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Relações sociais: o passado e o presente-virtual

O motivo deste texto surgiu a partir de um ocorrido há alguns dias. Foi o estopim que me fez lembrar de outros exemplos que me levaram a uma reflexão mais aprofundada sobre o título-tema. O advento da internet tornou o computador (e também os dispositivos advindos dele) uma ferramenta, peculiar, de comunicação. Os aplicativos de redes sociais o consagraram com tal função. As relações de contato nesses aplicativos se transformaram em complexas redes de interconexão de pessoas (exclusivamente no ambiente virtual), o que, por si só, já é um universo interessantíssimo a ser abordado. Entretanto, as relações que se constituíram no passado e que, por algum motivo, retornaram ao presente de forma virtual, ou até mesmo presencial em alguns casos, trazem implicações intertemporais que mesclam aspectos do ontem e do hoje em uma coisa só. Eis os exemplos:

Tenho, ou melhor tinha, um antigo conhecido que chegou a ser meu “melhor amigo” na década de 80, na adolescência. Houve um distanciamento natural com o passar dos anos, na metade da década de 90, e uma re-aproximação, no ambiente virtual, na década seguinte. Um outro exemplo: Meu pai tinha um colega de trabalho de origem grega que morava no Brasil, que se casou com uma brasileira, tiveram um filho e se mudaram para a Grécia, em 1979, e perderam o contato conosco na década de 80, mas re-aproximaram-se virtualmente no início de 2011. Um reencontro virtual até emocionante após uma lacuna temporal de mais de 20 anos. Outro exemplo: Um primo que era muito amigo meu e não nos vemos presencialmente há mais de 15 anos. Nos re-aproximamos virtualmente há pouco mais de cinco anos, mas de uma maneira extremamente lacônica. Os três exemplos citados possuem, de certa forma, uma mesma estrutura: um passado presencial, uma lacuna temporal e uma re-aproximação virtual.

O passado, nas relações sociais, torna-se complexo quando associado ao ambiente virtual, por meio dos aplicativos de redes sociais, pois a noção de pertencimento entre ambos (o passado presencial e o contato no ambiente virtual) são incompatíveis entre si, apesar de conviverem juntos no presente. A lacuna temporal é responsável pela desconstrução da afinidade, que é o laço que, a rigor, mantém viva uma relação social (tanto presencial como virtual).

Reatar um antigo contato virtualmente pode ser perigoso, uma vez que corre-se o risco de anulá-lo definitivamente, dadas as “configurações” de ambos os lados no presente. Um re-enlace virtual traz à tona muitas das reminiscências do passado, mas também força o confronto de características do presente, como divergências de ordem política, social, religiosa, etc. Características essas que foram construídas individualmente durante a ausência de contato. De todo modo, seria leviano supor que todas as relações sociais com semelhante estrutura estão fadadas a ter o mesmo desfecho. Cada um dos três exemplos possui elementos próprios que os conduzem a desfechos distintos, assim como no período em que havia o contato presencial.

Além disso, em um ambiente de rede social (como o Facebook, por exemplo) há centenas de contatos ligados a um único usuário e que interagem entre si em uma linha do tempo. Ali todos estão no mesmo plano, independentemente das relações presenciais e de pertencimento, “tudo junto e misturado” e de forma atemporal, convivendo, inclusive com pessoas cuja interação iniciou-se de forma virtual, mas que está acontecendo ao mesmo tempo, junto com outras que trazem reminiscências do passado. Usuários que, às vezes, até interagem entre si.

Se a interação (virtual ou presencial) diária com pessoas constrói afinidades, modela conceitos (ou preconceitos muitas vezes) e gera convicções, é óbvio que essa construção de valores e sentidos vai esbarrar na construção de sentidos de outros, afinal, a pessoa pode ter uma leitura diferente do próprio passado em decorrência de experiências posteriores e que pode gerar divergências as características individuais desenvolvidas durante a lacuna temporal.

Isso, talvez, explique o que ocorre, nos meus exemplos, com pessoas cujo contato está findo há muitos anos e que, de repente, são reatados no ambiente virtual. São relações sociais de pouca intensidade, com pouca reciprocidade, pouco contato e interação mútua na rede. Na verdade, as reminiscências do passado são o único elemento disponível que tornam esses contatos possíveis.

De outro modo, uma pessoa é abruptamente “adicionada” ao cotidiano (virtual) de outra, acompanha o comportamento da mesma na rede social e manifesta-se positiva ou negativamente, ou nem se manifesta. A ausência presencial corrobora para que o contato permaneça com pouca intensidade e isso ocorre em dois dos exemplos acima, nos quais o contato persiste, mas há pouca ou nenhuma comunicação. No outro exemplo, a divergência de opiniões evoluiu para uma discussão que culminou no rompimento definitivo. Esse é típico exemplo do distanciamento entre passado e presente, no qual a pessoa faz uma re-leitura do próprio passado e a interação com o outro gerou o conflito.

Passado presencial, lacuna temporal e re-aproximação virtual são fatores que podem determinar o re-enlace de uma relação social, ou o fim da mesma. É necessário ter consciência de que uma relação baseada nos três itens será do tipo “museu”, na qual as reminiscências do passado serão o “fiapo-de-cabelo” que a sustentará. Afora isso, serão duas pessoas praticamente desconhecidas que, se não fosse por essas reminiscências, talvez nem se conhecessem. Portanto, a relação será de pouca intensidade. Mas, nada impede que a mesma possa evoluir para um novo convívio virtual ou até mesmo presencial. Mas, há que ser ter consciência de que tratar-se-á de uma nova relação, independentemente das reminiscências do passado.