Para o meu amigo

A outra face do bilhete do meu amigo. Foto: arquivo

Ontem minha esposa me disse: “Você vai limpar estas pastas agora?”. Respondi que não. Não estava afim, embora devesse estar. Afinal, nos mudamos para o novo/velho endereço há algumas semanas e tudo está uma bagunça. Diferenças na quantidade de móveis e gavetas entre os locais de partida e chegada fizeram necessária a adaptação e o descarte de alguma coisa. E lá se vão sacos e mais sacos para o lixo seletivo, doações, etc. O arquivo de aço, cuja ideia seria colocar à venda, ficará conosco por mais algum tempo, mas as pastas suspensas necessitaram “emagrecer”, bem como as caixas-arquivo, dentre as demais caixas.

Na verdade, minha vontade era a de estar no telhado protegendo-o de invasores que, assim como todo inquilino, conseguem destruir coisas inimagináveis no imóvel que ocupam, tipo comer o revestimento de fios elétricos. No caso as maritacas, não os inquilinos. Logo que cheguei na minha casinha querida – que saudade que estava dela – notei um certo movimento na laje. De fato, havia dois filhotes quase adultos por lá. Passei mais de uma semana pensando no que fazer para tirá-los de lá. Um deles saiu por vontade própria, o outro permaneceu. Era hora de impedir que outros casais resolvessem “alugar” o espaço novamente e, portanto, hora de começar a tapar as frestas por onde possivelmente entrariam. Comprei massa, uma escada bem alta, colher de pedreiro e lá estava eu, numa sexta-feira com bastante sol, destelhando parte do telhado e aplicando massa nos espaços quando notei que o acabamento na fachada não estava ficando bom. Nem pensei, desci e reposicionei a escada alta entre o telhado e a parede. A inclinação ficou comprometida. Não percebi o perigo na hora e subi na mesma segurando o material. Deu ruim, a escada escorregou, caiu e acompanhei o movimento. Lá se foi um dente frontal extraído a força, hematomas no peito, na perna, 21 pontos na boca e o orgulho completamente ferido. “Não acredito que perdi um dente. O meu dente!”, disse à nossa dentista que nos atendia no endereço anterior e que acompanha o caso à distância. Resultado: sem trabalhos no telhado durante um tempo. Sem contar que o mesmo ficou exposto enquanto fui socorrido e não deu tempo de encontrar alguém que pusesse as telhas no lugar antes da chuva que se aproximava. A ajuda acabou chegando depois que parou de chover. “Molhou muito a laje?”, perguntei. “Molhou um pouquinho, sim”. Nem quis imaginar o quanto foi este “pouquinho”.

Medicado com antibiótico, anti-inflamatório e entre caldos, sucos, iogurtes e o travesseiro úmido, segui pensando em como isso aconteceu. Que vacilo! Poderia ter sido muito pior. Dias depois, subi na laje novamente com a devida autorização e apoio das minhas mulheres. O outro filhote havia ido embora também por vontade própria. Imagino que em respeito à minha pessoa ou prezando pela própria integridade física. Quem sabe? A massa que sobrou no balde foi parar na geladeira e, no dia seguinte, derramada na sarjeta em frente à garagem a fim de tapar uma reentrância que surgiu nos 13 anos em que estivemos ausentes. Restou cuidar de tarefas mais simples como conversar (por texto e pouca fala) sobre o ocorrido com as pessoas em volta. Dentre elas, uma amiga e ex-colega de trabalho, que esteve por aqui em visita certa vez. Pelo Facebook, e posteriormente pelo Whatsapp, ela acabou enviando o contato de mais dois ex-colegas. Para um deles, outra ex-colega, mandei um alô, já que ela mora numa cidade próxima. Gostou de saber que eu estava por aqui, disse que marcaríamos algo oportunamente e que conheceríamos seu filho que, segundo disse, quer ser dublador de filmes quando crescer. Engraçado como são as coisas. Por que essa conversa justamente agora e não em outro momento? E, por que não começar a limpar as pastas, como sugeriu minha esposa? Foi o que resolvi fazer hoje.

E quanta coisa a gente guarda, não? Se me serve de consolo, já fui bem pior. Segundo meu irmão, está no DNA da família, quer seja guardar coisas inúteis como a ansiedade de querer consertar tudo rapidamente. Material de quando lecionava em um colégio no centro da cidade há 20 anos, provas de alunos de quando lecionava na faculdade, canhotos de talão de cheque. A relação de afeto com tudo isso é quase nula, melhor ir para o lixo, mas o material do “site Barão Em Revista”, não. Nem tampouco o da pasta “Lembranças e Recordações”. Ali tem um pouco de tudo, ingressos de shows, lembranças das filhas, de bandas antigas que participei, de viagens, autógrafos. Se estas pastas mais gordas não vão emagrecer, que se divida o conteúdo em outras pastas. Afinal, várias delas ficaram vazias.

E olhando, quase item por item, me deparei com um bilhete. Numa face do papel estava escrito “Para o meu amigo”. Comecei a ler e identifiquei de quem era: “‘Este foi o 1º filhote’ produzido ontem – CD made in house […] Prometi q/ vc seria o 1º a receber esse CD ‘The very best of’”. Dizem que tenho memória de elefante e não esqueço nada, mas havia me esquecido completamente da existência deste. “Quem guarda, tem”, já dizia minha ex-chefe (e da minha amiga ex-colega de trabalho). Li o bilhete esboçando um leve sorriso na boca cheia de pontos, mas fiquei intrigado. “Para o meu amigo” era algo que jurava ter visto em algum outro lugar. Olhei para a estante de CD’s, que já está devidamente montada e, juro por tudo que é mais sagrado, o primeiro CD que vi foi exatamente o que ganhei junto com o bilhete. Como suspeitava: “Para o meu amigo” era o nome de uma das faixas, a de número 6. Foi como se eu tivesse levado um segundo tombo da escada e perdido o restante dos dentes. “Ele fez uma música para mim?! Como assim?!”, pensei atônito, segurando o bilhete numa mão e o CD “made in house” na outra. “Preciso muito da sua amizade!!! Um beijo p/ todos e me ligue, pois gostaria de presentear o bebê, mas preciso de orientação”, se referindo à minha caçula recém nascida, hoje praticamente adulta.

Transtornado, mostrei o bilhete à minha esposa. Depois entreguei-lhe o CD e pedi-lhe que verificasse o nome da faixa de número 6. “Nossa!”, foi só o que ela disse olhando para mim. Como assim? O cara fez uma música para mim e eu nunca percebi? Obviamente havia escutado este CD várias vezes, mas nunca havia feito tal associação. O CD, aliás, é uma compilação. A maioria das faixas é de seu primeiro trabalho solo, que eu já tinha há uns anos e conhecia bem, além de algumas composições mais recentes ou que não entraram no primeiro. Daí o termo “The very best of”. A ideia dele era ter um CD de baixo custo de produção que pudesse vender de maneira mais direta ao público sem a burocracia imposta pela indústria do entretenimento. Me lembrei de quando e como ganhei o CD junto com o bilhete. Ele passou por aqui num dia, bem cedo, e o deixou na caixa de correio. Foi uma grata surpresa. “Me ligue por favor e não fique magoado comigo (foi o recado q/ minha tia passou).”. Não me lembro de ter dito isso à tia dele que, aliás, é uma senhora muito simpática. Gostava dela. Me lembro que liguei para ele. Não me lembro ao certo como as coisas aconteceram, mas deixei claro que também estava com saudades. Ele, músico independente, exímio instrumentista, arranjador, compositor, com formação no ofício, excelente profissional de estúdio (elogiado até por Hermeto Pascoal) e, como todo artista independente neste país, estava financeiramente sempre pedindo arrego, fazendo seus corres, sem tempo para nada, apagando incêndios. Me lembro que ele carregava quase sempre um semblante cansado. Dormia pouco, tinha problemas com dores nas costas, tinha varizes por trabalhar tanto em pé. Um dia mandei-lhe um email perguntando se estava bem. Respondeu, de madrugada, algo do tipo: “Confesso que não ando legal, mas não quero falar disso agora. Estou cansado”. Eu meio que sofria junto. Queria ajudar, mas não fazia a menor ideia de como poderia. Problemas pessoais à parte, nada o impedia de seguir com sua vida de batalhas diárias com bastante criatividade. Artista que é.

A outra face do bilhete do meu amigo. Foto: arquivo
A outra face do bilhete do meu amigo. Foto: arquivo

Soube da existência dele entre 1996/97, ainda quando morava na minha cidade natal. Costumava comprar uma revista especializada no instrumento (acho que era a Cover Baixo) na qual o meu então professor era colunista e chegou a fazer a resenha do primeiro CD dele nela. Tempos depois conheci minha esposa – a mulher da minha vida – e logo me mudei para a região. A ideia de fazer uma segunda faculdade em música naquela universidade já me seduzia tempos antes. Tudo parecia convergir para que eu pudesse perseguir e realizar este sonho. Tentei por alguns anos, mas nunca consegui ser aprovado. Me lembro até hoje da tensão extrema durante o teste de aptidão (um deles) em frente ao músico e então professor do curso, Jorge Oscar, e o tanto que chorei depois da vergonha que passei. Tentei estudar no Conservatório em Tatuí durante um tempo, mas não me adaptei ao método do professor de lá. Não apenas eu. Meu colega de classe, que morava em Mogi Guaçu, também não. Ambos desanimados com o professor de Tatuí (“Bicho, tem que sentar a bunda na cadeira e estudar!”), foi dele a ideia de procurarmos o cara para ser o nosso novo professor. Deu certo, tínhamos aula na casa da tia, no quartinho dos fundos. Por sermos dois em horário duplo, nos deu um desconto nas respectivas mensalidades.

Não sei dizer se nasceu, efetivamente, uma amizade naquele período. Eu gostaria muito que tivesse, mas era difícil chamar a atenção dele. Era requisitado, tinha muitas atividades, dava aulas, tinha aulas pois ele sim havia passado no vestibular da tal universidade pública. “Precisei prestar quatro vezes até conseguir entrar. Aluno meu entrou e eu não. Virei motivo de chacota”, dizia. Além das aulas, tocava na noite, fazia gravações, acompanhava artistas. Trabalhava muito, mas a remuneração sempre estava aquém do necessário. Numa das aulas ele perguntou: “Vocês vão ao show do Nico Assumpção hoje?”, que foi um dos professores dele no Rio, onde morou por um tempo. “Do Nico? Aonde?”, perguntei surpreso. Na verdade, era o show do João Bosco, Nico era o baixista que o acompanharia, embora isso por si só fosse um show à parte. Eu já estava de ingresso comprado (está guardado na pasta). Encontrei-o na fila de entrada do teatro e ele me convidou a furá-la.

O bilhete que meu amigo escreveu para mim. Foto: arquivo.

Os arredores da universidade era um local que transpirava música e cultura e isso me empolgava muito. Eu queria aprender, queria fazer parte daquilo! Buscava ser aplicado, ser bom aluno, mas a coisa parecia não ser bem assim e isso gerava em mim um certo sofrimento. Um dia estava meio deprimido durante a aula e acabei dando um chilique. Disse que não faria a aula, que encerraria as atividades ali mesmo, que venderia meu instrumento. Ele foi tão habilidoso, tão humano e profetizou: “Você não vai conseguir parar”. Nunca consegui apesar de ter tentado inúmeras vezes. Já o meu colega de classe se incomodou com minha atitude e preferiu continuar fazendo as aulas sozinho, em outro dia e horário, que agora era em novo endereço, já que ele havia conseguido alugar um apartamento maior e as aulas eram num quartinho na área de serviço. Foi lá que ele me deu um abraço quando soube que minha esposa havia dado à luz nossa primeira filha.

Me lembro da primeira apresentação em que o vimos tocar, e foi quando o conhecemos pessoalmente. O local não existe mais, mas era antológico, um restaurante de propriedade do finado escritor e professor Rubem Alves. Após o show, conversamos com ele. Eu disse que nunca havia botado a mão num contrabaixo acústico. Ele, mais que depressa, disse: “Não seja por isso, chega aí!” e me acompanhou até o instrumento deitado lateralmente no chão, levantando-o para mim. O jantar, aliás, foi em comemoração ao meu aniversário e, por grande coincidência, era o do restaurante também. Teve até bolo! “Vou tocar uma música para vocês”. Voltou ao palco sozinho, pegou seu baixo de seis cordas e tocou um lindo arranjo de Tears In Heaven, do Eric Clapton, só para minha esposa e eu. Presente de aniversário.

Vale lembrar que, numa das aulas, meu colega de classe disse que tinha o primeiro CD dele gravado em fita cassete. Ele não gostou de saber. “Ah, poxa! Cassete?! Por favor, compre o CD!”, e, na aula seguinte, trouxe duas unidades para comprarmos. Pedi uma dedicatória e ele escreveu: “Ao Marcelo. Muito som e alegria na nossa vida”. De fato era uma alegria poder compartilhar uma obra diretamente com o autor. Me lembro que comprei um outro CD posteriormente e presenteei o empreiteiro que estava construindo nossa casa, esta na qual me acidentei. Apesar de construtor, era na verdade músico, tecladista. Perguntei se havia gostado do CD e ele disse: “Sim, tem uma concepção diferente!”.

Sobre diferentes concepções, o cara havia formado um dueto com um saxofonista. Contrabaixo e Saxofone. Faziam música instrumental, releituras de jazz, mpb e afins. Se apresentavam onde era possível e em lugares um tanto inusitados como, por exemplo, na sala de estar da minha nova e inacabada casa. Sim, certa vez decidimos que faríamos um Sarau Cultural em casa e o dueto foi a atração. Que honra! Minha filha mais velha estava com dois anos e me lembro bem dela no colo da então esposa dele assistindo ao show. Sucesso de crítica, fiasco de público. Marcamos o evento num domingo à noite e descobrimos, da pior forma, que não se deve fazer eventos assim nesta data, embora fosse a única que tivessem disponível na agenda. Azar de quem não veio. No show organizado por nós, “dei canja” junto com ele tocando, quem diria, uma composição minha! Um baiãozinho que, posteriormente, batizei com o nome Passo A Passo. Um dueto com dois baixos elétricos que, por culpa da minha irmã, não pude filmar. Ela precisou do equipamento para um trabalho de faculdade. Além desta, tocamos Cantaloupe Island, de Herbie Hancock, comigo no baixo acústico e ele no elétrico de seis cordas (uma das peças que usava em aula), na sala da minha fucking casa!

Nesta mesma época, minha esposa e eu lançamos um site chamado Barão Em Revista, numa tentativa de criar uma espécie de revista mensal online que justamente pudesse registrar a cena cultural daqui, que era intensa. Música popular, erudita, teatro, artes plásticas, dança, etc. O site funcionou por alguns anos, teve cerca de 20 edições e contou, inclusive, com a participação dele como colaborador em um texto homenageando o eterno Nico Assumpção em virtude de sua morte. Neste site, também pudemos resenhar seu primeiro livro-CD sobre a cozinha na música popular brasileira, feito em parceria com um amigo e parceiro baterista, lançado pela editora Lumiar. Segundo ele, este foi o último trabalho editado por Almir Chediak, que morreu assassinado pouco tempo depois. Quando me lembro disso, me sinto tão grato por ter feito parte dessa época. Nunca fomos muito bem recebidos na cena cultural daqui. O trabalho era completamente voluntário, gerava mais despesa que receita, não era fácil. Mas, olhando de longe, 20 anos depois, percebo que foi muito importante e, até hoje, consigo sentir o sabor desta experiência.

Certa vez ele me indicou para um conhecido dele, baterista, que estava procurando um baixista para formar um trio e tocar música instrumental. Adorei a ideia e a indicação, mas o projeto não durou mais que duas ou três tentativas de ensaio. Muita areia para o meu caminhãozinho. Me indicou também um outro aluno dele para que pudéssemos estudar e tocar juntos. Fizemos (todos nós) parte de um projeto de extensão da universidade, que também já não existe mais. Ali fiz aulas de percussão, bateria, contrabaixo, integramos uma orquestra infanto-juvenil e a apresentação de lançamento do projeto foi linda. Mais de 80 músicos estudantes e profissionais reunidos no palco de um dos principais teatros da cidade. Eu sempre reclamando da minha performance. Internamente sentia que isso era verdade. Sempre tive muita dificuldade, tanto que deixei de ter aulas com ele, embora o contato entre nós se mantivesse e os laços se estreitassem em torno do site. Não mais o Barão Em Revista e sim o site dele. Uma parceria parecia nascer ali. Combinamos que eu o desenvolveria em troca de aulas. Uma tentativa de retorno aos estudos. Chegamos a fazer uma aula novamente no quartinho dos fundos da casa da tia, que agora era também a casa dele, já que havia se separado da esposa que dava nome a uma das faixas de seu primeiro CD. Me lembro do lançamento do livro-CD no Sesc, onde ele tocou Esposa com um arranjo diferente e ela, presente na plateia, disse, em tom de brincadeira: “Mudou o arranjo, agora é ex-Esposa”. A ideia do site contemplava também a possibilidade de uma lojinha virtual na qual pudesse ser vendido o CD “made in house”. Fomos a uma agência do extinto Banco Real, na qual era correntista para verificarmos a possibilidade de integrar o site a um sistema que gerasse boletos para pagamento. A lembrança deste dia é tensa. Ao entrar na porta giratória, o obtuso segurança entendeu que eu deveria ser alguma espécie de criminoso de alta periculosidade e começou a criar caso com a minha entrada. Situações como esta me tiram do sério até hoje e perdi completamente as estribeiras transformando o banco num palco para o meu chilique escandaloso. Coitado, apressou-se em chamar o gerente que acabou autorizando minha entrada. Vergonha alheia.

Neste mesmo período, as coisas começavam a mudar de ares para ele, e para melhor. Conseguiu um trabalho fixo como professor e, creio, coordenador numa importante escola de música em São Paulo. Começou a ser chamado para trabalhos mais relevantes. Iniciou uma relação profissional (e também afetiva) com uma bailarina bastante conhecida por aqui. Nasceu outro trabalho curioso que envolvia sapateado e contrabaixo. Achei genial. Me lembro dele me ligando no celular perguntando se eu não iria ao evento de lançamento que começaria em instantes – a mesma época do bilhete e quando minha caçula estava num período de cólicas brabas diárias. Cada “sessão” durava três, às vezes, quatro horas com choro e gritaria incessantes. “Poxa, mil desculpas, mas que jeito de ir ao show nessa situação?”, disse pelo telefone. Notei que ele compreendeu, mas não tanto. Na onda das boas notícias, ele havia recebido um patrocínio, conhecido no meio como endorsement, de uma marca nacional de amplificadores que também não existe mais. Achei o máximo ele ter conseguido o apoio. Chegou a ter três amplificadores da marca. Como eu havia vendido meu set Meteoro com duas caixas pesadas e um cabeçote para uma igreja evangélica no ano anterior, ele me emprestou um cubo de tamanho médio que eu nunca devolvi e está comigo até hoje.

Numa bela tarde apareceu por aqui com a namorada-bailarina. Eu estava sozinho com minha caçula e ele numa empolgação só. Trouxe mais unidades do CD “made in house” para abastecer a lojinha virtual e uma nota de cinco reais para pagar uma suposta despesa que eu desconhecia e, portanto, recusei. A namorada-bailarina cuidou do bebê enquanto conversávamos. Sugeriu que retomássemos as aulas combinadas na parceria. Perguntei se, de repente, não seria mais apropriado trocar o serviço pelo amplificador ao invés das aulas. Ele estranhou, embora tivéssemos eventualmente cogitado a possibilidade. Ele sugeriu o pequenino e eu perguntei se não poderia ser o que já estava emprestado comigo. Me lembro dele olhando para o chão, sacudindo levemente os ombros e dizendo “tudo bem”. Senti que não estava tudo bem. Algo aconteceu ali, a empolgação se foi naquele exato momento, e, até hoje, não sei dizer o porquê. O clima esfriou rapidamente. Não sei se a namorada-bailarina teve algo a ver com isso. Logo se despediram, entraram no carro e estranhei o fato dele ter saído sem ao menos um aceno. Vai ver foi porque aquele acabou sendo, na verdade, um adeus.

Me lembro de termos nos falado por telefone por mais uma vez após aquela visita. Perguntei o porquê do sumiço, se ele havia abandonado o site, já que as despesas de hospedagem não haviam sido quitadas e o mesmo corria o risco de ser desativado. A justificativa foi a de que estava meio sem dinheiro. Não me lembro de termos conversado sobre outros assuntos. O fato é que o site acabou sendo desativado pouco tempo depois, o domínio foi congelado e não nos vimos mais. Será que ele ficou chateado pela questão do amplificador? Será que foi porque eu não saquei que havia um grande presente para mim naquele CD? Sinceramente, não sei. Mas, após pouco mais de um ano nesta situação, um dia decidi dar um basta à minha maneira. Juntei os CD’s remanescentes (na verdade, o site havia vendido apenas uma ou duas cópias enquanto esteve ativo) e mais algumas coisas que havia dele por aqui, não lembro bem o que era. Fiz uma espécie de carta-de-recisão da nossa amizade. Algo como uma “prestação de contas” na qual relatei o que estava acontecendo e finalizei com um “Peço a gentileza de não me procurar mais”. Fui à casa da tia num horário em que supostamente ele poderia não estar. A conversa foi amistosa e não disse a ela o motivo da visita, apenas entreguei o material. O amplificador, não. No “relatório” constava: “Pensei em devolvê-lo, mas não acho certo já que tive um trabalho em desenvolver o site e sinto que devo ser remunerado de alguma forma…”. Devo ter escrito algo assim pois não guardei cópia da tal carta. Por volta deste período, minha esposa encontrou a ex-Esposa na faculdade onde lecionava. Conversaram sobre várias coisas e, certamente, sobre isso também. Não sei se ela sabia de algo. Se sabia, não disse nada. De todo modo, fato consumado e mais uma amizade assassinada com sucesso. C’est la vie. C’est la merd

Capa do CD “made in house“. Foto: arquivo.

Anos depois deixamos esta cidade. A era Lula gerou um aumento considerável no número de universidades federais e o sonho de minha esposa, professora universitária cansada do ensino privado e precarizado, pode ser realizado ao ser aprovada em um dos concursos. Mais uma das coisas que não existem mais. A meu ver, a mudança era para sempre. “Não penso em voltar nunca mais”, dizia. Mas voltamos duas vezes naquele ano. Uma delas para acertar detalhes da casa, que seria alugada, e outra, no final do ano, para o velório do meu sogro. Nesta segunda, me lembro de estar num Shopping, perto da casa da tia. Estava saindo da livraria Cultura e, por ironia completa do destino, quase nos esbarramos ali. Trocamos olhares muito rapidamente. Tive a impressão de que ele me reconheceu e até fez um aceno com a cabeça. Estava acompanhado da namorada-bailarina. Ao lado de onde passei havia um casal o qual cumprimentaram com abraços e beijos. Acompanhei de relance do lado de fora, pela vitrine da livraria, antes de virar as costas naquela que foi a última vez em que o vi em pessoa.

No novo endereço, pouco tempo depois deste episódio, me lembro que botei o CD “made in house” para tocar enquanto lavava a louça. Antes, como de costume, olhei o CD, manipulei-o, vasculhei algumas lembranças, li a dedicatória: “Ao super Marcelo, um abraço do mano…”. Juro por tudo que é mais sagrado que li o nome de cada uma das faixas, incluindo a de número 6, “Para o meu amigo”. Me lembro nitidamente de ter pensado: “Quem seria esse amigo? Seria eu?”. Acho que nem terminei a frase mentalmente e fui, de forma sumária, interrompido por um outro pensamento: “Ah, para! Até parece…”. Achei a segunda colocação mais pertinente que a primeira. Por que ele faria uma música para mim? Que pretensão a minha. Nesta época, eu era aluno de contrabaixo do Sesi na nova cidade onde residia, um projeto bem parecido com o de extensão que participei junto com ele uma década antes, porém mais bem estruturado. A profecia ainda valia, “Você não vai conseguir parar”. Escutei o CD todo. Me lembro que me ensinaram uma espécie de exercício mental certa vez: “Imagine-se conversando com a pessoa. Diga a ela o que sente. Diga seus motivos para ter feito o que fez. Peça perdão, perdoe também e entregue o assunto para o universo”. Neste momento o perdoei (seja lá o que isso significasse na hora) pelo sumiço, pelo rompimento da parceria e também pedi perdão pelas coisas que não sabia muito bem que tinha feito. Segui o protocolo e cri ter “enterrado” o assunto. Ledo engano.

Na verdade, o ranço nunca se foi. A mágoa também não. Durante o hiato que dura até hoje, confesso que sonhei com ele algumas vezes. Em alguns deles, me lembro de estarmos estranhos um com o outro. Em um outro, havia ido à casa dele para ter uma aula. Estava tudo bem. Confesso também que dei minhas olhadinhas bem esporádicas sobre ele nas redes sociais. Ainda tinha o trio de jazz (meio que virou quarteto depois) desde quando eu morava por aqui. Gravaram discos. Zuza Homem de Mello foi pessoalmente conhecê-los. Do burburinho sobre sua morte há pouco tempo, pude saber mais detalhes do trabalho produzido por ele. Me lembro de quando ele me contou sobre esta possibilidade, na época em que tocavam num hotel chique daqui, e a maneira como me pediu discrição acerca da novidade: “Cara, segredo absoluto sobre isso!”. Fui fiel à solicitação. Vi que tinha também um trabalho de jazz manouche, que a parceria com a namorada-bailarina o havia levado para fora do país, que desenvolveu uma espécie de personagem musical neste estilo, que ganhou novos endorsements, que fez mais viagens ao exterior. A partir de um momento, pareceu ter sumido das redes. Vi que colocou vários instrumentos e equipamentos à venda no perfil do Facebook. Vi também que havia fundado uma empresa, uma espécie de estúdio de gravação, dublagem e afins em São Paulo. Me lembro da vontade que ele tinha de se estabelecer em São Paulo e de como reclamou da cidade natal, uma vez. “Essa cidade nunca me deu nada!”. Deu um pouco, sim, mas deu também infortúnios. Ele estava magoado com ela, era direito dele reclamar. O personagem rendeu videoclipes na 25 de Março, estava de relacionamento novo com uma outra mulher que me pareceu, sei lá, ser sua produtora ou algo do tipo. Deduzi que ela seria sócia no empreendimento. Visitei o site da empresa, vi fotos, baita estrutura e, olha como é o Karma (Quem costuma falar disso sempre é o Carlos Lopes da antológica banda Dorsal Atlântica, a quem admiro há mais de 30 anos e tive o prazer de conhecer virtualmente e bater um longo papo de quase quatro horas por conta de dois trabalhos que fizemos minha esposa e eu sobre ele). A minha ex-colega de trabalho dizendo sobre a vontade do filho em ser dublador dia desses e ele tem justamente uma empresa de dublagem. É, Carlos, Karma é tudo. Você tem toda razão! Inclusive pelo fato de eu estar escrevendo este texto exatamente no mesmo lugar em que ele esteve comigo por várias vezes em frente ao computador e onde escrevi a carta com que selei o encerramento de nossa amizade. E, neste mesmo lugar, com CD e bilhete nas mãos, a ficha caiu feito um viaduto, arrebentando boca e alma. Karma!

E, que Karma é esse? O cara fez uma música para mim, gravou, botou num CD, me deu de presente, escreveu dedicatória, escreveu um lindo bilhete e eu demorei quase 20 anos para compreender que a música era para mim? Insisto: “Como assim?!”. Enviei um áudio para minha filha mais velha, que mora aqui por perto, sobre o ocorrido. Estava transtornado, ainda estou. Imagino estar há anos-luz longe da perfeição. Devo ter mais de um milhão de defeitos. Devo ter magoado muita gente por aí. Mas, mal agradecido?! Nunca! Jamais! Ela tentou me acalmar. “Não se culpe por isso. Você não sabia”. Como não sabia?! Estava ali, escrito quase explicitamente! Só faltou desenhar. Como não percebi? Juro por tudo que é mais sagrado que não percebi. Me lembro seguramente de ter lido o bilhete, de ter ficado lisonjeado com o que estava escrito nele. Contente pela lembrança e pela preferência: “Prometi q/ vc seria o 1º a receber”. Que desfeita! Como pude ser tão imbecil? Como?! A única coisa que poderia, e deveria, fazer na hora, fiz: escutar a música. Perdi as contas de quantas vezes a escutei. Estou escutando neste exato momento. Alguém fez uma música para mim! Alguém que sempre admirei, mesmo depois de ter assassinado a amizade entre nós. Maldito seja este crime hediondo e premeditado!

Contracapa do CD “made in house” e a faixa de número 6. Foto: arquivo.

Mas, que música é esta? Escuto atento, com cuidado. Uma peça com cerca de três minutos de duração. Me parece ter movimentos distintos. A melodia me soa complexa num arranjo que confunde-se com ela. Ainda não consegui compreender bem a métrica. Enquanto aluno da FEA, tento descobrir o tom sem a ajuda de qualquer instrumento. Acho que um ‘C’. Não é uma música que gruda na memória feito chicletes. Tem uma ternura e expressa um carinho que creio ser só para mim. Não consigo escutar sem ficar com os olhos cheios d’água. Faço, inclusive, um esforço sobre-humano para segurar o choro. Aliás, não segui o conselho que Raul deu a Pedro, chorei pra caramba no chuveiro para que ninguém me ouvisse. Odeio chorar. Não sei explicar o porquê. Só sei que não gosto, mas o choro sai porque é mais forte do que eu, quando não há como segurar, bem como quando chorei de raiva em silêncio o tempo todo na cadeira de dentista, enquanto as meninas na clínica costuravam minha boca toda arrebentada por quase duas horas. As lágrimas escorriam pelos olhos em direção às orelhas. Acho que ninguém percebeu. Só conseguia pensar no prejuízo financeiro pelo custo de um futuro implante dentário, já que não foi possível recolocar o dente original por ter quebrado a pontinha da raiz. Agora este ocorrido parece algo tão pequeno, tão distante, tão pouco importante. Quem sabe seja até bem feito para mim.

Sei lá, acho que nunca vou me perdoar pelo que considero ser a maior desfeita que consegui fazer a alguém na vida toda, já que este era um dos presentes que eu mais queria ganhar: uma música feita especialmente para mim e por alguém que tanto admiro e que afirmou textualmente precisar muito da minha amizade. Como fui capaz? Quantos sites teria de desenvolver inteiramente gratuitos para poder ser perdoado? Como poderia voltar no tempo e devolver o amplificador que nunca foi meu de fato e que praticamente nunca usei durante todo esse tempo? Estou triste de uma maneira que nunca estive na vida toda. “Procura ele”, disse minha filha mais velha. De que jeito? Não posso procurá-lo. Não sei como fazer isso. Não tenho coragem. Com que cara eu poderia procurá-lo depois disso? Depois de quase duas décadas? Depois de uma desfeita deste tamanho? “Acho melhor deixar quieto”, como aconselhou-me, certa vez, meu velho amigo e companheiro de não-banda e a quem devo certa retratação por conta de uma treta menor ocorrida dia desses. De certo o tempo há de ter curado a ferida deste meu ex-amigo. Torço para que assim seja. A minha (sim, também saí deste processo com uma ferida) ainda não cicatrizou e, hoje, abriu exponencialmente. “Você não vai conseguir cicatrizar”, profetizo. Que este remorso seja o meu castigo. Mas uma coisa é certa: quero escutar esta música todos os dias. Quero ripá-la, colocá-la no computador, no celular. Quero, orgulhosamente (e secretamente), compartilhá-la com quem gosto. Quero aprender a tocá-la, quero transcrevê-la, solmizá-la, cantá-la, grudá-la na memória, torná-la parte de mim. Quero construir um instrumento do zero só para ela e batizá-lo com o nome dele. Ela é o meu presente, feito especialmente para mim, com o carinho e o afeto que só os verdadeiros amigos têm. Quem sabe seja uma maneira de me retratar espiritualmente com o compositor e com o universo que organizou tudo isso. Que ambos, um dia, possam me perdoar por esta imensa e absurda desfeita. Rogo para que isto ocorra.

Por outro lado, e se tudo isso foi tão somente uma mera coincidência? O amigo do bilhete evidentemente sou eu, mas e se o amigo do CD “made in house” for outro? É possível? Nunca saberei. O que posso afirmar é que sinto, com muita propriedade, que os amigos expressos em ambos se referem a mim. Daí o pesar, o remorso. A dor que um dia ele deve ter sentido. Digo isso com base no que eu provavelmente sentiria e é algo que jamais desejaria a ele. Logo ele que conseguiu materializar algo tão singelo, tão belo quanto esta música. Uma conexão de almas que não havia sido correspondida até então.

O assunto música, aliás, é algo que mexe comigo desde que me conheço por gente. Desde criança. Praticamente não tenho familiares ou parentes ligados à música. Não fui criado neste universo. Teve o meu avô. Dizem que foi músico de baile no interior de São Paulo. Sanfoneiro dos bons. Minha avó o conheceu e se apaixonou por ele numa de suas apresentações. Dizia que era um parente distante do Mario Zan. Histórias que soube mais tarde. O avô que conheci e tive a oportunidade de conviver nunca demonstrou nenhuma ligação com música afora um violão que tinham em casa, que era usado por uma tia com transtornos mentais e que eu adorava mexer e brincar. E, mesmo assim, a música sempre me foi algo tão caro e com a qual tive e tenho desde sempre uma relação de amor e ódio, apesar de ter conseguido fazer uma ou outra coisinha ao longo da vida e estar produzindo também o CD “made in house” da minha querida não-banda (que está em processo de produção, mas você pode conferir aqui o primeiro single). Mas, ganhar uma música de presente? Que coisa incrível. Como pude agir de forma tão estúpida e equivocada?

Este episódio, este Karma, está sendo algo muito difícil de assimilar. Estar imensamente feliz e profundamente triste ao mesmo tempo. Um paradoxo que bagunçou completamente qualquer compreensão racional que tinha até então acerca do termo amizade. Algo no espaço-tempo me foi revelado, como se eu pudesse enxergar todo o intervalo cromático entre 1996 e 2022 como o teclado de um piano. Consigo ver uma tecla depois da outra e consigo enxergar o teclado inteiro ao mesmo tempo. Amizade, amor, carinho, afeto, ternura, paixão. Palavras que possuem significados distintos, concretos, expressos em verbetes no dicionário, mas cuja compreensão varia tanto de pessoa para pessoa e cujo entendimento pode se modificar instantaneamente, assim como uma pancada forte na boca pode, instantaneamente, arrancar um dente com raiz, dilacerando a gengiva num processo quase indolor. O tombo foi bem maior do que eu poderia imaginar.

De todo modo, tenho em mim a certeza de que ganhei um dos presentes mais lindos que poderia ganhar na vida toda. Se amizade verdadeira não acaba, dizem que se alguém perde um amigo é porque nunca o teve, então o meu atual ex-amigo, na verdade, nunca deixou de ser meu amigo. “O futuro a deus pertence”, diz o ditado. Não sei se um dia o encontrarei pessoalmente. Não sei se poderei pedir-lhe perdão, se poderei abraçá-lo forte e agradecê-lo pelo presente maravilhoso que me deu. A mera e remota possibilidade disso acontecer soa como um segundo presente. Mas, se não for possível, paciência. Afinal, o estrago foi feito há tanto tempo. De um jeito ou de outro, declaro aqui, para todos os fins, rescindida a recisão de nossa amizade, este documento nunca teve qualquer valor. Declaro estarem dirimidas todas e quaisquer mágoas de minha parte que um dia existiram. Dirimidas uma a uma, desintegradas e evaporadas no dedilhar desta peça solo para contrabaixo elétrico de seis cordas com três minutos de duração. Tenho ainda muito que melhorar enquanto ser humano. O presente que ganhei não terá sido em vão, bem como o trabalho que o meu amigo teve para materializá-la. Amizade verdadeira não acaba. Quero acreditar nisso. Que esta seja a minha verdade mais verdadeira. Como a amizade é. Juro por tudo que é mais sagrado.

Em tempo:

Como já esclarecido no texto, não tenho contato com o meu amigo e, portanto, não tenho autorização para divulgar imagens e/ou demais informações que eventualmente possam identificá-lo, bem como divulgar a música que ganhei de presente. Por este motivo, quaisquer informações nesse sentido foram devidamente suprimidas.


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