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Dia 22 de julho, há quinze anos

Sempre gostei de tirar férias em julho ou dezembro/janeiro (ou melhor ainda, dividir as férias entre os dois períodos). Nesse ano, reservei uns dias em julho e resolvi conhecer a fazenda dos Hari Krishna em Pindamonhangaba/SP, Nova Gokula. Meu professor de ioga, na época, me deu as coordenadas, disse que havia uma pousada e me animei em passar uns dias por lá.

No dia 21, estava no quarto, dando aquela cochilada depois do almoço (pra quem conhece, praxada) e escutei uma voz feminina, conversando com a zeladora da pousada. Ela fazia muitas perguntas, queria saber como as coisas funcionavam por ali. Me interessei em saber quem era a dona daquela voz. Peguei meu livro e fui à varanda “ler um pouquinho”. Ela saiu do quarto e logo voltou. Pude ver quem era e continuei a leitura.

Minutos mais tarde, a dona da voz veio falar comigo. Me pediu licença, se apresentou e se desculpou por interromper minha leitura perguntando se eu tinha interesse em fazer uma caminhada ecológica, um passeio oferecido pelo dono da pousada, mas que só era feito com um número mínimo de pessoas. Eu já sabia da condição e disse a ela que poderia contar comigo, pois também queria fazer a caminhada. Ela ainda comentou sobre o lugar (um tanto incomum) e conversamos por alguns minutos. Logo ela se foi.

Ao anoitecer, bateu a fome e, como lá não ofereciam jantar (praxada era só de manhã e à tarde), acabei indo à lanchonete ao lado do templo. Vi que ela estava lá, conversando com um devoto. Demorei um pouco para entrar, antes fui visitar o templo, cujo altar estava aberto naquela hora. Entrei na lanchonete, cumprimentei-os e fui comer numa mesa próxima, parecia que ela estava meio entediada com o papo do devoto, mas ouvia-o educadamente.

Mais tarde ela resolveu voltar à pousada, pegou o guarda-chuva e me perguntou se eu queria uma “carona”. Agradeci mas recusei. Quis ficar um pouco mais e conversar com os Hari Krishna. Naquela época, entendia um pouco da filosofia deles. O suficiente para provocá-los até certo ponto.

No dia 22 fui ao refeitório, pela manhã, tomar a praxada e depois retornei à pousada. Ao sair do quarto, encontrei-a no pátio. Disse que ia fazer uma caminhada e perguntei se gostaria de me acompanhar. Demos uma volta pela fazenda, que é bem extensa, e pudemos nos conhecer melhor. Horas mais tarde, ela me pediu para avisá-la sobre a hora do almoço, já que tinha perdido o horário do café-da-manhã.

Fomos almoçar juntos e, mais tarde, ela teve a brilhante ideia de contrariar o dono da pousada e fazermos a tal caminhada ecológica por conta própria. E assim fizemos. Mal sabíamos que aquela caminhada seria o início de tantos outros “primeiros”. A primeira traquinagem, os primeiros papos, as primeiras afinidades, os primeiros olhares, o primeiro beijo, o primeiro por-do-sol.

Na volta, algumas horas depois, nos perdemos na trilha e já havia escurecido. Ela levou uma lanterna consigo, que nos ajudou a chegar a um lugar relativamente seguro: o quintal da casa do dono da pousada. Apesar de constrangidos (nós e ele), conseguimos voltar, rindo da situação em que os dois recém conhecidos haviam se metido. Eis a primeira história pra contar.

Momentos mais tarde, próximo à lanchonete, comentamos o assunto com alguns dos devotos. De repente, um deles apontou e disse, “olha lá”. A lua estava nascendo por detrás das montanhas. Nunca tinha visto aquilo e ela me disse que também não. Foi a primeira vez, foi assim que tudo começou.