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O adeus ao Homem da Boa Sorte

Logo após o Carnaval de 2009, nos mudamos para esta cidade em Minas Gerais. Em busca de melhoria e conforto para a família, saíamos sempre à procura de casas para alugar (um assunto à parte…) e, “passando” pelo Distrito de Passagem de Mariana, nos deparamos com um senhor todo vestido de branco, cabeludo, barbudo, fumando um cigarro. Era, sem dúvida alguém incomum, perguntamos se ele sabia de alguma casa disponível, disse que não mas nos indicou um lugar onde pudéssemos obter a informação. Encontrar alguém, visualmente, parecido comigo, me fez sentir menos incomodado. Afinal, também sou cabeludo e barbudo e, até então, não estava sendo uma experiência das melhores.

Algum tempo depois, andando por Ouro Preto, paramos no café do espaço cultural da Fiemg, eis que surge um senhor todo vestido de brando e, educadamente, se ofereceu para mostrar seu trabalho. Eu, mau-humorado, de início não o reconheci e não dei muita atenção, achei que poderia ser mais um daqueles a nos aborrecer para comprarmos algo (e eu já estava aborrecido), mas minha esposa o reconheceu e ele também se lembrou de nós, me “desaborreci” por um instante. O trabalho dele consistia em anéis, brincos e outros objetos feitos com diversos metais, corais e pedras preciosas. Apesar de muito bonito, não compramos nada. Mais tarde, o encontramos na saída da cidade, pedindo carona, e o convidamos a ir conosco. Acabamos conhecendo sua casa, esposa, filha e o irmão, que passou por ali para visitá-los. Conheci seu ateliê e sua produção, bem como alguns experimentos de instrumentos musicais, os quais fez questão de me mostrar pra ver se, de repente, eu tinha alguma opinião ou contribuição a dar, já que soube que eu lido com música.

O senhor a que me refiro é Jamil Assaf. Libanês, chegou ao Brasil com cerca de seis anos de idade. Artesão da velha guarda de Belo Horizonte, na época da ditadura militar, foi um dos fundadores do Bairro Santo Antônio do Leite (em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto), bastante vivido e experiente na arte e ofício da vida. Eu sempre aprendia algo edificante com ele em pouco tempo de papo. Dizia que quando ia à Ouro Preto, “ia como um guerreiro”, referindo-se à energia ruim do lugar. Para ele, “sofrimento é importante, porque nos torna fortes”. Explicava-me sobre a matéria-prima do seu artesanato, aspectos históricos da região aonde morava (Passagem de Mariana), dizia que o Estado de Minhas Gerais se formou ali. Morava próximo à Mina da Passagem, de onde se extraía cerca de 500 kg de ouro por mês nos “áureos” tempos. Foi ele que me explicou uma das possíveis origens do termo “uai”, descobriu que foi por conta dos ingleses que diziam o tempo todo: “all right!” e os empregados, matutos, se apropriaram do termo e criaram a própria versão.

Jamil Assaf na companhia de seu 'vizinho'. Foto: Marta Maia. Na companhia dos "vizinhos", os macaquinhos saguis.Na última vez que fui visitá-lo, Jamil havia mudado de endereço, na mesma rua, uma casa com quintal de fundos para uma área de mata preservada, fez amizade com macaquinhos saguis e os recebia frequentemente, alimentando-os com frutas; as minhas filhas adoraram. Estava contente com a mudança, já que a casa antiga não tinha quintal. Mostrava o que havia conseguido plantar  em um pequeno pedaço de terra com pouco mais de 10 cm de profundidade, seu forno rústico para queimar objetos de cerâmica, cuja técnica lhe permitia atingir cerca de 1000 graus celsius. Porém, naquele dia, percebi que havia uma novidade na vida do Jamil, algo que ele ainda não havia tido a oportunidade de explorar: a tecnologia.

Logo que entramos, vi, pela janela, um computador em um dos quartos da casa, sem a tampa do gabinete, ele disse que havia ganhado há alguns dias, mas que ainda faltavam algumas peças (HD, memória RAM e fonte). Uma amiga que estava conosco ofereceu de presente um notebook antigo. Jamil estava animado com a novidade, comentou que já tinha uma conta no Orkut. O intuito era usar o equipamento para escrever suas memórias e, de repente, a internet para divulgar e ampliar seu trabalho e suas idéias. Dias depois, soube que ele estava um tanto chateado pois nem chegou a usar o notebook, que havia parado de funcionar, pediu para que eu desse uma olhada, um modelo Toshiba Tecra, bem antigo. Não havia muito o que fazer e deixei o equipamento guardado, até encontrar uma oportunidade para devolvê-lo. Entretanto, não houve tempo.

No dia 11 de fevereiro, quinta à noite, a esposa dele ligou e comentou que o mesmo estava hospitalizado há uma semana e que o estado de saúde dele era crítico, estava tentando transferí-lo para algum hospital em Belo Horizonte, disse que o fígado estava bastante comprometido e que era necessário um transplante, embora a equipe médica fosse incapaz de dar um parecer preciso sobre o caso. Na sexta, fui visitá-lo no hospital e fiquei impressionado com a situação em que Jamil se encontrava. Estava mal, com as pernas bastante inchadas, hemorragia no esôfago, com fome e sentido muita dor, a equipe do hospital parecia não dar muita importância ao paciente (outro assunto à parte…). Passei pouco mais de uma hora com ele, na esperança de atenuar-lhe o sofrimento. Entre os intervalos de crise de dor, conseguia conversar. Com a voz fraca, disse: “Você vê? Levaram o computador embora”. Fiquei surpreso: O de mesa? Como assim, Jamil? Não te deram a máquina? “Sim, mas a irmã do doador disse que não havia sido consultada e foi buscá-lo de volta”. Desfeitas à parte, Jamil não perdeu grande coisa, já que o equipamento estava incompleto. Ele lamentou também pela perda do notebook, mas “também, no estado em que me encontro, não poderia usá-los”. Notei que ele estava peculiarmente chateado com essa história, mas tinha algo mais “latente” que o incomodava naquele momento: a dor. Em uma das crises eles levantou os braços e disse: “Ô Deus, me livra desta dor!”.

O horário de visita havia acabado, me despedi dele e da família e saí. Ainda na porta do quarto, dei uma última olhada nele, estava pálido e transtornado, e de certa forma eu também. Saí de lá com vontade de chorar, me perguntando se a questão dos computadores não ajudou a agravar seu estado de saúde; se eu não poderia ter feito algo para ajudar (embora não soubesse como, sempre tive um “senão” em dar computadores velhos como presente, justamente por estarem velhos); se ele conseguiria sair vivo da situação em que estava. Passei o restante do dia bolado, com dor de cabeça e sem chegar a nenhuma conclusão.

Por volta de 6h30 do dia seguinte, o celular da minha esposa tocou. Ela se levantou correndo e atendeu. Eu estava um tanto insonado e a ouvi dizer, chorando: Ai não!! Jamil finalmente havia se livrado da dor, Deus lhe concedeu o pedido. Morreu por volta de 3h da madrugada, como o cavalheiro que sempre foi: no instante em que a esposa cochilou. Morreu com fome e com vontade de ter tido um computador.

Má sorte? Quem pode afirmar? É bem provável que não. Em Ouro Preto, Jamil é conhecido como “o Homem da Boa Sorte”. Decerto, a sorte o acompanhará, aonde quer que esteja.