualizações de forma mais rápida, que não se tenha que intervir diretamente no código html o tempo todo, que não haja necessidade de subir arquivos para o servidor remoto o tempo todo, enfim, uma solução para cada caso.

Ter essa noção de limites é fundamental ao contratar o prestador de serviço. Às vezes o mesmo, com o objetivo de querer oferecer o melhor, pode sugerir uma solução equivocada ao cliente e este, por sua vez, além de pagar mais, não vai se utilizar de todo o potencial que um CMS pode dar. Do contrário, constantes solicitações ao prestador de serviços acerca de alterações pode gerar atrito, desgaste de relação e até o rompimento da relação. Aprendi isso por experiência própria.

Mas e a “forma simples e descomplicada”? É uma afirmação verdadeira, se comparada à interferência direta no código html. Entretanto, a forma simples corresponde ao arroz-com-feijão, tentar incrementar o prato significa uma boa dose de dor-de-cabeça para o desenvolvedor, porque a forma simples leva o cliente a, naturalmente, esperar mais da aplicação e a limitação pode frustrar o mesmo.

O que fazer? Acredito que a solução esteja no planejamento. Gastar tempo planejando favorecerá muito o resultado, pois os detalhes serão pensados e calculados. Uma outra dica é informar o cliente sobre o que a aplicação faz e não faz, lembrá-lo que o layout do site foi criado para determinado objetivo e que, portanto, a aplicação será adaptada para o mesmo. Fugir do planejado implicará em retrabalho e custos extras. Reflita: Essa mudança é realmente necessária?

Enfim, adotar (ou não) um CMS é uma decisão que deve levar em conta vários aspectos, mas a principal delas é perguntar ao cliente: você realmente vai precisar disso? O resultado pode ser um tremendo ganho de qualidade, ou uma tremenda enrascada. Pesquise sem moderação antes de decidir.

Marketing viral, a gente vê por aqui

17, novembro, 2011 120 comentários

“Um mundo melhor, mais consciente e solidário”. De fato é a “Gota D’Água”!

Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação Marketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.

Me refiro a este “Movimento Gota D’Água“, uma “entidade” que, da noite para o dia, aflorou na rede  e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.

De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma “mobilização nacional” em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve “vestir a camisa” e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito “de repente” para o meu gosto.

Ao acessar o site do Movimento, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a “missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma” e que o movimento “surgiu da necessidade de transformar indignação em ação” e com o objetivo de “usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais”, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito “de repente”.

Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste “projeto”, diz que o mesmo “apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum” e ainda “é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas”, que o “braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: ‘Movimento Xingu Vivo Para Sempre‘ e o ‘Movimento Humanos Direitos‘”. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: “direitos humanos são para os humanos direitos”.

Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG’s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos ou mesmo a Avaaz.

Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que o domínio do movimento Gota D’Água é do ator Sérgio Passarela Marone, criado em 09/2011. Já o do Xingu Vivo foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. O  do Humanos direitos pertence ao Instituto Humanitare e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.

Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em “protestos” desse tipo.

E tudo o que o Movimento Gota D’Água pede é “a sua assinatura”, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de “coletivos”) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de não-se-sabe-quem-ou-o-quê.

Sobre o vídeo, um “coletivo” de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo novela-das-oito. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como “Quem vai pagar?! Você vai pagar!”. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…

Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: o Xô CPMF! Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de manipulação, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.

Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca “na história desse país” vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.

De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. Vox populi vox Deo, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes “globais” que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via Facebook e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua “credibilidade”, amém.

Espaço do leitor:

Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):