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Hoje é finados

Sim, com a construção do título mal feita. Hoje é finados. Me toquei disso pela manhã, quando o parça Luiz Freitas me desejou, pelo zap, um “feliz dia de finados pra você”. Quem me veio à cabeça, quase que de imediato, foi o meu amigo Jamil, que faleceu no carnaval de 2010 (por volta de).

Mandei o link do texto pro Luiz e me lembrei do Venâncio, que se foi em 2009. De repente me toquei que mais de 600 mil pessoas morreram em menos de dois anos de uma única doença! 600 mil pessoas. 600 mil!

E de reflexão em reflexão, vi que este meu blog tem uma relação, digamos, estreita com a morte, já que textos como os do Jamil, do Venâncio, Steve Jobs e, por que não, Dorsal Atlântica, embora esta seja do tipo Fênix. A morte figura sob vários significados e não é possível que não se possa (ou se deva) refletir sobre as figurações da morte. E qual seria o melhor dia pra se conversar (e refletir) sobre este assunto que não o de finados?

Morte tem muitos significados. Antes de continuar, vale dizer que o surgimento recente de um grupo chamado Crypta, que gerou o disco Echoes Of The Soul que trata dessas figurações da morte. A ideia de concepção é polissêmica.

Continuando, que momento é este pelo qual passamos? Desde a morte de milhares diariamente (?!?), pelos assassinatos (também diários) de pretos pobres pela polícia, como a morte do processo democrático, a morte lenta das instituições, do meio ambiente. De que tipo de morte estamos fazendo parte atualmente?

Em casa, a patroa dizendo sobre acender velas e citando exemplos, se dá conta do número alterado para mais dos que já partiram, incluindo um primo dela de São Paulo, recentemente e numa condição que nos choca e me faz atentar ao fato que sigo, cada vez mais, para um caminho, mais ou menos parecido. Ok, mas quem não está? Seguimos no mesmo tempo, mas esta sensação não te traz nada à tona? O fato de que o mundo será bem pior nos anos posteriores, a algumas gerações depois da nossa?

É assustador, é (ou pode ser) gatilho às vezes. A que se pensar com calma que, por outro lado, tudo tem seu fim. A resignação tem sua função nesses momentos já que a morte é pior pra quem fica. Será? É possível, creio. Embora deva ser difícil para ambos os lados. O fato é que o fim provoca recomeços. Inicia e reinicia ciclos o tempo todo. Finados é todo dia, assim como o dia das mães, pais, crianças, etc. Todo dia é dia.

Mas, como o hoje é hoje, um brinde a quem se foi e nos faz falta, como a minha cunhada que me ensinou a fazer salgados, o Arthur Maia, o primo, que ia consertar nossa máquina de escrever da década de 30, o Jamil, além de tantos mais. Um brinde às relações que não existem mais, às amizades que findaram, às épocas que passaram. Ao Estado de direito, que caminha a passos largos para o cadafalso. Brindemos. Lembremo-nos dos momentos passados. A memória pode nos manter conectados. Saudemos os mortos e deixemo-los descansar seu sono profundo bem longe deste mundo. Não acordemo-los.

E para quem ainda não foi, vida longa! Seguimos num período genocida e tenebroso da história no qual centenas de pessoas morrerão ainda hoje de uma única doença e serão também lembradas no ano que vem. No finados.

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Crônica de uma amizade assassinada

Hoje a lembrança dela me veio à memória. Novamente. A lembrança junto com uma forte sensação de cobrança, seguida de um sentimento de culpa. Por que agi como agi? Era criança quando isso aconteceu. Mas eu poderia não ter agido como agi. Eu tinha esse direito? Poderia ter feito isso?

Não sei. Assim como não sei, ao certo, quando nossa amizade começou. Só sei que ela estava lá no meu aniversário de cinco anos. E já tinha um tempinho que nos conhecíamos. Lembro da gente como se fosse hoje (ela, um outro garoto e eu) destruindo o bolo no fim da festa com os dedos indicadores. Minha não gostou nada. Morávamos no mesmo bairro, há um quarteirão de distância. Num tempo em que as crianças ocupavam as ruas. Brincavam na pracinha e frequentavam as mesmas escolas públicas. Eu era um deles. Ela também. 

Caloi Dobravelzinha azul na vitrine de uma loja em Belo Horizonte/MG. Foto: Divulgação A Caloi Dobravelzinha bem parecida com a que tinha. Foto: Divulgação. Não sei quando, mas ficamos amigos. Que período ruim aquela época da pré-escola. Ia de perua escolar para uma particular católica. Às vezes fazia xixi na calça. A professora era extremamente mal educada. Frequentei esta por dois meses. Um verdadeiro transtorno. Um dia me recusei a entrar na perua. Saí correndo e me escondi embaixo da cama. Meus pais me tiraram de lá e me colocaram em outra perto de casa. Ela também estudava lá. Será que foi lá que nos conhecemos? Ela foi meu par na festa junina, ainda na década 70. Quando chegou a idade do primário, íamos à escola juntos, às vezes com outras crianças. Íamos também ao ginásio municipal, que fazia parte da faculdade de educação física, que oferecia aulas gratuitas de várias modalidades. Educação física, natação, judô, tênis, futebol, etc. Oferecia também capoeira. O pai dela era um hábil praticante. Ainda é. Chegou a lecionar lá, mas foi demitido por não ter ensino superior. Nós íamos juntos para a aula às vezes. Me lembro de ter uns sete anos. Quem com essa idade anda sozinho pelas ruas hoje? Eu tinha uma bicicleta Caloi dobravelzinha azul, que usava quando ia sozinho. Havia comprado um cadeado de segredo na cor verde, o qual tenho guardado até hoje.

De vez em quando, havia alguma rusga. Uma vez, um garoto tirou a nossa paciência. Eu e ela o botamos para correr. E ele correu. Entrou em casa por um vão no portão e nós fomos embora. Pouco tempo depois, a mãe do garoto nos perseguiu com um Fusca, o garoto no banco de trás. Estacionou ao lado, deu-nos aquela bronca, além do sermão, “sabia que vocês podem combater o mal com o bem?”. E eu: “Como?!”.

Ela sempre passava em casa para irmos tanto à escola quanto ao ginásio. Algumas vezes não íamos ao ginásio. Outras eu me recusava a ir. Ela disse: “não te chamo mais, você nunca vai”. Achava aquilo um tanto sacal. Não o fato de praticar esporte, mas a dificuldade em socializar. Ela me ajudava no que podia.

De vez em quando, vinha brincar em casa. Em outras ocasiões era eu que ia brincar na casa dela. Uma residência antiga, como todas as outras naquele bairro. Moravam várias pessoas lá, vários parentes. Lembro do avô dela, que trabalhava como pedreiro (daqueles que usava um saco de papel na cabeça). Lembro de quando a avó dela faleceu, de quando o avô casou novamente e teve um filho, um garotinho bem mais novo que ela dizia: este é meu tio.

Uma casa que estava sempre em construção ou reforma. Uma vez o pai dela transformou dois cômodos da casa, além da garagem, em uma escola de capoeira. Ainda lembro do letreiro que havia na entrada. Adorava brincar na mesa de escritório que ficou no espaço da garagem, aonde era a recepção. Me lembro de ter participado da comemoração de aniversário dela mais de uma vez. Tinha até show de mágica com mágico profissional, que me fez botar um ovo e lhe deu de presente um coelho de verdade, que ela batizou de “Gustavo”.

Quando a palavra “capoeira” me vem à mente, é deles que me lembro. Na época em que os aparelhos de TV eram preto e branco, havia um programa infantil chamado Pullman Júnior. Uma bela manhã, vejo um pessoal jogando capoeira no programa. Reconheci o pai dela, tocando berimbau. E não é que ela estava lá também? É vívido na minha memória ela tentando fazer um movimento qualquer e caindo sentada. À tarde tirei um sarro dela na escola.

Em boa parte das vezes, a mãe dela me convidava para almoçar. Extremamente gentil. Certa vez ela nos proibiu de sair de bicicleta logo após o almoço. Disse que fazia mal, no que prontamente respondi: não tem problema, é só peidar duas vezes e pronto. Disse e logo percebi que não deveria ter dito. Um tempinho depois, a filha disse: acho que está quase na hora, já foi um.

Certa vez, a mãe dela flagrou o momento em que ela estava em cima da máquina de lavar. Me lembro que a mãe pegou um cabide de madeira e gritou: desce! Ela, assustada, suplicou que a mãe não batesse e se prontificou a descer. Não aconteceu nada, mas era assim que as mães agiam naquele tempo.

Me lembro uma vez que brigamos e ficamos um certo tempo sem nos falar até que estávamos na escola em algum evento. Nossos pais também estavam. Meu pai me chamou e fez questão que eu retomasse o contato. Assim foi feito, reatamos na hora a nossa amizade. Com criança é tão fácil.

Noutra vez, um garoto quis arrumar uma briga comigo. Tanto encheu que um dia aconteceu. E como eu era ruim de briga. Eu era maior, mais forte e proporcionalmente medroso. Chegou uma hora que ela tomou a iniciativa. Me pegou pelo braço e saiu me puxando: “va-mo em-bo-ra!”. E quem acabou com a briga foi ela. Em outra ocasião, ela arrumou amizade com uma menina que eu não topava muito. Nesta época combinamos de ir à escola juntos e ela disse: “eu viro a cara com ela, mas você vai ter de ir comigo pra escola”. Topei na hora. Ao passar em frente à casa da garota, ela se juntou a nós e, simplesmente, a ignoramos. Era parceira.

Me lembro de uma vez que estávamos voltando da escola e ela bateu a cabeça numa lixeira fixada no muro sem maiores consequências. Era costume naquela época fixar a lixeira assim. Um dos meus primos foi parar no hospital depois de bater a cabeça em uma enquanto jogava bola. Um perigo. Mas, naquele dia, eu ri dela. Não sei se eu era tão amigo dela quanto ela era de mim.

Falando no meu primo, estava na casa dele quando recebi um telefonema da minha mãe dizendo que haveria um batizado dela na capoeira e que ela havia me escolhido para participar, não lembro ao certo o que era. Minha mãe disse que o pai dela me buscaria, se eu quisesse participar. Não quis. É que estava tão legal lá na casa do meu primo e, não sei porque, sempre tive um senão com a capoeira. Nunca descobri o porquê. O fato é que recusei o convite. Mas, lembro até hoje da sensação que tive depois. Não deveria ter recusado o pedido dela.

Certa vez, estávamos voltando da escola e a avó de um colega foi nos buscar (nem sempre íamos sozinhos). A mulher disse a ela: “então é você que costuma atrapalhar a amizade dos meninos?”. Demorei um pouco para entender que a avó falava sério. Num dado momento em que ela disse algo, a avó gritou: “CALA A BOCA!”. Violência gratuita. Não se trata alguém assim. Ainda mais por nada. Hoje, tenho certeza que foi por causa da cor da pele dela.

Uma outra vez, teve um garoto que implicava com ela (sempre na volta da escola). Chegou a cuspir no cabelo dela. Me senti incomodado. Ela era forte, não se abalava. Falava com os garotos na mesma altura. Tanto que o garoto, depois, passou a mão no cabelo dela e limpou o cuspe. Terá sido também pela cor-da-pele?

Numa outra ocasião, na quinta-série. O professor havia acabado de entregar a prova de inglês. Eu cursava o idioma em escola particular. Gostava e ia bem. Na escola, tirava de letra. Peguei a prova e, ao passar por ela, notei que chorava baixinho. Perguntei o que houve e ela me mostrou a prova. Tirou um “E”. Apesar das dificuldades, não reprovou.

No início da sexta série, meu pai comprou uma nova casa. Íamos nos mudar de bairro. Eu ia me mudar de escola também. Na casa havia até piscina. Minha mãe pediu que eu perguntasse a ela se tinha roupa de banho, na ideia de convidá-la. Perguntei, ela disse que sim. Mas, depois, não dei mais retorno. Um dia, na aula, ela perguntou: “você não ia me chamar no fim de semana?”. Não respondi. Depois disso, não tenho mais lembrança. Saí da escola, mudei de endereço e simplesmente a “esqueci”.

Meus pais ainda tinham certo contato com os vizinhos antigos. Um tempo depois, minha mãe disse que um deles a havia encontrado junto com a mãe e ela questionou o porquê d’eu não ter dado mais nenhuma notícia. Ela estava completamente coberta de razão. Tinha eu o direito de ter feito aquilo? De ter abandonado alguém que era a minha melhor amiga? Claro que não! Mas eu, naturalmente, tomei essa decisão de forma inconsciente. Juro! Vai ver, tive vergonha. Afinal, mudamos para uma casa grande, bonita. Ela ainda permanecia no mesmo endereço. Ainda guardo este sentimento, sem me atrever a dar-lhe um nome.

O fato é que não nos vimos mais e não sei explicar o motivo de ter agido assim. Eu poderia tê-la visitado. Ainda ia ao bairro às vezes. Lá havia uma família mais ou menos rica que construiu tipo uma mansão. Furaram um poço artesiano e construíram uma pia de granito para o lado de fora da casa. Assim, as pessoas faziam fila em frente a casa para pegar água. Nós, mesmo não morando mais lá, ainda íamos buscar água naquele local. E, mesmo assim, não fui visitá-la. Tenho um colega que mora até hoje naquele bairro e que, na segunda metade da década de 90, se mudou para uma casa exatamente em frente à dela, a qual eu visitava vez ou outra e em nenhuma dessas vezes eu fui visitá-la. Nenhuma!

Em 2001, tive um ímpeto de procurá-la, me justificar, me desculpar, sei lá. Cheguei a ter insônia pensando nisso. Perguntei a este colega se ela ainda morava lá. Ele disse que sim e brincou: “Por que? Tá a fim da mina?”. Não sei explicar o que houve, mas este ímpeto arrefeceu, sumiu. Não por completo, mas sumiu o suficiente para que eu não tomasse nenhuma atitude.

A vida seguiu, muita coisa aconteceu. Mudei de endereço umas tantas vezes, de cidade, de Estado. Mas, ontem me lembrei dela. Com toda força. Eis que tive um insight. Porra! O Facebook! Comecei a procurar. Encontrei. Achei o perfil dela, do pai dela. Achei uma fanpage dele. Descobri que ele ingressou no doutorado, que ainda é extremamente ativo no mundo da capoeira. Ele, aliás, é alguém de uma importância ímpar na cidade. Foi candidato a vereador algumas vezes. Ainda me lembro de ter chegado num bar em véspera de eleição com uns colegas e ter comprado bebida alcoólica escondido por conta da lei. Lá havia panfletos da campanha dele. Devia ter pegado o panfleto, mas não me lembro de ter votado nele.

Voltando ao facebook, confesso que fiquei contente com o que vi. Uma mulher bonita, com aspecto feliz, embrenhada na cultura negra, orgulhosa de si. Mãe. Forte como sempre. Vi a foto da mãe dela. Lembrei na hora. Mas, ao lado da foto, comentários tristes. Notei que a foto era, na verdade, a homenagem de um ano após o falecimento. Me veio à memória imediatamente o sorriso que ela tinha. Que pena. Como será que a filha está? Pensei em contatá-la. Devo? Depois de tudo o que fiz?

Perguntei à minha esposa, à minha filha. Ambas disseram que é complicado. Que a resposta poderia não ser agradável, que o tempo passou. Ou pior, ela poderia nem lembrar. Afinal, mais de 30 anos se passaram. Resolvi contatar meu colega, contei-lhe a situação. A resposta: “Sei como é. Acho que você devia deixar quieto”. Devia mesmo?

Na verdade, a dúvida permanece. Devo procurá-la? Devo me retratar pelo sumiço? Devo tentar entender o porquê de ter feito o que eu fiz? Afinal, eu era ainda criança. Teria eu agido de forma racista? Um racismo introjetado? Não sei. Nunca achei que pudesse agir assim com alguém. Especialmente ela. Mas o preconceito racial é algo tão forte e tão enfronhado que acaba funcionando como uma espécie de onda. Contamina até quem não tem intenção e nem vontade de ser. Mas dizem que de boa intenção o inferno tá cheio. Então, talvez tenha sido. Fui criado vendo as pessoas ao meu redor agindo de forma preconceituosa e, paradoxalmente, nunca tive a vontade de diminuir ninguém por conta da cor da pele, embora não perdesse a piada. Uma vez, a faxineira de casa estava lavando a calçada e eu gritei da janela: “Desse jeito as pessoas vão pensar que você é escrava!”. Fui repreendido prontamente pela minha mãe, que contou a meu pai mais tarde, que me fez correr atrás da moça pra pedir desculpas. Obedeci e nunca mais fiz isso.

Mas, será que foi o caso com a minha amiga? Não sei. O fato é que sinto remorso por não tê-la procurado depois. Vergonha de ter postergado o contato tipo pra sempre. Me sinto um covarde. O mesmo covarde e medroso que não deu uma lição no garoto folgado em frente à escola. O mesmo covarde que não a defendeu quando a avó do menino a mandou calar a boca. O mesmo covarde que não tomou as dores dela quando o outro garoto lhe deu a cuspida. Mas, racista seria demais. Será?

Ontem foi dia de finados. Dia de lembrar dos que se foram. Curioso me lembrar disso tudo de forma tão intensa justo neste dia. De uma bonita amizade que foi assassinada. Que poderia ter sido ressuscitada e não foi. Justamente num dia de finados. Devo me sentir culpado? Quem sabe?. Afinal, lembro dela de um jeito tão afetuoso. Ela foi uma das minhas primeiras amizades nos primeiros anos de vida. E olha que amizade de criança é sincera. A dela foi. Será que da minha parte foi também? Se não foi, que eu sofra com esse remorso para sempre. Talvez seja bem feito.

De todo modo, o que está feito, está feito. Talvez seja conveniente crer que tudo foi esquecido após quase quatro décadas. Mas é engraçado pensar nisso. Todas as vezes que ando por aquela cidade, saio procurando com os olhos por pessoas conhecidas. É raro, mas, às vezes, encontro quem não quero encontrar. Finjo que não reconheço, passo reto. Fico pensando se ela não fez o mesmo. Talvez tenha me visto e mudado de calçada. Pensou: “ficou rico e sumiu, playboy, racista!”. Será? Quem sabe? Se não fosse medroso, covarde. Talvez mandasse uma mensagem inbox: “Oi, lembra de mim?”. Ou, “quantos anos vai levar para você me perdoar?”. Quem sabe?

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Ano-Bom

Stanislaw Ponte Preta

Felizmente somos assim, somos o lado bom da humanidade, a grande maioria, os de boa-fé. Baseado em nossa confiança no destino, em nossas sempre renovadas esperanças, é que o mundo ainda consegue funcionar regularmente deixando-nos a doce certeza – embora nossos incontornáveis amargores – de que viver é bom e vale a pena. E nós, graças as três virtudes teologais, às quais nos dedicamos suavemente, sem sentir, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; graças a elas, achamos sinceramente que o ano que entra é o Ano-Bom, tal como aconteceu no dezembro que se foi e tal como acontecerá no dezembro que virá.

Todos com ar de novidade, olhares onde não se esconde a ansiedade pela noite de 31, vamos distribuindo os nossos melhores votos de felicidades:

Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

E os dois que se reciprocaram tão belas entradas seguem seus caminhos, cada qual para o seu lado, com um embrulho de presentes debaixo do braço e um mundo planos na cabeça.

Ninguém duvida de que este, sim, é o Ano-Bom.

Pois se o outro não foi!

E mesmo que tivesse sido, já não interessa mais – passou. E como este é o que vamos viver, este é o bom. Ademais, se é justo que desejemos dias melhores para nós, nada impede àqueles que foram felizes de se desejarem dias mais venturosos ainda. Por isso, lá vamos todos, pródigos em boas intenções, distribuindo presentes para alguns, abraços para muitos e bons presságios para todos:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

A mocinha comprou uma gravata de listas, convencida pelo caixeiro de que o padrão era discreto. O rapaz levou o perfume que o contrabandista jurou que era verdadeiro. Senhoras, a cada compra feita, tiram uma lista da bolsa e riscam um nome. Homens de negócios se trocarão aquelas cestas imensas, cheias de papel, algumas frutas secas, outras não e duas garrafas de vinho, se tanto. Ao nosso lado, no lotação, um senhor de cabeça branca trazia um embrulho grande, onde adivinhamos um brinquedo colorido. De vez em quando ele olhava para e embrulho e sorria, antegozando a alegria do neto.

No mais, os planos de cada um. Esta vai juntar dinheiro, aquele acaricia a possibilidade de ter o seu longamente desejado automóvel. Há uma jovem que ainda não sabe com quem, mas que quer casar. Há um homem e o seu desejo, uma mulher e a sua esperança. Uma bicicleta para o menininho, boneca que diz “mamãe” para a garotinha; letra “O” para o funcionário; viagens para Maria; uma paróquia para o senhor vigário; um homem – para Isabel – a sem pecados; Oswaldo não pensa noutra coisa; o diplomata quer Paris; o sambista um sucesso; a corista uma oportunidade; muitos candidatos vão querer a presidência; muitas mães querem filhos; muitos filhos querem um lar; há os que querem sossego; dona Odete, ao contrário, está louca para badalar; fulano finge não ter planos; por falta de imaginação, sujeitos que já tem, querem o que tem em dobro, e, na sua solidão, há um viúvo que só pensa na vizinha. Todos se conhecem com maior e menos grau de intimidade e, quando se encontram, saúdam-se:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Felizmente somos assim. Felizmente não paramos para meditar, ter a certeza de que este ano não é o Ano-Bom porque é um ano como outro qualquer e que, através dos seus 365 dias, teremos que enfrentar os mesmos problemas, as mesmas tristezas e alegrias. Principalmente erraremos da mesma maneira e nos prometeremos não errar mais, esquecidos de nossos defeitos e virtudes, os defeitos e virtudes que carregaremos até o último ano, o último dia, a última hora, a hora de nossa morte… amém!

Mas não vamos nos negar esperanças, porque assim é que é o ser humano; nem nos neguemos o arrependimento de nosso erros, embora, no Ano-Bom, voltemos a errar da mesma forma, o que é mais humano ainda.

Recomeçar, pois – ou, pelo menos, o desejo sincero de recomeçar – a cada nova etapa, com alento para não pensar que, tão pronto estejam cometidos todos os erros de sempre, um ano novo virá, um outro Ano-Bom, no qual entraremos arrependidos, a fazer planos para o futuro, quando tudo acontecerá outra vez.

Até lá, no entanto, teremos fé, esperança, caridade bastante para nos repetirmos mutuamente:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

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Suportes tecnológicos: a obra e os produtos derivados

Observar as diversas expressões de arte e seus respectivos suportes tecnológicos é algo muito interessante. Conforme a evolução da tecnologia, novos suportes são criados e, quando a obra é boa, ela “renasce” sob esses novos suportes, bem como obras lançadas originalmente em livro e que viram filmes. Ou filmes que viram jogos (ou o contrário). Gostaria de ater-me, nesse caso, exclusivamente ao primeiro exemplo.

Li vários livros e pensava, quando lia: “isso daria um ótimo filme”. Coincidência, ou não, a obra “renascia” como filme. Talvez, a idéia de filmar determinada obra fosse um tanto óbvia e outros também a tivessem, de preferência aqueles que tem condições de torná-la realidade. Sorte minha (ou não).

Obras devem ser apreciadas sempre no original, creio nessa afirmação, nunca se deve trocar um suporte tecnológico por outro, já que são distintos entre si e, nem sempre, visam o mesmo objetivo. Essa afirmação não se refere, obviamente a todas as obras. O mercado se encarregou de modificar a lógica ou de criar uma nova, criando obras que sugerem a continuação em outros diversos suportes tecnológicos. Hoje em dia existe uma infinidade destes. É algo planejado nesse caso.

Mas, produções distintas, isto é, quando o livro é escrito em uma época e o filme (por exemplo) é feito em outra, há que se ter a certeza de que um não deve substituir o outro, pois os formatos são diferentes e obviamente deve haver adaptações de um suporte para outro. Além destas, opiniões do diretor, roteirista e outros também são aspectos que interferem no resultado final, bem como no objetivo.

O expectador mais atento percebe a diferença entre ambos, quando consegue ter acesso a elas e, certamente ficará frustrado. É o meu caso. Já assisti a inúmeros filmes originados de livros. Na grande maioria dos casos, o resultado do produto é frustrante, se comparado à obra original. Alguns exemplos a citar: Carandiru, Diários de Motocicleta, Ensaio sobre a Cegueira, Crash – Estranhos prazeres e alguns tantos. Não há ordem que conduza à frustração, assistindo ao filme primeiro e lendo o livro depois, ou o contrário, ambos são incompatíveis entre si. O curioso é que são filmes belíssimos, possuem o aval dos respectivos autores – José Saramago, por exemplo, se emocionou ao assistir o filme de seu livro -, com exceção de Carandiru, cujo resultado achei péssimo, analisando-o individualmente e principalmente comparando-o com o excelente livro de Dráuzio Varella.

Esses filmes perdem muito do crédito, se comparados às respectivas obras originais. São tantas modificações feitas no roteiro, tantas “invenções”, tantas adaptações que o resultado fica quase outro. Se é assim, poderia-se criar uma outra narrativa diferente da obra original e não fazê-la parecer com a mesma do livro e ter tantas alterações que a tornam uma obra-original-mutante figurando noutro suporte tecnológico.

Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças. Imagem: Divulgação Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro, baseado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano.Mudar o contexto no enredo, por exemplo, é uma saída muito interessante, como no caso do filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, que partiu da história no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano, e a recriou em um contexto completamente diferente. O filme de Laís, cujo autor do livro foi um dos roteiristas, faz total referência à obra original, mas o filme tem um contexto próprio que o desvincula do livro, atribuindo identidade própria ao mesmo. Esse foi um dos livros que li pensando que daria um ótimo filme, e deu.

Porém, a maioria não é assim. Infelizmente, fazem modificações grotescas na história, inventam, mudam, costuram trechos e mudam muito o fluxo original da narrativa, o que torna o resultado muito diferente do original, uma pena. Sempre que assisto a filmes baseados em livros, procuro ler as obras e compará-las aos mesmos. Quase sempre é uma decepção.

A exceção à regra

Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima, uma delas. Imagem: Divulgação.Felizmente, há quem busque a preocupação de “verter” a obra em livro para o cinema sem destruir o original. Gostaria de saber de outros exemplos, mas conheço somente este: Meu Pé de Laranja Lima, lançado em 1970. Conheço a película desde a década de 80. Antes disso, assistia a novela de vez em quando, na TV Bandeirantes. E foi uma situação curiosa, em 1986, quando meu pai adquiriu o primeiro aparelho de videocassete. Nós todos empolgados em alugar filmes na locadora. A dúvida era sobre qual seria o primeiro filme a ser locado e minha mãe foi taxativa: “vai ser Meu Pé de Laranja Lima”! E foi. Todos assistimos, mas só eu fiquei com ele na memória. Já no início do século 21, achei o filme numa locadora e fiz questão de locar para a família assistir. Minha filha, ainda pequenina, chorou um bocado. Depois desse episódio, nunca mais vi esse filme em nenhuma locadora.

Apesar de gostar muito desse filme, nunca me interessei em ler a obra original e eis que, dia desses, fui ao shopping, precisava comprar o presente de aniversário para um colega de classe da minha filha. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o próprio, comprei dois. E qual não foi minha surpresa ao ler todo o livro e descobrir que o enredo do filme é praticamente o mesmo do livro. Tive de procurar o referido filme na rede, achei e reassisti para ter certeza do que estou falando, posto que faz anos que não o assisto. Felizmente, não estava enganado.

Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima, versão mais recente da editora Melhoramentos.O diretor Aurélio Teixeira (o “Portuga”), que é um dos atores principais e também um dos roteiristas, juntamente com o autor da obra, José Mauro de Vasconcelos, teve todo o cuidado de preservar o enredo original. A montagem deixou a desejar, a narrativa ficou um pouco rápida e o filme, em relação ao livro, perdeu um pouco da riqueza de detalhes. Mas, nada que o desabone. Manteve-se o respeito para com a obra original, até os diálogos do livro foram mantidos, algo raro. E o resultado é do tipo que eu gosto, bem próximo dos filmes de arte europeus, desprovido de efeitos, apenas a simplicidade de uma linda história, embora muito triste.

Nesse caso, é possível que a narrativa tenha contribuído para o desenvolvimento do filme como um todo, os atores desempenharam muito bem seus personagens, como o pequeno Júlio César Cruz, que interpreta Zezé, o protagonista da história. A ambientação do filme é muito boa, as locações, ou seja, uma confluência de fatores que permitiram, como resultado, um filme muito singelo, simples e direto, com um profundo respeito à obra original.

Meu Pé de Laranja Lima (o filme) é um exemplo de que é possível adaptar a narrativa de um livro para o cinema sem alterá-la geneticamente, como normalmente se faz, como manda a lógica da indústria “lucrativa” do entretenimento. Talvez, naquele tempo, a lógica fosse outra.

Fonte dos filmes: Filmow.com