tecnologia
Negociar com a Oi, dá nisso
by Marcelo Muraro on mai.05, 2010, under pessoal, tecnologia
Com tantos exemplos por aí, apesar de tantas “vítimas” feitas por essas empresas de telecomunicações (oriundas da tenebrosa “Era FHC”), sempre há um panaca ainda por cair em algumas dessas tramóias. Dessa vez, este que vos escreve é o protagonista da história.
Ao me mudar para o Estado de Minas Gerais, procurei me informar acerca dos planos disponíveis para telefonia fixa, celular, internet banda-larga, etc. A única empresa que agrega todos estes serviços no Estado é a Oi. Detentora da antiga Telemar e também da Velox, a empresa oferece uma solução que, em princípio, parece ser interessante, tanto por agregar todos os serviços em uma única conta como também pelo valor: o Oi Conta Total. Além dessas vantagens, todas as linhas participantes do plano falam entre si gratuitamente, desde que esteja dentro da área de cobertura em que foi contratada.
Na época (março/2009), o serviço, que incluía, telefone fixo, dois celulares e conexão banda-larga de 1Mb saía por R$ 169,00 ao mês, já com um desconto de R$ 80,00 durante os primeiros 10 meses. Interessante o preço, não? Sim, inclusive pela possibilidade de cancelamento do plano após os tais 10 meses e recontratação de outro, conforme a promoção vigente.
Contratei o plano em março de 2009 (o Oi Conta Total 2). Tive aqueles problemas técnicos para fazer a conexão funcionar, o “modem grátis” não havia sido entregue por conta de informações erradas de provedores (tanto do UOL quanto o da própria Oi), essas coisas. Mas, no geral, até que funciona bem. Porém, saiba desde já, que o valor previsto de R$ 169,00 foi cobrado apenas em julho/2009, em todos os outros meses, os valores vieram diferenciados do valor contratado, obviamente com a respectiva justificativa. Inclua-se aí também o aumento anual autorizado pela Anatel, que a funcionária não informa no ato da contratação.
Ao final dos 10 meses, a loja da cidade me procurou, oferecendo uma nova promoção e como minha filha estava precisando de um celular, aderi ao Oi Conta Total 3, que dá direito a mais um chip. Dessa forma, precisaria de mais um aparelho. Como já estava com aquela “vontade” de ter um smartphone (vinha cogitando a possibilidade há alguns meses), fui verificar a tal promoção do iPhone pela Oi. Diz o slogan “E você ganha até R$ 2000 de crédito para comprar seu iPhone”. Que interpretação você faria dessa frase? Pois é, acreditei nela. Mais um otário caindo na “propaganda” da Oi.
Ao ligar na Central de Vendas, o funcionário disse que, pelo meu plano, eu receberia um crédito de R$ 1750 e que eu pagaria apenas a diferença, dependendo do modelo que escolhesse, junto ao Mercado Móvel (a empresa que comercializa o aparelho para a Oi). Pelas contas que fiz, optei pelo 3GS de 32Gb. Pensei comigo: R$ 2799 menos R$ 1750 é igual a R$ 1049. Bom preço, não? Pois é…
O valor do meu novo plano havia ficado em R$ 209, (incluindo fixo, três celulares e banda-larga de 1Mb). O funcionário ainda me disse, que, aderindo ao plano de dados eu teria mais um desconto (e quantos descontos a Oi oferece), de R$ 209, o valor do plano reduziria para R$ 175 e somado ao plano de dados, o total passaria a custar R$ 259 ao mês. Claro que fechei! Achei que foi um ótimo negócio. Porém, não percebi que estava prestes a “cair da cama” e acordar do meu “sonho”.
Ao fechar o plano, o funcionário me deu um número de protocolo para eu entrar em contato com o Mercado Móvel. Ao ligar na referida empresa, a primeira surpresa: Eu não pagaria “somente a diferença”, como havia sido dito, iria pagar o valor integral do aparelho em até 10 parcelas no cartão de crédito e me disseram que eu poderia escolher entre receber o crédito em forma de desconto pela fatura ou no próprio cartão de crédito. Mesmo achando a história muito esquisita, a “vontade” de ter o iPhone era mais forte e me impediu de perceber que estava para cair em uma emboscada. Resolvi comprar o aparelho e o mesmo foi entregue em alguns dias.
Ao ligar na Oi para fazer a habilitação do plano, percebi que já não rolava mais aquele papo de R$ 259 por mês, e, claro, o funcionário não conseguia esclarecer o porquê (eles nunca conseguem). Antes disso, porém, havia ligado na Oi algumas vezes para saber mais a respeito de como receberia o tal crédito. Me disseram que o mesmo viria somente creditado na fatura, a partir da segunda mensalidade, depois de contratado o plano de dados (a via pelo cartão de crédito estava descartada). Por não entender mais a situação e não ter ninguém que pudesse me explicar, resolvi aguardar a chegada das próximas faturas. E elas chegaram.
Em valores, a coisa ficou assim: eu (achei que) devia pagar pelo Oi Conta Total 3, R$ 209 nos 10 primeiros meses (desde que fosse feito débito em conta corrente, mais essa…), com a adesão ao plano de dados, o valor subiria para R$ 259 e eu (achei que) ainda receberia o tal crédito pela aquisição do iPhone. Ledo engano.
A fatura de abril veio no valor de R$ 254 líquidos e nada de crédito. Já a fatura de maio veio no valor de quase R$ 300 e também sem nenhum crédito. Fui à loja da Oi aqui na cidade, a funcionária perdeu um tempão comigo sem conseguir entender aqueles valores todos e (adiantando informalmente que, segundo ela, o tal crédito não existe) me orientou a ligar no *144. Liguei e a atendente disse não ter acesso às informações sobre o plano de dados e sugeriu abrir uma contestação (mais uma, aquela que eles nunca dão retorno). Não tem ninguém que possa esclarecer minhas dúvidas quanto ao plano de dados? Não seria este um direito meu? Pelo visto, não.
Conclusão
É triste, porém verdade. A moça da loja estava mais ou menos certa. Contratei o Oi Conta Total 3, que me garantia um desconto de R$ 140. Ao, adquirir 0 plano de dados, no valor de R$ 85, e um aparelho no valor de R$ 2799, na esperança de pagar somente R$ 1049, por conta do tal crédito de R$ 1750, o desconto que era de R$ 140 aumentou para R$ 175 (eis o tal crédito, sacou?), um ganho de apenas R$ 35 que, em 10 parcelas, dá um total de R$ 350, ou seja, o aparelho vai sair por uma bagatela de R$ 2449. Praticamente, troquei seis por meia-dúzia. E ainda estou vinculado por 10 meses a um plano de dados de 10Gb mensais, o qual não consigo usar nem 100Mb, já que passo a maior parte do tempo usando o aparelho com a conexão WiFi e vale lembrar que não tem cobertura 3G (somente Edge) na cidade onde resido e ainda que tivesse, a velocidade é bem inferior ao WiFi, pude comprovar isso quando fui à Belo Horizonte/MG. Como tudo tem um lado positivo, agora tenho um iPhone 3GS de 32Gb (por enquanto e se nada mais der errado
)
Pois é! Negociar com a Oi, dá nisso!
O adeus ao Homem da Boa Sorte
by Marcelo Muraro on fev.25, 2010, under pessoal, sociedade, tecnologia
Logo após o Carnaval de 2009, nos mudamos para esta cidade em Minas Gerais. Em busca de melhoria e conforto para a família, saíamos sempre à procura de casas para alugar (um assunto à parte…) e, “passando” pelo Distrito de Passagem de Mariana, nos deparamos com um senhor todo vestido de branco, cabeludo, barbudo, fumando um cigarro. Era, sem dúvida alguém incomum, perguntamos se ele sabia de alguma casa disponível, disse que não mas nos indicou um lugar onde pudéssemos obter a informação. Encontrar alguém, visualmente, parecido comigo, me fez sentir menos incomodado. Afinal, também sou cabeludo e barbudo e, até então, não estava sendo uma experiência das melhores.
Algum tempo depois, andando por Ouro Preto, paramos no café do espaço cultural da Fiemg, eis que surge um senhor todo vestido de brando e, educadamente, se ofereceu para mostrar seu trabalho. Eu, mau-humorado, de início não o reconheci e não dei muita atenção, achei que poderia ser mais um daqueles a nos aborrecer para comprarmos algo (e eu já estava aborrecido), mas minha esposa o reconheceu e ele também se lembrou de nós, me “desaborreci” por um instante. O trabalho dele consistia em anéis, brincos e outros objetos feitos com diversos metais, corais e pedras preciosas. Apesar de muito bonito, não compramos nada. Mais tarde, o encontramos na saída da cidade, pedindo carona, e o convidamos a ir conosco. Acabamos conhecendo sua casa, esposa, filha e o irmão, que passou por ali para visitá-los. Conheci seu ateliê e sua produção, bem como alguns experimentos de instrumentos musicais, os quais fez questão de me mostrar pra ver se, de repente, eu tinha alguma opinião ou contribuição a dar, já que soube que eu lido com música.
O senhor a que me refiro é Jamil Assaf. Libanês, chegou ao Brasil com cerca de seis anos de idade. Artesão da velha guarda de Belo Horizonte, na época da ditadura militar, foi um dos fundadores do Bairro Santo Antônio do Leite (em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto), bastante vivido e experiente na arte e ofício da vida. Eu sempre aprendia algo edificante com ele em pouco tempo de papo. Dizia que quando ia à Ouro Preto, “ia como um guerreiro”, referindo-se à energia ruim do lugar. Para ele, “sofrimento é importante, porque nos torna fortes”. Explicava-me sobre a matéria-prima do seu artesanato, aspectos históricos da região aonde morava (Passagem de Mariana), dizia que o Estado de Minhas Gerais se formou ali. Morava próximo à Mina da Passagem, de onde se extraía cerca de 500 kg de ouro por mês nos “áureos” tempos. Foi ele que me explicou uma das possíveis origens do termo “uai”, descobriu que foi por conta dos ingleses que diziam o tempo todo: “all right!” e os empregados, matutos, se apropriaram do termo e criaram a própria versão.
Na última vez que fui visitá-lo, Jamil havia mudado de endereço, na mesma rua, uma casa com quintal de fundos para uma área de mata preservada, fez amizade com macaquinhos saguis e os recebia frequentemente, alimentando-os com frutas; as minhas filhas adoraram. Estava contente com a mudança, já que a casa antiga não tinha quintal. Mostrava o que havia conseguido plantar em um pequeno pedaço de terra com pouco mais de 10 cm de profundidade, seu forno rústico para queimar objetos de cerâmica, cuja técnica lhe permitia atingir cerca de 1000 graus celsius. Porém, naquele dia, percebi que havia uma novidade na vida do Jamil, algo que ele ainda não havia tido a oportunidade de explorar: a tecnologia.
Logo que entramos, vi, pela janela, um computador em um dos quartos da casa, sem a tampa do gabinete, ele disse que havia ganhado há alguns dias, mas que ainda faltavam algumas peças (HD, memória RAM e fonte). Uma amiga que estava conosco ofereceu de presente um notebook antigo. Jamil estava animado com a novidade, comentou que já tinha uma conta no Orkut. O intuito era usar o equipamento para escrever suas memórias e, de repente, a internet para divulgar e ampliar seu trabalho e suas idéias. Dias depois, soube que ele estava um tanto chateado pois nem chegou a usar o notebook, que havia parado de funcionar, pediu para que eu desse uma olhada, um modelo Toshiba Tecra, bem antigo. Não havia muito o que fazer e deixei o equipamento guardado, até encontrar uma oportunidade para devolvê-lo. Entretanto, não houve tempo.
No dia 11 de fevereiro, quinta à noite, a esposa dele ligou e comentou que o mesmo estava hospitalizado há uma semana e que o estado de saúde dele era crítico, estava tentando transferí-lo para algum hospital em Belo Horizonte, disse que o fígado estava bastante comprometido e que era necessário um transplante, embora a equipe médica fosse incapaz de dar um parecer preciso sobre o caso. Na sexta, fui visitá-lo no hospital e fiquei impressionado com a situação em que Jamil se encontrava. Estava mal, com as pernas bastante inchadas, hemorragia no esôfago, com fome e sentido muita dor, a equipe do hospital parecia não dar muita importância ao paciente (outro assunto à parte…). Passei pouco mais de uma hora com ele, na esperança de atenuar-lhe o sofrimento. Entre os intervalos de crise de dor, conseguia conversar. Com a voz fraca, disse: “Você vê? Levaram o computador embora”. Fiquei surpreso: O de mesa? Como assim, Jamil? Não te deram a máquina? “Sim, mas a irmã do doador disse que não havia sido consultada e foi buscá-lo de volta”. Desfeitas à parte, Jamil não perdeu grande coisa, já que o equipamento estava incompleto. Ele lamentou também pela perda do notebook, mas “também, no estado em que me encontro, não poderia usá-los”. Notei que ele estava peculiarmente chateado com essa história, mas tinha algo mais “latente” que o incomodava naquele momento: a dor. Em uma das crises eles levantou os braços e disse: “Ô Deus, me livra desta dor!”.
O horário de visita havia acabado, me despedi dele e da família e saí. Ainda na porta do quarto, dei uma última olhada nele, estava pálido e transtornado, e de certa forma eu também. Saí de lá com vontade de chorar, me perguntando se a questão dos computadores não ajudou a agravar seu estado de saúde; se eu não poderia ter feito algo para ajudar (embora não soubesse como, sempre tive um “senão” em dar computadores velhos como presente, justamente por estarem velhos); se ele conseguiria sair vivo da situação em que estava. Passei o restante do dia bolado, com dor de cabeça e sem chegar a nenhuma conclusão.
Por volta de 6h30 do dia seguinte, o celular da minha esposa tocou. Ela se levantou correndo e atendeu. Eu estava um tanto insonado e a ouvi dizer, chorando: Ai não!! Jamil finalmente havia se livrado da dor, Deus lhe concedeu o pedido. Morreu por volta de 3h da madrugada, como o cavalheiro que sempre foi: no instante em que a esposa cochilou. Morreu com fome e com vontade de ter tido um computador.
Má sorte? Quem pode afirmar? É bem provável que não. Em Ouro Preto, Jamil é conhecido como “o Homem da Boa Sorte”. Decerto, a sorte o acompanhará, aonde quer que esteja.