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O mercado do rock descobriu o óbvio

Hoje apareceu para mim o clipe “When The Sinner”, do Helloween, da época do Michael Kiske, na fase mais pop da banda, um pouco antes do fim, na minha opinião. Comecei a pensar no assunto: bandas com uma determinada pegada resolvem “tentar” se vender ao mercado pop e se dão mal. Celtic Frost fez isso, foi fatal. Outras tantas fizeram, até Metallica. Foi fatal, na minha opinião. Mas, nesse caso, o público que nem conhecia Metallica, abraçou a ideia. Deu certo, Bob Rock sabia o que fazia.

Metallica conseguiu. Helloween, não. Como eu disse, foi fatal. Custou a cabeça de Kiske e, de uma certa forma, a vida de Schwichtenberg. Uma pena. Uma perda irreparável, o mercado não poupa ninguém. Sim, o mercado. Afinal, é pouco provável que toda a mudança e investimento tenha ocorrido somente pela iniciativa dos jovens músicos. Claro que não, o mercado apostou nisso.

É uma pena que a arte esteja tão dependente do mercado. Muita coisa boa sucumbiu aos caprichos do mesmo. Caprichos estes que Kiske insistiu em levar adiante, com seus diversos projetos mal sucedidos ao longo dos anos, os quais praticamente não conheço.

Porém, o mercado entendeu que a nova fase do pop é resgatar o que os anos 80 tinham de bom: tentar juntar os caquinhos e ressuscitar o que o próprio mercado tratou de matar nos anos 90. Iron Maiden entendeu o recado bem antes da maioria e tratou de repatriar Bruce Dickinson. O quinteto virou sexteto e deu muito certo do ponto-de-vista do mercado. Mesmo fazendo um sonzinho fraco e enjoativo, a banda fez algumas visitas ao passado e trouxe muitas alegrias aos fãs. Se reinventou, inventou uma forma diferente de fazer turnês e conseguiu até emplacar o repertoriozinho de novos álbuns dos últimos anos. Apesar da atual fase, nunca romperam com o passado como o Helloween ou Celtic Frost quiseram fazer. Como o Metallica fez, apesar do êxito. Vale lembrar que Metallica também revisitou o passado, meio que obrigatoriamente após os sucessivos fracassos de Load, Reload, etc.

Cartaz da turnê do show do Helloween em 2017 Cartaz do lançamento da turnê do Helloween no Brasil em 2017 com participação de Michael Kiske e Kai Hansen. Foto: divulgação

E o mercado, não tendo mais “novidades” a explorar, resolveu seguir o caminho do Iron Maiden: foi revisitar o passado. Quantas e quantas bandas trataram de se reunir novamente? Até Helloween, quem diria? E se reuniram meio que no estilo Maiden, juntou todo mundo pra fazer uma grande festa. O público daqui adorou, ingressos quase esgotados um ano antes da apresentação. Meses atrás resolveram trazer Ronnie James Dio de volta à vida, ainda que em forma de holograma. Mas ele estava lá, emocionando o público novamente como sempre fez em vida.

Isso é uma coisa boa, não nego. Recordar é viver. Muita gente, inclusive, nem era nascida nesse tempo. Vai recordar o que não viveu e vai achar lindo, porque foi linda essa fase e será eternamente linda. Uma pena que ela retorne à tona pelo viés do mercado. Não sei se prefiro isso ou visitar os túmulos das bandas que se foram. Na verdade, isso me remete às bandas que nunca se foram e estão aí até hoje.

Um exemplo inusitado de uma dessas bandas que nunca se vendeu e praticamente criou um estilo dentro do Metal é o do Venom (essa banda é sempre inusitada). Cronos não se dá com os antigos membros, Mantas e Abaddon. Ele seguiu com a banda, tentou reunir a formação clássica em algum momento, mas não deu certo. Eis que os dissidentes resolvem criar o Venom Inc, um outro Venom sem o Cronos, com Demolition Man nos vocais (antigo membro do Venom sem o Cronos, enfim). Como eu disse, é inusitado e muito válido. Agora temos dois Venoms. Duas bandas com base naquela dos anos 80, no melhor estilo underground, que nunca abandonaram as raízes e nem a disposição. Já pensou se a moda pega?

Aqui na terrinha, vale citar o Dr. Sin, um exemplo em vários sentidos, foi uma banda que virou as costas ao mercado, quando o mesmo exigiu que assumissem um viés mais pop, letras em português, etc. A banda rompeu com a gravadora e lançou Brutal, um trabalho independente e considerado um dos mais criativos da trajetória do grupo, que se recusou a romper com os fãs. A banda morreu por outros motivos. Conflitos de ego, talvez, mas nunca perdeu o apreço dos fãs. O Golpe de Estado, há 30 anos, quase acabou por conta da morte do Helcio Aguirra, mas resolveu continuar. Aproveitou o momento, fez um show recentemente e resolveu convidar Catalau (o eterno frontman) para fazer uma participação especial. Não pude comparecer, mas soube que o show foi lindo, emocionante.

Demorou, mas caiu a ficha. A moda agora é “ressuscitar os mortos”, no bom sentido do termo, juntar os integrantes, relembrar os tempos idos. Fico em dúvida se foi a ficha que caiu ou se foi o universo que conspirou a favor. É um movimento forte, não creio que o mercado possa controlar isso. Resiliente que é, o mercado não é bobo, resolveu aderir e colaborar para que pudéssemos ter o alento dos bons tempos, da época de ouro do metal, do rock. Não me iludo. Não acho que isso venha pra ficar. Mas vai ser muito bom enquanto durar.

Mainardi é minha Anta

“A grande mídia é golpista e tendenciosa!”. Ela direciona o foco para aquilo que quer e manipula a opinião pública sem deixar explícita a própria opinião ou o porquê de sua atitude. Ela se auto-declara “isenta”, muito embora saibamos que este quesito não existe. Ela é muito bem organizada e articulada. Há pessoas muito inteligentes trabalhando nela e o foco, seja ele qual for, é fruto de algo elaborado, às vezes nem tanto. Muitos usam essa frase citada no começo do texto, inclusive eu. É uma tese que defendo, mas tenho dificuldades para encontrar exemplos para ilustrar o raciocínio. Eis o exemplo que aguardava.

Inicialmente, não tem a ver com enxergar o Brasil com otimismo ou pessimismo. É possível dosar ambos e enxergá-lo com esperança, mas ter senso crítico suficiente para não descambar para nenhum dos extremos é fundamental para não cair em armadilhas da mídia, cujo modelo vigente funcionou bem por muito tempo, mas as coisas mudam, a realidade muda e a realidade do Brasil tem se modificado ao longo dos últimos anos. A grande mídia sempre foi “o filtro” e o que não é noticiado por ela, não é fixado no imaginário da opinião pública de um modo geral, logo tende a não ser verdade. Felizmente, como se diz por aí: shit happens. O modelo já começa a dar sinais de que algo não vai bem. Foi o que percebi quando vi o vídeo no qual a CEO de uma das maiores redes de lojas de varejo do país desconcerta os apresentadores de um dos programas mais queridos das classes A e B e o mote vira hit na internet. #gênio.

Luíza Trajano (presidente do grupo Magazine Luiza) foi recentemente entrevistada no programa Manhattan Connection e, por sua vez, confrontada com a própria síntese do pessimismo (em todos os sentidos, inclusive profissional): Diogo Mainardi. Digo péssimo porque Mainardi é um personagem que figura no “jornalismo”, mas não é jornalista. É filho de publicitário, mas não atua na publicidade. Diz-se que é escritor (?!?), mas, na verdade, a profissão de Mainardi é ser comentarista em TV e revista. Não sei se isso é profissão. Até aí, problema nenhum. Porém, Mainardi ganhou espaço na grande mídia por ser polêmico (?!?) e pára por aí.

Mas algo deu errado na fórmula pronta da Globo, a coisa ficou tão evidente que Mainardi acabou desnudado. Tentou “emparedar” Luiza de várias formas, porém antes se esqueceu de ler, se informar. Por não ter feito a lição de casa, Mainardi (que se auto-intitulou: o copo vazio, e nisso ele tem toda a razão) deu várias gafes durante o debate. Como garoto mimado que é (e amparado pelo empregador), tentou de todo modo enfiar goela abaixo suas afirmações de que “os juros aumentaram”, “o crédito diminuiu”, “a inadimplência aumentou pelo segundo ano consecutivo”, “a inflação aumenta”, “a indústria nacional foi sucateada”, etc. Perguntou quando Luiza irá vender sua empresa para a Amazon. Disse ainda “eu não vejo caminho pro varejista brasileiro”. E como bom vidente que é, disse que “se ainda não há crise, vai haver”.

Luiza porém, foi bastante hábil. Comentou sobre a questão da inadimplência do varejo, que, segundo ela, diminuiu (depois foi amplamente confirmada pela própria grande mídia). Explicou que o setor varejista é um mercado bastante promissor e também mostrou dados interessantes que tenho certeza de que os espectadores do Manhattan Connection não conheciam: apenas 8% da população tem TV de tela plana (acredito que de LCD, LED, etc.). 54% tem lavadora de roupas em casa. Enfatizou também a ação do governo federal como o Minha Casa Minha Vida enquanto alavanca para proporcionar infra-estrutura necessária para a organização dessa fatia específica da sociedade, consumidor em potencial. Já Mainardi soltou um “me poupe, por favor, Luiza, hehehe” quando esta se ofereceu para lhe enviar dados sobre o que ela estava defendendo. O escritor (?!?) não gosta de ler.

Luiza levantou os problemas em relação à burocracia brasileira, mas que o aumento de vendas no varejo é uma tendência mundial, que a Amazon, inclusive, pretende criar lojas físicas. Esse fato, no Brasil, significa, que vale a pena investir em melhoria na infra-estrutura das classes mais baixas, pois são as que tem bom poder de consumo e potencial em contribuir para o aquecimento da economia e isso é fato comprovado, com base nos dos últimos anos. Luiza, após questionada por Ricardo Amorim acerca do baixo crescimento do varejismo em relação a outros setores, afirma que o mercado de vendas no varejo é novo e está praticamente começando no país, que é o setor que mais gera emprego depois do governo (um dos maiores empregadores). Considerei este dado muito importante e acredito que muitos o desconheçam já que a grande mídia sempre coloca a indústria como grande empregadora, em especial as montadoras, que são estrangeiras, além de “queimar” os sindicatos, enfim, sacou a manipulação?

Lucas Mendes foi obrigado a concordar com Luiza, fez o mea culpa, meio na base do “eu acho que” e mudou o foco do debate, perguntou acerca da segurança nas compras on line feitas no Brasil e depois sobre o atendimento ao cliente. Luiza comentou sobre ambos os assuntos e foi novamente surpreendida por Mainardi dizendo que o problema no Brasil é preço, que no “Brasil tudo custa três vezes mais”, justamente no momento em que ela explicava uma situação presenciada numa farmácia em Nova Iorque sobre atendimento ao cliente e que não tinha nada a ver com preço. Mais uma gafe, mas que se tornou um momento divertido no programa e, mais uma vez, Lucas Mendes vem em socorro da entrevistada e cita uma escritora norte-americana que afirma a importância do atendimento em detrimento do preço, corroborando com o comentário de Luiza.

E Luiza é uma senhora simpática, respeitada, com linguajar mais popular, amiga da presidenta Dilma, mas é, antes de tudo, capitalista, dona de uma rede de lojas, empreendedora, próspera e tem como público-alvo o consumidor de classe B e C emergente. É afinada com o governo federal, mesmo porque o setor no qual ela atua sai beneficiado. Sim, ela tem seus interesses. Uma vez tive problemas ao comprar no Magazine Luiza, fui muito bem atendido e meu problema foi prontamente resolvido. Luiza é uma capitalista, mas a empresa dela me tratou com respeito.

Já Mainardi é minha Anta, não aprecio a pessoa dele, bem como não sou fã do Manhattan Connection. Nas poucas vezes em que assisti a esse programa, percebi que existe um script. Se Mainardi não é bem informado, não fala bem, não é lá muito polido, então qual a função dele no programa? A resposta que me ocorre é que Mainardi é algo como um bobo-da-corte. Um arquétipo que se contrapõe aos demais apresentadores. Alguém que fala justamente para ser contestado. É o Didi do Manhattan Connection, ou seja, uma Anta. Digo isso pois ele teve o mesmo comportamento em outro episódio, o mesmo comentário sem-graça, no mesmo time e no mesmo momento do programa. Coincidência? De todo modo, qual o problema dele ser uma Anta? Um brasileiro que vive em Veneza (coincidentemente a cidade ícone das máscaras da Commedia Dell’Arte) bancar o bobo na TV paga para um público que o adora? Quantos brasileiros gostariam de ser uma Anta como ele? Mainardi, como ele mesmo disse, é uma personificação, um personagem pago para tal e que usa uma máscara: a de alguém que olha de longe o Brasil com desdém.

Mais anta é quem acredita.

Suportes tecnológicos: a obra e os produtos derivados

Observar as diversas expressões de arte e seus respectivos suportes tecnológicos é algo muito interessante. Conforme a evolução da tecnologia, novos suportes são criados e, quando a obra é boa, ela “renasce” sob esses novos suportes, bem como obras lançadas originalmente em livro e que viram filmes. Ou filmes que viram jogos (ou o contrário). Gostaria de ater-me, nesse caso, exclusivamente ao primeiro exemplo.

Li vários livros e pensava, quando lia: “isso daria um ótimo filme”. Coincidência, ou não, a obra “renascia” como filme. Talvez, a idéia de filmar determinada obra fosse um tanto óbvia e outros também a tivessem, de preferência aqueles que tem condições de torná-la realidade. Sorte minha (ou não).

Obras devem ser apreciadas sempre no original, creio nessa afirmação, nunca se deve trocar um suporte tecnológico por outro, já que são distintos entre si e, nem sempre, visam o mesmo objetivo. Essa afirmação não se refere, obviamente a todas as obras. O mercado se encarregou de modificar a lógica ou de criar uma nova, criando obras que sugerem a continuação em outros diversos suportes tecnológicos. Hoje em dia existe uma infinidade destes. É algo planejado nesse caso.

Mas, produções distintas, isto é, quando o livro é escrito em uma época e o filme (por exemplo) é feito em outra, há que se ter a certeza de que um não deve substituir o outro, pois os formatos são diferentes e obviamente deve haver adaptações de um suporte para outro. Além destas, opiniões do diretor, roteirista e outros também são aspectos que interferem no resultado final, bem como no objetivo.

O expectador mais atento percebe a diferença entre ambos, quando consegue ter acesso a elas e, certamente ficará frustrado. É o meu caso. Já assisti a inúmeros filmes originados de livros. Na grande maioria dos casos, o resultado do produto é frustrante, se comparado à obra original. Alguns exemplos a citar: Carandiru, Diários de Motocicleta, Ensaio sobre a Cegueira, Crash – Estranhos prazeres e alguns tantos. Não há ordem que conduza à frustração, assistindo ao filme primeiro e lendo o livro depois, ou o contrário, ambos são incompatíveis entre si. O curioso é que são filmes belíssimos, possuem o aval dos respectivos autores – José Saramago, por exemplo, se emocionou ao assistir o filme de seu livro -, com exceção de Carandiru, cujo resultado achei péssimo, analisando-o individualmente e principalmente comparando-o com o excelente livro de Dráuzio Varella.

Esses filmes perdem muito do crédito, se comparados às respectivas obras originais. São tantas modificações feitas no roteiro, tantas “invenções”, tantas adaptações que o resultado fica quase outro. Se é assim, poderia-se criar uma outra narrativa diferente da obra original e não fazê-la parecer com a mesma do livro e ter tantas alterações que a tornam uma obra-original-mutante figurando noutro suporte tecnológico.

Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças. Imagem: Divulgação Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro, baseado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano.Mudar o contexto no enredo, por exemplo, é uma saída muito interessante, como no caso do filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, que partiu da história no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano, e a recriou em um contexto completamente diferente. O filme de Laís, cujo autor do livro foi um dos roteiristas, faz total referência à obra original, mas o filme tem um contexto próprio que o desvincula do livro, atribuindo identidade própria ao mesmo. Esse foi um dos livros que li pensando que daria um ótimo filme, e deu.

Porém, a maioria não é assim. Infelizmente, fazem modificações grotescas na história, inventam, mudam, costuram trechos e mudam muito o fluxo original da narrativa, o que torna o resultado muito diferente do original, uma pena. Sempre que assisto a filmes baseados em livros, procuro ler as obras e compará-las aos mesmos. Quase sempre é uma decepção.

A exceção à regra

Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima, uma delas. Imagem: Divulgação.Felizmente, há quem busque a preocupação de “verter” a obra em livro para o cinema sem destruir o original. Gostaria de saber de outros exemplos, mas conheço somente este: Meu Pé de Laranja Lima, lançado em 1970. Conheço a película desde a década de 80. Antes disso, assistia a novela de vez em quando, na TV Bandeirantes. E foi uma situação curiosa, em 1986, quando meu pai adquiriu o primeiro aparelho de videocassete. Nós todos empolgados em alugar filmes na locadora. A dúvida era sobre qual seria o primeiro filme a ser locado e minha mãe foi taxativa: “vai ser Meu Pé de Laranja Lima”! E foi. Todos assistimos, mas só eu fiquei com ele na memória. Já no início do século 21, achei o filme numa locadora e fiz questão de locar para a família assistir. Minha filha, ainda pequenina, chorou um bocado. Depois desse episódio, nunca mais vi esse filme em nenhuma locadora.

Apesar de gostar muito desse filme, nunca me interessei em ler a obra original e eis que, dia desses, fui ao shopping, precisava comprar o presente de aniversário para um colega de classe da minha filha. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o próprio, comprei dois. E qual não foi minha surpresa ao ler todo o livro e descobrir que o enredo do filme é praticamente o mesmo do livro. Tive de procurar o referido filme na rede, achei e reassisti para ter certeza do que estou falando, posto que faz anos que não o assisto. Felizmente, não estava enganado.

Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima, versão mais recente da editora Melhoramentos.O diretor Aurélio Teixeira (o “Portuga”), que é um dos atores principais e também um dos roteiristas, juntamente com o autor da obra, José Mauro de Vasconcelos, teve todo o cuidado de preservar o enredo original. A montagem deixou a desejar, a narrativa ficou um pouco rápida e o filme, em relação ao livro, perdeu um pouco da riqueza de detalhes. Mas, nada que o desabone. Manteve-se o respeito para com a obra original, até os diálogos do livro foram mantidos, algo raro. E o resultado é do tipo que eu gosto, bem próximo dos filmes de arte europeus, desprovido de efeitos, apenas a simplicidade de uma linda história, embora muito triste.

Nesse caso, é possível que a narrativa tenha contribuído para o desenvolvimento do filme como um todo, os atores desempenharam muito bem seus personagens, como o pequeno Júlio César Cruz, que interpreta Zezé, o protagonista da história. A ambientação do filme é muito boa, as locações, ou seja, uma confluência de fatores que permitiram, como resultado, um filme muito singelo, simples e direto, com um profundo respeito à obra original.

Meu Pé de Laranja Lima (o filme) é um exemplo de que é possível adaptar a narrativa de um livro para o cinema sem alterá-la geneticamente, como normalmente se faz, como manda a lógica da indústria “lucrativa” do entretenimento. Talvez, naquele tempo, a lógica fosse outra.

Fonte dos filmes: Filmow.com

Marketing viral, a gente vê por aqui

“Um mundo melhor, mais consciente e solidário”. De fato é a “Gota D’Água”!

Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação Logo do movimento Gota D'Água. Imagem: divulgaçãoMarketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.

Me refiro a este “Movimento Gota D’Água“, uma “entidade” que, da noite para o dia, aflorou na rede  e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.

De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma “mobilização nacional” em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve “vestir a camisa” e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito “de repente” para o meu gosto.

Ao acessar o site do Movimento, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a “missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma” e que o movimento “surgiu da necessidade de transformar indignação em ação” e com o objetivo de “usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais”, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito “de repente”.

Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste “projeto”, diz que o mesmo “apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum” e ainda “é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas”, que o “braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: ‘Movimento Xingu Vivo Para Sempre‘ e o ‘Movimento Humanos Direitos‘”. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: “direitos humanos são para os humanos direitos”.

Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG’s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos ou mesmo a Avaaz.

Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que o domínio do movimento Gota D’Água é do ator Sérgio Passarela Marone, criado em 09/2011. Já o do Xingu Vivo foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. O  do Humanos direitos pertence ao Instituto Humanitare e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.

Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em “protestos” desse tipo.

E tudo o que o Movimento Gota D’Água pede é “a sua assinatura”, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de “coletivos”) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de não-se-sabe-quem-ou-o-quê.

Sobre o vídeo, um “coletivo” de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo novela-das-oito. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como “Quem vai pagar?! Você vai pagar!”. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…

Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: o Xô CPMF! Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de manipulação, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.

Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca “na história desse país” vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.

De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. Vox populi vox Deo, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes “globais” que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via Facebook e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua “credibilidade”, amém.

Espaço do leitor:

Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):

A saga do prestador de serviços – parte 1

Webdesigner/desenvolvedor versus cliente

Os serviços de criação e desenvolvimento web são oferecidos no Brasil há mais de uma década e meia. Empresas começaram a buscar especialização neste campo, serviços passaram a ser oferecidos e o mercado cresceu, tanto que acabou inflando e ficou competitivo demais, saturado. Mas, com tanta mão-de-obra disponível, qual o perfil do cliente hoje?

Com mais de dez anos de experiência na área de criação e desenvolvimento para web, até hoje me pergunto: qual o perfil dos meus clientes? Qual o grau de conhecimento deles acerca da Internet? Qual o nível de interatividade possuem com a rede? De que forma eles a usam para gerar/complementar receita a seus negócios? E, por fim, o quanto eles valorizam o profissional responsável por trazem o negócio deles para a rede?

Quando analiso os fatos, concluo que o resultado é, no mínimo, frustrante. Meus clientes, e creio que este seja apenas um pequeno rol que representa a grande maioria dos clientes brasileiros, se pautam basicamente pelo investimento financeiro. Para eles, o melhor negócio resume-se na eficácia máxima com o mínimo de investimento, o maior lucro gerado com o menor valor investido. É cultural, é o jeito brasileiro de atuação no mercado. Com base neste cenário, os prestadores de serviço concorrem entre si tentando oferecer o melhor serviço ao menor custo possível. Dentre esses, me incluo.

Quando digo “oferecer um serviço com baixo custo”, me refiro a oferecer um serviço interessante ao cliente com um preço acessível, algo palpável, para que o mesmo aceite e fique satisfeito com o resultado (isso me gera portifólio, tenho interesse nessa relação e faço minha parte). Mas, nem sempre isso ocorre, e por quê? Isso ocorre por um motivo que acredito ser básico: o cliente conhece pouco sobre o ambiente e as ferramentas em que pretende investir. Isso mesmo, em boa parte das vezes, o cliente é completamente leigo e, sendo leigo, qualquer proposta é viável. Se qualquer proposta é viável, em qual (ou quais) parâmetro(s) ele vai se basear para contratar um serviço? O custo. E apenas o custo, porque o benefício desse custo ele ainda não conhece. E, por mais que o prestador de serviço se esforce para mostrar-lhe os (possíveis) benefícios do investimento, são apenas argumentos que poderão se concretizar com o tempo, conforme o cliente aderir à utilização do ambiente virtual e acostumar-se com o mesmo, ou não.

Tento estudar e compreender essa icógnita, mas é difícil. O cliente quer bons resultados, mas quer investir pouco, ou seria, segundo ele: o necessário. Enfim: é possível trabalhar com prestadores de serviço que cobram menos e ter um resultado satisfatório? Acredito que sim. Porém, ao adotar essa postura, é necessário que o cliente se preste a entender os mecanismos de funcionamento da rede, os aplicativos e ferramentas, a filosofia de uso e passe, efetivamente, a utilizá-los sob a orientação do prestador de serviços. Sim, render-se à orientação do prestador de serviços. Afinal, será mais caro se o prestador tiver de fazer todo o trabalho. Mas o cliente reconhece o trabalho e o esforço do prestador e a parte dele na relação, a chamada: parceria?. Infelizmente, na maioria das vezes, não. Em geral, ele acha caro o valor e, dependendo da situação, acha que pode cuidar de tudo sozinho e diz: “quero apenas o site, bem simplizinho e que eu mesmo possa atualizar”. Como se essa fosse a tarefa mais fácil do mundo. Acredite, não é! Por acaso isso já aconteceu contigo, webdesigner/desenvolvedor?

A partir deste post, pretendo criar uma pequena série na qual discutirei o assunto, fornecendo exemplos e também dando a mão à palmatória no que diz respeito às minhas falhas. Espero poder ler comentários de outros profissionais, inclusive de outras áreas. Não sei porque, creio que há muito a compartilhar e desabafar.

Caiu na rede…

O assunto já está um tanto ultrapassado, afinal, a rede é rápida. Mas sempre é válido relembrar e refletir. Segue meu comentário acerca de acontecimentos reais em consequencia de ações virtuais ocorridas há alguns meses.

Uma das vezes que assisti ao filme 1984, baseado no livro de George Orwell, fiquei (além de impressionado, com o filme e com a possibilidade do autor do livro vislumbrar uma situação como aquela em plena década de 40) imaginando como algo parecido poderia ocorrer no “aqui e agora”. Orwell faz uma profunda análise sobre a imagem enquanto recurso na vida do ser humano. Fico imaginando se a rede não seria este “grande irmão”, cujos olhos são as câmeras, além de outras tantas coisas mais.

Estava eu, certo dia (na verdade, noite), fazendo o que está escrito neste tweet, e eis que acesso o vídeo das duas mulheres de Sorocaba (Juliana Cordeiro e Vivian de Oliveira). Para quem ainda não ficou sabendo, este post explica bem a questão (se bem que é difícil não saber sobre este assunto já que foi até matéria no Fantástico). Um caso como tantos outros que, normalmente, não se fica sabendo, a não ser pelo fato de ter se tornado público através da rede.

Isso me deixa bastante pensativo e aflito. É tão tênue a linha entre a fama e o anonimato, taí o caso Geise Arruda, da gaúcha Maria da Graça, dentre outros ocorridos de outras formas como as demissões do diretor de marketing da Locaweb Alex Glikas e do editor da revista National Geographic no Brasil, Felipe Milanez. E o resultado impressiona tanto que eu me pergunto: isso é real? Até porque o desfecho acaba sendo mais irreal do que a história que conduziu os personagens a ele.

Enquanto usuário da internet (e testemunha virtual), acompanho a evolução deste ambiente há algum tempo e noto que situações como essas são cada vez mais frequentes. Um verdadeiro circo de horrores, podendo ser comparado (dadas as devidas proporções) ao período medieval, no qual as mortes em praça pública eram motivo de festa. A questão central é a festa.

Esta comparação é perfeitamente possível, posto que a internet é um “espaço” novo que começa a ser povoado e no qual os individuos passam a fazer uso do mesmo, povoando-o com seus perfis, comentários, vídeos, imagens e demais conteúdos. Penso que só agora as pessoas estão, de fato, experimentando a utilização do ambiente virtual. Porém, a forma como se dá esta experimentação traz resultados inusitados, consequencias drásticas ao mundo real, dada a disparidade entre os mundos, um já mais adiantado e outro recém-nascido. Analisando por este ponto de vista, é aceitável a ocorrência de fatos como esses.

O ambiente virtual é um repositório de informações, estas inseridas pelos próprios usuários. A participação ativa dos internautas torna a rede orgânica e muito rápida. O Trending Topics do Twitter é uma prova disso, o fenômeno CALA BOCA GALVAO e o fato de ter sido notícia no New York Times mostra que a rede é intrínseca ao cotidiano do ser humano.

Se a rede é uma ferramenta e o ser humano tem o  poder de atuar em grupo e gerar resultados, resta saber agora o que fazer com ela. Os exemplos citados acima demonstram que o ser humano ainda não se deu conta da lei de causa e efeito da rede. Ou é isso ou as consequências da utilização da rede (também segundo os exemplos) mudarão o cotidiano, banalizando situações de críticas e (des)sensibilizando ainda mais a humanidade. Pelo menos, é isso que percebo, vale citar também o caso do garoto (filho do dono da RBS, no Rio Grande do Sul) que aplicou o “boa noite Cinderela” em uma colega e a estuprou. Os comentários coletados pela polícia via MSN comprovam minha afirmação.

E por fim me pergunto, aonde isso vai dar? Estaria a humanidade alimentando o “grande irmão”? Seria esse “grande irmão” o futuro aniquilador da humanidade, o dono da “rede”? Arrisco um palpite, acredito que esse talvez seja o caminho da própria condenção da sociedade. Por permitir e alimentar essa tendência, por usar a rede com pouca responsabilidade. Como está sendo provado, as consequências tem sido desastrosas. Afinal, se caiu na rede… é peixe.

Dez falsos motivos para não votar na Dilma

Quando criei este blog, procurei levar ao máximo o slogan “Idéias e inquietações no mundo virtual”. Por este motivo, publico poucos posts pela falta de tempo em encontrar temas e/ou motivos relativos ao tal slogan. Porém, outras coisas e idéias também me inquietam, uma delas é a política, e como. Jurei não me pronunciar a respeito das eleições este ano, mas depois de receber este texto do Jorge Furtado (fundador da Casa de Cinema de Porto Alegre e diretor do curta “Ilha das Flores”, além de “Saneamento Básico” e “Meu Tio Matou um Cara”, entre outros), não me contive. Dei uma busca no Google e vi que o mesmo foi postado em vários blogs. Será postado neste também. É, sem dúvida, um ótimo roteiro pra rebater algumas bobagens que andam circulando por aí. Enviei o mesmo pro meu pai (serrista convicto) e disse a ele: “encaminhe se achar relevante ou rebata com algo mais relevante, acaso encontrar”. Boa leitura:

Dez falsos motivos para não votar na Dilma
(
por Jorge Furtado – publicado em 25 de julho de 2010)

Tenho alguns amigos que não pretendem votar na Dilma, um ou outro até diz que vai votar no Serra. Espero que sigam sendo meus amigos. Política, como ensina André Comte-Sponville, supõe conflitos: “A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir”.

Leio diariamente o noticiário político e ainda não encontrei bons argumentos para votar no Serra, uma candidatura que cada vez mais assume seu caráter conservador. Serra representa o grupo político que governou o Brasil antes do Lula, com desempenho, sob qualquer critério, muito inferior ao do governo petista, a comparação chega a ser enfadonha, vai lá para o pé da página, quem quiser que leia. (1)

Ouvi alguns argumentos razoáveis para votar em Marina, como incluir a sustentabilidade na agenda do desenvolvimento. Marina foi ministra do Lula por sete anos e parece ser uma boa pessoa, uma batalhadora das causas ambientalistas. Tem, no entanto (na minha opinião) o inconveniente de fazer parte de uma igreja bastante rígida, o que me faz temer sobre a capacidade que teria um eventual governo comandado por ela de avançar em questões fundamentais como os direitos dos homossexuais, a descriminalização do aborto ou as pesquisas envolvendo as células tronco.

Ouço e leio alguns argumentos para não votar em Dilma, argumentos que me parecem inconsistentes, distorcidos, precários ou simplesmente falsos. Passo  a analisar os dez mais freqüentes.

1. Alternância no poder é bom.

Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre
a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.

2. Não há mais diferença entre direita e esquerda.

Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de “esquerdistas” , como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da “direita” do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Borhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Borhausen, José Sarney é Che Guevara.

3. Dilma não é simpática.

Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito “simpatia” depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.

4. Dilma não tem experiência.

Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.

5. Dilma foi terrorista.

Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações “terroristas”. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.

6. As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano.

Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate “quem começou o quê” torna-se irrelevante.

7. Serra vai moralizar a política.

Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista “no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC” foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela Operação Sanguessuga. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais
corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com engavetador da república, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de mensalão foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de  vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no mensalão do DEM. Roberto
Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.

8. O PT apóia as FARC.

Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências
ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?

9. O PT censura a imprensa.

Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram “a posição oposicionista (sic) deste país” . Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.

10. Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra.

Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele.

(1) Alguns dados comparativos dos governos FHC e Lula.

  • Geração de empregos: 
FHC/Serra = 780 mil x Lula/Dilma = 12 milhões
  • Salário mínimo: 
FHC/Serra = 64 dólares x Lula/Dilma = 290 dólares
  • Mobilidade social (brasileiros que deixaram a linha da pobreza):
 FHC/Serra = 2 milhões x Lula/Dilma = 27 milhões
  • Risco Brasil: 
FHC/Serra = 2.700 pontos x Lula/Dilma = 200 pontos
  • Dólar:
 FHC/Serra = R$ 3,00 x Lula/Dilma = R$ 1,78
  • Reservas cambiais: 
FHC/Serra = 185 bilhões de dólares negativos x Lula/Dilma = 239 bilhões de 
dólares positivos.
  • Relação crédito/PIB: 
FHC/Serra = 14% x Lula/Dilma = 34%
  • Produção de automóveis: 
FHC/Serra = queda de 20% x Lula/Dilma = aumento de 30%
  • Taxa de juros:
 FHC/Serra = 27% x Lula/Dilma = 10,75%

(2) Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo de 25.07.10:

José Serra começou sua campanha dizendo: Não aceito o raciocínio do nós contra eles, e em apenas dois meses viu-se lançado pelo seu colega de chapa numa discussão em torno das ligações do PT com as Farc e o narcotráfico. Caso típico de rabo que abanou o cachorro. O destempero de Indio da Costa tem método. Se Tupã ajudar Serra a vencer a eleição, o DEM volta ao poder. Se prejudicar, ajudando Dilma Rousseff, o PSDB sairá da campanha com a identidade estilhaçada. Já o DEM, que entrou na disputa com o cocar do seu mensalão, sairá brandindo o tacape do conservadorismo feroz que renasceu em diversos países, sobretudo nos Estados Unidos.

Fonte: Casa de Cinema - Porto Alegre/RS