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Eu, Daniel Blake: a realidade-dura mais próxima do que se imagina

“Quando a dignidade é perdida, tudo está perdido” (Daniel Blake)

Há muito tempo venho refletindo sobre algumas questões. Uma delas é como o Estado mínimo e as privatizações são interpretadas por determinados setores da sociedade. A impressão que tenho é a de que apenas eu consigo perceber uma voraz perversidade do Estado privatizado para com o cidadão. A impressão que tenho é a de que só eu consigo notar o que há por trás deste processo nefasto que esmaga, sem o menor pudor, qualquer política que venha a assegurar qualquer benefício que seja ao cidadão descente, honesto, que paga seus impostos em dia ou que, ao menos, o desejaria faze-lo se tivesse condições (no caso daqueles que estão abaixo da média). Fico muito satisfeito em saber que não sou o único a enxergar isso. Fico contente em saber que há uma verdadeira legião que compartilha da mesma visão. Fico muito satisfeito em ter assistido Eu, Daniel Blake.

Se você compartilha da mesma opinião que tenho, mas ainda não assistiu ao filme, sugiro que assista. Entretanto, se ainda não assistiu e não crê que as coisas sejam da forma como estou afirmando aqui, então pare de ler esse texto agora mesmo. Isto não é pra você.

O filme dispõe de uma narrativa extremamente simples: um homem doente, sem condições de trabalhar, segundo os médicos, tem o benefício do auxílio doença suspenso e necessita provar sua condição física ao Estado para reaver o valor e prover o sustento. Este, por sua vez, privatizou a previdência social e a empresa em questão afirma que o homem já pode retornar ao trabalho. Ou seja, o protagonista passa o filme inteiro como refém da burocracia instalada de forma proposital a fim de faze-lo desistir o mais rápido possível daquilo a que tem direito, conquistado pelo tempo de contribuição.

O enredo é sutil, Blake, de repente, se vê em uma situação surreal, o dinheiro acaba e o Estado vira-lhe as costas. Este é, na verdade, um verdadeiro banho de água fria naqueles que costumam exaltar o Welfare State britânico. Dizendo que lá sim as coisas funcionam, que lá não é como aqui. Infelizmente, não é. Segundo o filme, é até pior.

Eu, Daniel Blake. Filme de Ken Loach

Blake não consegue crer naquilo que vê. Tanto na própria situação como na de outros que ele presencia nos momentos em que esteve nas repartições públicas. A dignidade o convoca a declarar guerra contra o Estado. Porém, o sonho não existe, a trama discute a realidade, a dura realidade. Blake grita, mas ninguém o escuta. É mais um grito entre tantos outros. Todos mudos.

Adorei ter assistido Eu, Daniel Blake. Foi um alento. Não estou enlouquecendo, apenas enxergo a realidade. Na verdade, aqui no Brasil ainda não está como na Inglaterra, mas é perfeitamente possível perceber que o país caminha nessa direção. Me lembro do meu amigo Jamil, que morreu no hospital, porque o hospital entendeu que ele não merecia lutar pela vida, que ele merecia morrer porque, afinal, o hospital entendeu que ele já estava mais próximo da morte do que da vida. Assim é também a lógica do Estado privatizado. Eu consigo enxergar perfeitamente toda a perversidade que está por trás deste processo. Daniel Blake passou por isso. Ao Estado privatizado, interessa saber o quanto o cidadão ainda irá poderá contribuir. Caso não possa, considere-se morto, apenas morra. Simples assim. Se você é um moribundo sem fígado (assim ficou o meu amigo Jamil), não compensa ao hospital encaminha-lo para o transplante de um fígado novo. Você vai morrer de qualquer jeito. Melhor apressar a morte do que prolongar a vida. Não compensa ao Estado privatizado pagar aposentadoria a velhos moribundos porque eles irão morrer de qualquer jeito. Então é melhor que morram logo. Não foi isso que o ministro de Finanças do Japão, Taro Aso disse em 2013? Não foi isso que FHC disse em 11/05/1998? Por acaso não é esse conceito que estão tentando “colar” nos dias de hoje? O de que aposentados são vagabundos? No filme, Blake, enquanto aguarda a avaliação obrigatória, é obrigado a recorrer erroneamente ao seguro desemprego. Lá ele é obrigado a cumprir uma rotina, tem que procurar emprego, distribuir currículos e provar ao Estado privatizado que ele está buscando trabalho para manter o benefício, mesmo sabendo que está impedido de trabalhar. Ou seja, a intenção do Estado privatizado é mostrar que não-dá-dinheiro-a-vagabundo. Alguma semelhança com com o discurso que se pratica aqui? Aquele papo de que quem recebe o Bolsa Família é vagabundo? Não é só aqui, lá também existe esse (pre)conceito perverso e Blake, quando deu por si, já havia caído na armadilha criada pelo Estado privatizado.

Eu, Daniel Blake. Filme de Ken Loach

Em suma, a intenção do Estado privatizado não é sair por aí matando velhos moribundos, aposentados e/ou pessoas em situação de miséria. O Estado privatizado enxerga números. Tudo e todos são números. O Estado privatizado se pergunta: como é possível enxugar, cortar custos, minimizar prejuízos, como se a sociedade fosse uma linha de montagem. O filme ilustra muito bem como o Estado privatizado dificulta ao máximo o acesso do beneficiário ao benefício. Cria regras duras, cruéis com o simples propósito de “enxugar a máquina”. E o que acontece se, por ventura, o beneficiário vier a falecer? Para onde vai o dinheiro a que ele teria direito? Nesse sentido é que fica clara a afirmação do ex-ministro japonês Taro Aso: é melhor que morram. Aí reside a perversidade. Estressar o beneficiário, acelerar a sua morte à medida em que retardam ou lhe negam o benefício. Simples assim.

Ao que tudo indica, a privatização do Estado é uma tendência. Pior, é um caminho sem volta. Rumo ao precipício. Muitos Blakes, lá e aqui, pagaram caro por isso a vida toda e vêem o Estado privatizado virar-lhe as costas justamente no momento em que mais precisarão. Eu, Daniel Blake é realidade pura, não indicado para quem deseja permanecer na ilusão.

O mercado do rock descobriu o óbvio

Hoje apareceu para mim o clipe “When The Sinner”, do Helloween, da época do Michael Kiske, na fase mais pop da banda, um pouco antes do fim, na minha opinião. Comecei a pensar no assunto: bandas com uma determinada pegada resolvem “tentar” se vender ao mercado pop e se dão mal. Celtic Frost fez isso, foi fatal. Outras tantas fizeram, até Metallica. Foi fatal, na minha opinião. Mas, nesse caso, o público que nem conhecia Metallica, abraçou a ideia. Deu certo, Bob Rock sabia o que fazia.

Metallica conseguiu. Helloween, não. Como eu disse, foi fatal. Custou a cabeça de Kiske e, de uma certa forma, a vida de Schwichtenberg. Uma pena. Uma perda irreparável, o mercado não poupa ninguém. Sim, o mercado. Afinal, é pouco provável que toda a mudança e investimento tenha ocorrido somente pela iniciativa dos jovens músicos. Claro que não, o mercado apostou nisso.

É uma pena que a arte esteja tão dependente do mercado. Muita coisa boa sucumbiu aos caprichos do mesmo. Caprichos estes que Kiske insistiu em levar adiante, com seus diversos projetos mal sucedidos ao longo dos anos, os quais praticamente não conheço.

Porém, o mercado entendeu que a nova fase do pop é resgatar o que os anos 80 tinham de bom: tentar juntar os caquinhos e ressuscitar o que o próprio mercado tratou de matar nos anos 90. Iron Maiden entendeu o recado bem antes da maioria e tratou de repatriar Bruce Dickinson. O quinteto virou sexteto e deu muito certo do ponto-de-vista do mercado. Mesmo fazendo um sonzinho fraco e enjoativo, a banda fez algumas visitas ao passado e trouxe muitas alegrias aos fãs. Se reinventou, inventou uma forma diferente de fazer turnês e conseguiu até emplacar o repertoriozinho de novos álbuns dos últimos anos. Apesar da atual fase, nunca romperam com o passado como o Helloween ou Celtic Frost quiseram fazer. Como o Metallica fez, apesar do êxito. Vale lembrar que Metallica também revisitou o passado, meio que obrigatoriamente após os sucessivos fracassos de Load, Reload, etc.

Cartaz da turnê do show do Helloween em 2017 Cartaz do lançamento da turnê do Helloween no Brasil em 2017 com participação de Michael Kiske e Kai Hansen. Foto: divulgação

E o mercado, não tendo mais “novidades” a explorar, resolveu seguir o caminho do Iron Maiden: foi revisitar o passado. Quantas e quantas bandas trataram de se reunir novamente? Até Helloween, quem diria? E se reuniram meio que no estilo Maiden, juntou todo mundo pra fazer uma grande festa. O público daqui adorou, ingressos quase esgotados um ano antes da apresentação. Meses atrás resolveram trazer Ronnie James Dio de volta à vida, ainda que em forma de holograma. Mas ele estava lá, emocionando o público novamente como sempre fez em vida.

Isso é uma coisa boa, não nego. Recordar é viver. Muita gente, inclusive, nem era nascida nesse tempo. Vai recordar o que não viveu e vai achar lindo, porque foi linda essa fase e será eternamente linda. Uma pena que ela retorne à tona pelo viés do mercado. Não sei se prefiro isso ou visitar os túmulos das bandas que se foram. Na verdade, isso me remete às bandas que nunca se foram e estão aí até hoje.

Um exemplo inusitado de uma dessas bandas que nunca se vendeu e praticamente criou um estilo dentro do Metal é o do Venom (essa banda é sempre inusitada). Cronos não se dá com os antigos membros, Mantas e Abaddon. Ele seguiu com a banda, tentou reunir a formação clássica em algum momento, mas não deu certo. Eis que os dissidentes resolvem criar o Venom Inc, um outro Venom sem o Cronos, com Demolition Man nos vocais (antigo membro do Venom sem o Cronos, enfim). Como eu disse, é inusitado e muito válido. Agora temos dois Venoms. Duas bandas com base naquela dos anos 80, no melhor estilo underground, que nunca abandonaram as raízes e nem a disposição. Já pensou se a moda pega?

Aqui na terrinha, vale citar o Dr. Sin, um exemplo em vários sentidos, foi uma banda que virou as costas ao mercado, quando o mesmo exigiu que assumissem um viés mais pop, letras em português, etc. A banda rompeu com a gravadora e lançou Brutal, um trabalho independente e considerado um dos mais criativos da trajetória do grupo, que se recusou a romper com os fãs. A banda morreu por outros motivos. Conflitos de ego, talvez, mas nunca perdeu o apreço dos fãs. O Golpe de Estado, há 30 anos, quase acabou por conta da morte do Helcio Aguirra, mas resolveu continuar. Aproveitou o momento, fez um show recentemente e resolveu convidar Catalau (o eterno frontman) para fazer uma participação especial. Não pude comparecer, mas soube que o show foi lindo, emocionante.

Demorou, mas caiu a ficha. A moda agora é “ressuscitar os mortos”, no bom sentido do termo, juntar os integrantes, relembrar os tempos idos. Fico em dúvida se foi a ficha que caiu ou se foi o universo que conspirou a favor. É um movimento forte, não creio que o mercado possa controlar isso. Resiliente que é, o mercado não é bobo, resolveu aderir e colaborar para que pudéssemos ter o alento dos bons tempos, da época de ouro do metal, do rock. Não me iludo. Não acho que isso venha pra ficar. Mas vai ser muito bom enquanto durar.

Entre a arte e a mediocridade

“Ao realizar a mostra, o Centro Cultural Banco do Brasil possibilita o contato da sociedade brasileira com obras-primas de grandes nomes da história da arte e reafirma seu comprometimento com a formação de público e com o acesso cada vez mais amplo à cultura” (Centro Cultural Banco do Brasil)

Que a proposta dos ditos Centros Culturais tenha como objetivo promover o “acesso” à cultura e, por sua vez, sensibilizar o cidadão comum com a experiência, ok, é um objetivo nobre, mas como fazer?

A pergunta poderia ter várias respostas, das mais óbvias às mais complexas, já que há várias maneiras de proporcionar tais experiências. Infelizmente, nem todo Centro Cultural é capaz de proporcioná-las, sendo alguns capazes, inclusive, de proporcionar não-experiências como é o caso do Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte.

Exposição Kandinsky no CCBB Belo Horizonte Imagem do site do CCBB Belo Horizonte da exposição Kandinsky: Tudo começa num ponto

Digo isso pois o espaço por si só é uma verdadeira contradição. Já visitei, pelo menos, três exposições ali. Em quase todas presenciei problemas com a “equipe” responsável por monitorar os visitantes. Não sei o que são, nem como são treinados e tampouco sei qual o objetivo do comportamento destes funcionários, que mais parecem cães-de-guarda, dando a impressão de protegerem verdadeiros tesouros do perigo oferecido por possíveis vândalos, que são os visitantes.

Me atenho à exposição que “tentei” visitar hoje, “Kandinsky: Tudo começa num ponto”, em cartaz de 15/04 até 22/06/2015. Confesso ainda não ter tido a oportunidade de conhecer o trabalho do artista. Acho que é para isso que servem as exposições de arte, para que pessoas como eu possam conhecer o trabalho de outras. Uma proposta nobre, mas com um modus operandi, no mínimo, discutível.

De início, cerca de 40 minutos de espera em uma fila. Ao chegar no ponto-de-partida da exposição, um rapaz vestindo o uniforme de uma empresa de comunicação chamou os visitantes para dar as orientações, a saber:

  • não é permitido portar garrafas d’água;
  • não é permitido mascar chicletes;
  • não é permitido atender celulares dentro das galerias;
  • não é permitido filmar (mas fotografar sem flash, sim);
  • não é permitido ultrapassar o limite que separa a obra do visitante.

Logo no início, notei a preocupação excessiva dos funcionários responsáveis por monitorar os visitantes durante a exposição. Vigiando para que os mesmos não tocassem ou se aproximassem das obras. Estava eu acompanhado de minha esposa, observando e conversando sobre o assunto. Não posso dizer pelos demais visitantes, mas quando compareço a uma exposição de arte gosto de observar a fundo, absorver as informações contidas nas obras, perceber a técnica utilizada, me apropriar do conhecimento oferecido pelo artista. Aprendi isso empiricamente, quando visitei, pela primeira vez, a Bienal das Artes no Ibirapuera, em São Paulo, em 1996. Desde então, é assim que visito exposições de arte. Se isso não for possível, prefiro não visitar. Até hoje, nunca fui acusado de danificar nenhuma peça com meus olhos. Enfim…

Ao notar dois pequenos quadros do artista que estavam com seus respectivos vidros quebrados (e justamente tratavam-se de óleo sobre vidro), veio-nos a curiosidade do porquê não haviam trocado o vidro e os expuseram quebrados mesmo. Seria a própria tela o vidro em questão? Ficamos curiosos e tentei aproximar os olhos das referidas telas quando surge uma funcionária informando que eu estava invadindo o limite obra X visitante. Olhei meus pés e eles estavam atrás da faixa, respondi à referida que não estava invadindo. Minha esposa ficou indignada e eu acabei ficando também. Claro que respondemos à funcionária e a mesma não se deu por satisfeita, foi atrás de nós e insistiu que respeitássemos a regra e que ela só estava fazendo o trabalho dela. Minha esposa ainda perguntou se o trabalho dela era tirar o prazer do visitante e a mesma ainda insistiu em seus argumentos quando pedi a minha esposa que não mais dirigisse a palavra à funcionária em questão e disse à referida: “você já deu seu recado, ok? Obrigado e boa noite”. Claro que a agradeci por ela ter cumprido a determinação que o rapaz no início se esqueceu de informar aos visitantes:

  • não é permitido ter qualquer tipo de prazer ao observar as obras em exposição.

Após o episódio, confesso ter perdido a vontade de continuar ali, acabei não vendo o restante do acervo, saímos. Na recepção, minha esposa procurou a pessoa responsável pelo setor e fez a devida reclamação. A funcionária ainda tentou explicar que os funcionários apenas cumprem ordens, no que minha esposa perguntou: “mas o olhar é capaz de danificar a obra?”, a funcionária não soube responder. Sim, eu estava apenas olhando, com os braços atrás da cintura, com uma mão segurando o punho do outro braço. Nesse instante, outro funcionário ainda argumentou: “é que já passaram umas 10 mil pessoas pela exposição, os funcionários estão estressados” (10 mil em três dias?!?). Enfim, argumentos que impossibilitam qualquer continuidade do diálogo. Nesse momento, eu já estava do lado de fora do prédio, jurando a mim mesmo não colocar mais meus pés naquele lugar novamente.

A curiosidade persiste e me remete à questão colocada no início do texto. De que forma o CCBB Belo Horizonte busca aproximar o cidadão comum ao mundo das artes com essa política medíocre e tacanha de cercear o visitante como se o mesmo fosse um vândalo em potencial? Alguém que aguardou 40 minutos na fila. Se essa é a forma que insistem em tratar o visitante (e não é primeira vez que presencio tal situação) então não tenho o menor interesse em retornar a esse espaço que, aliás, logo na saída, enquanto aguardava minha esposa, ouvi um garoto conversando com um adulto. Dizia ele: “que lugar chato, não pode colocar nem a mão na parede”.

Pelo visto, minhas dúvidas permanecerão enquanto a arte permanecer apenas como vitrine do CCBB de Belo Horizonte. Que diria Wassily Kandinsky sobre este episódio? Talvez o mesmo que eu: lamentável.