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	<title>BLOG - marcelomuraro.com &#187; sociedade</title>
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	<description>ideias e inquietações no mundo virtual</description>
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		<title>Marketing viral, a gente vê por aqui</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2011 15:24:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcelo Muraro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Considerações acerca do Movimento Gota D'Água contra a construção da usina de Belo Monte pelo Governo Federal e do marketing viral gerado em condições adversas. Importante para reflexão a partir da pesquisa dos respectivos domínios dos sites envolvidos.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
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<p>
<a href="http://blog.marcelomuraro.com/wp-content/gallery/diversas/movimentogotadagua.jpg" title="Logo do movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação" class="shutterset_singlepic10" >
	<img class="ngg-singlepic ngg-left" src="http://blog.marcelomuraro.com/wp-content/gallery/cache/10__310x158_movimentogotadagua.jpg" alt="Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação" title="Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação" />
</a>
Marketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.</p>
<p>Me refiro a este &#8220;<a title="Site do Movimento Gota D'Água" href="http://movimentogotadagua.com.br/" target="_blank">Movimento Gota D&#8217;Água</a>&#8220;, uma &#8220;entidade&#8221; que, da noite para o dia, aflorou na rede  e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.</p>
<p>Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.</p>
<p>De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma &#8220;mobilização nacional&#8221; em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve &#8220;vestir a camisa&#8221; e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito &#8220;de repente&#8221; para o meu gosto.</p>
<p style="text-align: center;"><object width="425" height="350" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="data" value="http://www.youtube.com/v/TWWwfL66MPs" /><param name="quality" value="high" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/TWWwfL66MPs" /><embed width="425" height="350" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/TWWwfL66MPs" data="http://www.youtube.com/v/TWWwfL66MPs" quality="high" /></object></p>
<p>Ao acessar o <a title="Site do Movimento Gota D'Água" href="http://movimentogotadagua.com.br/" target="_blank">site do Movimento</a>, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a &#8220;missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma&#8221; e que o movimento &#8220;surgiu da necessidade de transformar indignação em ação&#8221; e com o objetivo de &#8220;usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais&#8221;, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito &#8220;de repente&#8221;.</p>
<p>Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste &#8220;projeto&#8221;, diz que o mesmo &#8220;apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum&#8221; e ainda &#8220;é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas&#8221;, que o &#8220;braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: &#8216;<a title="Site do Movimento Xingu Vivo para Sempre" href="http://www.xinguvivo.org.br/" target="_blank">Movimento Xingu Vivo Para Sempre</a>&#8216; e o &#8216;<a title="Site do Movimento Humanos Direitos - MHuD" href="http://www.humanosdireitos.org/" target="_blank">Movimento Humanos Direitos</a>&#8216;&#8221;. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: &#8220;direitos humanos são para os humanos direitos&#8221;.</p>
<p>Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG&#8217;s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a <a title="Site da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos" href="http://www.social.org.br" target="_blank">Rede Social de Justiça e Direitos Humanos</a> ou mesmo a <a title="Site da Avaaz" href="http://www.avaaz.org/po/" target="_blank">Avaaz</a>.</p>
<p>Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que <a title="Informações fornecidas por Registro.BR" href="https://registro.br/cgi-bin/whois/?qr=movimentogotadagua.com.br" target="_blank">o domínio do movimento Gota D&#8217;Água</a> é do ator <a title="Mais sobre Sérgio Marone na Wikipédia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Marone" target="_blank">Sérgio Passarela Marone</a>, criado em 09/2011. Já o do <a title="Informações recolhidas no site Registro.BR" href="https://registro.br/cgi-bin/whois/?qr=xinguvivo.org.br" target="_blank">Xingu Vivo</a> foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal <a title="Laboratório Brasileiro de Cultura Digital" href="http://culturadigital.br/" target="_blank">Laboratório Brasileiro de Cultura Digital</a>. O  do <a title="Informações recolhidas em DomainTools.com" href="http://whois.domaintools.com/humanosdireitos.com" target="_blank">Humanos direitos</a> pertence ao <a title="Site do Instituto Humanitare" href="http://humanitare.org" target="_blank">Instituto Humanitare</a> e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.</p>
<p>Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), <a title="Reportagem da Folha de SP sobre dom Cappio" href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u357048.shtml" target="_blank">o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra</a> e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em &#8220;protestos&#8221; desse tipo.</p>
<p>E tudo o que o Movimento Gota D&#8217;Água pede é &#8220;a sua assinatura&#8221;, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de &#8220;coletivos&#8221;) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de <em>não-se-sabe-quem-ou-o-quê</em>.</p>
<p>Sobre o vídeo, um &#8220;coletivo&#8221; de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo <em>novela-das-oito</em>. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como &#8220;Quem vai pagar?! Você vai pagar!&#8221;. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…</p>
<p>Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: <a title="Domínio do movimento Xô CPMF!" href="http://xocpmf.com.br/" target="_blank">o Xô CPMF!</a> Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas <a title="Informações recolhidas em Registro.BR" href="https://registro.br/cgi-bin/whois/?qr=xocpmf.com.br" target="_blank">o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen</a>, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de <strong>manipulação</strong>, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.</p>
<p>Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca &#8220;na história desse país&#8221; vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.</p>
<p>De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. <em>Vox populi vox Deo</em>, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes &#8220;globais&#8221; que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via <a title="Site do Facebook" href="http://facebook.com" target="_blank">Facebook</a> e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua &#8220;credibilidade&#8221;, amém.</p>
<h4>Espaço do leitor:</h4>
<p><em>Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):</em></p>
<ul>
<li>Colaboração enviada por Calasan: <a title="De(s)cu(l)pando Belo Monte (por Calasan)" href="http://tabnarede.wordpress.com/2011/09/07/desculpando-belo-monte/" target="_blank">http://tabnarede.wordpress.com/2011/09/07/desculpando-belo-monte/</a></li>
<li>Luis Nassif On line: <a title="Os Belos e Belo Monte" href="http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-belos-e-belo-monte" target="_blank">http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-belos-e-belo-monte</a></li>
<li>Luis Nassif <a title="Brasilianas.org sobre a Usina de Belo Monte" href="http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/brasilianasorg-sobre-a-usina-de-belo-monte" target="_blank">http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/brasilianasorg-sobre-a-usina-de-belo-monte</a></li>
<li>Eliane Brum (Revista Época): <a title="Um procurador contra Belo Monte - por Eliane Brum" href="http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/09/um-procurador-contra-belo-monte.html" target="_blank">http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/09/um-procurador-contra-belo-monte.html</a></li>
<li>Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada): <a title="ABIN identifica as ONGs estrangeiras que boicotam Belo Monte" href="http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/07/05/abin-identifica-as-ongs-estrangeiras-que-boicotam-belo-monte/" target="_blank">http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/07/05/abin-identifica-as-ongs-estrangeiras-que-boicotam-belo-monte/</a></li>
<li>Vídeo de campanha de atores famosos norte-americanos parecidíssimo com o da campanha &#8220;belo-MOTE&#8221;: <a title="5 Friends Uncensored" href="http://t.co/OZVqhkdO" target="_blank">http://t.co/OZVqhkdO</a></li>
<li>Olhar Virtual (UFRJ): <a title="O futuro da usina Belo Monte" href="http://www.olharvirtual.ufrj.br/2010/index.php?id_edicao=293&amp;codigo=3" target="_blank">http://www.olharvirtual.ufrj.br/2010/index.php?id_edicao=293&amp;codigo=3</a></li>
<li>Vídeo, mix bem humorado em resposta (uma das possíveis) à campanha dos globais: <a title="BELO MONTE, QUEM MANDA NO BRASIL" href="http://www.youtube.com/watch?v=406Yb2hPlmI" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=406Yb2hPlmI</a></li>
<li>Eliane Brum entrevista Célio Bermann (USP): <a title="Belo Monte, nosso dinheiro e o bigode do Sarney" href="http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html" target="_blank">http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html</a></li>
<li>Projeto de filme-documentário sobre  Belo Monte: <a title="Belo Monte - Anúncio de uma Guerra" href="http://catarse.me/pt/projects/459-belo-monte-anuncio-de-uma-guerra" target="_blank">http://catarse.me/pt/projects/459-belo-monte-anuncio-de-uma-guerra</a></li>
<li>Lucas Assis: <a title="Movimento Gota D’Água: A Comercialização do Consenso" href="http://lucasassisdotorg.wordpress.com/2011/11/19/movimento-gota-dagua-a-comercializacao-do-consenso/" target="_blank">http://lucasassisdotorg.wordpress.com/2011/11/19/movimento-gota-dagua-a-comercializacao-do-consenso/</a></li>
<li>Verifique os fatos (vídeo): <a title="Verifique os Fatos - Belo Monte" href="http://www.youtube.com/watch?v=feG2ipL_pTg" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=feG2ipL_pTg</a></li>
</ul>

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		<title>Réquiem Lenitivo: contrabaixo, macinstosh, suicídio e temas afins</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Dec 2010 23:50:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcelo Muraro</dc:creator>
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<p>Quando soube que eu, apesar de ter parado, já havia estudado contrabaixo acústico, há alguns anos, e tinha tido aulas com um ex-colega de orquestra dele, Venâncio prometeu me dar alguns métodos de contrabaixo que tinha em casa e não usava mais. Achei legal a ideia, quem sabe eu poderia, um dia, retomar os estudos. Foi também um dos responsáveis por eu ter aderido à plataforma Mac e ter, inclusive, adquirido um Macbook. Ela era aficcionado pela Apple e já trabalhava com Mac há uma década. Nos laboratórios do prédio onde lecionávamos havia somente macintoshes, o que ajudou na minha tomada de decisão. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos, às vezes, no trajeto de ida e volta para o trabalho (com cerca de 40 minutos cada), eu sempre aprendia algo com ele (acho que é, ou pelo menos deveria ser, a função de todo ser humano nesta vida: aprender e evoluir).</p>
<p>Além do lado profissional, Venâncio era um bom conhecedor de vinhos, queijos e boa gastronomia. Ficou conhecido, na van, como um sujeito &#8220;sofisticado&#8221;, indicava marcas de azeites, queijos, vinhos e outros. E quando a conversa era no caminho de volta, servia de estímulo para que todos chegassem em casa com mais fome. Foram divertidas essas viagens, algumas das boas recordações que guardo desse período. Em uma delas, havia chovido e levei meu guarda-chuva (famoso entre os ex-colegas pela idade, hoje está com 21 anos). Por conta de um assunto que conversávamos, peguei o guarda-chuva e fingi carregar uma espingarda calibre 12 e disse: &#8220;tá vendo? Estou preparado, e é cano serrado&#8221;. Venâncio respondeu: &#8220;mas é pior ser cano serrado, o tiro sai com menos pressão&#8221;. Perguntei como ele sabia disso e ele respondeu: &#8220;porque eu tenho uma em casa&#8221;.</p>
<p>Certo dia, convidei Venâncio com sua esposa e enteado para almoçar em casa, havia preparado sushi e sashimi (<em>hobby </em>que pratico até hoje). Neste dia, fiquei conhecendo a família dele e os nossos respectivos filhos brincaram extremamente bem. Ele me trouxe alguns aplicativos para Mac e me deu alguns toques e dicas de como utilizá-lo. Já era fim de tarde quando sugeri tomarmos um vinho e ele disse: &#8220;Puxa, fica pra um outro dia, estou com mais de 60 provas pra corrigir das aulas em Itu, tenho que estar sóbrio pra encarar a &#8216;tarefa&#8217;&#8221;. Ele tinha razão, haja vista o sufoco que passou durante o semestre em que lecionou por lá. Tanto é que abriu mão das aulas, permancendo exclusivamente no campus de Salto. O vinho acabou, de fato, ficando para uma &#8220;próxima&#8221;, mas ficamos de combinar um outro encontro gastronômico, que não também não aconteceu.</p>
<p>Durante o segundo semestre do ano letivo, tivemos um período turbulento com bastante trabalho, atribulações e muito pouca motivação. O ambiente acadêmico estava bem ruim e Venâncio vinha faltando bastanteao trabalho, disse que andava passando mal devido a problemas na vesícula, estava indo ao médico e o humor dele já não era o mesmo, igual a mim, embora eu não tivesse nada envolvendo a saúde. A esposa dele enfrentava alguns problemas com o filho mais velho dela, que vivia com o pai, o que a fez passar uns tempos com o mesmo na cidade onde o garoto morava. Por conta disso, passei a dar carona a Venâncio mais vezes até sua casa, mas o contato entre nós havia reduzido aos assuntos cotidianos envolvendo o trabalho. E assim foi até o final do ano. Me lembro de ter ficado um tanto chateado com Venâncio, pois fui demitido da instituição no fim do ano  junto com cerca de 50 professores, sendo alguns destes no mesmo bloco em que lecionávamos e ele sequer foi capaz de dar um telefonema ou mandar um e-mail, enfim. Respeitei a decisão dele e nunca mais o vi.</p>
<p>Dois anos se passaram, mudei de cidade, de Estado e apesar de ainda manter contato com outros demitidos da referida instituição, a pessoa de Venâncio quase nunca era lembrada durante os papos. Porém, dia desses encontrei com um amigo em comum em Belo Horizonte/MG. Na verdade, mais amigo do Venâncio do que meu, ele foi nomeado professor em uma instituição pública de ensino superior em BH. Fazia muito tempo que não nos víamos. Este professor, aliás, também havia lecionado naquela instituição apenas por um semestre, um tempo antes de mim. Não aguentou e pediu demissão. Foi ele, na época, que indicou o emprego ao Venâncio.</p>
<p>Dentre os tantos assuntos que conversamos, o amigo disse: &#8220;pois é, vocês comentaram do Venâncio naquela época, que ele estava distante&#8230;&#8221;. De pronto comentei que tinha ficado chateado e tal e ele disse, &#8220;então, até comigo ele estava estranho também. Um dia fui até a casa dele, um pouco antes de se mudar, pra saber o porque do sumiço e ele disse com um olhar meio opaco: &#8220;não posso te atender agora porque estou jogando&#8221; (ele jogava World of Warcraft e muito, por sinal). Ele disse que Venâncio se separou da esposa e se mudou para a cidade aonde os pais dele moravam, alugou uma casa e vivia sozinho, não recebia praticamente ninguém e, apesar de fazer tratamento contra depressão, não estava seguindo a medicação prescrita e passou o último ano praticamente de licença médica. Excluiu o perfil no Orkut e criou um outro fake, no qual postava, segundo meu amigo, umas coisas esquisitas, suicidas. Ele tentou se comunicar com Venâncio por esta via, mas o mesmo não respondeu. Não sei como era a relação dele com os pais e/ou familiares, mas pude perceber que os mesmos respeitaram o isolamento.</p>
<p>O fato é que, segundo o nosso amigo, Venâncio, em dezembro de 2009, um dia depois do aniversário, bebeu um vinho (certamente de boa qualidade), colocou um réquiem pra tocar, bem alto, carregou a espingarda calibre 12 de cano serrado e disparou um tiro contra o próprio rosto (me lembrei do final do filme Tropa de Elite). O incidente só foi percebido uma ou duas semanas depois pelos vizinhos, por conta do mau cheiro que vinha da residência. O amigo lembrou bem: &#8220;imagine a mãe dele, como deve ter ficado?&#8221;. A notícia abalou a todos, queriam descobrir a causa, algum culpado, mas quem pode julgar? Fico pensando se a permanência naquela instituição decrépita não contribuiu para a decisão de Venâncio, eu mesmo pensei em coisas um tanto macabras enquanto estive por lá. A vida do professor em instituições privadas atualmente está bastante complicada, salários cada vez menores, desrespeito e o medo constante de ser demitido, independentemente da competência. Aliás, quanto maior a titulação, maior o perigo de cair da &#8220;corda bamba&#8221;, ranços da famigerada era FHC. Seria esta a meritocracia reversa?</p>
<p>De minha parte, perdoei Venâncio por não ter me dado os &#8220;pêsames&#8221; quando perdi o emprego, certamente estava com problemas bem maiores que o meu.</p>
<pre><strong>P.S.</strong> Para proteger a identidade do protagonista, o nome foi alterado.</pre>

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		<title>Sobre o &#8220;Mercado&#8221; e os &#8220;direitos&#8221; do consumidor</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Nov 2010 19:25:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcelo Muraro</dc:creator>
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<p>Confesso que nunca (ou quase nunca) havia tido quaisquer problemas com atraso na entrega de faturas, boletos e demais contas pelos Correios. Tudo sempre chegou no meu endereço com a devida antecedência e se algumas destas não foram quitadas na data correta, foi por negligência minha. Entretanto, depois de me mudar para a cidade na qual resido atualmente, desde março de 2009, tive alguns problemas por conta de boletos entregues em atraso. Foram casos isolados, mas, dentre eles, o campeão é o da Unimed Inconfidentes, convênio médico ao qual eu e minha família fazemos parte.</p>
<p>
<a href="http://blog.marcelomuraro.com/wp-content/gallery/diversas/unimed-inconfidentes.jpg" title="Unimed Inconfidentes atrasa entrega de boleto de cobrança e, por lei, se exime de qualquer responsabilidade." class="shutterset_singlepic7" >
	<img class="ngg-singlepic ngg-left" src="http://blog.marcelomuraro.com/wp-content/gallery/cache/7__224x153_unimed-inconfidentes.jpg" alt="Unimed Inconfidentes" title="Unimed Inconfidentes" />
</a>
Os boletos da Unimed Inconfidentes são entregues pelos Correios e os recebo sempre em cima da hora, muitas vezes no mesmo dia, às vezes apenas com um ou dois dias de antecedência. A sorte é que utilizo o serviço de <em>Internet banking</em> para quitá-los. Em outras situações, tive de ir pessoalmente ao escritório regional da Unimed e solicitar segunda via, já que a entrega do mesmo atrasou, lembrando que, certa vez, nem chegou a ser entregue. Entendo que este não deve ser considerado um &#8220;caso isolado&#8221;.</p>
<p>No mês passado, por descuido meu, a conta acabou não sendo quitada na data correta. Tive de solicitar um novo boleto e quitá-lo em dinheiro numa empresa de crédito, pegando fila e com todo aquele aborrecimento costumeiro. Já neste mês, a respectiva fatura chegou com nada menos que <strong>quatro dias de atraso</strong>, numa sexta-feira, quando fui olhar a caixa de cartas por volta das 17h. Não seria possível quitar o débito nem se quisesse/pudesse ir ao banco. Hoje (16/11/2010) fui à Unimed, expliquei o ocorrido e a funcionária me disse que posso solicitar o boleto via internet sem a necessidade de esperar a entrega física do mesmo pelos Correios e que, tendo esta alternativa, a Unimed não se responsabiliza pelo não pagamento do mesmo e, obviamente, não abre mão da multa nem tampouco dos juros.</p>
<p>Não sei o que você, leitor(a), acha disso. Eu fiquei estarrecido. A funcionária foi obrigada a ouvir todo aquele discurso de consumidor consciente e ciente dos seus direitos e deveres, que está sendo lesado no seu direto e etc. etc. etc. Ela me orientou a escrever uma carta de próprio punho que seria enviada à sede da Unimed Inconfidentes e só. Escrevi a tal carta e disse que iria procurar os meus direitos. Depois de receber um novo boleto (com a devida multa/juros) e quitá-lo na empresa de crédito. Lembrando que, na fila do caixa, havia um senhor com o mesmo problema que o meu e uma mulher, que estava lá por causa de uma duplicata do banco que também não havia sido entregue (coincidência?).</p>
<p>Mais tarde, liguei no escritório do Procon-MG da cidade em que resido e, se eu já estava estarrecido, fiquei perplexo quando a funcionária me disse: &#8220;infelizmente, quando a empresa dispõe de outra forma de acesso ao documento de pagamento (como a internet), o Procon nada pode fazer, é a lei&#8221;. E disse ainda: &#8220;não somos nós que criamos a lei&#8221;.</p>
<p>Digo novamente, não sei o que você acha disso, leitor(a). Eu acho um tremendo absurdo a empresa não se responsabilizar pela entrega física do documento de pagamento e atribuir a responsabilidade a terceiros (banco, correios etc.). Se é algo corriqueiro e existe uma solução paliativa, porque não informaram por meio de algum comunicado? Não houve nenhum informe sequer e os clientes, acredito que a grande maioria, não sabem disso! E o Procon é conivente? Sinto muito, não concordo com isso. Não sei qual é a lei que favorece a negligência de empresas como a Unimed Inconfidentes, mas seja qual for, lesa o consumidor e o Procon não deveria ser conivente com uma lei que estimula o prejuízo ao consumidor. Leis são leis, mas não sou obrigado a concordar com elas, principalmente quando ferem os direitos do consumidor. Uma pena que o Procon não pense da mesma forma.</p>
<p>Felizmente, a muleta de um pode ser arma do outro. Registrei duas reclamações no site Reclame Aqui, <a title="Unimed inconfidentes - Reclame Aqui" href="http://www.reclameaqui.com.br/865289/unimed-inconfidentes-ouro-preto-mg/envio-de-boleto-de-pagamento-em-atraso/" target="_blank">uma contra a Unimed Inconfidentes</a>, pela negligência e desrespeito ao cliente e <a title="Procon-MG - Reclame Aqui" href="http://www.reclameaqui.com.br/865326/procon-bh/conivencia-com-o-mercado/" target="_blank">outra contra o Procon-MG</a>, pela conivência com situações como essa.</p>
<p>Analisando por outro viés, é interessante observar como as empresas, de um modo geral, utilizam a internet e oferecem/impõem soluções &#8220;alternativas&#8221; às tradicionais. São soluções simples, práticas e relativamente baratas (a geração de boletos on line, por exemplo). Mas é mais interessante perceber o quão pouco (ou quase nada) as mesmas investem em informação ao cliente, avisando sobre essas &#8220;comodidades&#8221;, caso ocorra algum contratempo. De todo modo, é uma solução, que favorece à minoria. Há pessoas que não tem acesso à Internet (diga-se de passagem, são muitas). Nesse caso, o cliente gasta com transporte público, enfrenta fila, perde um tempo desnecessário, para sanar um problema que não foi criado por si próprio. Em outras palavras, a empresa investe pouco e cria uma solução barata que a exime de qualquer responsabilidade perante a lei. Perceba que este é um exemplo de mau uso da internet. Uma falha que lesa o consumidor e é amparada pelo poder público, e defendida pelo Procon, claro.</p>
<p>A exemplo dos bancos, quanto custa investir em auto-atendimento na internet em detrimento do atendimento presencial? Quanto o banco economizará com funcionários, equipamentos e infra-estrutura para cada cliente que optar por utilizar o <em>Internet banking</em>? Claro que isso favorece o cliente, desde que o mesmo esteja consciente dos mecanismos de uso da tecnologia. Do contrário, isso se torna uma armadilha e, fatalmente, o cliente acaba pagando a mais por isso.</p>
<p>A tecnologia está cada vez mais inserida na sociedade como um todo, isso é benéfico, mas é obrigação das mesmas investir em informação, auxiliar os clientes, ou seja, favorecer o acesso à tecnologia, mostrando todos os benefícios que ela pode oferecer, que são muitos, e não torná-la uma &#8220;armadilha&#8221; para clientes desavisados ou um mero paliativo que a exima de qualquer responsabilidade perante a justiça. Essa é uma forma predatória de gerar receita que traz mais prejuízos que benefícios. Há que se modificar este conceito mesquinho, transformando esclarecimento em satisfação do cliente. Insisto, uma pena que o Procon não pense da mesma forma.</p>

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		<title>A saga do prestador de serviços &#8211; parte 1</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Oct 2010 13:00:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcelo Muraro</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Webdesigner/desenvolvedor versus cliente Os serviços de criação e desenvolvimento web são oferecidos no Brasil há mais de uma década e meia. Empresas começaram a buscar especialização neste campo, serviços passaram a ser oferecidos e o mercado cresceu, tanto que acabou inflando e ficou competitivo demais, saturado. Mas, com tanta mão-de-obra disponível, qual o perfil do [...]]]></description>
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<p>Os serviços de criação e desenvolvimento web são oferecidos no Brasil há mais de uma década e meia. Empresas começaram a buscar especialização neste campo, serviços passaram a ser oferecidos e o mercado cresceu, tanto que acabou inflando e ficou competitivo demais, saturado. Mas, com tanta mão-de-obra disponível, qual o perfil do cliente hoje?</p>
<p>Com mais de dez anos de experiência na área de criação e desenvolvimento para web, até hoje me pergunto: qual o perfil dos meus clientes? Qual o grau de conhecimento deles acerca da Internet? Qual o nível de interatividade possuem com a rede? De que forma eles a usam para gerar/complementar receita a seus negócios? E, por fim, o quanto eles valorizam o profissional responsável por trazem o negócio deles para a rede?</p>
<p>Quando analiso os fatos, concluo que o resultado é, no mínimo, frustrante. Meus clientes, e creio que este seja apenas um pequeno rol que representa a grande maioria dos clientes brasileiros, se pautam basicamente pelo investimento financeiro. Para eles, o melhor negócio resume-se na eficácia máxima com o mínimo de investimento, o maior lucro gerado com o menor valor investido. É cultural, é o jeito brasileiro de atuação no mercado. Com base neste cenário, os prestadores de serviço concorrem entre si tentando oferecer o melhor serviço ao menor custo possível. Dentre esses, me incluo.</p>
<p>Quando digo &#8220;oferecer um serviço com baixo custo&#8221;, me refiro a oferecer um serviço interessante ao cliente com um preço acessível, algo palpável, para que o mesmo aceite e fique satisfeito com o resultado (isso me gera portifólio, tenho interesse nessa relação e faço minha parte). Mas, nem sempre isso ocorre, e por quê? Isso ocorre por um motivo que acredito ser básico: o cliente conhece pouco sobre o ambiente e as ferramentas em que pretende investir. Isso mesmo, em boa parte das vezes, o cliente é completamente leigo e, sendo leigo, qualquer proposta é viável. Se qualquer proposta é viável, em qual (ou quais) parâmetro(s) ele vai se basear para contratar um serviço? O custo. E apenas o custo, porque o benefício desse custo ele ainda não conhece. E, por mais que o prestador de serviço se esforce para mostrar-lhe os (possíveis) benefícios do investimento, são apenas argumentos que poderão se concretizar com o tempo, conforme o cliente aderir à utilização do ambiente virtual e acostumar-se com o mesmo, ou não.</p>
<p>Tento estudar e compreender essa icógnita, mas é difícil. O cliente quer bons resultados, mas quer investir pouco, ou seria, segundo ele: o necessário. Enfim: é possível trabalhar com prestadores de serviço que cobram menos e ter um resultado satisfatório? Acredito que sim. Porém, ao adotar essa postura, é necessário que o cliente se preste a entender os mecanismos de funcionamento da rede, os aplicativos e ferramentas, a filosofia de uso e passe, efetivamente, a utilizá-los sob a orientação do prestador de serviços. Sim, render-se à orientação do prestador de serviços. Afinal, será mais caro se o prestador tiver de fazer todo o trabalho. Mas o cliente reconhece o trabalho e o esforço do prestador e a parte dele na relação, a chamada: parceria?. Infelizmente, na maioria das vezes, não. Em geral, ele acha caro o valor e, dependendo da situação, acha que pode cuidar de tudo sozinho e diz: &#8220;quero apenas o site, bem simplizinho e que eu mesmo possa atualizar&#8221;. Como se essa fosse a tarefa mais fácil do mundo. Acredite, não é! Por acaso isso já aconteceu contigo, webdesigner/desenvolvedor?</p>
<p>A partir deste post, pretendo criar uma pequena série na qual discutirei o assunto, fornecendo exemplos e também dando a mão à palmatória no que diz respeito às minhas falhas. Espero poder ler comentários de outros profissionais, inclusive de outras áreas. Não sei porque, creio que há muito a compartilhar e desabafar.</p>

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		<title>Dez falsos motivos para não votar na Dilma</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Aug 2010 17:18:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcelo Muraro</dc:creator>
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<h4>Dez falsos motivos para não votar na Dilma<br />
<small>( por Jorge Furtado &#8211; publicado em 25 de julho de 2010)</small></h4>
<p><em>Tenho alguns amigos que não pretendem votar na Dilma, um ou outro até diz que vai votar no Serra. Espero que sigam sendo meus amigos. Política, como ensina André Comte-Sponville, supõe conflitos: &#8220;A política nos reúne nos opondo: ela nos opõe sobre a melhor maneira de nos reunir&#8221;.</em></p>
<p><em>Leio diariamente o noticiário político e ainda não encontrei bons argumentos para votar no Serra, uma candidatura que cada vez mais assume seu caráter conservador. Serra representa o grupo político que governou o Brasil antes do Lula, com desempenho, sob qualquer critério, muito inferior ao do governo petista, a comparação chega a ser enfadonha, vai lá para o pé da página, quem quiser que leia. (1)</em></p>
<p><em>Ouvi alguns argumentos razoáveis para votar em Marina, como incluir a sustentabilidade na agenda do desenvolvimento. Marina foi ministra do Lula por sete anos e parece ser uma boa pessoa, uma batalhadora das causas ambientalistas. Tem, no entanto (na minha opinião) o inconveniente de fazer parte de uma igreja bastante rígida, o que me faz temer sobre a capacidade que teria um eventual governo comandado por ela de avançar em questões fundamentais como os direitos dos homossexuais, a descriminalização do aborto ou as pesquisas envolvendo as células tronco.</em></p>
<p><em>Ouço e leio alguns argumentos para não votar em Dilma, argumentos que me parecem inconsistentes, distorcidos, precários ou simplesmente falsos. Passo  a analisar os dez mais freqüentes.<br />
</em></p>
<h4><em>1. Alternância no poder é bom.</em></h4>
<p><em>Falso. O sentido da democracia não é a alternância no poder e sim a escolha, pela maioria, da melhor proposta de governo, levando-se em conta o conhecimento que o eleitor tem dos candidatos e seus grupo políticos, o que dizem pretender fazer e, principalmente, o que fizeram quando exerceram o poder. Ninguém pode defender seriamente a idéia de que seria boa a alternância entre a recessão e o desenvolvimento, entre o desemprego e a geração de empregos, entre o arrocho salarial e o aumento do poder aquisitivo da população, entre a distribuição e a concentração da riqueza. Se a alternância no poder fosse um valor em si não precisaria haver eleição e muito menos deveria haver a possibilidade de reeleição.<br />
</em></p>
<h4><em>2. Não há mais diferença entre direita e esquerda.</em></h4>
<p><em>Falso. Esquerda e direita são posições relativas, não absolutas. A esquerda é, desde a sua origem, a posição política que tem por objetivo a diminuição das desigualdades sociais, a distribuição da riqueza, a inserção social dos desfavorecidos. As conquistas necessárias para se atingir estes objetivos mudam com o tempo. Hoje, ser de esquerda significa defender o fortalecimento do estado como garantidor do bem-estar social, regulador do mercado, promotor do desenvolvimento e da distribuição de riqueza, tudo isso numa sociedade democrática com plena liberdade de expressão e ampla defesa das minorias. O complexo (e confuso) sistema político brasileiro exige que os vários partidos se reúnam em coligações que lhes garantam maioria parlamentar, sem a qual o país se torna ingovernável. A candidatura de Dilma tem o apoio de políticos que jamais poderiam ser chamados de &#8220;esquerdistas&#8221; , como Sarney, Collor ou Renan Calheiros, lideranças regionais que se abrigam principalmente no PMDB, partido de espectro ideológico muito amplo. José Serra tem o apoio majoritário da direita e da extrema-direita reunida no DEM (2), da &#8220;direita&#8221; do PMDB, além do PTB, PPS e outros pequenos partidos de direita: Roberto Jefferson, Jorge Borhausen, ACM Netto, Orestes Quércia, Heráclito Fortes, Roberto Freire, Demóstenes Torres, Álvaro Dias, Arthur Virgílio, Agripino Maia, Joaquim Roriz, Marconi Pirilo, Ronaldo Caiado, Katia Abreu, André Pucinelli, são todos de direita e todos serristas, isso para não falar no folclórico Índio da Costa, vice de Serra. Comparado com Agripino Maia ou Jorge Borhausen, José Sarney é Che Guevara.</em><em> </em></p>
<h4><em>3. Dilma não é simpática.</em></h4>
<p><em>Argumento precário e totalmente subjetivo. Precário porque a simpatia não é, ou não deveria ser, um atributo fundamental para o bom governante. Subjetivo, porque o quesito &#8220;simpatia&#8221; depende totalmente do gosto do freguês. Na minha opinião, por exemplo, é difícil encontrar alguém na vida pública que seja mais antipático que José Serra, embora ele talvez tenha sido um bom governante de seu estado. Sua arrogância com quem lhe faz críticas, seu destempero e prepotência com jornalistas, especialmente com as mulheres, chega a ser revoltante.<br />
</em></p>
<h4><em>4. Dilma não tem experiência.</em></h4>
<p><em>Argumento inconsistente. Dilma foi secretária de estado, foi ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, fez parte do conselho da Petrobras, gerenciou com eficiência os gigantescos investimentos do PAC, dos programas de habitação popular e eletrificação rural. Dilma tem muito mais experiência administrativa, por exemplo, do que tinha o Lula, que só tinha sido parlamentar, nunca tinha administrado um orçamento, e está fazendo um bom governo.<br />
</em></p>
<h4><em>5. Dilma foi terrorista.</em></h4>
<p><em>Argumento em parte falso, em parte distorcido. Falso, porque não há qualquer prova de que Dilma tenha tomado parte de ações &#8220;terroristas&#8221;. Distorcido, porque é fato que Dilma fez parte de grupos de resistência à ditadura militar, do que deve se orgulhar, e que este grupo praticou ações armadas, o que pode (ou não) ser condenável. José Serra também fez parte de um grupo de resistência à ditadura, a AP (Ação Popular), que também praticou ações armadas, das quais Serra não tomou parte. Muitos jovens que participaram de grupos de resistência à ditadura hoje participam da vida democrática como candidatos. Alguns, como Fernando Gabeira, participaram ativamente de seqüestros, assaltos a banco e ações armadas. A luta daqueles jovens, mesmo que por meios discutíveis, ajudou a restabelecer a democracia no país e deveria ser motivo de orgulho, não de vergonha.<br />
</em></p>
<h4><em>6. As coisas boas do governo petista começaram no governo tucano.</em></h4>
<p><em>Falso. Todo governo herda políticas e programas do governo anterior, políticas que pode manter, transformar, ampliar, reduzir ou encerrar. O governo FHC herdou do governo Itamar o real, o programa dos genéricos, o FAT, o programa de combate a AIDS. Teve o mérito de manter e aperfeiçoá-los, desenvolvê-los, ampliá-los. O governo Lula herdou do governo FHC, por exemplo, vários programas de assistência social. Teve o mérito de unificá-los e ampliá-los, criando o Bolsa Família. De qualquer maneira, os resultados do governo Lula são tão superiores aos do governo FHC que o debate &#8220;quem começou o quê&#8221; torna-se irrelevante.<br />
</em></p>
<h4><em>7. Serra vai moralizar a política.</em></h4>
<p><em>Argumento inconsistente. Nos oito anos de governo tucano-pefelista &#8220;no qual José Serra ocupou papel de destaque, sendo escolhido para suceder FHC&#8221; foram inúmeros os casos de corrupção, um deles no próprio Ministério da Saúde, comandado por Serra, o superfaturamento de ambulâncias investigado pela Operação Sanguessuga. Se considerarmos o volume de dinheiro público desviado para destinos nebulosos e paraísos fiscais nas privatizações e o auxílio luxuoso aos banqueiros falidos, o governo tucano talvez tenha sido o mais corrupto da história do país. Ao contrário do que aconteceu no governo Lula, a corrupção no governo FHC não foi investigada por nenhuma CPI, todas sepultadas pela maioria parlamentar da coligação PSDB-PFL. O procurador da república ficou conhecido com engavetador da república, tal a quantidade de investigações criminais que morreram em suas mãos. O esquema de financiamento eleitoral batizado de mensalão foi criado pelo presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo, hoje réu em processo criminal. O governador José Roberto Arruda, do DEM, era o principal candidato ao posto de  vice-presidente na chapa de Serra, até ser preso por corrupção no mensalão do DEM. Roberto Jefferson, réu confesso do mensalão petista, hoje apóia José Serra. Todos estes fatos, incontestáveis, não indicam que um eventual governo Serra poderia ser mais eficiente no combate à corrupção do que seria um governo Dilma, ao contrário.<br />
</em></p>
<h4><em>8. O PT apóia as FARC.</em></h4>
<p><em>Argumento falso. É fato que, no passado, as FARC ensaiaram uma tentativa de institucionalização e buscaram aproximação com o PT, então na oposição, e também com o governo brasileiro, através de contatos com o líder do governo tucano, Arthur Virgílio. Estes contatos foram rompidos com a radicalização da guerrilha na Colômbia e nunca foram retomados, a não ser nos delírios da imprensa de extrema-direita. A relação entre o governo brasileiro e os governos estabelecidos de vários países deve estar acima de divergências ideológicas, num princípio básico da diplomacia, o da auto-determinação dos povos. Não há notícias, por exemplo, de capitalistas brasileiros que defendam o rompimento das relações com a China, um dos nossos maiores parceiros comerciais, por se tratar de uma ditadura. Ou alguém acha que a China é um país democrático?<br />
</em></p>
<h4><em>9. O PT censura a imprensa.</em></h4>
<p><em>Argumento falso. Em seus oito anos de governo o presidente Lula enfrentou a oposição feroz e constante dos principais veículos da antiga imprensa. Esta oposição foi explicitada pela presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) que declarou que seus filiados assumiram &#8220;a posição oposicionista (sic) deste país&#8221; . Não há registro de um único caso de censura à imprensa por parte do governo Lula. O que há, frequentemente, é a queixa dos órgãos de imprensa sobre tentativas da sociedade e do governo, a exemplo do que acontece em todos os países democráticos do mundo, de regulamentar a atividade da mídia.</em></p>
<p><em> </em></p>
<h4><em>10. Os jornais, a televisão e as revistas falam muito mal da Dilma e muito bem do Serra.</em></h4>
<p><em>Isso é verdade. E mais um bom motivo para votar nela e não nele. </em></p>
<p><em><strong>(1)</strong> Alguns dados comparativos dos governos FHC e Lula.</em></p>
<ul>
<li><em>Geração de empregos:  FHC/Serra = 780 mil x Lula/Dilma = 12 milhões</em></li>
<li><em>Salário mínimo:  FHC/Serra = 64 dólares x Lula/Dilma = 290 dólares<br />
</em></li>
<li><em>Mobilidade social (brasileiros que deixaram a linha da pobreza):  FHC/Serra = 2 milhões x Lula/Dilma = 27 milhões<br />
</em></li>
<li><em>Risco Brasil:  FHC/Serra = 2.700 pontos x Lula/Dilma = 200 pontos<br />
</em></li>
<li><em>Dólar:  FHC/Serra = R$ 3,00 x Lula/Dilma = R$ 1,78<br />
</em></li>
<li><em>Reservas cambiais:  FHC/Serra = 185 bilhões de dólares negativos x Lula/Dilma = 239 bilhões de  dólares positivos.<br />
</em></li>
<li><em>Relação crédito/PIB:  FHC/Serra = 14% x Lula/Dilma = 34%<br />
</em></li>
<li><em>Produção de automóveis:  FHC/Serra = queda de 20% x Lula/Dilma = aumento de 30%<br />
</em></li>
<li><em>Taxa de juros:  FHC/Serra = 27% x Lula/Dilma = 10,75%<br />
</em></li>
</ul>
<p><em><strong>(2)</strong> Elio Gaspari, na Folha de S.Paulo de 25.07.10:</em></p>
<p><em>José Serra começou sua campanha dizendo: Não aceito o raciocínio do nós contra eles, e em apenas dois meses viu-se lançado pelo seu colega de chapa numa discussão em torno das ligações do PT com as Farc e o narcotráfico. Caso típico de rabo que abanou o cachorro. O destempero de Indio da Costa tem método. Se Tupã ajudar Serra a vencer a eleição, o DEM volta ao poder. Se prejudicar, ajudando Dilma Rousseff, o PSDB sairá da campanha com a identidade estilhaçada. Já o DEM, que entrou na disputa com o cocar do seu mensalão, sairá brandindo o tacape do conservadorismo feroz que renasceu em diversos países, sobretudo nos Estados Unidos.</em></p>
<pre>Fonte: <a title="Link externo" href="http://www.casacinepoa.com.br/o-blog/jorge-furtado/dez-falsas-raz%C3%B5es-para-n%C3%A3o-votar-na-dilma">Casa de Cinema - Porto Alegre/RS</a><em>
</em></pre>

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		<title>O adeus ao Homem da Boa Sorte</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Feb 2010 21:51:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcelo Muraro</dc:creator>
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<p>Algum tempo depois, andando por Ouro Preto, paramos no café do espaço cultural da Fiemg, eis que surge um senhor todo vestido de brando e, educadamente, se ofereceu para mostrar seu trabalho. Eu, mau-humorado, de início não o reconheci e não dei muita atenção, achei que poderia ser mais um daqueles a nos aborrecer para comprarmos algo (e eu já estava aborrecido), mas minha esposa o reconheceu e ele também se lembrou de nós, me &#8220;desaborreci&#8221; por um instante. O trabalho dele consistia em anéis, brincos e outros objetos feitos com diversos metais, corais e pedras preciosas. Apesar de muito bonito, não compramos nada. Mais tarde, o encontramos na saída da cidade, pedindo carona, e o convidamos a ir conosco. Acabamos conhecendo sua casa, esposa, filha e o irmão, que passou por ali para visitá-los. Conheci seu ateliê e sua produção, bem como alguns experimentos de instrumentos musicais, os quais fez questão de me mostrar pra ver se, de repente, eu tinha alguma opinião ou contribuição a dar, já que soube que eu lido com música.</p>
<p>O senhor a que me refiro é Jamil Assaf. Libanês, chegou ao Brasil com cerca de seis anos de idade. Artesão da velha guarda de Belo Horizonte, na época da ditadura militar, foi um dos fundadores do Bairro Santo Antônio do Leite (em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto), bastante vivido e experiente na arte e ofício da vida. Eu sempre aprendia algo edificante com ele em pouco tempo de papo. Dizia que quando ia à Ouro Preto, &#8220;ia como um guerreiro&#8221;, referindo-se à energia ruim do lugar. Para ele, &#8220;sofrimento é importante, porque nos torna fortes&#8221;. Explicava-me sobre a matéria-prima do seu artesanato, aspectos históricos da região aonde morava (Passagem de Mariana), dizia que o Estado de Minhas Gerais se formou ali. Morava próximo à Mina da Passagem, de onde se extraía cerca de 500 kg de ouro por mês nos &#8220;áureos&#8221; tempos. Foi ele que me explicou uma das possíveis origens do termo &#8220;uai&#8221;, descobriu que foi por conta dos ingleses que diziam o tempo todo: &#8220;all right!&#8221; e os empregados, matutos, se apropriaram do termo e criaram a própria versão.</p>
<p>
<a href="http://blog.marcelomuraro.com/wp-content/gallery/diversas/dsc00266.jpg" title="Na companhia dos &quot;vizinhos&quot;, os macaquinhos saguis." class="shutterset_singlepic1" >
	<img class="ngg-singlepic ngg-right" src="http://blog.marcelomuraro.com/wp-content/gallery/cache/1__320x240_dsc00266.jpg" alt="Jamil Assaf na companhia de seu 'vizinho'. Foto: Marta Maia." title="Jamil Assaf na companhia de seu 'vizinho'. Foto: Marta Maia." />
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Na última vez que fui visitá-lo, Jamil havia mudado de endereço, na mesma rua, uma casa com quintal de fundos para uma área de mata preservada, fez amizade com macaquinhos saguis e os recebia frequentemente, alimentando-os com frutas; as minhas filhas adoraram. Estava contente com a mudança, já que a casa antiga não tinha quintal. Mostrava o que havia conseguido plantar  em um pequeno pedaço de terra com pouco mais de 10 cm de profundidade, seu forno rústico para queimar objetos de cerâmica, cuja técnica lhe permitia atingir cerca de 1000 graus celsius. Porém, naquele dia, percebi que havia uma novidade na vida do Jamil, algo que ele ainda não havia tido a oportunidade de explorar: a tecnologia.</p>
<p>Logo que entramos, vi, pela janela, um computador em um dos quartos da casa, sem a tampa do gabinete, ele disse que havia ganhado há alguns dias, mas que ainda faltavam algumas peças (HD, memória RAM e fonte). Uma amiga que estava conosco ofereceu de presente um notebook antigo. Jamil estava animado com a novidade, comentou que já tinha uma conta no Orkut. O intuito era usar o equipamento para escrever suas memórias e, de repente, a internet para divulgar e ampliar seu trabalho e suas idéias. Dias depois, soube que ele estava um tanto chateado pois nem chegou a usar o notebook, que havia parado de funcionar, pediu para que eu desse uma olhada, um modelo Toshiba Tecra, bem antigo. Não havia muito o que fazer e deixei o equipamento guardado, até encontrar uma oportunidade para devolvê-lo. Entretanto, não houve tempo.</p>
<p>No dia 11 de fevereiro, quinta à noite, a esposa dele ligou e comentou que o mesmo estava hospitalizado há uma semana e que o estado de saúde dele era crítico, estava tentando transferí-lo para algum hospital em Belo Horizonte, disse que o fígado estava bastante comprometido e que era necessário um transplante, embora a equipe médica fosse incapaz de dar um parecer preciso sobre o caso. Na sexta, fui visitá-lo no hospital e fiquei impressionado com a situação em que Jamil se encontrava. Estava mal, com as pernas bastante inchadas, hemorragia no esôfago, com fome e sentido muita dor, a equipe do hospital parecia não dar muita importância ao paciente (outro assunto à parte&#8230;). Passei pouco mais de uma hora com ele, na esperança de atenuar-lhe o sofrimento. Entre os intervalos de crise de dor, conseguia conversar. Com a voz fraca, disse: &#8220;Você vê? Levaram o computador embora&#8221;. Fiquei surpreso: O de mesa? Como assim, Jamil? Não te deram a máquina? &#8220;Sim, mas a irmã do doador disse que não havia sido consultada e foi buscá-lo de volta&#8221;. Desfeitas à parte, Jamil não perdeu grande coisa, já que o equipamento estava incompleto. Ele lamentou também pela perda do notebook, mas &#8220;também, no estado em que me encontro, não poderia usá-los&#8221;. Notei que ele estava peculiarmente chateado com essa história, mas tinha algo mais &#8220;latente&#8221; que o incomodava naquele momento: a dor. Em uma das crises eles levantou os braços e disse: &#8220;Ô Deus, me livra desta dor!&#8221;.</p>
<p>O horário de visita havia acabado, me despedi dele e da família e saí. Ainda na porta do quarto, dei uma última olhada nele, estava pálido e transtornado, e de certa forma eu também. Saí de lá com vontade de chorar, me perguntando se a questão dos computadores não ajudou a agravar seu estado de saúde; se eu não poderia ter feito algo para ajudar (embora não soubesse como, sempre tive um &#8220;senão&#8221; em dar computadores velhos como presente, justamente por estarem velhos); se ele conseguiria sair vivo da situação em que estava. Passei o restante do dia bolado, com dor de cabeça e sem chegar a nenhuma conclusão.</p>
<p>Por volta de 6h30 do dia seguinte, o celular da minha esposa tocou. Ela se levantou correndo e atendeu. Eu estava um tanto insonado e a ouvi dizer, chorando: Ai não!! Jamil finalmente havia se livrado da dor, Deus lhe concedeu o pedido. Morreu por volta de 3h da madrugada, como o cavalheiro que sempre foi: no instante em que a esposa cochilou. Morreu com fome e com vontade de ter tido um computador.</p>
<p>Má sorte? Quem pode afirmar? É bem provável que não. Em Ouro Preto, Jamil é conhecido como &#8220;o Homem da Boa Sorte&#8221;. Decerto, a sorte o acompanhará, aonde quer que esteja.</p>

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