Arquivo do Autor: Marcelo Muraro

Sobre Marcelo Muraro

designer, desenvolvedor e professor.

Marketing viral, a gente vê por aqui

“Um mundo melhor, mais consciente e solidário”. De fato é a “Gota D’Água”!

Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação Logo do movimento Gota D'Água. Imagem: divulgaçãoMarketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.

Me refiro a este “Movimento Gota D’Água“, uma “entidade” que, da noite para o dia, aflorou na rede  e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.

De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma “mobilização nacional” em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve “vestir a camisa” e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito “de repente” para o meu gosto.

Ao acessar o site do Movimento, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a “missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma” e que o movimento “surgiu da necessidade de transformar indignação em ação” e com o objetivo de “usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais”, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito “de repente”.

Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste “projeto”, diz que o mesmo “apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum” e ainda “é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas”, que o “braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: ‘Movimento Xingu Vivo Para Sempre‘ e o ‘Movimento Humanos Direitos‘”. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: “direitos humanos são para os humanos direitos”.

Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG’s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos ou mesmo a Avaaz.

Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que o domínio do movimento Gota D’Água é do ator Sérgio Passarela Marone, criado em 09/2011. Já o do Xingu Vivo foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. O  do Humanos direitos pertence ao Instituto Humanitare e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.

Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em “protestos” desse tipo.

E tudo o que o Movimento Gota D’Água pede é “a sua assinatura”, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de “coletivos”) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de não-se-sabe-quem-ou-o-quê.

Sobre o vídeo, um “coletivo” de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo novela-das-oito. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como “Quem vai pagar?! Você vai pagar!”. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…

Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: o Xô CPMF! Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de manipulação, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.

Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca “na história desse país” vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.

De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. Vox populi vox Deo, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes “globais” que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via Facebook e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua “credibilidade”, amém.

Espaço do leitor:

Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):

Jobs se foi. E agora?

Ontem (05/10/2011), ao saber da morte de Steve Jobs (fundador da Apple), pelo meu pai durante uma conversa via Skype, não consegui pensar em outra coisa, o que vai ser da Apple agora? Imagino que a mesma inquietação esteja na cabeça de muita gente, inclusive dos investidores.

Home page da Apple em 05/10/2011 Home page do site oficial da Apple desde a morte de Steve Jobs.

Em matéria de Apple, sou um leigo quase completo. Conhecia a marca sempre de ouvir falar, desde os anos 80. Sabia da existência dela e que vendia computadores diferenciados, bem mais caros por sinal e só. Por volta de 2002, tive de dar umas aulas particulares de Corel Draw para uma cliente minha e ela tinha um Mac, era um G3, aqueles tipo “bolinha”, lindo. Mas, minha dificuldade em operar aquele computador era grande, um desconforto que me fazia perguntar: por que as pessoas gostam disso?

Somente por volta de 2006/2007 que, lendo os boletins do Clube do Hardware, tomei ciência de quem era o “dono” da Apple, Steve Jobs. Nem o nome dele eu sabia. O que me atraía eram as notícias sobre a Apple, sempre polêmicas, ousadas. Aos poucos, fui me inteirando mais sobre o mundo da “maçã”. Dentre as notícias que chamavam minha atenção, a de que a empresa teria rompido com a IBM e passaria a adotar processadores da Intel e que, então, os macs poderiam ser multi-plataforma. Rodar, além do MacOSX, Windows, Linux ou até mesmo os três me interessou bastante. Até o afastamento dele da empresa, quando fez uma cirurgia para o tratamento do câncer no pâncreas. Já naquela época pensei: Se um cara desse morre, como ficaria a empresa?

Ainda em 2007, passei a lecionar em uma instituição de ensino que possuía laboratórios de computadores com Mac’s, me lembrei da minha antiga cliente. Comecei a usá-los mais cotidianamente, Mac’s mini e G3, sentia sempre o desconforto com a interface, mas me virava bem com eles. Na mesma época, estava pesquisando qual seria uma boa configuração de um notebook para mim. Considerei várias possibilidades, nunca um Mac. Conheci o Venâncio, em 2008, um fanboy da Apple e, dentre outros motivos (Apple estava em franca expansão naquela época), não só passei a considerar a possibilidade de ter um Mac como adquiri um MacBook e o tenho até hoje como equipamento principal.

Engraçado que, quando você tem um PC, por mais entusiasta que seja, é como votar no PSDB, ninguém te chama de “tucano” por isso e nem de “fanboy”. Mas, se você tiver preferência pelo PT, por exemplo, então você é um “PTista” com tudo de pejorativo a que o título tem direito. E se você tiver um Mac, então você é um fanboy, com tudo (de bom e de ruim) que o título tem direito, mesmo que você não seja um, como é o meu caso.

O fato é que me acostumei à interface do Mac e, mesmo ainda sentido algum desconforto, não me imagino voltando a usar Windows e isso me prende à Apple, porque não posso rodar o MacOSX em um PC (o resultado é horrível em termos de performance) e sou obrigado a usar o hardware da Apple, muito mais caro e que, eventualmente, apresenta problemas assim como os PC’s e o atendimento pós-venda da Apple é igualmente ruim. O fato de não ser um fanboy atrapalha bem pois me impede de enxergar um lindo “mundo-branco” ou de “alumínio-escovado”.

De todo modo, já sendo um Mac user, em 2009, ganhei o livro A Cabeça de Steve Jobs, num concurso promovido pela editora Arteccom e, aí sim, pude conhecer mais sobre o universo da Apple, a vida de Jobs e tudo o que isso significa para a sociedade atual. Apesar do livro ser celebrativo demais para meu gosto, ele mostra que Jobs, além de genial, era genioso, um sujeito arrogante, mal-educado, egoísta, ditador, controlador. Esse é o cara. Mas o que é o mundo dos negócios senão uma selva cheia dos piores monstros? Com a Apple não seria diferente, Jobs apenas defendeu seus interesses, a partir da maneira como entende e encara o mundo. O resultado tem dado certo, mas até quando?

Toda minha inquietação me faz pensar se a Apple merece toda essa algazarra promovida no mundo, toda essa mídia gratuita. Os produtos dela são realmente tudo isso ou tem excitação a mais história? Jobs foi, de fato, um visionário e teve condições de colocar suas idéias em prática e promover os resultados (tanto em equipamentos quanto em serviços e softwares). Foi responsável por uma série de inovações no mundo dos computadores. Sem a Apple, tudo seria mais lento nesse mercado, Apple fazia os concorrentes correrem atrás dela. Mas, o Mac enquanto produto vale todo esse “status”? O iPhone é realmente um aparelho diferenciado dos demais? E o iPad?

Na verdade, a Apple demora demais, às vezes, para anunciar uma novidade ao mundo. Mas, quando o faz, aquilo se torna um padrão (conhece o Magic Mouse? E o USB? E a iTunes Store?). A importância da Apple está mais para uma espécie de conceito do que a de, necessariamente, um produto de qualidade. Sim, porque a Apple, devido ao tamanho e ao alcance, já não controla satisfatoriamente o relacionamento com o cliente. Sou testemunha disso.

Em um comparativo com a Intel, por exemplo, sobre a qual li um belíssimo texto de Tom Wolfe acerca do fundador dela (e co-inventor do microchip), Bob Noyce, Jobs pode ser tranqüilamente comparado com ele em termos de importância, cada um na sua época, bem como todos os outros “gênios” que surgiram e que seguem apresentando inovações no mundo dos computadores.

Mas a Apple merece toda essa mídia gratuita? Minha resposta: Não. Ela trabalha para isso, é tudo estratégia de marketing (está dito no livro que li), só a inovação não é suficiente, é necessário manter os fanboys excitados ao redor do mundo todo o tempo. E, como resultado, eis a maior festa mundial quando a empresa lança novos produtos. Passei a chamar esses eventos de AppleFoolsDay. Não compartilho desse “espírito”, não acho que seja tudo isso (e o lançamento deste último iPhone exemplifica bem o fato) e tenho ressalvas acerca da forma “vertical” com que a Apple trabalha. Exploração predatória do mercado. Isso um dia acaba.

Daí refaço a pergunta do título deste texto: E agora? Jobs está para a Apple assim como Silvio Santos está para o SBT (Alguém coseguiu substituir o Lombardi?), assim como Lula está para o PT, assim como Edir Macedo está para a Igreja Universal, assim como Renato Russo está para a Legião Urbana (e ainda está), assim como Salvador Arena estava para a Termomecânica (conhece esse cara? Deveria). É impossível pensar a criatura sem o criador. No caso da Apple, isso fica mais evidente, a empresa quase faliu nos tempos em que ficou sem seu criador. Um sujeito que “metia o bedelho” em praticamente tudo, fazia questão da beleza, do design, da textura (tanto física como visual), ajudava a definir até a tipografia e o material usado na embalagem, pensava em como seus produtos poderiam proporcionar uma “melhor experiência” ao usuário (princípio básico da usabilidade, apesar do desconforto que sinto até hoje). Ao meu ver, essa é a essência da Apple. Coisa que só o dono é capaz de fazer e, infelizmente, o dono morreu.

Pensando por esse viés, o futuro da Apple é incerto. Certamente continuará a ser uma empresa bem sucedida, assim como a Microsoft, a Dell, a Intel, a Sony, a HP e tantas outras. Mas, jamais a Apple será a Apple, que agora entrará para a história. Os investidores também sabem disso.

Agora resta esperar para ver como será a nova fase da Apple. As bases da empresa estão intrinsecamente calcadas nos preceitos de Jobs. Como Luli Radfahrer disse numa palestra, “Apple tem mentalidade de empresa dos anos 70”. Tem mesmo! Você consegue imaginar o que significa mudar uma filosofia de décadas? Nem eu. E continuo a me perguntar: e agora?

O “Mustang” e “O Martelo” de Carlos Lopes ou depois de quebrar a “Dorsal”

“Recordar é viver”, diz o ditado e quando recordo de algo recorro à rede para conferir a quantas anda esse algo, principalmente quando lembro de algumas bandas que curtia na minha adolescência. Corro pra rede pra saber se elas ainda existem, o que estão fazendo, se tem MP3 pra baixar e “relembrar” os tempos idos.

Dia desses me lembrei de uma banda dos tempos do thrash metal dos anos 80 chamada Dorsal Atlântica (nome curioso, não?). Procurei na rede por MP3, discografia ou algo parecido (já que não tenho nada dela no momento), achei praticamente toda a discografia, inclusive os dois álbuns que mais gosto: Antes Do Fim (1986) e Dividir E Conquistar (1988). Momento lembrança, foi bom poder recordar alguns riffs de guitarra, alguns trechos de letras e comecei a me questionar: por que Dorsal Atlântica não era uma banda como todas as outras?

Dorsal Atlântica - Guga, Carlos e Cláudio Lopes. Foto: Divulgação. Dorsal Altântica com o terceiro baterista, Guga, ao lado de Carlos Lopes e, atrás, Cláudio Lopes. Foto: DivulgaçãoSobre a banda, um trio inicialmente formado por Carlos “Vândalo” Lopes (vocal e guitarra), Cláudio “Cromagno” Lopes (baixo) e Hardcore (bateria), lançou o primeiro disco solo em 1986, o Antes Do Fim, as letras eram em português (este é um dos detalhes) e o som era, apesar da péssima gravação, algo muito bem elaborado. Vocal e instrumental casavam muito bem (mais um detalhe). Além disso, a banda tinha um respeito muito grande dos fãs, nunca escutei ninguém falar mal dela, com exceção da qualidade de gravação dos discos. Costumavam se referir a Dorsal Atlântica com muito respeito. Certa vez, em 1992, assisti a um show da banda (o único), no Move’s Bar, em Santo André/SP. Esse é outro caso a parte, era um espaço minúsculo para shows situado no andar de cima de uma padaria no centro da cidade. Achei interessante a postura do Carlos “Vândalo” e a forma como ele se dirigia ao público, uma postura séria e de muito respeito. Max Cavalera (nos tempos do Schizophrenia) também era assim. E o público retribuía da mesma forma. Dorsal Atlântica não era uma banda como todas as outras.

Nunca fui atrás pra saber mais sobre a banda, gostava daqueles dois discos, em especial duas faixas: Guerrilha (do Antes Do Fim) e Vitória (do Dividir e Conquistar). Mas agora, depois de ouvir novamente o som, depois de tanto tempo, achei o trabalho dela genial, algo inédito no metal brasileiro (nunca existiu outra igual). Ouça a faixa Violência É Real, do Dividir…, ela conta toda uma história, com começo, meio e fim. Você não encontra um trecho como esse em lugar algum: “Nascemos com a missão de fazer um sonho viver, mesmo com pessoas e pedras fechando nosso caminho. Faz-se necessário que não tenhamos nenhuma paz. Porque alma descansada não briga jamais” (faixa Vitória). E algo assim, para poder ser absorvido pelo público brasileiro, só estando em português. Mostrei o trecho a minha esposa, ela gostou tanto que o escreveu como dedicatória em um livro que iria dar de presente a um colega de trabalho. Comecei a me perguntar, por que a banda acabou (e isso foi em 2005)? O que deu errado?

Dei uma busca na rede para saber um pouco mais sobre a história da banda e o que ela havia feito enquanto eu estive ausente. Achei informações na Wikipédia, no Youtube e em diversos sites como este em que tem até um relato do próprio Carlos Lopes. Dorsal Atlântica foi uma banda incomum, mas com o mesmo destino de tantas outras. O caminho foi duro nesses quase 20 anos de existência. Dorsal Atlântica foi uma banda profissional com infra-estrutura amadora, apesar de ter mais de 10 trabalhos gravados. Soma-se também o fato de ter começado (tardiamente) a cantar em inglês. A proposta era ótima, mas, na minha opinião,  faltou uma maior reflexão sobre o que se havia construído até o Dividir E Conquistar. O fato é que a banda perdeu o bonde, que culminou no próprio fim e, pelo visto, é fato consumado.

Se morreu, que haja, ao menos, um obituário decente

Internet é, antes de tudo, um repositório de informações e, na minha opinião, isso é o mais importante, ela é um grande baú no qual pode-se achar de tudo. Apesar dessa rica possibilidade, não consegui encontrar informações precisas e concentradas sobre Dorsal Atlântica (bem como sobre seu fim). Encontrei algumas, mas informações desencontradas. Depois de um tempo, acabei achando um vídeo de uma entrevista recente com o Carlos Lopes, já mais velho, e pude então saber mais detalhes do que anda fazendo atualmente. Carlos tem uma banda chamada Mustang, que surgiu um pouco “antes do fim” do Dorsal, um rock n’ roll mais light, com algumas canções em português, nada a ver com a antiga banda, parece que Carlos resolveu esquecer o passado. “Um dia você acorda e decide que não rola mais”, disse nesta entrevista.

Achei o ex-Dorsal um tanto simpático, descolado, disse ele que é jornalista, gosta de literatura, comanda um programa de metal numa rádio on line, além da atual banda, enfim, vai vivendo depois de ter “quebrado a dorsal”. Recolhi os endereços virtuais que o mesmo citou: uma revista on line chamada O Martelo, a rádio Venenosa FM (na qual disse ter um programa de Metal) e o site da Banda Mustang. Fui conferir cada um deles e então pude. de fato, entender porque Dorsal Atlântica acabou e porque Carlos Lopes é e será um eterno underground, apesar do conteúdo profissional. Ninguém vive apenas de boas ideias e intenções, know how é fundamental no mundo dos negócios e ter uma banda profissional é estar no mundo dos negócios. Uma banda como Dorsal Atlântica, com a repercussão que teve, com a proposta que apresentou e com o que pôde mostrar durante sua existência, não merecia ter encerrado as atividades. Porém, a gerência da banda, por força das circustâncias, ficou muito na mão do próprio Carlos, e se você visitar os sites descritos acima, vai entender parcialmente porque Dorsal Atlântica acabou.

A internet hoje é um veículo de propaganda extremamente barato, é interativo e permite uma série de possibilidades que são bem pouco exploradas, principalmente por bandas mais antigas. Aliás, os músicos, de um modo geral, são os que menos sabem interagir na rede. Triste, porém, verdade e não é só no Metal, a inexperiência é percebida em todos os estilos e oriundos de diversos países. Eu me decepciono sempre que me aventuro nesta busca. Sites horríveis, navegação ruim, falta de coesão visual, arquitetura de informação deficiente, bem como o próprio conteúdo e, sobretudo, pouco aproveitamento das apps de mídia social. Na revista de Carlos Lopes, O Martelo, isso fica evidente.

No ambiente virtual não existe mídia alternativa, o paradigma se rompe quando uma plataforma oferece possibilidades multimídia e de interação. Não há mais a necessidade de fanzines, como existiam na mídia impressa. Acredito que, sabendo utilizá-las, não há porque uma banda encerrar as atividades, mesmo que as tenha encerrado. Mas, conteúdo e suporte são coisas que necessitam andar juntas e em sintonia. Stanislavski diz que “a arte está do detalhe”, mas se todos os detalhes estiverem fragmentados, então não haverá um conjunto. Não havendo um conjunto, a informação não será comunicada em totalidade. E o objetivo da arte não é comunicar?

Se a comunicação se dá a partir do conjunto da obra e internet é o suporte que sustenta o conteúdo, então ambos devem complementar-se. Deve haver coesão. O conteúdo é o principal, mas é o suporte visual que o conduz. É necessário ter equilíbrio para que o produto final seja adequado e legível ao visitante do site.

Em suma, é bem mais fácil ser profissional na rede, sendo independente ou não, muito embora o mercado queira criar meios de limitar esta independência. Apesar das tendências, a rede ainda é democrática, é cada vez mais orgânica, tem espaço para todos e não há necessidade de competição. Dorsal Atlântica, com o nome e o reconhecimento que tem por parte dos fãs, poderia ser independente, desde que soubesse utilizar melhor os recursos da rede e depender, cada vez menos, do mercado, que, de fato, é bastante tendencioso e injusto. Quem sabe Carlos Lopes, um dia, mude de ideia e resolva reconstituir Dorsal Atlântica, ainda que seja “depois do fim”.

Réquiem Lenitivo: contrabaixo, macinstosh, suicídio e temas afins

Conheci Venâncio na van que leva os professores de Campinas/SP para Salto/SP, na Instituição de Ensino Superior de lá, ele era recém contratado enquanto eu já estava entrando no segundo semestre na casa. Demorou alguns dias até trocarmos alguma ideia, soube que iria lecionar para cursos de Cinema e Radio e TV, em disciplinas ligadas a música. Tivemos um longo papo quando, certa noite, um outro colega de trabalho estava de carro e nos ofereceu uma carona de volta pra casa, havia também uma outra professora de teatro. Fora eu, todos eles eram estreantes naquela instituição. Nessa viagem pude conhecê-lo melhor. Me disse que era contrabaixista, tocou na Orquestra Sinfônica de Campinas, era mestre e doutorando pela Unicamp, na qual havia se graduado em música. Era professor na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo/SP e estava contente por ter encontrado outro empregador, disse que a grana estava curta. Fazia uns freelas, criava trilhas sonoras para teatro e cinema, dava aulas particulares de música etc. Chegando em Campinas, ofereci carona até a casa dele, que era caminho pra minha. Foi um papo agradável, gostei de tê-lo conhecido, mas o adverti de que aquela instituição tinha vários e vários problemas, apesar de dar transporte de ida e volta e pagar o salário direitinho.

Quando soube que eu, apesar de ter parado, já havia estudado contrabaixo acústico, há alguns anos, e tinha tido aulas com um ex-colega de orquestra dele, Venâncio prometeu me dar alguns métodos de contrabaixo que tinha em casa e não usava mais. Achei legal a ideia, quem sabe eu poderia, um dia, retomar os estudos. Foi também um dos responsáveis por eu ter aderido à plataforma Mac e ter, inclusive, adquirido um Macbook. Ela era aficcionado pela Apple e já trabalhava com Mac há uma década. Nos laboratórios do prédio onde lecionávamos havia somente macintoshes, o que ajudou na minha tomada de decisão. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos, às vezes, no trajeto de ida e volta para o trabalho (com cerca de 40 minutos cada), eu sempre aprendia algo com ele (acho que é, ou pelo menos deveria ser, a função de todo ser humano nesta vida: aprender e evoluir).

Além do lado profissional, Venâncio era um bom conhecedor de vinhos, queijos e boa gastronomia. Ficou conhecido, na van, como um sujeito “sofisticado”, indicava marcas de azeites, queijos, vinhos e outros. E quando a conversa era no caminho de volta, servia de estímulo para que todos chegassem em casa com mais fome. Foram divertidas essas viagens, algumas das boas recordações que guardo desse período. Em uma delas, havia chovido e levei meu guarda-chuva (famoso entre os ex-colegas pela idade, hoje está com 21 anos). Por conta de um assunto que conversávamos, peguei o guarda-chuva e fingi carregar uma espingarda calibre 12 e disse: “tá vendo? Estou preparado, e é cano serrado”. Venâncio respondeu: “mas é pior ser cano serrado, o tiro sai com menos pressão”. Perguntei como ele sabia disso e ele respondeu: “porque eu tenho uma em casa”.

Certo dia, convidei Venâncio com sua esposa e enteado para almoçar em casa, havia preparado sushi e sashimi (hobby que pratico até hoje). Neste dia, fiquei conhecendo a família dele e os nossos respectivos filhos brincaram extremamente bem. Ele me trouxe alguns aplicativos para Mac e me deu alguns toques e dicas de como utilizá-lo. Já era fim de tarde quando sugeri tomarmos um vinho e ele disse: “Puxa, fica pra um outro dia, estou com mais de 60 provas pra corrigir das aulas em Itu, tenho que estar sóbrio pra encarar a ‘tarefa'”. Ele tinha razão, haja vista o sufoco que passou durante o semestre em que lecionou por lá. Tanto é que abriu mão das aulas, permancendo exclusivamente no campus de Salto. O vinho acabou, de fato, ficando para uma “próxima”, mas ficamos de combinar um outro encontro gastronômico, que não também não aconteceu.

Durante o segundo semestre do ano letivo, tivemos um período turbulento com bastante trabalho, atribulações e muito pouca motivação. O ambiente acadêmico estava bem ruim e Venâncio vinha faltando bastanteao trabalho, disse que andava passando mal devido a problemas na vesícula, estava indo ao médico e o humor dele já não era o mesmo, igual a mim, embora eu não tivesse nada envolvendo a saúde. A esposa dele enfrentava alguns problemas com o filho mais velho dela, que vivia com o pai, o que a fez passar uns tempos com o mesmo na cidade onde o garoto morava. Por conta disso, passei a dar carona a Venâncio mais vezes até sua casa, mas o contato entre nós havia reduzido aos assuntos cotidianos envolvendo o trabalho. E assim foi até o final do ano. Me lembro de ter ficado um tanto chateado com Venâncio, pois fui demitido da instituição no fim do ano  junto com cerca de 50 professores, sendo alguns destes no mesmo bloco em que lecionávamos e ele sequer foi capaz de dar um telefonema ou mandar um e-mail, enfim. Respeitei a decisão dele e nunca mais o vi.

Dois anos se passaram, mudei de cidade, de Estado e apesar de ainda manter contato com outros demitidos da referida instituição, a pessoa de Venâncio quase nunca era lembrada durante os papos. Porém, dia desses encontrei com um amigo em comum em Belo Horizonte/MG. Na verdade, mais amigo do Venâncio do que meu, ele foi nomeado professor em uma instituição pública de ensino superior em BH. Fazia muito tempo que não nos víamos. Este professor, aliás, também havia lecionado naquela instituição apenas por um semestre, um tempo antes de mim. Não aguentou e pediu demissão. Foi ele, na época, que indicou o emprego ao Venâncio.

Dentre os tantos assuntos que conversamos, o amigo disse: “pois é, vocês comentaram do Venâncio naquela época, que ele estava distante…”. De pronto comentei que tinha ficado chateado e tal e ele disse, “então, até comigo ele estava estranho também. Um dia fui até a casa dele, um pouco antes de se mudar, pra saber o porque do sumiço e ele disse com um olhar meio opaco: ‘não posso te atender agora porque estou jogando'” (ele jogava World of Warcraft e muito, por sinal). Ele disse que Venâncio se separou da esposa e se mudou para a cidade aonde os pais dele moravam, alugou uma casa e vivia sozinho, não recebia praticamente ninguém e, apesar de fazer tratamento contra depressão, não estava seguindo a medicação prescrita e passou o último ano praticamente de licença médica. Excluiu o perfil no Orkut e criou um outro fake, no qual postava, segundo meu amigo, umas coisas esquisitas, suicidas. Ele tentou se comunicar com Venâncio por esta via, mas o mesmo não respondeu. Não sei como era a relação dele com os pais e/ou familiares, mas pude perceber que os mesmos respeitaram o isolamento.

O fato é que, segundo o nosso amigo, Venâncio, em dezembro de 2009, um dia depois do aniversário, bebeu um vinho (certamente de boa qualidade), colocou um réquiem pra tocar, bem alto, carregou a espingarda calibre 12 de cano serrado e disparou um tiro contra o próprio rosto (me lembrei do final do filme Tropa de Elite). O incidente só foi percebido uma ou duas semanas depois pelos vizinhos, por conta do mau cheiro que vinha da residência. O amigo lembrou bem: “imagine a mãe dele, como deve ter ficado?”. A notícia abalou a todos, queriam descobrir a causa, algum culpado, mas quem pode julgar? Fico pensando se a permanência naquela instituição decrépita não contribuiu para a decisão de Venâncio, eu mesmo pensei em coisas um tanto macabras enquanto estive por lá. A vida do professor em instituições privadas atualmente está bastante complicada, salários cada vez menores, desrespeito e o medo constante de ser demitido, independentemente da competência. Aliás, quanto maior a titulação, maior o perigo de cair da “corda bamba”, ranços da famigerada era FHC. Seria esta a meritocracia reversa?

De minha parte, perdoei Venâncio por não ter me dado os “pêsames” quando perdi o emprego, certamente estava com problemas bem maiores que o meu.

P.S. Para proteger a identidade do protagonista, o nome foi alterado.

Sobre o “Mercado” e os “direitos” do consumidor

O título deste pode ser um tanto “pomposo”, já que trata de um caso isolado. Bem, isolado entre aspas, pois testemunhei que várias pessoas tiveram o mesmo problema que o meu. Talvez não seja um caso tão isolado assim. Mas traz à tona, ao mesmo tempo, a irresponsabilidade da pessoa-jurídica e a conivência do serviço que defende os direitos do consumidor pessoa-física (ou pelo menos deveria). Pude perceber isso hoje (16/11/2010), e foi bastante desagradável constatar esta “parceria”.

Confesso que nunca (ou quase nunca) havia tido quaisquer problemas com atraso na entrega de faturas, boletos e demais contas pelos Correios. Tudo sempre chegou no meu endereço com a devida antecedência e se algumas destas não foram quitadas na data correta, foi por negligência minha. Entretanto, depois de me mudar para a cidade na qual resido atualmente, desde março de 2009, tive alguns problemas por conta de boletos entregues em atraso. Foram casos isolados, mas, dentre eles, o campeão é o da Unimed Inconfidentes, convênio médico ao qual eu e minha família fazemos parte.

Unimed Inconfidentes Unimed Inconfidentes atrasa entrega de boleto de cobrança e, por lei, se exime de qualquer responsabilidade.Os boletos da Unimed Inconfidentes são entregues pelos Correios e os recebo sempre em cima da hora, muitas vezes no mesmo dia, às vezes apenas com um ou dois dias de antecedência. A sorte é que utilizo o serviço de Internet banking para quitá-los. Em outras situações, tive de ir pessoalmente ao escritório regional da Unimed e solicitar segunda via, já que a entrega do mesmo atrasou, lembrando que, certa vez, nem chegou a ser entregue. Entendo que este não deve ser considerado um “caso isolado”.

No mês passado, por descuido meu, a conta acabou não sendo quitada na data correta. Tive de solicitar um novo boleto e quitá-lo em dinheiro numa empresa de crédito, pegando fila e com todo aquele aborrecimento costumeiro. Já neste mês, a respectiva fatura chegou com nada menos que quatro dias de atraso, numa sexta-feira, quando fui olhar a caixa de cartas por volta das 17h. Não seria possível quitar o débito nem se quisesse/pudesse ir ao banco. Hoje (16/11/2010) fui à Unimed, expliquei o ocorrido e a funcionária me disse que posso solicitar o boleto via internet sem a necessidade de esperar a entrega física do mesmo pelos Correios e que, tendo esta alternativa, a Unimed não se responsabiliza pelo não pagamento do mesmo e, obviamente, não abre mão da multa nem tampouco dos juros.

Não sei o que você, leitor(a), acha disso. Eu fiquei estarrecido. A funcionária foi obrigada a ouvir todo aquele discurso de consumidor consciente e ciente dos seus direitos e deveres, que está sendo lesado no seu direto e etc. etc. etc. Ela me orientou a escrever uma carta de próprio punho que seria enviada à sede da Unimed Inconfidentes e só. Escrevi a tal carta e disse que iria procurar os meus direitos. Depois de receber um novo boleto (com a devida multa/juros) e quitá-lo na empresa de crédito. Lembrando que, na fila do caixa, havia um senhor com o mesmo problema que o meu e uma mulher, que estava lá por causa de uma duplicata do banco que também não havia sido entregue (coincidência?).

Mais tarde, liguei no escritório do Procon-MG da cidade em que resido e, se eu já estava estarrecido, fiquei perplexo quando a funcionária me disse: “infelizmente, quando a empresa dispõe de outra forma de acesso ao documento de pagamento (como a internet), o Procon nada pode fazer, é a lei”. E disse ainda: “não somos nós que criamos a lei”.

Digo novamente, não sei o que você acha disso, leitor(a). Eu acho um tremendo absurdo a empresa não se responsabilizar pela entrega física do documento de pagamento e atribuir a responsabilidade a terceiros (banco, correios etc.). Se é algo corriqueiro e existe uma solução paliativa, porque não informaram por meio de algum comunicado? Não houve nenhum informe sequer e os clientes, acredito que a grande maioria, não sabem disso! E o Procon é conivente? Sinto muito, não concordo com isso. Não sei qual é a lei que favorece a negligência de empresas como a Unimed Inconfidentes, mas seja qual for, lesa o consumidor e o Procon não deveria ser conivente com uma lei que estimula o prejuízo ao consumidor. Leis são leis, mas não sou obrigado a concordar com elas, principalmente quando ferem os direitos do consumidor. Uma pena que o Procon não pense da mesma forma.

Felizmente, a muleta de um pode ser arma do outro. Registrei duas reclamações no site Reclame Aqui, uma contra a Unimed Inconfidentes, pela negligência e desrespeito ao cliente e outra contra o Procon-MG, pela conivência com situações como essa.

Analisando por outro viés, é interessante observar como as empresas, de um modo geral, utilizam a internet e oferecem/impõem soluções “alternativas” às tradicionais. São soluções simples, práticas e relativamente baratas (a geração de boletos on line, por exemplo). Mas é mais interessante perceber o quão pouco (ou quase nada) as mesmas investem em informação ao cliente, avisando sobre essas “comodidades”, caso ocorra algum contratempo. De todo modo, é uma solução, que favorece à minoria. Há pessoas que não tem acesso à Internet (diga-se de passagem, são muitas). Nesse caso, o cliente gasta com transporte público, enfrenta fila, perde um tempo desnecessário, para sanar um problema que não foi criado por si próprio. Em outras palavras, a empresa investe pouco e cria uma solução barata que a exime de qualquer responsabilidade perante a lei. Perceba que este é um exemplo de mau uso da internet. Uma falha que lesa o consumidor e é amparada pelo poder público, e defendida pelo Procon, claro.

A exemplo dos bancos, quanto custa investir em auto-atendimento na internet em detrimento do atendimento presencial? Quanto o banco economizará com funcionários, equipamentos e infra-estrutura para cada cliente que optar por utilizar o Internet banking? Claro que isso favorece o cliente, desde que o mesmo esteja consciente dos mecanismos de uso da tecnologia. Do contrário, isso se torna uma armadilha e, fatalmente, o cliente acaba pagando a mais por isso.

A tecnologia está cada vez mais inserida na sociedade como um todo, isso é benéfico, mas é obrigação das mesmas investir em informação, auxiliar os clientes, ou seja, favorecer o acesso à tecnologia, mostrando todos os benefícios que ela pode oferecer, que são muitos, e não torná-la uma “armadilha” para clientes desavisados ou um mero paliativo que a exima de qualquer responsabilidade perante a justiça. Essa é uma forma predatória de gerar receita que traz mais prejuízos que benefícios. Há que se modificar este conceito mesquinho, transformando esclarecimento em satisfação do cliente. Insisto, uma pena que o Procon não pense da mesma forma.

Xenofobia na rede

Xenofobia é um mal presente na humanidade. Ela está, como sempre esteve e, provavelmente, sempre estará, presente no comportamento humano. Faz parte do ser humano. Mas isso não significa que o mal deva ser incorporado à personalidade humana e transformar-se em regra de conduta.

Tweets preconceituosos Tweets preconceituosos publicados por Mayara Petruso provocaram reação da tuitosfera na noite de 31 de outubro de 2010.Apesar do Brasil querer se mostrar como um país em que não existe o preconceito, é fato notar que o mesmo existe e é bastante acirrado e sob várias formas: preconceito de raça/etnia, credo, gênero e também por região geográfica, sendo este último bastante envidenciado na rede no dia 31 de outubro de 2010, no final da apuração das eleições que deu vitória à candidata Dilma Rousseff, causando indignação dos eleitores de seu oponente, o candidato José Serra. Entretanto, alguns destes extrapolaram.

Comecei a perceber uma certa movimentação no Twitter, vários tweets utilizando a hashtag #nordeste. Naquele momento, fiquei sem entender o que estava ocorrendo e fui entender melhor só no dia seguinte. Uma usuária postou mensagens ofensivas, se referindo aos nordestinos de forma pejorativa. Ela e outros usuários, diga-se de passagem, mas foi o dela que acabou tendo maior repercussão.

A garota, Mayara Petruso, estudante de direito, classe-média-alta, incomodada com o resultado das eleições, resolveu culpar os nordestinos pela derrota de seu candidato com frases como “BRASILEIROS AGORA FODAM-SE! ISSO QUE DA, DAR DIREITO DE VOTO PRA NORDESTINO” e “Nordestino não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado”. O efeito colateral disso foi enorme e a hashtag foi parar nos “Trending Topics” brasileiro, causando repercussão em nível nacional e, claro, tornando-se pauta dos principais veículos de comunicação. A estudante chegou a apagar os tweets e deletou seu perfil na madrugada. No dia seguinte, outra hashtag #orgulhodesernordestino surge nos “Trending Topics Wordwide” como reação ao ocorrido.

Tweets preconceituosos Tweets preconceituosos publicados por Mayara Petruso provocaram reação da tuitosfera na noite de 31 de outubro de 2010.É impressionante observar como as manifestações tomam corpo quando são disseminadas no Twitter. O próprio candidato José Serra conseguiu na justiça algo inimaginável às vesperas da eleição: direito de resposta no Twitter. Esta aplicação web é, sem dúvida, um divisor de águas na história da rede, dados os inúmeros casos ocorridos no mundo real a partir de informações postadas nele. Acredito que o sucesso da disseminação da informação, e respectiva reação, se dê pelo mesmo ser usado em “território híbrido”, ou seja, todos tem acesso, independentemente de onde são e esse foi o grande erro da ingênua estudante que, provavelmente, deve estar acostumada a dizer frases como estas em seu circulo de amizades e de convívio, mas quando replicou-as no Twitter, a informação foi além do seu círculo, atingindo usuários que não concordam com as mesmas. O efeito contrário veio à tona e muito mais forte, amplificado conforme o número de usuários revoltados com o ocorrido.

Mas voltando a questão da xenofobia, esta quando disseminada na rede, tomou um corpo muito maior do que se tivesse apenas sido veiculada em jornais ou programas de televisão. Na verdade, a veiculação desta notícia na grande mídia apenas a consagra como uma notícia digna de ser veiculada, mesmo porque ela já se tornou notícia muito antes de ser reconhecida como tal na grande mídia.

É uma pequena amostragem de como se comporta o cidadão de classe-média-alta, reacionário, preconceituoso. É claro que, felizmente, existem as exceções, mas este é, grosso modo, o perfil deste cidadão, que traz esse preconceito já há décadas, por conta da migração nordestina, em especial na cidade de São Paulo, é cultural. É uma ideia já um tanto antiga e fora de moda, pois São Paulo é uma cidade do mundo e a migração, atualmente, vem de todas as partes do Brasil e também de outros países da América do Sul, como Bolívia e Peru, além dos coreanos, que literalmente, invadiram a cidade, mas, por algum motivo, a migração nordestina ficou no imaginário do cidadão paulista/paulistano.

Tweets preconceituosos Tweets preconceituosos como os publicados por Mayara Petruso provocaram reação da tuitosfera na noite de 31 de outubro de 2010.Já houve na história manifestações preconceituosas até de políticos como o caso de Ronaldo Caiado, citado no livro do Fernando Morais sobre a W/Brasil “Na Toca dos Leões”, no qual o mesmo propõe “esterilizar os nordestinos”. Me lembro quando contei esta história a um antigo amigo, hoje apenas um conhecido, que, de pronto, disse pelo MSN: “kkkkkkkkkk Ronaldo Caiado pra presidente!!!”. Isso não quer dizer que estas pessoas irão de fato sair por aí esterelizando, afogando, matando nordestinos e afins; até porque não teriam coragem para tal. Mas, sentados diante do computador, no aconchego do lar, conectados a outros tantos iguais, cultivam estas ideias. Mas, enganam-se, vale dizer que São Paulo é o que é, graças a migração nordestina, os prédios que a ingênua estudante contempla em seu blog foram construídos às custas do suor, em grande parte, dos nordestinos que, não apenas se mudaram para São Paulo, mas também foram trazidos a São Paulo, atraídos pela falsa perspectiva de uma vida melhor. Da mesma forma como os brasileiros de classe-média aventuram-se em terras estrangeiras, como os EUA, Europa etc.

Xenofobia é assunto recorrente, mas a novidade é a repercussão pela rede. Na minha opinião, é muito bom que ocorra fatos como esse, pois nos faz refletir melhor sobre o preconceito e como as ideias, atos e iniciativas fluem na mente de pessoas de determinadas classes sociais. O Twitter nos permite adentrar em certas “regiões” sociais que antes eram impossíveis.

De outro modo, espero sinceramente que este caso continue repercutindo e que as autoridades tomem providências acerca da atitude desta estudante, acadêmica de um curso de direito e que, só por isso, deveria ter mais cuidado ao se referir ao povo de seu país. Este é também um excelente estudo de caso a ser abordado nos cursos de direito: a ética do acadêmico, que será o futuro advogado, juiz, desembargador. Como estes profissionais pretendem conduzir suas respectivas carreiras se não conseguem sequer resolver questões de foro íntimo. Brotadas, provavelmente, no seio familiar, a partir da conduta dos pais e familiares. Sem dúvida, um assunto muito bom para refletir.

A saga do prestador de serviços – parte 1

Webdesigner/desenvolvedor versus cliente

Os serviços de criação e desenvolvimento web são oferecidos no Brasil há mais de uma década e meia. Empresas começaram a buscar especialização neste campo, serviços passaram a ser oferecidos e o mercado cresceu, tanto que acabou inflando e ficou competitivo demais, saturado. Mas, com tanta mão-de-obra disponível, qual o perfil do cliente hoje?

Com mais de dez anos de experiência na área de criação e desenvolvimento para web, até hoje me pergunto: qual o perfil dos meus clientes? Qual o grau de conhecimento deles acerca da Internet? Qual o nível de interatividade possuem com a rede? De que forma eles a usam para gerar/complementar receita a seus negócios? E, por fim, o quanto eles valorizam o profissional responsável por trazem o negócio deles para a rede?

Quando analiso os fatos, concluo que o resultado é, no mínimo, frustrante. Meus clientes, e creio que este seja apenas um pequeno rol que representa a grande maioria dos clientes brasileiros, se pautam basicamente pelo investimento financeiro. Para eles, o melhor negócio resume-se na eficácia máxima com o mínimo de investimento, o maior lucro gerado com o menor valor investido. É cultural, é o jeito brasileiro de atuação no mercado. Com base neste cenário, os prestadores de serviço concorrem entre si tentando oferecer o melhor serviço ao menor custo possível. Dentre esses, me incluo.

Quando digo “oferecer um serviço com baixo custo”, me refiro a oferecer um serviço interessante ao cliente com um preço acessível, algo palpável, para que o mesmo aceite e fique satisfeito com o resultado (isso me gera portifólio, tenho interesse nessa relação e faço minha parte). Mas, nem sempre isso ocorre, e por quê? Isso ocorre por um motivo que acredito ser básico: o cliente conhece pouco sobre o ambiente e as ferramentas em que pretende investir. Isso mesmo, em boa parte das vezes, o cliente é completamente leigo e, sendo leigo, qualquer proposta é viável. Se qualquer proposta é viável, em qual (ou quais) parâmetro(s) ele vai se basear para contratar um serviço? O custo. E apenas o custo, porque o benefício desse custo ele ainda não conhece. E, por mais que o prestador de serviço se esforce para mostrar-lhe os (possíveis) benefícios do investimento, são apenas argumentos que poderão se concretizar com o tempo, conforme o cliente aderir à utilização do ambiente virtual e acostumar-se com o mesmo, ou não.

Tento estudar e compreender essa icógnita, mas é difícil. O cliente quer bons resultados, mas quer investir pouco, ou seria, segundo ele: o necessário. Enfim: é possível trabalhar com prestadores de serviço que cobram menos e ter um resultado satisfatório? Acredito que sim. Porém, ao adotar essa postura, é necessário que o cliente se preste a entender os mecanismos de funcionamento da rede, os aplicativos e ferramentas, a filosofia de uso e passe, efetivamente, a utilizá-los sob a orientação do prestador de serviços. Sim, render-se à orientação do prestador de serviços. Afinal, será mais caro se o prestador tiver de fazer todo o trabalho. Mas o cliente reconhece o trabalho e o esforço do prestador e a parte dele na relação, a chamada: parceria?. Infelizmente, na maioria das vezes, não. Em geral, ele acha caro o valor e, dependendo da situação, acha que pode cuidar de tudo sozinho e diz: “quero apenas o site, bem simplizinho e que eu mesmo possa atualizar”. Como se essa fosse a tarefa mais fácil do mundo. Acredite, não é! Por acaso isso já aconteceu contigo, webdesigner/desenvolvedor?

A partir deste post, pretendo criar uma pequena série na qual discutirei o assunto, fornecendo exemplos e também dando a mão à palmatória no que diz respeito às minhas falhas. Espero poder ler comentários de outros profissionais, inclusive de outras áreas. Não sei porque, creio que há muito a compartilhar e desabafar.

Caiu na rede…

O assunto já está um tanto ultrapassado, afinal, a rede é rápida. Mas sempre é válido relembrar e refletir. Segue meu comentário acerca de acontecimentos reais em consequencia de ações virtuais ocorridas há alguns meses.

Uma das vezes que assisti ao filme 1984, baseado no livro de George Orwell, fiquei (além de impressionado, com o filme e com a possibilidade do autor do livro vislumbrar uma situação como aquela em plena década de 40) imaginando como algo parecido poderia ocorrer no “aqui e agora”. Orwell faz uma profunda análise sobre a imagem enquanto recurso na vida do ser humano. Fico imaginando se a rede não seria este “grande irmão”, cujos olhos são as câmeras, além de outras tantas coisas mais.

Estava eu, certo dia (na verdade, noite), fazendo o que está escrito neste tweet, e eis que acesso o vídeo das duas mulheres de Sorocaba (Juliana Cordeiro e Vivian de Oliveira). Para quem ainda não ficou sabendo, este post explica bem a questão (se bem que é difícil não saber sobre este assunto já que foi até matéria no Fantástico). Um caso como tantos outros que, normalmente, não se fica sabendo, a não ser pelo fato de ter se tornado público através da rede.

Isso me deixa bastante pensativo e aflito. É tão tênue a linha entre a fama e o anonimato, taí o caso Geise Arruda, da gaúcha Maria da Graça, dentre outros ocorridos de outras formas como as demissões do diretor de marketing da Locaweb Alex Glikas e do editor da revista National Geographic no Brasil, Felipe Milanez. E o resultado impressiona tanto que eu me pergunto: isso é real? Até porque o desfecho acaba sendo mais irreal do que a história que conduziu os personagens a ele.

Enquanto usuário da internet (e testemunha virtual), acompanho a evolução deste ambiente há algum tempo e noto que situações como essas são cada vez mais frequentes. Um verdadeiro circo de horrores, podendo ser comparado (dadas as devidas proporções) ao período medieval, no qual as mortes em praça pública eram motivo de festa. A questão central é a festa.

Esta comparação é perfeitamente possível, posto que a internet é um “espaço” novo que começa a ser povoado e no qual os individuos passam a fazer uso do mesmo, povoando-o com seus perfis, comentários, vídeos, imagens e demais conteúdos. Penso que só agora as pessoas estão, de fato, experimentando a utilização do ambiente virtual. Porém, a forma como se dá esta experimentação traz resultados inusitados, consequencias drásticas ao mundo real, dada a disparidade entre os mundos, um já mais adiantado e outro recém-nascido. Analisando por este ponto de vista, é aceitável a ocorrência de fatos como esses.

O ambiente virtual é um repositório de informações, estas inseridas pelos próprios usuários. A participação ativa dos internautas torna a rede orgânica e muito rápida. O Trending Topics do Twitter é uma prova disso, o fenômeno CALA BOCA GALVAO e o fato de ter sido notícia no New York Times mostra que a rede é intrínseca ao cotidiano do ser humano.

Se a rede é uma ferramenta e o ser humano tem o  poder de atuar em grupo e gerar resultados, resta saber agora o que fazer com ela. Os exemplos citados acima demonstram que o ser humano ainda não se deu conta da lei de causa e efeito da rede. Ou é isso ou as consequências da utilização da rede (também segundo os exemplos) mudarão o cotidiano, banalizando situações de críticas e (des)sensibilizando ainda mais a humanidade. Pelo menos, é isso que percebo, vale citar também o caso do garoto (filho do dono da RBS, no Rio Grande do Sul) que aplicou o “boa noite Cinderela” em uma colega e a estuprou. Os comentários coletados pela polícia via MSN comprovam minha afirmação.

E por fim me pergunto, aonde isso vai dar? Estaria a humanidade alimentando o “grande irmão”? Seria esse “grande irmão” o futuro aniquilador da humanidade, o dono da “rede”? Arrisco um palpite, acredito que esse talvez seja o caminho da própria condenção da sociedade. Por permitir e alimentar essa tendência, por usar a rede com pouca responsabilidade. Como está sendo provado, as consequências tem sido desastrosas. Afinal, se caiu na rede… é peixe.

Dez falsos motivos para não votar na Dilma

Quando criei este blog, procurei levar ao máximo o slogan “Idéias e inquietações no mundo virtual”. Por este motivo, publico poucos posts pela falta de tempo em encontrar temas e/ou motivos relativos ao tal slogan. Porém, outras coisas e idéias também me inquietam, uma delas é a política, e como. Jurei não me pronunciar a respeito das eleições este ano, mas depois de receber este texto do Jorge Furtado (fundador da Casa de Cinema de Porto Alegre e diretor do curta “Ilha das Flores”, além de “Saneamento Básico” e “Meu Tio Matou um Cara”, entre outros), não me contive. Dei uma busca no Google e vi que o mesmo foi postado em vários blogs. Será postado neste também. É, sem dúvida, um ótimo roteiro pra rebater algumas bobagens que andam circulando por aí. Enviei o mesmo pro meu pai (serrista convicto) e disse a ele: “encaminhe se achar relevante ou rebata com algo mais relevante, acaso encontrar”. Boa leitura:

Dez falsos motivos para não votar na Dilma
(
por Jorge Furtado – publicado em 25 de julho de 2010)

Tenho alguns amigos que não pretendem votar na Dilma, um ou outro até diz que vai votar no Serra. Espero que sigam sendo meus amigos. Política, como ensina André Comte-Sponville, supõe conflitos: “A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir”.

Leio diariamente o noticiário político e ainda não encontrei bons argumentos para votar no Serra, uma candidatura que cada vez mais assume seu caráter conservador. Serra representa o grupo político que governou o Brasil antes do Lula, com desempenho, sob qualquer critério, muito inferior ao do governo petista, a comparação chega a ser enfadonha, vai lá para o pé da página, quem quiser que leia. (1)

Ouvi alguns argumentos razoáveis para votar em Marina, como incluir a sustentabilidade na agenda do desenvolvimento. Marina foi ministra do Lula por sete anos e parece ser uma boa pessoa, uma batalhadora das causas ambientalistas. Tem, no entanto (na minha opinião) o inconveniente de fazer parte de uma igreja bastante rígida, o que me faz temer sobre a capacidade que teria um eventual governo comandado por ela de avançar em questões fundamentais como os direitos dos homossexuais, a descriminalização do aborto ou as pesquisas envolvendo as células tronco.

Ouço e leio alguns argumentos para não votar em Dilma, argumentos que me parecem inconsistentes, distorcidos, precários ou simplesmente falsos. Passo  a analisar os dez mais freqüentes.

1. Alternância no poder é bom.

Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre
a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.

2. Não há mais diferença entre direita e esquerda.

Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de “esquerdistas” , como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da “direita” do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Borhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Borhausen, José Sarney é Che Guevara.

3. Dilma não é simpática.

Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito “simpatia” depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.

4. Dilma não tem experiência.

Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.

5. Dilma foi terrorista.

Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.

6. As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano.

Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate “quem começou o quê” torna-se irrelevante.

7. Serra vai moralizar a política.

Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista “no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC” foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela Operação Sanguessuga. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais
corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com engavetador da república, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de mensalão foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de  vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no mensalão do DEM. Roberto
Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.

8. O PT apóia as FARC.

Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências
ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?

9. O PT censura a imprensa.

Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram “a posição oposicionista (sic) deste país” . Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.

10. Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra.

Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele.

(1) Alguns dados comparativos dos governos FHC e Lula.

  • Geração de empregos: 
FHC/Serra = 780 mil x Lula/Dilma = 12 milhões
  • Salário mínimo: 
FHC/Serra = 64 dólares x Lula/Dilma = 290 dólares
  • Mobilidade social (brasileiros que deixaram a linha da pobreza):
 FHC/Serra = 2 milhões x Lula/Dilma = 27 milhões
  • Risco Brasil: 
FHC/Serra = 2.700 pontos x Lula/Dilma = 200 pontos
  • Dólar:
 FHC/Serra = R$ 3,00 x Lula/Dilma = R$ 1,78
  • Reservas cambiais: 
FHC/Serra = 185 bilhões de dólares negativos x Lula/Dilma = 239 bilhões de 
dólares positivos.
  • Relação crédito/PIB: 
FHC/Serra = 14% x Lula/Dilma = 34%
  • Produção de automóveis: 
FHC/Serra = queda de 20% x Lula/Dilma = aumento de 30%
  • Taxa de juros:
 FHC/Serra = 27% x Lula/Dilma = 10,75%

(2) Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo de 25.07.10:

José Serra começou sua campanha dizendo: Não aceito o raciocínio do nós contra eles, e em apenas dois meses viu-se lançado pelo seu colega de chapa numa discussão em torno das ligações do PT com as Farc e o narcotráfico. Caso típico de rabo que abanou o cachorro. O destempero de Indio da Costa tem método. Se Tupã ajudar Serra a vencer a eleição, o DEM volta ao poder. Se prejudicar, ajudando Dilma Rousseff, o PSDB sairá da campanha com a identidade estilhaçada. Já o DEM, que entrou na disputa com o cocar do seu mensalão, sairá brandindo o tacape do conservadorismo feroz que renasceu em diversos países, sobretudo nos Estados Unidos.

Fonte: Casa de Cinema - Porto Alegre/RS

Negociar com a Oi, dá nisso

Confiar na Oi, dá nisso: decepção! Empresas de telecomunicação no Brasil exploram o mercado de forma predatória. Ranços da "era FHC".Com tantos exemplos por aí, apesar de tantas “vítimas” feitas por essas empresas de telecomunicações (oriundas da tenebrosa “Era FHC”), sempre há um panaca ainda por cair em algumas dessas tramóias. Dessa vez, este que vos escreve é o protagonista da história.

Ao me mudar para o Estado de Minas Gerais, procurei me informar acerca dos planos disponíveis para telefonia fixa, celular, internet banda-larga, etc. A única empresa que agrega todos estes serviços no Estado é a Oi. Detentora da antiga Telemar e também da Velox, a empresa oferece uma solução que, em princípio, parece ser interessante, tanto por agregar todos os serviços em uma única conta como também pelo valor: o Oi Conta Total. Além dessas vantagens, todas as linhas participantes do plano falam entre si gratuitamente, desde que esteja dentro da área de cobertura em que foi contratada.

Na época (março/2009), o serviço, que incluía, telefone fixo, dois celulares e conexão banda-larga de 1Mb saía por R$ 169,00 ao mês, já com um desconto de R$ 80,00 durante os primeiros 10 meses. Interessante o preço, não? Sim, inclusive pela possibilidade de cancelamento do plano após os tais 10 meses e recontratação de outro, conforme a promoção vigente.

Contratei o plano em março de 2009 (o Oi Conta Total 2). Tive aqueles problemas técnicos para fazer a conexão funcionar, o “modem grátis” não havia sido entregue  por conta de informações erradas de provedores (tanto do UOL quanto o da própria Oi), essas coisas. Mas, no geral, até que funciona bem. Porém, saiba desde já, que o valor previsto de R$ 169,00 foi cobrado apenas em julho/2009, em todos os outros meses, os valores vieram diferenciados do valor contratado, obviamente com a respectiva justificativa. Inclua-se aí também o aumento anual autorizado pela Anatel, que a funcionária não informa no ato da contratação.

Ao final dos 10 meses, a loja da cidade me procurou, oferecendo uma nova promoção e como minha filha estava precisando de um celular, aderi ao Oi Conta Total 3, que dá direito a mais um chip. Dessa forma, precisaria de mais um aparelho. Como já estava com aquela “vontade” de ter um smartphone (vinha cogitando a possibilidade há alguns meses), fui verificar a tal promoção do iPhone pela Oi. Diz o slogan “E você ganha até R$ 2000 de crédito para comprar seu iPhone”. Que interpretação você faria dessa frase? Pois é, acreditei nela. Mais um otário caindo na “propaganda” da Oi.

iPhone: na Oi é bem mais caro Propaganda esconde o valor real da promoçãoAo ligar na Central de Vendas, o funcionário disse que, pelo meu plano, eu receberia um crédito de R$ 1750 e que eu pagaria apenas a diferença, dependendo do modelo que escolhesse, junto ao Mercado Móvel (a empresa que comercializa o aparelho para a Oi). Pelas contas que fiz, optei pelo 3GS de 32Gb. Pensei comigo: R$ 2799 menos R$ 1750 é igual a R$ 1049. Bom preço, não? Pois é…

O valor do meu novo plano havia ficado em R$ 209, (incluindo fixo, três celulares e banda-larga de 1Mb). O funcionário ainda me disse, que, aderindo ao plano de dados eu teria mais um desconto (e quantos descontos a Oi oferece), de R$ 209, o valor do plano reduziria para R$ 175 e somado ao plano de dados, o total passaria a custar R$ 259 ao mês. Claro que fechei! Achei que foi um ótimo negócio. Porém, não percebi que estava prestes a “cair da cama” e acordar do meu “sonho”.

Ao fechar o plano, o funcionário me deu um número de protocolo para eu entrar em contato com o Mercado Móvel. Ao ligar na referida empresa, a primeira surpresa: Eu não pagaria “somente a diferença”, como havia sido dito, iria pagar o valor integral do aparelho em até 10 parcelas no cartão de crédito e me disseram que eu poderia escolher entre receber o crédito em forma de desconto pela fatura ou no próprio cartão de crédito. Mesmo achando a história muito esquisita, a “vontade” de ter o iPhone era mais forte e me impediu de perceber que estava para cair em uma emboscada. Resolvi comprar o aparelho e o mesmo foi entregue em alguns dias.

Ao ligar na Oi para fazer a habilitação do plano, percebi que já não rolava mais aquele papo de R$ 259 por mês, e, claro, o funcionário não conseguia esclarecer o porquê (eles nunca conseguem). Antes disso, porém, havia ligado na Oi algumas vezes para saber mais a respeito de como receberia o tal crédito. Me disseram que o mesmo viria somente creditado na fatura, a partir da segunda mensalidade, depois de contratado o plano de dados (a via pelo cartão de crédito estava descartada). Por não entender mais a situação e não ter ninguém que pudesse me explicar, resolvi aguardar a chegada das próximas faturas. E elas chegaram.

Em valores, a coisa ficou assim: eu (achei que) devia pagar pelo Oi Conta Total 3, R$ 209 nos 10 primeiros meses (desde que fosse feito débito em conta corrente, mais essa…), com a adesão ao plano de dados, o valor subiria para R$ 259 e eu (achei que) ainda receberia o tal crédito pela aquisição do iPhone. Ledo engano.

A fatura de abril veio no valor de R$ 254 líquidos e nada de crédito. Já a fatura de maio veio no valor de quase R$ 300 e também sem nenhum crédito. Fui à loja da Oi aqui na cidade, a funcionária perdeu um tempão comigo sem conseguir entender aqueles valores todos e (adiantando informalmente que, segundo ela, o tal crédito não existe) me orientou a ligar no *144. Liguei e a atendente disse não ter acesso às informações sobre o plano de dados e sugeriu abrir uma contestação (mais uma, aquela que eles nunca dão retorno). Não tem ninguém que possa esclarecer minhas dúvidas quanto ao plano de dados? Não seria este um direito meu? Pelo visto, não.

Conclusão

É triste, porém verdade. A moça da loja estava mais ou menos certa. Contratei o Oi Conta Total 3, que me garantia um desconto de R$ 140. Ao, adquirir 0 plano de dados, no valor de R$ 85, e um aparelho no valor de R$ 2799, na esperança de pagar somente R$ 1049, por conta do tal crédito de R$ 1750, o desconto que era de R$ 140 aumentou para R$ 175 (eis o tal crédito, sacou?), um ganho de apenas R$ 35 que, em 10 parcelas, dá um total de R$ 350, ou seja, o aparelho vai sair por uma bagatela de R$ 2449. Praticamente, troquei seis por meia-dúzia. E ainda estou vinculado por 10 meses a um plano de dados de 10Gb mensais, o qual não consigo usar nem 100Mb, já que passo a maior parte do tempo usando o aparelho com a conexão WiFi e vale lembrar que não tem cobertura 3G (somente Edge) na cidade onde resido e ainda que tivesse, a velocidade é bem inferior ao WiFi, pude comprovar isso quando fui à Belo Horizonte/MG. Como tudo tem um lado positivo, agora tenho um iPhone 3GS de 32Gb (por enquanto e se nada mais der errado :))

Pois é! Negociar com a Oi, dá nisso!