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Suportes tecnológicos: a obra e os produtos derivados

Observar as diversas expressões de arte e seus respectivos suportes tecnológicos é algo muito interessante. Conforme a evolução da tecnologia, novos suportes são criados e, quando a obra é boa, ela “renasce” sob esses novos suportes, bem como obras lançadas originalmente em livro e que viram filmes. Ou filmes que viram jogos (ou o contrário). Gostaria de ater-me, nesse caso, exclusivamente ao primeiro exemplo.

Li vários livros e pensava, quando lia: “isso daria um ótimo filme”. Coincidência, ou não, a obra “renascia” como filme. Talvez, a idéia de filmar determinada obra fosse um tanto óbvia e outros também a tivessem, de preferência aqueles que tem condições de torná-la realidade. Sorte minha (ou não).

Obras devem ser apreciadas sempre no original, creio nessa afirmação, nunca se deve trocar um suporte tecnológico por outro, já que são distintos entre si e, nem sempre, visam o mesmo objetivo. Essa afirmação não se refere, obviamente a todas as obras. O mercado se encarregou de modificar a lógica ou de criar uma nova, criando obras que sugerem a continuação em outros diversos suportes tecnológicos. Hoje em dia existe uma infinidade destes. É algo planejado nesse caso.

Mas, produções distintas, isto é, quando o livro é escrito em uma época e o filme (por exemplo) é feito em outra, há que se ter a certeza de que um não deve substituir o outro, pois os formatos são diferentes e obviamente deve haver adaptações de um suporte para outro. Além destas, opiniões do diretor, roteirista e outros também são aspectos que interferem no resultado final, bem como no objetivo.

O expectador mais atento percebe a diferença entre ambos, quando consegue ter acesso a elas e, certamente ficará frustrado. É o meu caso. Já assisti a inúmeros filmes originados de livros. Na grande maioria dos casos, o resultado do produto é frustrante, se comparado à obra original. Alguns exemplos a citar: Carandiru, Diários de Motocicleta, Ensaio sobre a Cegueira, Crash – Estranhos prazeres e alguns tantos. Não há ordem que conduza à frustração, assistindo ao filme primeiro e lendo o livro depois, ou o contrário, ambos são incompatíveis entre si. O curioso é que são filmes belíssimos, possuem o aval dos respectivos autores – José Saramago, por exemplo, se emocionou ao assistir o filme de seu livro -, com exceção de Carandiru, cujo resultado achei péssimo, analisando-o individualmente e principalmente comparando-o com o excelente livro de Dráuzio Varella.

Esses filmes perdem muito do crédito, se comparados às respectivas obras originais. São tantas modificações feitas no roteiro, tantas “invenções”, tantas adaptações que o resultado fica quase outro. Se é assim, poderia-se criar uma outra narrativa diferente da obra original e não fazê-la parecer com a mesma do livro e ter tantas alterações que a tornam uma obra-original-mutante figurando noutro suporte tecnológico.

Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças. Imagem: Divulgação Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro, baseado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano.Mudar o contexto no enredo, por exemplo, é uma saída muito interessante, como no caso do filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, que partiu da história no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano, e a recriou em um contexto completamente diferente. O filme de Laís, cujo autor do livro foi um dos roteiristas, faz total referência à obra original, mas o filme tem um contexto próprio que o desvincula do livro, atribuindo identidade própria ao mesmo. Esse foi um dos livros que li pensando que daria um ótimo filme, e deu.

Porém, a maioria não é assim. Infelizmente, fazem modificações grotescas na história, inventam, mudam, costuram trechos e mudam muito o fluxo original da narrativa, o que torna o resultado muito diferente do original, uma pena. Sempre que assisto a filmes baseados em livros, procuro ler as obras e compará-las aos mesmos. Quase sempre é uma decepção.

A exceção à regra

Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima, uma delas. Imagem: Divulgação.Felizmente, há quem busque a preocupação de “verter” a obra em livro para o cinema sem destruir o original. Gostaria de saber de outros exemplos, mas conheço somente este: Meu Pé de Laranja Lima, lançado em 1970. Conheço a película desde a década de 80. Antes disso, assistia a novela de vez em quando, na TV Bandeirantes. E foi uma situação curiosa, em 1986, quando meu pai adquiriu o primeiro aparelho de videocassete. Nós todos empolgados em alugar filmes na locadora. A dúvida era sobre qual seria o primeiro filme a ser locado e minha mãe foi taxativa: “vai ser Meu Pé de Laranja Lima”! E foi. Todos assistimos, mas só eu fiquei com ele na memória. Já no início do século 21, achei o filme numa locadora e fiz questão de locar para a família assistir. Minha filha, ainda pequenina, chorou um bocado. Depois desse episódio, nunca mais vi esse filme em nenhuma locadora.

Apesar de gostar muito desse filme, nunca me interessei em ler a obra original e eis que, dia desses, fui ao shopping, precisava comprar o presente de aniversário para um colega de classe da minha filha. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o próprio, comprei dois. E qual não foi minha surpresa ao ler todo o livro e descobrir que o enredo do filme é praticamente o mesmo do livro. Tive de procurar o referido filme na rede, achei e reassisti para ter certeza do que estou falando, posto que faz anos que não o assisto. Felizmente, não estava enganado.

Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima, versão mais recente da editora Melhoramentos.O diretor Aurélio Teixeira (o “Portuga”), que é um dos atores principais e também um dos roteiristas, juntamente com o autor da obra, José Mauro de Vasconcelos, teve todo o cuidado de preservar o enredo original. A montagem deixou a desejar, a narrativa ficou um pouco rápida e o filme, em relação ao livro, perdeu um pouco da riqueza de detalhes. Mas, nada que o desabone. Manteve-se o respeito para com a obra original, até os diálogos do livro foram mantidos, algo raro. E o resultado é do tipo que eu gosto, bem próximo dos filmes de arte europeus, desprovido de efeitos, apenas a simplicidade de uma linda história, embora muito triste.

Nesse caso, é possível que a narrativa tenha contribuído para o desenvolvimento do filme como um todo, os atores desempenharam muito bem seus personagens, como o pequeno Júlio César Cruz, que interpreta Zezé, o protagonista da história. A ambientação do filme é muito boa, as locações, ou seja, uma confluência de fatores que permitiram, como resultado, um filme muito singelo, simples e direto, com um profundo respeito à obra original.

Meu Pé de Laranja Lima (o filme) é um exemplo de que é possível adaptar a narrativa de um livro para o cinema sem alterá-la geneticamente, como normalmente se faz, como manda a lógica da indústria “lucrativa” do entretenimento. Talvez, naquele tempo, a lógica fosse outra.

Fonte dos filmes: Filmow.com

O adeus ao Homem da Boa Sorte

Logo após o Carnaval de 2009, nos mudamos para esta cidade em Minas Gerais. Em busca de melhoria e conforto para a família, saíamos sempre à procura de casas para alugar (um assunto à parte…) e, “passando” pelo Distrito de Passagem de Mariana, nos deparamos com um senhor todo vestido de branco, cabeludo, barbudo, fumando um cigarro. Era, sem dúvida alguém incomum, perguntamos se ele sabia de alguma casa disponível, disse que não mas nos indicou um lugar onde pudéssemos obter a informação. Encontrar alguém, visualmente, parecido comigo, me fez sentir menos incomodado. Afinal, também sou cabeludo e barbudo e, até então, não estava sendo uma experiência das melhores.

Algum tempo depois, andando por Ouro Preto, paramos no café do espaço cultural da Fiemg, eis que surge um senhor todo vestido de brando e, educadamente, se ofereceu para mostrar seu trabalho. Eu, mau-humorado, de início não o reconheci e não dei muita atenção, achei que poderia ser mais um daqueles a nos aborrecer para comprarmos algo (e eu já estava aborrecido), mas minha esposa o reconheceu e ele também se lembrou de nós, me “desaborreci” por um instante. O trabalho dele consistia em anéis, brincos e outros objetos feitos com diversos metais, corais e pedras preciosas. Apesar de muito bonito, não compramos nada. Mais tarde, o encontramos na saída da cidade, pedindo carona, e o convidamos a ir conosco. Acabamos conhecendo sua casa, esposa, filha e o irmão, que passou por ali para visitá-los. Conheci seu ateliê e sua produção, bem como alguns experimentos de instrumentos musicais, os quais fez questão de me mostrar pra ver se, de repente, eu tinha alguma opinião ou contribuição a dar, já que soube que eu lido com música.

O senhor a que me refiro é Jamil Assaf. Libanês, chegou ao Brasil com cerca de seis anos de idade. Artesão da velha guarda de Belo Horizonte, na época da ditadura militar, foi um dos fundadores do Bairro Santo Antônio do Leite (em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto), bastante vivido e experiente na arte e ofício da vida. Eu sempre aprendia algo edificante com ele em pouco tempo de papo. Dizia que quando ia à Ouro Preto, “ia como um guerreiro”, referindo-se à energia ruim do lugar. Para ele, “sofrimento é importante, porque nos torna fortes”. Explicava-me sobre a matéria-prima do seu artesanato, aspectos históricos da região aonde morava (Passagem de Mariana), dizia que o Estado de Minhas Gerais se formou ali. Morava próximo à Mina da Passagem, de onde se extraía cerca de 500 kg de ouro por mês nos “áureos” tempos. Foi ele que me explicou uma das possíveis origens do termo “uai”, descobriu que foi por conta dos ingleses que diziam o tempo todo: “all right!” e os empregados, matutos, se apropriaram do termo e criaram a própria versão.

Jamil Assaf na companhia de seu 'vizinho'. Foto: Marta Maia. Na companhia dos "vizinhos", os macaquinhos saguis.Na última vez que fui visitá-lo, Jamil havia mudado de endereço, na mesma rua, uma casa com quintal de fundos para uma área de mata preservada, fez amizade com macaquinhos saguis e os recebia frequentemente, alimentando-os com frutas; as minhas filhas adoraram. Estava contente com a mudança, já que a casa antiga não tinha quintal. Mostrava o que havia conseguido plantar  em um pequeno pedaço de terra com pouco mais de 10 cm de profundidade, seu forno rústico para queimar objetos de cerâmica, cuja técnica lhe permitia atingir cerca de 1000 graus celsius. Porém, naquele dia, percebi que havia uma novidade na vida do Jamil, algo que ele ainda não havia tido a oportunidade de explorar: a tecnologia.

Logo que entramos, vi, pela janela, um computador em um dos quartos da casa, sem a tampa do gabinete, ele disse que havia ganhado há alguns dias, mas que ainda faltavam algumas peças (HD, memória RAM e fonte). Uma amiga que estava conosco ofereceu de presente um notebook antigo. Jamil estava animado com a novidade, comentou que já tinha uma conta no Orkut. O intuito era usar o equipamento para escrever suas memórias e, de repente, a internet para divulgar e ampliar seu trabalho e suas idéias. Dias depois, soube que ele estava um tanto chateado pois nem chegou a usar o notebook, que havia parado de funcionar, pediu para que eu desse uma olhada, um modelo Toshiba Tecra, bem antigo. Não havia muito o que fazer e deixei o equipamento guardado, até encontrar uma oportunidade para devolvê-lo. Entretanto, não houve tempo.

No dia 11 de fevereiro, quinta à noite, a esposa dele ligou e comentou que o mesmo estava hospitalizado há uma semana e que o estado de saúde dele era crítico, estava tentando transferí-lo para algum hospital em Belo Horizonte, disse que o fígado estava bastante comprometido e que era necessário um transplante, embora a equipe médica fosse incapaz de dar um parecer preciso sobre o caso. Na sexta, fui visitá-lo no hospital e fiquei impressionado com a situação em que Jamil se encontrava. Estava mal, com as pernas bastante inchadas, hemorragia no esôfago, com fome e sentido muita dor, a equipe do hospital parecia não dar muita importância ao paciente (outro assunto à parte…). Passei pouco mais de uma hora com ele, na esperança de atenuar-lhe o sofrimento. Entre os intervalos de crise de dor, conseguia conversar. Com a voz fraca, disse: “Você vê? Levaram o computador embora”. Fiquei surpreso: O de mesa? Como assim, Jamil? Não te deram a máquina? “Sim, mas a irmã do doador disse que não havia sido consultada e foi buscá-lo de volta”. Desfeitas à parte, Jamil não perdeu grande coisa, já que o equipamento estava incompleto. Ele lamentou também pela perda do notebook, mas “também, no estado em que me encontro, não poderia usá-los”. Notei que ele estava peculiarmente chateado com essa história, mas tinha algo mais “latente” que o incomodava naquele momento: a dor. Em uma das crises eles levantou os braços e disse: “Ô Deus, me livra desta dor!”.

O horário de visita havia acabado, me despedi dele e da família e saí. Ainda na porta do quarto, dei uma última olhada nele, estava pálido e transtornado, e de certa forma eu também. Saí de lá com vontade de chorar, me perguntando se a questão dos computadores não ajudou a agravar seu estado de saúde; se eu não poderia ter feito algo para ajudar (embora não soubesse como, sempre tive um “senão” em dar computadores velhos como presente, justamente por estarem velhos); se ele conseguiria sair vivo da situação em que estava. Passei o restante do dia bolado, com dor de cabeça e sem chegar a nenhuma conclusão.

Por volta de 6h30 do dia seguinte, o celular da minha esposa tocou. Ela se levantou correndo e atendeu. Eu estava um tanto insonado e a ouvi dizer, chorando: Ai não!! Jamil finalmente havia se livrado da dor, Deus lhe concedeu o pedido. Morreu por volta de 3h da madrugada, como o cavalheiro que sempre foi: no instante em que a esposa cochilou. Morreu com fome e com vontade de ter tido um computador.

Má sorte? Quem pode afirmar? É bem provável que não. Em Ouro Preto, Jamil é conhecido como “o Homem da Boa Sorte”. Decerto, a sorte o acompanhará, aonde quer que esteja.

A dificuldade do re-começo

Depois de anos e anos trabalhando em uma linha específica e descobrir que essa linha já era, o re-começo é algo muito penoso e beira os limites do impossível, às vezes, como reciclar-se? Qual caminho seguir? Qual técnica? Qual software? São tantas as perguntas que o acúmulo bloqueia. Eis a tarefa do re-começo.

Blog não é um assunto novo pra mim, entretanto, nunca dei a menor bola para esse assunto. Porém, o que me atrai em utilizá-lo, logo agora, praticamente, no final da carreira (porque carreira hoje em dia é algo extremamente perecível) é a análise dos recursos disponíveis, como o WordPress, pro exemplo. Faz tempo que quero instalá-lo, ver como funciona e tal. Mas nunca sobrava tempo e gente mais velha demora mais pra fazer as coisas. Não que eu seja velho fisicamente, é um lance de mente mesmo.

Ferramentas de gerenciamento de conteúdo (CMS), adesão a utilização dos blogs, padrões web, frameworks, esses e outros termos têm me torturado a mente já há algum tempo. Bom, há que se começar por algum caminho, tenho muitas idéias, mas sem saber direito por onde começar. Criei uma conta na DreamHost, descobri que o WordPress é um sistema feito em PHP que tem vários plugins, o caminho é esse.

Então, vamos ver como funciona esse negócio.