pessoal
O adeus ao Homem da Boa Sorte
by Marcelo Muraro on fev.25, 2010, under pessoal, sociedade, tecnologia
Logo após o Carnaval de 2009, nos mudamos para esta cidade em Minas Gerais. Em busca de melhoria e conforto para a família, saíamos sempre à procura de casas para alugar (um assunto à parte…) e, “passando” pelo Distrito de Passagem de Mariana, nos deparamos com um senhor todo vestido de branco, cabeludo, barbudo, fumando um cigarro. Era, sem dúvida alguém incomum, perguntamos se ele sabia de alguma casa disponível, disse que não mas nos indicou um lugar onde pudéssemos obter a informação. Encontrar alguém, visualmente, parecido comigo, me fez sentir menos incomodado. Afinal, também sou cabeludo e barbudo e, até então, não estava sendo uma experiência das melhores.
Algum tempo depois, andando por Ouro Preto, paramos no café do espaço cultural da Fiemg, eis que surge um senhor todo vestido de brando e, educadamente, se ofereceu para mostrar seu trabalho. Eu, mau-humorado, de início não o reconheci e não dei muita atenção, achei que poderia ser mais um daqueles a nos aborrecer para comprarmos algo (e eu já estava aborrecido), mas minha esposa o reconheceu e ele também se lembrou de nós, me “desaborreci” por um instante. O trabalho dele consistia em anéis, brincos e outros objetos feitos com diversos metais, corais e pedras preciosas. Apesar de muito bonito, não compramos nada. Mais tarde, o encontramos na saída da cidade, pedindo carona, e o convidamos a ir conosco. Acabamos conhecendo sua casa, esposa, filha e o irmão, que passou por ali para visitá-los. Conheci seu ateliê e sua produção, bem como alguns experimentos de instrumentos musicais, os quais fez questão de me mostrar pra ver se, de repente, eu tinha alguma opinião ou contribuição a dar, já que soube que eu lido com música.
O senhor a que me refiro é Jamil Assaf. Libanês, chegou ao Brasil com cerca de seis anos de idade. Artesão da velha guarda de Belo Horizonte, na época da ditadura militar, foi um dos fundadores do Bairro Santo Antônio do Leite (em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto), bastante vivido e experiente na arte e ofício da vida. Eu sempre aprendia algo edificante com ele em pouco tempo de papo. Dizia que quando ia à Ouro Preto, “ia como um guerreiro”, referindo-se à energia ruim do lugar. Para ele, “sofrimento é importante, porque nos torna fortes”. Explicava-me sobre a matéria-prima do seu artesanato, aspectos históricos da região aonde morava (Passagem de Mariana), dizia que o Estado de Minhas Gerais se formou ali. Morava próximo à Mina da Passagem, de onde se extraía cerca de 500 kg de ouro por mês nos “áureos” tempos. Foi ele que me explicou uma das possíveis origens do termo “uai”, descobriu que foi por conta dos ingleses que diziam o tempo todo: “all right!” e os empregados, matutos, se apropriaram do termo e criaram a própria versão.
Na última vez que fui visitá-lo, Jamil havia mudado de endereço, na mesma rua, uma casa com quintal de fundos para uma área de mata preservada, fez amizade com macaquinhos saguis e os recebia frequentemente, alimentando-os com frutas; as minhas filhas adoraram. Estava contente com a mudança, já que a casa antiga não tinha quintal. Mostrava o que havia conseguido plantar em um pequeno pedaço de terra com pouco mais de 10 cm de profundidade, seu forno rústico para queimar objetos de cerâmica, cuja técnica lhe permitia atingir cerca de 1000 graus celsius. Porém, naquele dia, percebi que havia uma novidade na vida do Jamil, algo que ele ainda não havia tido a oportunidade de explorar: a tecnologia.
Logo que entramos, vi, pela janela, um computador em um dos quartos da casa, sem a tampa do gabinete, ele disse que havia ganhado há alguns dias, mas que ainda faltavam algumas peças (HD, memória RAM e fonte). Uma amiga que estava conosco ofereceu de presente um notebook antigo. Jamil estava animado com a novidade, comentou que já tinha uma conta no Orkut. O intuito era usar o equipamento para escrever suas memórias e, de repente, a internet para divulgar e ampliar seu trabalho e suas idéias. Dias depois, soube que ele estava um tanto chateado pois nem chegou a usar o notebook, que havia parado de funcionar, pediu para que eu desse uma olhada, um modelo Toshiba Tecra, bem antigo. Não havia muito o que fazer e deixei o equipamento guardado, até encontrar uma oportunidade para devolvê-lo. Entretanto, não houve tempo.
No dia 11 de fevereiro, quinta à noite, a esposa dele ligou e comentou que o mesmo estava hospitalizado há uma semana e que o estado de saúde dele era crítico, estava tentando transferí-lo para algum hospital em Belo Horizonte, disse que o fígado estava bastante comprometido e que era necessário um transplante, embora a equipe médica fosse incapaz de dar um parecer preciso sobre o caso. Na sexta, fui visitá-lo no hospital e fiquei impressionado com a situação em que Jamil se encontrava. Estava mal, com as pernas bastante inchadas, hemorragia no esôfago, com fome e sentido muita dor, a equipe do hospital parecia não dar muita importância ao paciente (outro assunto à parte…). Passei pouco mais de uma hora com ele, na esperança de atenuar-lhe o sofrimento. Entre os intervalos de crise de dor, conseguia conversar. Com a voz fraca, disse: “Você vê? Levaram o computador embora”. Fiquei surpreso: O de mesa? Como assim, Jamil? Não te deram a máquina? “Sim, mas a irmã do doador disse que não havia sido consultada e foi buscá-lo de volta”. Desfeitas à parte, Jamil não perdeu grande coisa, já que o equipamento estava incompleto. Ele lamentou também pela perda do notebook, mas “também, no estado em que me encontro, não poderia usá-los”. Notei que ele estava peculiarmente chateado com essa história, mas tinha algo mais “latente” que o incomodava naquele momento: a dor. Em uma das crises eles levantou os braços e disse: “Ô Deus, me livra desta dor!”.
O horário de visita havia acabado, me despedi dele e da família e saí. Ainda na porta do quarto, dei uma última olhada nele, estava pálido e transtornado, e de certa forma eu também. Saí de lá com vontade de chorar, me perguntando se a questão dos computadores não ajudou a agravar seu estado de saúde; se eu não poderia ter feito algo para ajudar (embora não soubesse como, sempre tive um “senão” em dar computadores velhos como presente, justamente por estarem velhos); se ele conseguiria sair vivo da situação em que estava. Passei o restante do dia bolado, com dor de cabeça e sem chegar a nenhuma conclusão.
Por volta de 6h30 do dia seguinte, o celular da minha esposa tocou. Ela se levantou correndo e atendeu. Eu estava um tanto insonado e a ouvi dizer, chorando: Ai não!! Jamil finalmente havia se livrado da dor, Deus lhe concedeu o pedido. Morreu por volta de 3h da madrugada, como o cavalheiro que sempre foi: no instante em que a esposa cochilou. Morreu com fome e com vontade de ter tido um computador.
Má sorte? Quem pode afirmar? É bem provável que não. Em Ouro Preto, Jamil é conhecido como “o Homem da Boa Sorte”. Decerto, a sorte o acompanhará, aonde quer que esteja.
Outro ano e um novo re-começo
by Marcelo Muraro on fev.11, 2010, under pessoal
Durante minha vida profissional, sempre mantive uma certa distância de blogs, não por preconceito ou desrespeito, mas é que venho de uma cultura mais antiga, sou da área de informática há 19 anos e muita coisa mudou de lá pra cá. O fato é que nunca entendi direito para que serve um blog, mesmo assim, em 2008, resolvi criar um, escrevi quatro posts e fiquei mais de um ano parado, por falta de tempo, por falta (ou excesso) de idéias, pela falta de foco, pela bagunça que é o meu dia-a-dia, enfim, a tarefa de “blogar” ficou sempre no final da fila e esse post não é uma garantia de mudança.
Mas, muita coisa mudou desde o último post, tanto na minha vida individual quanto na coletiva, e isso inclui o ambiente virtual. Senti necessidade de voltar a expor minhas idéias, mesmo que isso não seja “relevante” e/ou não interesse à maioria. Ainda não achei o foco deste, mas sigo, simplesmente alimentando a prática de escrever.
Comecei a blogar pouco tempo depois de ter contratado uma hospedagem para publicar os sites de meus clientes (tenho o host, nada mais fundamental do que ter o próprio site), fiquei vasculhando e avaliando por muito tempo qual seria o melhor sistema a adotar: WP, Drupal, Joomla… Concluí que todos são relativamente bons e me decidi pelo WP. Desde então, perdi um bom tempo tentando entender o mecanismo, o funcionamento e tal.
Aliás, essa minha experiência com o WordPress tem sido bastante interessante, já estou mais familiarizado com o mesmo, produzi alguns templates, e alguns sites usando-o como gerenciador de conteúdo. Porém, “casa de ferreiro, espeto de páu”, logo no começo, achei um template bacana, traduzi-o, inseri alguns plugins, deixei-o mais ou menos como queria, muito bem. Há alguns dias, notei que havia uma atualização disponível para o mesmo, cliquei e perdi o tema. Estou usando este temporariamente (que é bem legal) até que surja vontade e inspiração para contruir um, acho que dá mais trabalho personalizar um tema do que construí-lo do zero. Na verdade, são tarefas distintas (e complementares), mas como estou acostumado a iniciar as tarefas do zero ainda prefiro seguir nesta linha. Se bem que é hora de procurar por mudanças e a prática da personalização é algo mais que natural nos dias de hoje, a existência de licenças do tipo Creative Commons é uma realidade e, sem dúvida, da maior importância. Estou bem curioso para saber como será o futuro, por exemplo, daqui há 50 anos.
Falando em futuro, uma das metas para o (meu) futuro (próximo) é mudar de assunto, pois todos os meus cinco posts estão falando desta necessidade de mudança e da mudança propriamente dita. É algo revolucionário, mas há que se ter uma mente muito flexível para aceitar estas mudanças, a minha não é, mas de tanto apanhar, está aprendendo a ser.
E assim dá-se início a um novo re-começo.
e mais um ano começa
by Marcelo Muraro on jan.01, 2009, under pessoal
Gostaria de ter escrito um post ontem, para fechar 2008, mas preferi não ligar o computador e entrar no clima de folga. Hoje, aproveitei o sossego e resolvi arrematar mais umas pendências. Aliás, essa será a principal meta do ano: arrematar pendências. 2008 foi um ano difícil e decisivo para mim, me apontou caminhos, me mostrou o quão ruim as coisas podem ficar por não fazer as escolhas por conta própria. Mostrou também o leque de possibilidades a escolher que podem melhor nortear o caminho profissional. Sobretudo, mostrou que a indecisão pode matar e isso o Drauzio Varella já vem dizendo há um tempão. Enfim, 2008 serviu para me tirar do estado de letargia, levantou a poeira e isso nunca é agradável, porque remete a mudanças, cujo processo em si e bastante trabalhoso. E assim começa 2009, um ano promissor sob vários aspectos, algumas expectativas, caminhos apontados (os quais já estou seguindo).
E a web tem muito haver com isso, principalmente pelo fato de ditar tendências que influenciam o aspecto social e isso me traz muito a refletir no que diz respeito tanto à questão profissional e técnica (já que trabalho com aplicações web há alguns anos) como também no social, enquanto usuário da web, das aplicações de mídia social, etc. Mídia social, aliás, é um assunto que está em voga ultimamente, chamando a atenção de pesquisadores da academia (outra área na qual me incluo também). Analiso a mesma sob os dois aspectos: técnicos e social e percebo que existe uma certa “sociabilidade” no ambiente técnico e um “tecniciscmo” no ambiente social. Afinal, é preciso ter um conhecimento técnico (ainda que mínimo) para usufruir dos benefícios da web de uma forma mais ampla, assim como o código é algo que tem sido assimilado pelas comunidades do ambiente técnico de uma forma cada vez mais “social”. Me lembro da frase/slogan: “code is poetry” localizada no rodapé da home do wordpress. Pessoas se comunicam através do código que desenvolvem coletivamente. O próprio termo “código livre”, no qual todos têm acesso e podem interferir, criar implementos, sugerir melhorias e assim por diante. Tem que haver um mínino de “sociabilidade” nesse código para que a comunicação seja estabelecida e esse é um aspecto interessante a se perceber.
E mais um ano se inicia, com expectativas, metas, projetos, sempre no intuito de buscar contribuir com algo de bom para o mundo, a web é um caminho. Está bem da forma como está, produtiva, quebrando paradigmas, rompendo barreiras territoriais, isso me parece promissor. Que seja… Bem vindo 2009.
CC, CC e outras tendências
by Marcelo Muraro on dez.23, 2008, under pessoal, sociedade e mídia
Para quem trabalha com informática há mais de 15 anos, como é o meu caso, é impressionante observar a evolução e a (re)volução que esse “processo evolutivo” vem causando na sociedade de um modo geral. A mim, especificamente, que pude acompanhar este cenário desde o início da década de 1990, enquanto participante e observador, notei que essa evolução passou do hardware para o software e agora tem ocorrido uma espécie de “disseminação” da produção de software e, mais importante, a possibilidade de softwares distintos poderem trabalhar concomitantemente em função de determinada aplicação.
Isso é o que se pode chamar de ambiente colaborativo e a própria inquietação desse ambiente deu origem a termos muito interessantes que devem ser estudados a fundo como Cloud Computing, Creative Commons, entre outras tendências. Basicamente dois conceitos básicos: A “computação nas nuvens”, cujo processo e resultado estão disponíveis na rede, e a licença creative commons, que permite a livre circulação da informação com alguns direitos autorais preservados. Isso, sem dúvida, amplia a noção do “público” bem como a necessidade de que todos devem contribuir e respeitar para que determinado projeto possa antender a um número de pessoas cada vez maior.
O que me inspirou a escrever sobre esse assunto foi o diretório de plugins do Wordpress (uma porção de scripts e programas que tornam o Wordpress muito mais funcional e divertido), feitos por pessoas e equipes distintas ao redor do mundo, gratuitos e disponíveis na rede (nas nuvens). Esse conceito (em termos práticos) é novo para mim, assim como outras coisas que pretendo experimentar mais a fundo. Não apenas o conceito, mas a forma como isso é colocado aos usuários, você pode ter acesso ao código fonte e contribuir com sugestões e/ou informações adicionais que favoreçam ao projeto como um todo, fantástico! Acredito ser esse momento o princípio de um futuro muito promissor, verdadeiramente colaborativo e, quem sabe, seja esse o modelo que possa sair do virtual e ser praticado também no ambiente presencial.
Enquanto isso, estou começando a conhecer os tais plugins disponíveis para Wordpress, ainda na difícil tarefa de (re)começar. Porém, ainda com um certo entusiasmo. Vamo que vamo!
A dificuldade do re-começo
by Marcelo Muraro on dez.22, 2008, under pessoal
Depois de anos e anos trabalhando em uma linha específica e descobrir que essa linha já era, o re-começo é algo muito penoso e beira os limites do impossível, às vezes, como reciclar-se? Qual caminho seguir? Qual técnica? Qual software? São tantas as perguntas que o acúmulo bloqueia. Eis a tarefa do re-começo.
Blog não é um assunto novo pra mim, entretanto, nunca dei a menor bola para esse assunto. Porém, o que me atrai em utilizá-lo, logo agora, praticamente, no final da carreira (porque carreira hoje em dia é algo extremamente perecível) é a análise dos recursos disponíveis, como o Wordpress, pro exemplo. Faz tempo que quero instalá-lo, ver como funciona e tal. Mas nunca sobrava tempo e gente mais velha demora mais pra fazer as coisas. Não que eu seja velho fisicamente, é um lance de mente mesmo.
Ferramentas de gerenciamento de conteúdo (CMS), adesão a utilização dos blogs, padrões web, frameworks, esses e outros termos têm me torturado a mente já há algum tempo. Bom, há que se começar por algum caminho, tenho muitas idéias, mas sem saber direito por onde começar. Criei uma conta na DreamHost, descobri que o Wordpress é um sistema feito em PHP que tem vários plugins, o caminho é esse.
Então, vamos ver como funciona esse negócio.