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Réquiem Lenitivo: contrabaixo, macinstosh, suicídio e temas afins

Conheci Venâncio na van que leva os professores de Campinas/SP para Salto/SP, na Instituição de Ensino Superior de lá, ele era recém contratado enquanto eu já estava entrando no segundo semestre na casa. Demorou alguns dias até trocarmos alguma ideia, soube que iria lecionar para cursos de Cinema e Radio e TV, em disciplinas ligadas a música. Tivemos um longo papo quando, certa noite, um outro colega de trabalho estava de carro e nos ofereceu uma carona de volta pra casa, havia também uma outra professora de teatro. Fora eu, todos eles eram estreantes naquela instituição. Nessa viagem pude conhecê-lo melhor. Me disse que era contrabaixista, tocou na Orquestra Sinfônica de Campinas, era mestre e doutorando pela Unicamp, na qual havia se graduado em música. Era professor na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo/SP e estava contente por ter encontrado outro empregador, disse que a grana estava curta. Fazia uns freelas, criava trilhas sonoras para teatro e cinema, dava aulas particulares de música etc. Chegando em Campinas, ofereci carona até a casa dele, que era caminho pra minha. Foi um papo agradável, gostei de tê-lo conhecido, mas o adverti de que aquela instituição tinha vários e vários problemas, apesar de dar transporte de ida e volta e pagar o salário direitinho.

Quando soube que eu, apesar de ter parado, já havia estudado contrabaixo acústico, há alguns anos, e tinha tido aulas com um ex-colega de orquestra dele, Venâncio prometeu me dar alguns métodos de contrabaixo que tinha em casa e não usava mais. Achei legal a ideia, quem sabe eu poderia, um dia, retomar os estudos. Foi também um dos responsáveis por eu ter aderido à plataforma Mac e ter, inclusive, adquirido um Macbook. Ela era aficcionado pela Apple e já trabalhava com Mac há uma década. Nos laboratórios do prédio onde lecionávamos havia somente macintoshes, o que ajudou na minha tomada de decisão. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos, às vezes, no trajeto de ida e volta para o trabalho (com cerca de 40 minutos cada), eu sempre aprendia algo com ele (acho que é, ou pelo menos deveria ser, a função de todo ser humano nesta vida: aprender e evoluir).

Além do lado profissional, Venâncio era um bom conhecedor de vinhos, queijos e boa gastronomia. Ficou conhecido, na van, como um sujeito “sofisticado”, indicava marcas de azeites, queijos, vinhos e outros. E quando a conversa era no caminho de volta, servia de estímulo para que todos chegassem em casa com mais fome. Foram divertidas essas viagens, algumas das boas recordações que guardo desse período. Em uma delas, havia chovido e levei meu guarda-chuva (famoso entre os ex-colegas pela idade, hoje está com 21 anos). Por conta de um assunto que conversávamos, peguei o guarda-chuva e fingi carregar uma espingarda calibre 12 e disse: “tá vendo? Estou preparado, e é cano serrado”. Venâncio respondeu: “mas é pior ser cano serrado, o tiro sai com menos pressão”. Perguntei como ele sabia disso e ele respondeu: “porque eu tenho uma em casa”.

Certo dia, convidei Venâncio com sua esposa e enteado para almoçar em casa, havia preparado sushi e sashimi (hobby que pratico até hoje). Neste dia, fiquei conhecendo a família dele e os nossos respectivos filhos brincaram extremamente bem. Ele me trouxe alguns aplicativos para Mac e me deu alguns toques e dicas de como utilizá-lo. Já era fim de tarde quando sugeri tomarmos um vinho e ele disse: “Puxa, fica pra um outro dia, estou com mais de 60 provas pra corrigir das aulas em Itu, tenho que estar sóbrio pra encarar a ‘tarefa'”. Ele tinha razão, haja vista o sufoco que passou durante o semestre em que lecionou por lá. Tanto é que abriu mão das aulas, permancendo exclusivamente no campus de Salto. O vinho acabou, de fato, ficando para uma “próxima”, mas ficamos de combinar um outro encontro gastronômico, que não também não aconteceu.

Durante o segundo semestre do ano letivo, tivemos um período turbulento com bastante trabalho, atribulações e muito pouca motivação. O ambiente acadêmico estava bem ruim e Venâncio vinha faltando bastanteao trabalho, disse que andava passando mal devido a problemas na vesícula, estava indo ao médico e o humor dele já não era o mesmo, igual a mim, embora eu não tivesse nada envolvendo a saúde. A esposa dele enfrentava alguns problemas com o filho mais velho dela, que vivia com o pai, o que a fez passar uns tempos com o mesmo na cidade onde o garoto morava. Por conta disso, passei a dar carona a Venâncio mais vezes até sua casa, mas o contato entre nós havia reduzido aos assuntos cotidianos envolvendo o trabalho. E assim foi até o final do ano. Me lembro de ter ficado um tanto chateado com Venâncio, pois fui demitido da instituição no fim do ano  junto com cerca de 50 professores, sendo alguns destes no mesmo bloco em que lecionávamos e ele sequer foi capaz de dar um telefonema ou mandar um e-mail, enfim. Respeitei a decisão dele e nunca mais o vi.

Dois anos se passaram, mudei de cidade, de Estado e apesar de ainda manter contato com outros demitidos da referida instituição, a pessoa de Venâncio quase nunca era lembrada durante os papos. Porém, dia desses encontrei com um amigo em comum em Belo Horizonte/MG. Na verdade, mais amigo do Venâncio do que meu, ele foi nomeado professor em uma instituição pública de ensino superior em BH. Fazia muito tempo que não nos víamos. Este professor, aliás, também havia lecionado naquela instituição apenas por um semestre, um tempo antes de mim. Não aguentou e pediu demissão. Foi ele, na época, que indicou o emprego ao Venâncio.

Dentre os tantos assuntos que conversamos, o amigo disse: “pois é, vocês comentaram do Venâncio naquela época, que ele estava distante…”. De pronto comentei que tinha ficado chateado e tal e ele disse, “então, até comigo ele estava estranho também. Um dia fui até a casa dele, um pouco antes de se mudar, pra saber o porque do sumiço e ele disse com um olhar meio opaco: ‘não posso te atender agora porque estou jogando'” (ele jogava World of Warcraft e muito, por sinal). Ele disse que Venâncio se separou da esposa e se mudou para a cidade aonde os pais dele moravam, alugou uma casa e vivia sozinho, não recebia praticamente ninguém e, apesar de fazer tratamento contra depressão, não estava seguindo a medicação prescrita e passou o último ano praticamente de licença médica. Excluiu o perfil no Orkut e criou um outro fake, no qual postava, segundo meu amigo, umas coisas esquisitas, suicidas. Ele tentou se comunicar com Venâncio por esta via, mas o mesmo não respondeu. Não sei como era a relação dele com os pais e/ou familiares, mas pude perceber que os mesmos respeitaram o isolamento.

O fato é que, segundo o nosso amigo, Venâncio, em dezembro de 2009, um dia depois do aniversário, bebeu um vinho (certamente de boa qualidade), colocou um réquiem pra tocar, bem alto, carregou a espingarda calibre 12 de cano serrado e disparou um tiro contra o próprio rosto (me lembrei do final do filme Tropa de Elite). O incidente só foi percebido uma ou duas semanas depois pelos vizinhos, por conta do mau cheiro que vinha da residência. O amigo lembrou bem: “imagine a mãe dele, como deve ter ficado?”. A notícia abalou a todos, queriam descobrir a causa, algum culpado, mas quem pode julgar? Fico pensando se a permanência naquela instituição decrépita não contribuiu para a decisão de Venâncio, eu mesmo pensei em coisas um tanto macabras enquanto estive por lá. A vida do professor em instituições privadas atualmente está bastante complicada, salários cada vez menores, desrespeito e o medo constante de ser demitido, independentemente da competência. Aliás, quanto maior a titulação, maior o perigo de cair da “corda bamba”, ranços da famigerada era FHC. Seria esta a meritocracia reversa?

De minha parte, perdoei Venâncio por não ter me dado os “pêsames” quando perdi o emprego, certamente estava com problemas bem maiores que o meu.

P.S. Para proteger a identidade do protagonista, o nome foi alterado.

A saga do prestador de serviços – parte 1

Webdesigner/desenvolvedor versus cliente

Os serviços de criação e desenvolvimento web são oferecidos no Brasil há mais de uma década e meia. Empresas começaram a buscar especialização neste campo, serviços passaram a ser oferecidos e o mercado cresceu, tanto que acabou inflando e ficou competitivo demais, saturado. Mas, com tanta mão-de-obra disponível, qual o perfil do cliente hoje?

Com mais de dez anos de experiência na área de criação e desenvolvimento para web, até hoje me pergunto: qual o perfil dos meus clientes? Qual o grau de conhecimento deles acerca da Internet? Qual o nível de interatividade possuem com a rede? De que forma eles a usam para gerar/complementar receita a seus negócios? E, por fim, o quanto eles valorizam o profissional responsável por trazem o negócio deles para a rede?

Quando analiso os fatos, concluo que o resultado é, no mínimo, frustrante. Meus clientes, e creio que este seja apenas um pequeno rol que representa a grande maioria dos clientes brasileiros, se pautam basicamente pelo investimento financeiro. Para eles, o melhor negócio resume-se na eficácia máxima com o mínimo de investimento, o maior lucro gerado com o menor valor investido. É cultural, é o jeito brasileiro de atuação no mercado. Com base neste cenário, os prestadores de serviço concorrem entre si tentando oferecer o melhor serviço ao menor custo possível. Dentre esses, me incluo.

Quando digo “oferecer um serviço com baixo custo”, me refiro a oferecer um serviço interessante ao cliente com um preço acessível, algo palpável, para que o mesmo aceite e fique satisfeito com o resultado (isso me gera portifólio, tenho interesse nessa relação e faço minha parte). Mas, nem sempre isso ocorre, e por quê? Isso ocorre por um motivo que acredito ser básico: o cliente conhece pouco sobre o ambiente e as ferramentas em que pretende investir. Isso mesmo, em boa parte das vezes, o cliente é completamente leigo e, sendo leigo, qualquer proposta é viável. Se qualquer proposta é viável, em qual (ou quais) parâmetro(s) ele vai se basear para contratar um serviço? O custo. E apenas o custo, porque o benefício desse custo ele ainda não conhece. E, por mais que o prestador de serviço se esforce para mostrar-lhe os (possíveis) benefícios do investimento, são apenas argumentos que poderão se concretizar com o tempo, conforme o cliente aderir à utilização do ambiente virtual e acostumar-se com o mesmo, ou não.

Tento estudar e compreender essa icógnita, mas é difícil. O cliente quer bons resultados, mas quer investir pouco, ou seria, segundo ele: o necessário. Enfim: é possível trabalhar com prestadores de serviço que cobram menos e ter um resultado satisfatório? Acredito que sim. Porém, ao adotar essa postura, é necessário que o cliente se preste a entender os mecanismos de funcionamento da rede, os aplicativos e ferramentas, a filosofia de uso e passe, efetivamente, a utilizá-los sob a orientação do prestador de serviços. Sim, render-se à orientação do prestador de serviços. Afinal, será mais caro se o prestador tiver de fazer todo o trabalho. Mas o cliente reconhece o trabalho e o esforço do prestador e a parte dele na relação, a chamada: parceria?. Infelizmente, na maioria das vezes, não. Em geral, ele acha caro o valor e, dependendo da situação, acha que pode cuidar de tudo sozinho e diz: “quero apenas o site, bem simplizinho e que eu mesmo possa atualizar”. Como se essa fosse a tarefa mais fácil do mundo. Acredite, não é! Por acaso isso já aconteceu contigo, webdesigner/desenvolvedor?

A partir deste post, pretendo criar uma pequena série na qual discutirei o assunto, fornecendo exemplos e também dando a mão à palmatória no que diz respeito às minhas falhas. Espero poder ler comentários de outros profissionais, inclusive de outras áreas. Não sei porque, creio que há muito a compartilhar e desabafar.