Marketing viral, a gente vê por aqui
“Um mundo melhor, mais consciente e solidário”. De fato é a “Gota D’Água”!
Marketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.
Me refiro a este “Movimento Gota D’Água“, uma “entidade” que, da noite para o dia, aflorou na rede e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.
Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.
De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma “mobilização nacional” em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve “vestir a camisa” e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito “de repente” para o meu gosto.
Ao acessar o site do Movimento, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a “missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma” e que o movimento “surgiu da necessidade de transformar indignação em ação” e com o objetivo de “usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais”, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito “de repente”.
Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste “projeto”, diz que o mesmo “apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum” e ainda “é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas”, que o “braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: ‘Movimento Xingu Vivo Para Sempre‘ e o ‘Movimento Humanos Direitos‘”. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: “direitos humanos são para os humanos direitos”.
Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG’s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos ou mesmo a Avaaz.
Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que o domínio do movimento Gota D’Água é do ator Sérgio Passarela Marone, criado em 09/2011. Já o do Xingu Vivo foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. O do Humanos direitos pertence ao Instituto Humanitare e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.
Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em “protestos” desse tipo.
E tudo o que o Movimento Gota D’Água pede é “a sua assinatura”, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de “coletivos”) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de não-se-sabe-quem-ou-o-quê.
Sobre o vídeo, um “coletivo” de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo novela-das-oito. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como “Quem vai pagar?! Você vai pagar!”. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…
Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: o Xô CPMF! Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de manipulação, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.
Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca “na história desse país” vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.
De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. Vox populi vox Deo, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes “globais” que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via Facebook e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua “credibilidade”, amém.
Espaço do leitor:
Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):
- Colaboração enviada por Calasan: http://tabnarede.wordpress.com/2011/09/07/desculpando-belo-monte/
- Luis Nassif On line: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-belos-e-belo-monte
- Luis Nassif http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/brasilianasorg-sobre-a-usina-de-belo-monte
- Eliane Brum (Revista Época): http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/09/um-procurador-contra-belo-monte.html
- Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada): http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/07/05/abin-identifica-as-ongs-estrangeiras-que-boicotam-belo-monte/
- Vídeo de campanha de atores famosos norte-americanos parecidíssimo com o da campanha “belo-MOTE”: http://t.co/OZVqhkdO
- Olhar Virtual (UFRJ): http://www.olharvirtual.ufrj.br/2010/index.php?id_edicao=293&codigo=3
- Vídeo, mix bem humorado em resposta (uma das possíveis) à campanha dos globais: http://www.youtube.com/watch?v=406Yb2hPlmI
- Eliane Brum entrevista Célio Bermann (USP): http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html
- Projeto de filme-documentário sobre Belo Monte: http://catarse.me/pt/projects/459-belo-monte-anuncio-de-uma-guerra
- Lucas Assis: http://lucasassisdotorg.wordpress.com/2011/11/19/movimento-gota-dagua-a-comercializacao-do-consenso/
- Verifique os fatos (vídeo): http://www.youtube.com/watch?v=feG2ipL_pTg
Veja este vídeo: http://youtu.be/xnitmB22JtQ
Ótima análise.
Verdade, Maiara. Por isso acredito que, mesmo que consigam o tal milhão de assintaturas, não mudará em nada o andamento das obras. O que me faz concluir que o objetivo dessa campanha é outro.
abraço!
O que eu achei mais interessante e não sei realmente a razão (talvez o fato de poder tratar com mais sensacionalismo) é o fato de essa “mobilização” toda ocorrer meses depois do projeto ser aprovado.
O mais importante neste momento, penso, seja levantar o problema. Não é votar imediatamente, mas entender o processo e solicitar que o assunto seja colocado, por exemplo, no Roda Viva ou em outro programa de alcance, onde quem respode questões seja um dos conhecedores do processo, respondendo por ele. O que ocorre por trás disso tudo? Atrás desse questionamento, podem estar muitos outros problemas que fogem ao nosso alcance. Provocar o questionamento e ajudar a encontrar a verdade dos fatos é o nosso papel pelas redes, nas escolas, na sociedade.
@Jeane Santos Azevedo
O vídeo é cheio de argumentos fracos ou mentiras. Observe bem os principais argumentos apresentados pelos atores da globo:
Argumento 1 – “Quem vai pagar é o povo”. Resposta: Como assim? Os atores da globo descobriram ontem que obra pública é pago com o dinheiro de nossos impostos? Isso não é argumento.
Argumento 2 – “A obra é muito cara”. Resposta: Mas ao mesmo tempo eles propõem energia eólica e solar que é absurdamente mais cara.
Argumento 3 – “Somos contra hidroelétricas porque existem outras fontes de energia limpa”. Resposta: No Brasil existem apenas 3 opções viáveis nacionalmente: energia hidroelétrica, energia nuclear ou energia a carvão//termoelétrica (mega poluidoras). Geralmente as pessoas também não são simpáticas com energia nuclear, logo, só sobra construir essas usinas que geram uma poluição absurda. Somente uma criança tem direito de acreditar que é possível suprir a demanda energética do país através de energia dos ventos ou solar. Ser contra Belo Monte é uma coisa, mas ser contra qualquer hidroelétrica é mais complicado
Argumento 4: “Os índios serão expulsos”. Resposta: Nenhum índio será atingido com a construção dessa hidroelétrica.
Argumento 5: Impacto Ambiental. Resposta: Interessante como todos estão preocupados com os 640 km² desmatados pela usina, mas não ligam para os mais de 10mil km² desmatados anualmente na amazônia, com o intuito de aumentar os lucros dos pecuaristas e madeireiras da região.
É uma vergonha que um professor, que deveria estimular a reflexão, se convencer por um vídeo apelativo e falacioso desse, que diz apenas: “não pense e assine”.
#Globosta realmente é a gota dagua!
Obrigado, Mario. Fico contente que tenha gostado.
abraço!
Sim, Andrés, tem uma causa: resolvi escrever sobre esse motivo.
Muito vem sendo feito para impedir essa obra, há décadas. Seria muita presunção supor que uma campanha será capaz de pará-la, ainda mais essa, embora eu não tenha dúvida que a meta do milhão será atingida. Acho que agora você compreende melhor a complexidade da situação, “os paradoxos”. Veja, por exemplo, este vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=406Yb2hPlmI.
abraço!
Boa tarde, Jeane.
Considere usar esse vídeo, então: http://www.youtube.com/watch?v=406Yb2hPlmI
abraço!
Excelente o texto Marcelo Muraro. Quando vi a primeira vez o vídeo logo pensei: muita maquiagem (no sentido estrito e no figurado) para reclamar.
Mas Marcelo, o fato de vc se centrar só nisso é por alguma causa também (o fato de vc achar, com ou sem razão, que é uma campanha contra o governo). Vc frissa isso, dai que tentei analisar a questão melhor.
Enquanto isso, Belo Monte continua. Onde que fica a questão da hidrelétrica e como parar ela? Não é isso o mais importante?
Toda campanha contra Belo Monte vai atingir negativamente o governo, não tem jeito. Ai o paradoxo.
Eu sou contra Belo Monte mas a favor do governo, e ai? O que está antes? Pra vc, o governo.
Por tanto, não tem como vc ser realmente contra Belo Monte, porque cai no paradoxo.
Se vc tivesse falado: eu so a favor do Belo Monte, pra mim estaria tudo mais claro. Só quis entender a tua posição. E a medida que fomos falando fui entendendo. Não julgo vc. Cada um pensa o que quiser, e vê e deixa de ver o que a sua própria consciência permite. Dando prioridade ao que quiser também. Não é uma questão de eu ou vc estarmos certos ou errados. Só quis entender porque vc dava mais importancia ao video do que à obra, se era que vc estava realmente contra. E no caso, poder criticar o video, mas (se realmente é contra a obra) propôr (e fazer) outra coisa pra que a obra pare.
Abraço
Andrés
Boa tarde,
Qual é exatamente o problema? O que está sendo dito no vídeo é mentira? Achei excelente a divulgação pela internet. Muitas questões poderão ser levantadas através desse vídeo. Se der tempo levarei para a sala de aula. abraços
Não, Andrés, a questão central do meu texto, como já te disse, é só a campanha Gota D’Água.
abraço!
Eu nao me importo se o modo de propaganda escolhido foi agressivo ou se a iniciativa nao foi “pura”, foi só pra ir contra o PT. O que me importa é que no fim das contas a coisa certa a ser feita é impedir a construção da hidrelétrica.
ok, Marcelo. Eu acho que mesmo eu levantando certos assuntos vc poderia responder alguns deles que atingem exatamente o fato principal do seu texto. Mas claro, aceito o que vc quiser ou não responder.
A questão se resume a quem é que está por trás da obra, se o governo, se um outro, sei lá, e dependendo quem for, defender ou não, é isso? Se o presidente fosse o Serra ai vc estaria comemorando o vídeo, provavelmente. Pra mim a questão principal é parar a obra. Se isso vai deixar bem na foto ao governo, a Globo, o Edir Macedo ou o Tiririca, pra mim é secundário.
Espero que Belo Monte (que vc nem eu queremos, aparentemente) pare de vez, pela causa que for.
Abraço
Andrés
Cara, você é Globofóbico.
O movimento não tem nada a ver com a Rede Globo (como você mesmo minuciosa e obsessivamente apurou) mas você tenta forçar uma barra para esvaziá-lo.
Sabe por quê? Porque, no fundo, você é a favor desse projeto nefasto (para a natureza, para os índios, para os que pagam imposto, para os sensatos) porque acha que as críticas ao Projeto são contra o Governo que aí está.
É difícil convencer um “chapa-branca” como você mas tente perceber que nem toda crítica é conspiração contra o Planalto.
Saudações Republicanas e um abraço.
Pois é, eu tb, Camila. Fico contente que tenha gostado.
abraço!
Muito obrigado pelo seu comentário Adinaldo!
Minhas dúvidas quanto a essa campanha também seguem nesse sentido.
abraço!
Não, Luan, você é que está bastante equivocado (embora não tenha cometido nenhum “erro gravíssimo”).
O texto se refere exclusivamente à campanha “belo-MOTE”.
abraço!