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Hoje é finados

Sim, com a construção do título mal feita. Hoje é finados. Me toquei disso pela manhã, quando o parça Luiz Freitas me desejou, pelo zap, um “feliz dia de finados pra você”. Quem me veio à cabeça, quase que de imediato, foi o meu amigo Jamil, que faleceu no carnaval de 2010 (por volta de).

Mandei o link do texto pro Luiz e me lembrei do Venâncio, que se foi em 2009. De repente me toquei que mais de 600 mil pessoas morreram em menos de dois anos de uma única doença! 600 mil pessoas. 600 mil!

E de reflexão em reflexão, vi que este meu blog tem uma relação, digamos, estreita com a morte, já que textos como os do Jamil, do Venâncio, Steve Jobs e, por que não, Dorsal Atlântica, embora esta seja do tipo Fênix. A morte figura sob vários significados e não é possível que não se possa (ou se deva) refletir sobre as figurações da morte. E qual seria o melhor dia pra se conversar (e refletir) sobre este assunto que não o de finados?

Morte tem muitos significados. Antes de continuar, vale dizer que o surgimento recente de um grupo chamado Crypta, que gerou o disco Echoes Of The Soul que trata dessas figurações da morte. A ideia de concepção é polissêmica.

Continuando, que momento é este pelo qual passamos? Desde a morte de milhares diariamente (?!?), pelos assassinatos (também diários) de pretos pobres pela polícia, como a morte do processo democrático, a morte lenta das instituições, do meio ambiente. De que tipo de morte estamos fazendo parte atualmente?

Em casa, a patroa dizendo sobre acender velas e citando exemplos, se dá conta do número alterado para mais dos que já partiram, incluindo um primo dela de São Paulo, recentemente e numa condição que nos choca e me faz atentar ao fato que sigo, cada vez mais, para um caminho, mais ou menos parecido. Ok, mas quem não está? Seguimos no mesmo tempo, mas esta sensação não te traz nada à tona? O fato de que o mundo será bem pior nos anos posteriores, a algumas gerações depois da nossa?

É assustador, é (ou pode ser) gatilho às vezes. A que se pensar com calma que, por outro lado, tudo tem seu fim. A resignação tem sua função nesses momentos já que a morte é pior pra quem fica. Será? É possível, creio. Embora deva ser difícil para ambos os lados. O fato é que o fim provoca recomeços. Inicia e reinicia ciclos o tempo todo. Finados é todo dia, assim como o dia das mães, pais, crianças, etc. Todo dia é dia.

Mas, como o hoje é hoje, um brinde a quem se foi e nos faz falta, como a minha cunhada que me ensinou a fazer salgados, o Arthur Maia, o primo, que ia consertar nossa máquina de escrever da década de 30, o Jamil, além de tantos mais. Um brinde às relações que não existem mais, às amizades que findaram, às épocas que passaram. Ao Estado de direito, que caminha a passos largos para o cadafalso. Brindemos. Lembremo-nos dos momentos passados. A memória pode nos manter conectados. Saudemos os mortos e deixemo-los descansar seu sono profundo bem longe deste mundo. Não acordemo-los.

E para quem ainda não foi, vida longa! Seguimos num período genocida e tenebroso da história no qual centenas de pessoas morrerão ainda hoje de uma única doença e serão também lembradas no ano que vem. No finados.

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Crônica de uma amizade assassinada

Hoje a lembrança dela me veio à memória. Novamente. A lembrança junto com uma forte sensação de cobrança, seguida de um sentimento de culpa. Por que agi como agi? Era criança quando isso aconteceu. Mas eu poderia não ter agido como agi. Eu tinha esse direito? Poderia ter feito isso?

Não sei. Assim como não sei, ao certo, quando nossa amizade começou. Só sei que ela estava lá no meu aniversário de cinco anos. E já tinha um tempinho que nos conhecíamos. Lembro da gente como se fosse hoje (ela, um outro garoto e eu) destruindo o bolo no fim da festa com os dedos indicadores. Minha não gostou nada. Morávamos no mesmo bairro, há um quarteirão de distância. Num tempo em que as crianças ocupavam as ruas. Brincavam na pracinha e frequentavam as mesmas escolas públicas. Eu era um deles. Ela também. 

Caloi Dobravelzinha azul na vitrine de uma loja em Belo Horizonte/MG. Foto: Divulgação A Caloi Dobravelzinha bem parecida com a que tinha. Foto: Divulgação. Não sei quando, mas ficamos amigos. Que período ruim aquela época da pré-escola. Ia de perua escolar para uma particular católica. Às vezes fazia xixi na calça. A professora era extremamente mal educada. Frequentei esta por dois meses. Um verdadeiro transtorno. Um dia me recusei a entrar na perua. Saí correndo e me escondi embaixo da cama. Meus pais me tiraram de lá e me colocaram em outra perto de casa. Ela também estudava lá. Será que foi lá que nos conhecemos? Ela foi meu par na festa junina, ainda na década 70. Quando chegou a idade do primário, íamos à escola juntos, às vezes com outras crianças. Íamos também ao ginásio municipal, que fazia parte da faculdade de educação física, que oferecia aulas gratuitas de várias modalidades. Educação física, natação, judô, tênis, futebol, etc. Oferecia também capoeira. O pai dela era um hábil praticante. Ainda é. Chegou a lecionar lá, mas foi demitido por não ter ensino superior. Nós íamos juntos para a aula às vezes. Me lembro de ter uns sete anos. Quem com essa idade anda sozinho pelas ruas hoje? Eu tinha uma bicicleta Caloi dobravelzinha azul, que usava quando ia sozinho. Havia comprado um cadeado de segredo na cor verde, o qual tenho guardado até hoje.

De vez em quando, havia alguma rusga. Uma vez, um garoto tirou a nossa paciência. Eu e ela o botamos para correr. E ele correu. Entrou em casa por um vão no portão e nós fomos embora. Pouco tempo depois, a mãe do garoto nos perseguiu com um Fusca, o garoto no banco de trás. Estacionou ao lado, deu-nos aquela bronca, além do sermão, “sabia que vocês podem combater o mal com o bem?”. E eu: “Como?!”.

Ela sempre passava em casa para irmos tanto à escola quanto ao ginásio. Algumas vezes não íamos ao ginásio. Outras eu me recusava a ir. Ela disse: “não te chamo mais, você nunca vai”. Achava aquilo um tanto sacal. Não o fato de praticar esporte, mas a dificuldade em socializar. Ela me ajudava no que podia.

De vez em quando, vinha brincar em casa. Em outras ocasiões era eu que ia brincar na casa dela. Uma residência antiga, como todas as outras naquele bairro. Moravam várias pessoas lá, vários parentes. Lembro do avô dela, que trabalhava como pedreiro (daqueles que usava um saco de papel na cabeça). Lembro de quando a avó dela faleceu, de quando o avô casou novamente e teve um filho, um garotinho bem mais novo que ela dizia: este é meu tio.

Uma casa que estava sempre em construção ou reforma. Uma vez o pai dela transformou dois cômodos da casa, além da garagem, em uma escola de capoeira. Ainda lembro do letreiro que havia na entrada. Adorava brincar na mesa de escritório que ficou no espaço da garagem, aonde era a recepção. Me lembro de ter participado da comemoração de aniversário dela mais de uma vez. Tinha até show de mágica com mágico profissional, que me fez botar um ovo e lhe deu de presente um coelho de verdade, que ela batizou de “Gustavo”.

Quando a palavra “capoeira” me vem à mente, é deles que me lembro. Na época em que os aparelhos de TV eram preto e branco, havia um programa infantil chamado Pullman Júnior. Uma bela manhã, vejo um pessoal jogando capoeira no programa. Reconheci o pai dela, tocando berimbau. E não é que ela estava lá também? É vívido na minha memória ela tentando fazer um movimento qualquer e caindo sentada. À tarde tirei um sarro dela na escola.

Em boa parte das vezes, a mãe dela me convidava para almoçar. Extremamente gentil. Certa vez ela nos proibiu de sair de bicicleta logo após o almoço. Disse que fazia mal, no que prontamente respondi: não tem problema, é só peidar duas vezes e pronto. Disse e logo percebi que não deveria ter dito. Um tempinho depois, a filha disse: acho que está quase na hora, já foi um.

Certa vez, a mãe dela flagrou o momento em que ela estava em cima da máquina de lavar. Me lembro que a mãe pegou um cabide de madeira e gritou: desce! Ela, assustada, suplicou que a mãe não batesse e se prontificou a descer. Não aconteceu nada, mas era assim que as mães agiam naquele tempo.

Me lembro uma vez que brigamos e ficamos um certo tempo sem nos falar até que estávamos na escola em algum evento. Nossos pais também estavam. Meu pai me chamou e fez questão que eu retomasse o contato. Assim foi feito, reatamos na hora a nossa amizade. Com criança é tão fácil.

Noutra vez, um garoto quis arrumar uma briga comigo. Tanto encheu que um dia aconteceu. E como eu era ruim de briga. Eu era maior, mais forte e proporcionalmente medroso. Chegou uma hora que ela tomou a iniciativa. Me pegou pelo braço e saiu me puxando: “va-mo em-bo-ra!”. E quem acabou com a briga foi ela. Em outra ocasião, ela arrumou amizade com uma menina que eu não topava muito. Nesta época combinamos de ir à escola juntos e ela disse: “eu viro a cara com ela, mas você vai ter de ir comigo pra escola”. Topei na hora. Ao passar em frente à casa da garota, ela se juntou a nós e, simplesmente, a ignoramos. Era parceira.

Me lembro de uma vez que estávamos voltando da escola e ela bateu a cabeça numa lixeira fixada no muro sem maiores consequências. Era costume naquela época fixar a lixeira assim. Um dos meus primos foi parar no hospital depois de bater a cabeça em uma enquanto jogava bola. Um perigo. Mas, naquele dia, eu ri dela. Não sei se eu era tão amigo dela quanto ela era de mim.

Falando no meu primo, estava na casa dele quando recebi um telefonema da minha mãe dizendo que haveria um batizado dela na capoeira e que ela havia me escolhido para participar, não lembro ao certo o que era. Minha mãe disse que o pai dela me buscaria, se eu quisesse participar. Não quis. É que estava tão legal lá na casa do meu primo e, não sei porque, sempre tive um senão com a capoeira. Nunca descobri o porquê. O fato é que recusei o convite. Mas, lembro até hoje da sensação que tive depois. Não deveria ter recusado o pedido dela.

Certa vez, estávamos voltando da escola e a avó de um colega foi nos buscar (nem sempre íamos sozinhos). A mulher disse a ela: “então é você que costuma atrapalhar a amizade dos meninos?”. Demorei um pouco para entender que a avó falava sério. Num dado momento em que ela disse algo, a avó gritou: “CALA A BOCA!”. Violência gratuita. Não se trata alguém assim. Ainda mais por nada. Hoje, tenho certeza que foi por causa da cor da pele dela.

Uma outra vez, teve um garoto que implicava com ela (sempre na volta da escola). Chegou a cuspir no cabelo dela. Me senti incomodado. Ela era forte, não se abalava. Falava com os garotos na mesma altura. Tanto que o garoto, depois, passou a mão no cabelo dela e limpou o cuspe. Terá sido também pela cor-da-pele?

Numa outra ocasião, na quinta-série. O professor havia acabado de entregar a prova de inglês. Eu cursava o idioma em escola particular. Gostava e ia bem. Na escola, tirava de letra. Peguei a prova e, ao passar por ela, notei que chorava baixinho. Perguntei o que houve e ela me mostrou a prova. Tirou um “E”. Apesar das dificuldades, não reprovou.

No início da sexta série, meu pai comprou uma nova casa. Íamos nos mudar de bairro. Eu ia me mudar de escola também. Na casa havia até piscina. Minha mãe pediu que eu perguntasse a ela se tinha roupa de banho, na ideia de convidá-la. Perguntei, ela disse que sim. Mas, depois, não dei mais retorno. Um dia, na aula, ela perguntou: “você não ia me chamar no fim de semana?”. Não respondi. Depois disso, não tenho mais lembrança. Saí da escola, mudei de endereço e simplesmente a “esqueci”.

Meus pais ainda tinham certo contato com os vizinhos antigos. Um tempo depois, minha mãe disse que um deles a havia encontrado junto com a mãe e ela questionou o porquê d’eu não ter dado mais nenhuma notícia. Ela estava completamente coberta de razão. Tinha eu o direito de ter feito aquilo? De ter abandonado alguém que era a minha melhor amiga? Claro que não! Mas eu, naturalmente, tomei essa decisão de forma inconsciente. Juro! Vai ver, tive vergonha. Afinal, mudamos para uma casa grande, bonita. Ela ainda permanecia no mesmo endereço. Ainda guardo este sentimento, sem me atrever a dar-lhe um nome.

O fato é que não nos vimos mais e não sei explicar o motivo de ter agido assim. Eu poderia tê-la visitado. Ainda ia ao bairro às vezes. Lá havia uma família mais ou menos rica que construiu tipo uma mansão. Furaram um poço artesiano e construíram uma pia de granito para o lado de fora da casa. Assim, as pessoas faziam fila em frente a casa para pegar água. Nós, mesmo não morando mais lá, ainda íamos buscar água naquele local. E, mesmo assim, não fui visitá-la. Tenho um colega que mora até hoje naquele bairro e que, na segunda metade da década de 90, se mudou para uma casa exatamente em frente à dela, a qual eu visitava vez ou outra e em nenhuma dessas vezes eu fui visitá-la. Nenhuma!

Em 2001, tive um ímpeto de procurá-la, me justificar, me desculpar, sei lá. Cheguei a ter insônia pensando nisso. Perguntei a este colega se ela ainda morava lá. Ele disse que sim e brincou: “Por que? Tá a fim da mina?”. Não sei explicar o que houve, mas este ímpeto arrefeceu, sumiu. Não por completo, mas sumiu o suficiente para que eu não tomasse nenhuma atitude.

A vida seguiu, muita coisa aconteceu. Mudei de endereço umas tantas vezes, de cidade, de Estado. Mas, ontem me lembrei dela. Com toda força. Eis que tive um insight. Porra! O Facebook! Comecei a procurar. Encontrei. Achei o perfil dela, do pai dela. Achei uma fanpage dele. Descobri que ele ingressou no doutorado, que ainda é extremamente ativo no mundo da capoeira. Ele, aliás, é alguém de uma importância ímpar na cidade. Foi candidato a vereador algumas vezes. Ainda me lembro de ter chegado num bar em véspera de eleição com uns colegas e ter comprado bebida alcoólica escondido por conta da lei. Lá havia panfletos da campanha dele. Devia ter pegado o panfleto, mas não me lembro de ter votado nele.

Voltando ao facebook, confesso que fiquei contente com o que vi. Uma mulher bonita, com aspecto feliz, embrenhada na cultura negra, orgulhosa de si. Mãe. Forte como sempre. Vi a foto da mãe dela. Lembrei na hora. Mas, ao lado da foto, comentários tristes. Notei que a foto era, na verdade, a homenagem de um ano após o falecimento. Me veio à memória imediatamente o sorriso que ela tinha. Que pena. Como será que a filha está? Pensei em contatá-la. Devo? Depois de tudo o que fiz?

Perguntei à minha esposa, à minha filha. Ambas disseram que é complicado. Que a resposta poderia não ser agradável, que o tempo passou. Ou pior, ela poderia nem lembrar. Afinal, mais de 30 anos se passaram. Resolvi contatar meu colega, contei-lhe a situação. A resposta: “Sei como é. Acho que você devia deixar quieto”. Devia mesmo?

Na verdade, a dúvida permanece. Devo procurá-la? Devo me retratar pelo sumiço? Devo tentar entender o porquê de ter feito o que eu fiz? Afinal, eu era ainda criança. Teria eu agido de forma racista? Um racismo introjetado? Não sei. Nunca achei que pudesse agir assim com alguém. Especialmente ela. Mas o preconceito racial é algo tão forte e tão enfronhado que acaba funcionando como uma espécie de onda. Contamina até quem não tem intenção e nem vontade de ser. Mas dizem que de boa intenção o inferno tá cheio. Então, talvez tenha sido. Fui criado vendo as pessoas ao meu redor agindo de forma preconceituosa e, paradoxalmente, nunca tive a vontade de diminuir ninguém por conta da cor da pele, embora não perdesse a piada. Uma vez, a faxineira de casa estava lavando a calçada e eu gritei da janela: “Desse jeito as pessoas vão pensar que você é escrava!”. Fui repreendido prontamente pela minha mãe, que contou a meu pai mais tarde, que me fez correr atrás da moça pra pedir desculpas. Obedeci e nunca mais fiz isso.

Mas, será que foi o caso com a minha amiga? Não sei. O fato é que sinto remorso por não tê-la procurado depois. Vergonha de ter postergado o contato tipo pra sempre. Me sinto um covarde. O mesmo covarde e medroso que não deu uma lição no garoto folgado em frente à escola. O mesmo covarde que não a defendeu quando a avó do menino a mandou calar a boca. O mesmo covarde que não tomou as dores dela quando o outro garoto lhe deu a cuspida. Mas, racista seria demais. Será?

Ontem foi dia de finados. Dia de lembrar dos que se foram. Curioso me lembrar disso tudo de forma tão intensa justo neste dia. De uma bonita amizade que foi assassinada. Que poderia ter sido ressuscitada e não foi. Justamente num dia de finados. Devo me sentir culpado? Quem sabe?. Afinal, lembro dela de um jeito tão afetuoso. Ela foi uma das minhas primeiras amizades nos primeiros anos de vida. E olha que amizade de criança é sincera. A dela foi. Será que da minha parte foi também? Se não foi, que eu sofra com esse remorso para sempre. Talvez seja bem feito.

De todo modo, o que está feito, está feito. Talvez seja conveniente crer que tudo foi esquecido após quase quatro décadas. Mas é engraçado pensar nisso. Todas as vezes que ando por aquela cidade, saio procurando com os olhos por pessoas conhecidas. É raro, mas, às vezes, encontro quem não quero encontrar. Finjo que não reconheço, passo reto. Fico pensando se ela não fez o mesmo. Talvez tenha me visto e mudado de calçada. Pensou: “ficou rico e sumiu, playboy, racista!”. Será? Quem sabe? Se não fosse medroso, covarde. Talvez mandasse uma mensagem inbox: “Oi, lembra de mim?”. Ou, “quantos anos vai levar para você me perdoar?”. Quem sabe?

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Eu, Daniel Blake: a realidade-dura mais próxima do que se imagina

“Quando a dignidade é perdida, tudo está perdido” (Daniel Blake)

Há muito tempo venho refletindo sobre algumas questões. Uma delas é como o Estado mínimo e as privatizações são interpretadas por determinados setores da sociedade. A impressão que tenho é a de que apenas eu consigo perceber uma voraz perversidade do Estado privatizado para com o cidadão. A impressão que tenho é a de que só eu consigo notar o que há por trás deste processo nefasto que esmaga, sem o menor pudor, qualquer política que venha a assegurar qualquer benefício que seja ao cidadão descente, honesto, que paga seus impostos em dia ou que, ao menos, o desejaria faze-lo se tivesse condições (no caso daqueles que estão abaixo da média). Fico muito satisfeito em saber que não sou o único a enxergar isso. Fico contente em saber que há uma verdadeira legião que compartilha da mesma visão. Fico muito satisfeito em ter assistido Eu, Daniel Blake.

Se você compartilha da mesma opinião que tenho, mas ainda não assistiu ao filme, sugiro que assista. Entretanto, se ainda não assistiu e não crê que as coisas sejam da forma como estou afirmando aqui, então pare de ler esse texto agora mesmo. Isto não é pra você.

O filme dispõe de uma narrativa extremamente simples: um homem doente, sem condições de trabalhar, segundo os médicos, tem o benefício do auxílio doença suspenso e necessita provar sua condição física ao Estado para reaver o valor e prover o sustento. Este, por sua vez, privatizou a previdência social e a empresa em questão afirma que o homem já pode retornar ao trabalho. Ou seja, o protagonista passa o filme inteiro como refém da burocracia instalada de forma proposital a fim de faze-lo desistir o mais rápido possível daquilo a que tem direito, conquistado pelo tempo de contribuição.

O enredo é sutil, Blake, de repente, se vê em uma situação surreal, o dinheiro acaba e o Estado vira-lhe as costas. Este é, na verdade, um verdadeiro banho de água fria naqueles que costumam exaltar o Welfare State britânico. Dizendo que lá sim as coisas funcionam, que lá não é como aqui. Infelizmente, não é. Segundo o filme, é até pior.

Eu, Daniel Blake. Filme de Ken Loach

Blake não consegue crer naquilo que vê. Tanto na própria situação como na de outros que ele presencia nos momentos em que esteve nas repartições públicas. A dignidade o convoca a declarar guerra contra o Estado. Porém, o sonho não existe, a trama discute a realidade, a dura realidade. Blake grita, mas ninguém o escuta. É mais um grito entre tantos outros. Todos mudos.

Adorei ter assistido Eu, Daniel Blake. Foi um alento. Não estou enlouquecendo, apenas enxergo a realidade. Na verdade, aqui no Brasil ainda não está como na Inglaterra, mas é perfeitamente possível perceber que o país caminha nessa direção. Me lembro do meu amigo Jamil, que morreu no hospital, porque o hospital entendeu que ele não merecia lutar pela vida, que ele merecia morrer porque, afinal, o hospital entendeu que ele já estava mais próximo da morte do que da vida. Assim é também a lógica do Estado privatizado. Eu consigo enxergar perfeitamente toda a perversidade que está por trás deste processo. Daniel Blake passou por isso. Ao Estado privatizado, interessa saber o quanto o cidadão ainda irá poderá contribuir. Caso não possa, considere-se morto, apenas morra. Simples assim. Se você é um moribundo sem fígado (assim ficou o meu amigo Jamil), não compensa ao hospital encaminha-lo para o transplante de um fígado novo. Você vai morrer de qualquer jeito. Melhor apressar a morte do que prolongar a vida. Não compensa ao Estado privatizado pagar aposentadoria a velhos moribundos porque eles irão morrer de qualquer jeito. Então é melhor que morram logo. Não foi isso que o ministro de Finanças do Japão, Taro Aso disse em 2013? Não foi isso que FHC disse em 11/05/1998? Por acaso não é esse conceito que estão tentando “colar” nos dias de hoje? O de que aposentados são vagabundos? No filme, Blake, enquanto aguarda a avaliação obrigatória, é obrigado a recorrer erroneamente ao seguro desemprego. Lá ele é obrigado a cumprir uma rotina, tem que procurar emprego, distribuir currículos e provar ao Estado privatizado que ele está buscando trabalho para manter o benefício, mesmo sabendo que está impedido de trabalhar. Ou seja, a intenção do Estado privatizado é mostrar que não-dá-dinheiro-a-vagabundo. Alguma semelhança com com o discurso que se pratica aqui? Aquele papo de que quem recebe o Bolsa Família é vagabundo? Não é só aqui, lá também existe esse (pre)conceito perverso e Blake, quando deu por si, já havia caído na armadilha criada pelo Estado privatizado.

Eu, Daniel Blake. Filme de Ken Loach

Em suma, a intenção do Estado privatizado não é sair por aí matando velhos moribundos, aposentados e/ou pessoas em situação de miséria. O Estado privatizado enxerga números. Tudo e todos são números. O Estado privatizado se pergunta: como é possível enxugar, cortar custos, minimizar prejuízos, como se a sociedade fosse uma linha de montagem. O filme ilustra muito bem como o Estado privatizado dificulta ao máximo o acesso do beneficiário ao benefício. Cria regras duras, cruéis com o simples propósito de “enxugar a máquina”. E o que acontece se, por ventura, o beneficiário vier a falecer? Para onde vai o dinheiro a que ele teria direito? Nesse sentido é que fica clara a afirmação do ex-ministro japonês Taro Aso: é melhor que morram. Aí reside a perversidade. Estressar o beneficiário, acelerar a sua morte à medida em que retardam ou lhe negam o benefício. Simples assim.

Ao que tudo indica, a privatização do Estado é uma tendência. Pior, é um caminho sem volta. Rumo ao precipício. Muitos Blakes, lá e aqui, pagaram caro por isso a vida toda e vêem o Estado privatizado virar-lhe as costas justamente no momento em que mais precisarão. Eu, Daniel Blake é realidade pura, não indicado para quem deseja permanecer na ilusão.

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Entre a arte e a mediocridade

“Ao realizar a mostra, o Centro Cultural Banco do Brasil possibilita o contato da sociedade brasileira com obras-primas de grandes nomes da história da arte e reafirma seu comprometimento com a formação de público e com o acesso cada vez mais amplo à cultura” (Centro Cultural Banco do Brasil)

Que a proposta dos ditos Centros Culturais tenha como objetivo promover o “acesso” à cultura e, por sua vez, sensibilizar o cidadão comum com a experiência, ok, é um objetivo nobre, mas como fazer?

A pergunta poderia ter várias respostas, das mais óbvias às mais complexas, já que há várias maneiras de proporcionar tais experiências. Infelizmente, nem todo Centro Cultural é capaz de proporcioná-las, sendo alguns capazes, inclusive, de proporcionar não-experiências como é o caso do Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte.

Exposição Kandinsky no CCBB Belo Horizonte Imagem do site do CCBB Belo Horizonte da exposição Kandinsky: Tudo começa num ponto

Digo isso pois o espaço por si só é uma verdadeira contradição. Já visitei, pelo menos, três exposições ali. Em quase todas presenciei problemas com a “equipe” responsável por monitorar os visitantes. Não sei o que são, nem como são treinados e tampouco sei qual o objetivo do comportamento destes funcionários, que mais parecem cães-de-guarda, dando a impressão de protegerem verdadeiros tesouros do perigo oferecido por possíveis vândalos, que são os visitantes.

Me atenho à exposição que “tentei” visitar hoje, “Kandinsky: Tudo começa num ponto”, em cartaz de 15/04 até 22/06/2015. Confesso ainda não ter tido a oportunidade de conhecer o trabalho do artista. Acho que é para isso que servem as exposições de arte, para que pessoas como eu possam conhecer o trabalho de outras. Uma proposta nobre, mas com um modus operandi, no mínimo, discutível.

De início, cerca de 40 minutos de espera em uma fila. Ao chegar no ponto-de-partida da exposição, um rapaz vestindo o uniforme de uma empresa de comunicação chamou os visitantes para dar as orientações, a saber:

  • não é permitido portar garrafas d’água;
  • não é permitido mascar chicletes;
  • não é permitido atender celulares dentro das galerias;
  • não é permitido filmar (mas fotografar sem flash, sim);
  • não é permitido ultrapassar o limite que separa a obra do visitante.

Logo no início, notei a preocupação excessiva dos funcionários responsáveis por monitorar os visitantes durante a exposição. Vigiando para que os mesmos não tocassem ou se aproximassem das obras. Estava eu acompanhado de minha esposa, observando e conversando sobre o assunto. Não posso dizer pelos demais visitantes, mas quando compareço a uma exposição de arte gosto de observar a fundo, absorver as informações contidas nas obras, perceber a técnica utilizada, me apropriar do conhecimento oferecido pelo artista. Aprendi isso empiricamente, quando visitei, pela primeira vez, a Bienal das Artes no Ibirapuera, em São Paulo, em 1996. Desde então, é assim que visito exposições de arte. Se isso não for possível, prefiro não visitar. Até hoje, nunca fui acusado de danificar nenhuma peça com meus olhos. Enfim…

Ao notar dois pequenos quadros do artista que estavam com seus respectivos vidros quebrados (e justamente tratavam-se de óleo sobre vidro), veio-nos a curiosidade do porquê não haviam trocado o vidro e os expuseram quebrados mesmo. Seria a própria tela o vidro em questão? Ficamos curiosos e tentei aproximar os olhos das referidas telas quando surge uma funcionária informando que eu estava invadindo o limite obra X visitante. Olhei meus pés e eles estavam atrás da faixa, respondi à referida que não estava invadindo. Minha esposa ficou indignada e eu acabei ficando também. Claro que respondemos à funcionária e a mesma não se deu por satisfeita, foi atrás de nós e insistiu que respeitássemos a regra e que ela só estava fazendo o trabalho dela. Minha esposa ainda perguntou se o trabalho dela era tirar o prazer do visitante e a mesma ainda insistiu em seus argumentos quando pedi a minha esposa que não mais dirigisse a palavra à funcionária em questão e disse à referida: “você já deu seu recado, ok? Obrigado e boa noite”. Claro que a agradeci por ela ter cumprido a determinação que o rapaz no início se esqueceu de informar aos visitantes:

  • não é permitido ter qualquer tipo de prazer ao observar as obras em exposição.

Após o episódio, confesso ter perdido a vontade de continuar ali, acabei não vendo o restante do acervo, saímos. Na recepção, minha esposa procurou a pessoa responsável pelo setor e fez a devida reclamação. A funcionária ainda tentou explicar que os funcionários apenas cumprem ordens, no que minha esposa perguntou: “mas o olhar é capaz de danificar a obra?”, a funcionária não soube responder. Sim, eu estava apenas olhando, com os braços atrás da cintura, com uma mão segurando o punho do outro braço. Nesse instante, outro funcionário ainda argumentou: “é que já passaram umas 10 mil pessoas pela exposição, os funcionários estão estressados” (10 mil em três dias?!?). Enfim, argumentos que impossibilitam qualquer continuidade do diálogo. Nesse momento, eu já estava do lado de fora do prédio, jurando a mim mesmo não colocar mais meus pés naquele lugar novamente.

A curiosidade persiste e me remete à questão colocada no início do texto. De que forma o CCBB Belo Horizonte busca aproximar o cidadão comum ao mundo das artes com essa política medíocre e tacanha de cercear o visitante como se o mesmo fosse um vândalo em potencial? Alguém que aguardou 40 minutos na fila. Se essa é a forma que insistem em tratar o visitante (e não é primeira vez que presencio tal situação) então não tenho o menor interesse em retornar a esse espaço que, aliás, logo na saída, enquanto aguardava minha esposa, ouvi um garoto conversando com um adulto. Dizia ele: “que lugar chato, não pode colocar nem a mão na parede”.

Pelo visto, minhas dúvidas permanecerão enquanto a arte permanecer apenas como vitrine do CCBB de Belo Horizonte. Que diria Wassily Kandinsky sobre este episódio? Talvez o mesmo que eu: lamentável.

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Ano-Bom

Stanislaw Ponte Preta

Felizmente somos assim, somos o lado bom da humanidade, a grande maioria, os de boa-fé. Baseado em nossa confiança no destino, em nossas sempre renovadas esperanças, é que o mundo ainda consegue funcionar regularmente deixando-nos a doce certeza – embora nossos incontornáveis amargores – de que viver é bom e vale a pena. E nós, graças as três virtudes teologais, às quais nos dedicamos suavemente, sem sentir, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; graças a elas, achamos sinceramente que o ano que entra é o Ano-Bom, tal como aconteceu no dezembro que se foi e tal como acontecerá no dezembro que virá.

Todos com ar de novidade, olhares onde não se esconde a ansiedade pela noite de 31, vamos distribuindo os nossos melhores votos de felicidades:

Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

E os dois que se reciprocaram tão belas entradas seguem seus caminhos, cada qual para o seu lado, com um embrulho de presentes debaixo do braço e um mundo planos na cabeça.

Ninguém duvida de que este, sim, é o Ano-Bom.

Pois se o outro não foi!

E mesmo que tivesse sido, já não interessa mais – passou. E como este é o que vamos viver, este é o bom. Ademais, se é justo que desejemos dias melhores para nós, nada impede àqueles que foram felizes de se desejarem dias mais venturosos ainda. Por isso, lá vamos todos, pródigos em boas intenções, distribuindo presentes para alguns, abraços para muitos e bons presságios para todos:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

A mocinha comprou uma gravata de listas, convencida pelo caixeiro de que o padrão era discreto. O rapaz levou o perfume que o contrabandista jurou que era verdadeiro. Senhoras, a cada compra feita, tiram uma lista da bolsa e riscam um nome. Homens de negócios se trocarão aquelas cestas imensas, cheias de papel, algumas frutas secas, outras não e duas garrafas de vinho, se tanto. Ao nosso lado, no lotação, um senhor de cabeça branca trazia um embrulho grande, onde adivinhamos um brinquedo colorido. De vez em quando ele olhava para e embrulho e sorria, antegozando a alegria do neto.

No mais, os planos de cada um. Esta vai juntar dinheiro, aquele acaricia a possibilidade de ter o seu longamente desejado automóvel. Há uma jovem que ainda não sabe com quem, mas que quer casar. Há um homem e o seu desejo, uma mulher e a sua esperança. Uma bicicleta para o menininho, boneca que diz “mamãe” para a garotinha; letra “O” para o funcionário; viagens para Maria; uma paróquia para o senhor vigário; um homem – para Isabel – a sem pecados; Oswaldo não pensa noutra coisa; o diplomata quer Paris; o sambista um sucesso; a corista uma oportunidade; muitos candidatos vão querer a presidência; muitas mães querem filhos; muitos filhos querem um lar; há os que querem sossego; dona Odete, ao contrário, está louca para badalar; fulano finge não ter planos; por falta de imaginação, sujeitos que já tem, querem o que tem em dobro, e, na sua solidão, há um viúvo que só pensa na vizinha. Todos se conhecem com maior e menos grau de intimidade e, quando se encontram, saúdam-se:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Felizmente somos assim. Felizmente não paramos para meditar, ter a certeza de que este ano não é o Ano-Bom porque é um ano como outro qualquer e que, através dos seus 365 dias, teremos que enfrentar os mesmos problemas, as mesmas tristezas e alegrias. Principalmente erraremos da mesma maneira e nos prometeremos não errar mais, esquecidos de nossos defeitos e virtudes, os defeitos e virtudes que carregaremos até o último ano, o último dia, a última hora, a hora de nossa morte… amém!

Mas não vamos nos negar esperanças, porque assim é que é o ser humano; nem nos neguemos o arrependimento de nosso erros, embora, no Ano-Bom, voltemos a errar da mesma forma, o que é mais humano ainda.

Recomeçar, pois – ou, pelo menos, o desejo sincero de recomeçar – a cada nova etapa, com alento para não pensar que, tão pronto estejam cometidos todos os erros de sempre, um ano novo virá, um outro Ano-Bom, no qual entraremos arrependidos, a fazer planos para o futuro, quando tudo acontecerá outra vez.

Até lá, no entanto, teremos fé, esperança, caridade bastante para nos repetirmos mutuamente:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

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Relações sociais: o passado e o presente-virtual

O motivo deste texto surgiu a partir de um ocorrido há alguns dias. Foi o estopim que me fez lembrar de outros exemplos que me levaram a uma reflexão mais aprofundada sobre o título-tema. O advento da internet tornou o computador (e também os dispositivos advindos dele) uma ferramenta, peculiar, de comunicação. Os aplicativos de redes sociais o consagraram com tal função. As relações de contato nesses aplicativos se transformaram em complexas redes de interconexão de pessoas (exclusivamente no ambiente virtual), o que, por si só, já é um universo interessantíssimo a ser abordado. Entretanto, as relações que se constituíram no passado e que, por algum motivo, retornaram ao presente de forma virtual, ou até mesmo presencial em alguns casos, trazem implicações intertemporais que mesclam aspectos do ontem e do hoje em uma coisa só. Eis os exemplos:

Tenho, ou melhor tinha, um antigo conhecido que chegou a ser meu “melhor amigo” na década de 80, na adolescência. Houve um distanciamento natural com o passar dos anos, na metade da década de 90, e uma re-aproximação, no ambiente virtual, na década seguinte. Um outro exemplo: Meu pai tinha um colega de trabalho de origem grega que morava no Brasil, que se casou com uma brasileira, tiveram um filho e se mudaram para a Grécia, em 1979, e perderam o contato conosco na década de 80, mas re-aproximaram-se virtualmente no início de 2011. Um reencontro virtual até emocionante após uma lacuna temporal de mais de 20 anos. Outro exemplo: Um primo que era muito amigo meu e não nos vemos presencialmente há mais de 15 anos. Nos re-aproximamos virtualmente há pouco mais de cinco anos, mas de uma maneira extremamente lacônica. Os três exemplos citados possuem, de certa forma, uma mesma estrutura: um passado presencial, uma lacuna temporal e uma re-aproximação virtual.

O passado, nas relações sociais, torna-se complexo quando associado ao ambiente virtual, por meio dos aplicativos de redes sociais, pois a noção de pertencimento entre ambos (o passado presencial e o contato no ambiente virtual) são incompatíveis entre si, apesar de conviverem juntos no presente. A lacuna temporal é responsável pela desconstrução da afinidade, que é o laço que, a rigor, mantém viva uma relação social (tanto presencial como virtual).

Reatar um antigo contato virtualmente pode ser perigoso, uma vez que corre-se o risco de anulá-lo definitivamente, dadas as “configurações” de ambos os lados no presente. Um re-enlace virtual traz à tona muitas das reminiscências do passado, mas também força o confronto de características do presente, como divergências de ordem política, social, religiosa, etc. Características essas que foram construídas individualmente durante a ausência de contato. De todo modo, seria leviano supor que todas as relações sociais com semelhante estrutura estão fadadas a ter o mesmo desfecho. Cada um dos três exemplos possui elementos próprios que os conduzem a desfechos distintos, assim como no período em que havia o contato presencial.

Além disso, em um ambiente de rede social (como o Facebook, por exemplo) há centenas de contatos ligados a um único usuário e que interagem entre si em uma linha do tempo. Ali todos estão no mesmo plano, independentemente das relações presenciais e de pertencimento, “tudo junto e misturado” e de forma atemporal, convivendo, inclusive com pessoas cuja interação iniciou-se de forma virtual, mas que está acontecendo ao mesmo tempo, junto com outras que trazem reminiscências do passado. Usuários que, às vezes, até interagem entre si.

Se a interação (virtual ou presencial) diária com pessoas constrói afinidades, modela conceitos (ou preconceitos muitas vezes) e gera convicções, é óbvio que essa construção de valores e sentidos vai esbarrar na construção de sentidos de outros, afinal, a pessoa pode ter uma leitura diferente do próprio passado em decorrência de experiências posteriores e que pode gerar divergências as características individuais desenvolvidas durante a lacuna temporal.

Isso, talvez, explique o que ocorre, nos meus exemplos, com pessoas cujo contato está findo há muitos anos e que, de repente, são reatados no ambiente virtual. São relações sociais de pouca intensidade, com pouca reciprocidade, pouco contato e interação mútua na rede. Na verdade, as reminiscências do passado são o único elemento disponível que tornam esses contatos possíveis.

De outro modo, uma pessoa é abruptamente “adicionada” ao cotidiano (virtual) de outra, acompanha o comportamento da mesma na rede social e manifesta-se positiva ou negativamente, ou nem se manifesta. A ausência presencial corrobora para que o contato permaneça com pouca intensidade e isso ocorre em dois dos exemplos acima, nos quais o contato persiste, mas há pouca ou nenhuma comunicação. No outro exemplo, a divergência de opiniões evoluiu para uma discussão que culminou no rompimento definitivo. Esse é típico exemplo do distanciamento entre passado e presente, no qual a pessoa faz uma re-leitura do próprio passado e a interação com o outro gerou o conflito.

Passado presencial, lacuna temporal e re-aproximação virtual são fatores que podem determinar o re-enlace de uma relação social, ou o fim da mesma. É necessário ter consciência de que uma relação baseada nos três itens será do tipo “museu”, na qual as reminiscências do passado serão o “fiapo-de-cabelo” que a sustentará. Afora isso, serão duas pessoas praticamente desconhecidas que, se não fosse por essas reminiscências, talvez nem se conhecessem. Portanto, a relação será de pouca intensidade. Mas, nada impede que a mesma possa evoluir para um novo convívio virtual ou até mesmo presencial. Mas, há que ser ter consciência de que tratar-se-á de uma nova relação, independentemente das reminiscências do passado.

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Considerações sobre a promoção de lançamento do Nokia Lumia em BH

Que a interface do novo Windows 8 Mobile é extremamente inovadora, ninguém duvida. Que os novos aparelhos a serem lançados com esse sistema operacional tem grande chance de serem competitivos, ninguém duvida também. Já a Nokia e Microsoft copiarem (ou pelo menos, tentarem) a estratégia de marketing da Apple para lançamento do novo aparelho, o Nokia Lumia, é de se duvidar.

Lançado na semana passada, entre os dias 22 e 24 de março, chegou ao mercado brasileiro o primeiro celular com novo sistema operacional da Microsoft, o Windows Phone 8. Uma interface que, sem dúvida, vai dar o que falar.

Promoção: compre o novo Nokia Lumia 800 e ganhe um XBox Promoção de lançamento do novo Nokia Lumia realizada sábado (24/03) no BH Shopping, em Belo Horizonte/MG. Foto: http://www.nokiatividade.com

Particularmente, já o conhecia, pois meu irmão trouxe um aparelho HTC dos EUA, no final do ano passado, com Windows. Gostei muito do que vi; é, de fato, um novo conceito em termos de navegabilidade e usabilidade, o conceito impressiona. Integração nativa com os app’s de redes sociais, facilidade de acesso por meio dos “quadros” e ainda um formato de atualização dos app’s (de notícias, por exemplo) que aparecem diretamente na tela principal, sem a necessidade de acessar o app. É realmente inovador, fiquei impressionado quando o vi pela primeira vez. Não tenho dúvidas de que o novo conceito deve gerar moda daqui há alguns anos.

Quanto à Nokia, não há muito a dizer. Os aparelhos dessa marca são muito bons. O maior problema da marca, segundo me disseram, foi o fato da mesma estar “defasada” no que diz respeito ao novo sistema operacional a ser adotado em novos modelos de celulares, ainda trabalhavam com o Symbian, que é um bom SO, mas caminhando para o desuso. Esta foi a forma que a empresa encontrou para voltar ao páreo com tudo em cima, e foi uma boa escolha. Tem tudo para dar muito certo.

Evento de lançamento do Nokia Lumia em Belo Horizonte/MG Onde está o Marcelo? Fila para comprar o Nokia Lumia 800 e ganhar um XBox, de brinde! Exclusivo para os 20 primeiros. Foto: Blog Nokia Atividade (http://www.nokiatividade.com/nokiabrasil-promove-promocao-e-presenteia-com-xbox-os-compradores-do-nokia-lumia-800-pelo-brasil/)A estratégia de marketing para o lançamento do aparelho foi a seguinte: entre os dias 22 e 24 de março (até onde sei), os dois modelos com Windows seriam lançados nas lojas Nokia Store e cada um dos primeiros 20 compradores seriam contemplados com um video game XBox 360. Um brinde, sem dúvida nenhuma, para lá de atraente. Fui avisado na sexta-feira à noite que haveria esta promoção na Nokia Store do BH Shopping. Como estou interessado em adquirir um XBox (e não um Nokia Lumia, embora minha filha esteja, e muito) e nunca havia participado de nenhum evento semelhante, resolvi ir até o Shopping no sábado pela manhã.

Havia várias pessoas aguardando para entrar no Shopping, supus que era por conta da promoção, tratei de garantir um lugar estratégico, que pudesse me garantir uma posição “competitiva” ao sair correndo em direção à loja. Alguns minutos antes das 10h, permitiram a entrada. Só que o segurança demorou uns segundos para sair da frente e deixar-nos subir pela escada rolante, ainda desligada. Foi aquela loucura, sair correndo doidamente pelos corredores do shopping, pulando poltronas até chegar à loja. Os primeiros da fila, inclusive, começaram a se agredir, provavelmente disputando o primeiro lugar (para um nerd, é uma questão de honra). Dois seguranças interviram e o tumulto foi rapidamente controlado.

Os contemplados recebiam uma senha e entravam, um-a-um, na loja para adquirir o celular e ganhar o “brinde”. Foi um processo um tanto demorado, pouco mais de uma hora, ainda bem que levei um livro para ler enquanto aguardava. Entretanto, não percebi muita empolgação dos presentes acerca do celular, eles queriam mesmo era saber do XBox. Alguns que resolveram não entrar na fila, tinham colegas na mesma, como o rapaz que estava na minha frente. Eles perambulavam e sempre apareciam com alguma informação, como, por exemplo, o modelo do vídeo-game, que seria o top de linha.


Momento em que os compradores chegaram à loja Nokia Store

Porém, enquanto aguardava, me toquei de um detalhe crucial: eram dois os modelos que estavam sendo lançados pela Nokia, eu tinha interesse no modelo 710 (o mais barato). Como não tinha ido atrás de mais informações sobre a promoção, intui que o modelo participante seria o 800 (o mais caro). Procurei saber mais e obtive a informação de que era, de fato, o 800 que garantia o XBox. A essa altura do campeonato, percebi que não estaria entre os 20 primeiros, apesar do esforço. Percebi também que os que estavam próximos a mim estavam bem desgostosos com a situação, pois não ganhariam o “brinde”. Foi então que cutuquei o rapaz da frente e perguntei se ele compraria o aparelho e ele respondeu: “Que nada, queria o XBox, esse aparelho não vale o que custa [por volta de R$ 1700 ]”. Um dos colegas desse rapaz (um dos contemplados) apareceu para conversar com ele, meio bravo, disse que se recusou a tirar fotos (cada contemplado era fotografado dentro da loja) e disse “não vou entrar nesse jogo sujo de vocês” aos funcionários.

Por fim, um dos funcionários apareceu e nos disse que os vídeo games tinham acabado. Mas, como estávamos na fila, teríamos direito a comprar os novos aparelhos com desconto, R$ 200 para o modelo 800 e R$ 100 para o 710, a fila desintegrou-se em instantes. Nesse momento, era minha vez de entrar na loja, o rapaz revoltado que estava na minha frente e disse que não compraria o aparelho, entrou, fiquei sem saber se comprou ou não, mas os outros saíram, inclusive eu.

Saí da frente da loja e fui tratar de assuntos mais importantes (leia-se fazer compras no Carrefour). Fui rindo internamente, pensando na desastrosa estratégia de marketing das duas empresas, na qual o brinde da promoção roubou a cena. Os participantes tinham mais interesse no vídeo game do que no celular (independentemente da qualidade do mesmo). Foi como se o celular fosse uma espécie de obrigação para chegar ao principal. Pensei também se o interesse delas teria sido vender apenas 20 unidades do aparelho por unidade participante no Brasil, o que seria bem pouco se comparado ao lançamento do iPhone ou qualquer outro lançamento da Apple, no qual o produto em si já é uma conquista e os lotes dos mesmos são esgotados em pouquíssimo tempo. Difícil comparar. Fiquei imaginando se não teria sido mais interessante ter vendido o XBox e oferecer o celular como brinde, de repente, ou mais unidades de uma versão mais simples do XBox.

De todo modo, a experiência mostra que não adianta saber a receita, o modo de fazer é igualmente importante e, se a estratégia não for bem preparada, o resultado pode ser desastroso, como acredito que foi no caso que presenciei. As duas empresas sabem que o lançamento tanto de um novo celular quanto de um novo sistema operacional não causará tanto alvoroço quanto gostariam, nem fazendo uma promoção com um “brinde” tão generoso como esse. É bem capaz de alguns contemplados optarem por vender o celular e ficar só com o XBox e reaver boa parte do investimento.

Mas, valeu a experiência, a diversão e o alívio de saber que não precisei gastar aquela quantia toda para comprar algo supérfluo num momento em que não preciso (a filhota pode esperar). Só acho que as duas empresas deveriam tomar certo cuidado e procurar estruturar a estratégia de uma forma mais eficiente. Fica a dica.

Mais informações sobre o evento

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Marketing viral, a gente vê por aqui

“Um mundo melhor, mais consciente e solidário”. De fato é a “Gota D’Água”!

Movimento Gota D'Água. Imagem: divulgação Logo do movimento Gota D'Água. Imagem: divulgaçãoMarketing viral na internet é uma atividade em constante ascensão e, grosso-modo, qualquer coisa pode ser propagada resultando algum efeito, positivo ou negativo. É, sem dúvida, um fenômeno a ser abordado. Mas, a meu ver, o maior problema do marketing viral é quando ele é usado de má fé ou para fins ilícitos como, por exemplo, publicidade gratuita, ou ainda para fins de manipulação da opinião pública, sendo este último o motivo de maior demanda usado pela grande mídia.

Me refiro a este “Movimento Gota D’Água“, uma “entidade” que, da noite para o dia, aflorou na rede  e arrebanhou praticamente 100% do público usuário de redes sociais. E não é para menos, o assunto é polêmico: a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Não quero me aprofundar no mote da campanha, mas usinas hidrelétricas são uma forma agressiva de se produzir energia elétrica, causam impacto ambiental, geram consequências irreversíveis ao meio-ambiente e, no caso de Belo Monte, um impacto social. Acredito que isso seja consenso e, de todo modo, não estou muito a par desta obra dentro do cronograma do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do Governo Federal (do PT) e essa me parece ser a questão maior: o PT.

De repente, a criação de uma usina hidrelétrica é um problema ambiental/social. De repente, há uma “mobilização nacional” em favor de uma região do país (o Estado do Pará) que, normalmente, é esquecida pela opinião pública. De repente, uma representante da grande mídia resolve “vestir a camisa” e sair em defesa de um movimento que até antes de ontem não existia. Tudo muito “de repente” para o meu gosto.

Ao acessar o site do Movimento, na página Quem Somos (única página informativa do site), apenas quatro pequenos parágrafos bem pouco esclarecedores afirmam que a “missão da Gota D’Água é comover a população para causas socioambientais utilizando as ferramentas da comunicação em multiplataforma” e que o movimento “surgiu da necessidade de transformar indignação em ação” e com o objetivo de “usar estas inovações para seduzir e mobilizar a sociedade para causas socioambientais”, ou seja, um movimento criado exclusivamente para fazer marketing viral, com grande infra-estrutura, apoio de diversos atores globais (globais da Globo, por sinal). Tudo muito “de repente”.

Infelizmente, o site não dispõe de mais informações acerca deste “projeto”, diz que o mesmo “apoia soluções inteligentes, responsáveis, conscientes e motivadas pelo bem comum” e ainda “é uma ponte entre o corpo técnico das organizações dedicadas às causas socioambientais e os artistas ativistas”, que o “braço técnico desta campanha é formado por especialistas ligados a duas organizações de reconhecida importância para a causa: ‘Movimento Xingu Vivo Para Sempre‘ e o ‘Movimento Humanos Direitos‘”. Esse último, aliás, cujo nome foi cunhado em 1999/2000 (se não me engano) por Paulo Maluf, durante um chat no UOL, com a famosa frase: “direitos humanos são para os humanos direitos”.

Mas, voltando ao assunto, o que são estes três movimentos? São ONG’s? Financiadas por quem? Coletivo de ações e movimentos sociais? A partir de quem? Existe algum registro de Pessoa Jurídica? Quem está por trás disso? Notei que, em nenhum dos sites, há qualquer referência a trabalhos existentes e notoriamente conhecidos como defensores dos direitos humanos, como, por exemplo, a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos ou mesmo a Avaaz.

Pelo visto, estes são movimentos calcados basicamente na divulgação via internet. Sendo assim, procurei informações no Registro.BR e vi que o domínio do movimento Gota D’Água é do ator Sérgio Passarela Marone, criado em 09/2011. Já o do Xingu Vivo foi criado em 09/2010 e está em nome de um tal Laboratório Brasileiro de Cultura Digital. O  do Humanos direitos pertence ao Instituto Humanitare e foi criado em 02/2011. Um ator paulista da Globo, algumas empresas (nenhuma delas ligada a região norte do país), um instituto sediado em São Paulo/SP ligado à ONU e outro ligado ao MinC. Curioso que nenhum destes nomes supracitados (com exceção do ator) são explicitados em nenhum dos sites/projetos em questão.

Vale ressaltar também uma outra curiosidade: esta não é a primeira vez que a Globo se posiciona de forma contrária a uma obra do PAC. Anos atrás (em 2007), o bispo dom Cappio iniciou uma greve de fome em sinal de protesto à referida obra e com grande repercussão pela Globo. A atitude de dom Cappio foi, inclusive, criticada pela própria igreja católica, mas a Globo deu todo apoio necessário. Outra curiosidade é que, mais uma vez, integrantes da igreja católica estão envolvidos em “protestos” desse tipo.

E tudo o que o Movimento Gota D’Água pede é “a sua assinatura”, em outras palavras: o seu voto. É óbvio que existem sérias restrições acerca da construção da usina de Belo Monte, existem formas de geração de energia limpa, renovável e hidrelétricas não é uma delas. Penso que uma entidade séria (que existe enquanto pessoa jurídica e não somente uma mera confusão de “coletivos”) poderia propor, de fato, um projeto de geração de energia renovável, alternativo à usina de Belo Monte, aí poder-se-ia conversar e debater de forma adulta e coerente e não apenas fazer barulho e manipular a opinião pública em favor de não-se-sabe-quem-ou-o-quê.

Sobre o vídeo, um “coletivo” de atores globais, com discurso pronto, incisivo, agressivo, indignados, porém, antes de tudo, são atores cumprindo um papel, bem no modelo novela-das-oito. Enquanto cidadão, me senti indignado, não pela questão da usina de Belo Monte, mas por ser coagido a aderir a um movimento por meio de frases como “Quem vai pagar?! Você vai pagar!”. Sim, pago, tenho pagado por muitos desmandos do governo, deste e dos outros, a sociedade brasileira vem pagando há décadas. Nem por isso sou consultado, nem pelo governo, nem pela Globo. E, de repente, a usina Belo Monte se tornou a grande vilã da vez? Sei…

Isso é claramente marketing viral de (baixo-)nível. Me lembra bem outro movimento: o Xô CPMF! Lembra dele? O site já não está mais no ar, mas o domínio pertence a um sujeito chamado Paulo Roberto Barreto Bornhausen, criado em 11/2010. Este sobrenome te lembra alguém? Ah, Jorge Bornhausen, do DEM, partido de oposição ao governo. Note que as ações são parecidas, a intenção é, de fato, sensibilizar a opinião pública, mas para um objetivo puramente político. A isso, dá-se o nome de manipulação, uma ferramenta bastante útil, posto que a sociedade brasileira é bastante manipulável.

Ações como estas não tem meu apoio. A usina de Belo Monte representa, sim, um agressão sócio-ambiental, todas as usinas representam e nunca “na história desse país” vi nem a Globo, nem os atores globais e nenhum movimento em prol da geração de energia limpa, solar ou eólica, que seja. Nunca vi estes se mobilizando pela demarcação de terras indígenas, pela reforma agrária, pela erradicação da pobreza e nem pela erradicação do trabalho escravo. Aliás, a contribuição da Globo na cultura e educação brasileira ao longo de quase toda existência dela é um verdadeiro desserviço à sociedade.

De todo modo, a opinião pública é manipulada porque é manipulável, os respectivos sites/projetos não oferecem mais informações porque ninguém lê e, por conseguinte, ninguém cobra. Os atores falam como se fosse de verdade porque tem quem os ouça. Vox populi vox Deo, paciência. Deixo aqui registrado meu protesto contra atitudes “globais” que considero ilícitas, marketing viral tem limite. Espero, quem sabe um dia, que a sociedade acorde e perceba que ser cidadão é muito mais que indignar-se via Facebook e assinar petições on line. Quando esse dia chegar, talvez, Globo e aliados percam sua “credibilidade”, amém.

Espaço do leitor:

Com o intuito de ampliar a discussão, colocarei aqui colaborações enviadas por leitores que contribuam com o assunto (atualizado periodicamente):

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Réquiem Lenitivo: contrabaixo, macinstosh, suicídio e temas afins

Conheci Venâncio na van que leva os professores de Campinas/SP para Salto/SP, na Instituição de Ensino Superior de lá, ele era recém contratado enquanto eu já estava entrando no segundo semestre na casa. Demorou alguns dias até trocarmos alguma ideia, soube que iria lecionar para cursos de Cinema e Radio e TV, em disciplinas ligadas a música. Tivemos um longo papo quando, certa noite, um outro colega de trabalho estava de carro e nos ofereceu uma carona de volta pra casa, havia também uma outra professora de teatro. Fora eu, todos eles eram estreantes naquela instituição. Nessa viagem pude conhecê-lo melhor. Me disse que era contrabaixista, tocou na Orquestra Sinfônica de Campinas, era mestre e doutorando pela Unicamp, na qual havia se graduado em música. Era professor na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo/SP e estava contente por ter encontrado outro empregador, disse que a grana estava curta. Fazia uns freelas, criava trilhas sonoras para teatro e cinema, dava aulas particulares de música etc. Chegando em Campinas, ofereci carona até a casa dele, que era caminho pra minha. Foi um papo agradável, gostei de tê-lo conhecido, mas o adverti de que aquela instituição tinha vários e vários problemas, apesar de dar transporte de ida e volta e pagar o salário direitinho.

Quando soube que eu, apesar de ter parado, já havia estudado contrabaixo acústico, há alguns anos, e tinha tido aulas com um ex-colega de orquestra dele, Venâncio prometeu me dar alguns métodos de contrabaixo que tinha em casa e não usava mais. Achei legal a ideia, quem sabe eu poderia, um dia, retomar os estudos. Foi também um dos responsáveis por eu ter aderido à plataforma Mac e ter, inclusive, adquirido um Macbook. Ela era aficcionado pela Apple e já trabalhava com Mac há uma década. Nos laboratórios do prédio onde lecionávamos havia somente macintoshes, o que ajudou na minha tomada de decisão. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos, às vezes, no trajeto de ida e volta para o trabalho (com cerca de 40 minutos cada), eu sempre aprendia algo com ele (acho que é, ou pelo menos deveria ser, a função de todo ser humano nesta vida: aprender e evoluir).

Além do lado profissional, Venâncio era um bom conhecedor de vinhos, queijos e boa gastronomia. Ficou conhecido, na van, como um sujeito “sofisticado”, indicava marcas de azeites, queijos, vinhos e outros. E quando a conversa era no caminho de volta, servia de estímulo para que todos chegassem em casa com mais fome. Foram divertidas essas viagens, algumas das boas recordações que guardo desse período. Em uma delas, havia chovido e levei meu guarda-chuva (famoso entre os ex-colegas pela idade, hoje está com 21 anos). Por conta de um assunto que conversávamos, peguei o guarda-chuva e fingi carregar uma espingarda calibre 12 e disse: “tá vendo? Estou preparado, e é cano serrado”. Venâncio respondeu: “mas é pior ser cano serrado, o tiro sai com menos pressão”. Perguntei como ele sabia disso e ele respondeu: “porque eu tenho uma em casa”.

Certo dia, convidei Venâncio com sua esposa e enteado para almoçar em casa, havia preparado sushi e sashimi (hobby que pratico até hoje). Neste dia, fiquei conhecendo a família dele e os nossos respectivos filhos brincaram extremamente bem. Ele me trouxe alguns aplicativos para Mac e me deu alguns toques e dicas de como utilizá-lo. Já era fim de tarde quando sugeri tomarmos um vinho e ele disse: “Puxa, fica pra um outro dia, estou com mais de 60 provas pra corrigir das aulas em Itu, tenho que estar sóbrio pra encarar a ‘tarefa'”. Ele tinha razão, haja vista o sufoco que passou durante o semestre em que lecionou por lá. Tanto é que abriu mão das aulas, permanecendo exclusivamente no campus de Salto. O vinho acabou, de fato, ficando para uma “próxima”, mas ficamos de combinar um outro encontro gastronômico, que não também não aconteceu.

Durante o segundo semestre do ano letivo, tivemos um período turbulento com bastante trabalho, atribulações e muito pouca motivação. O ambiente acadêmico estava bem ruim e Venâncio vinha faltando bastante ao trabalho, disse que andava passando mal devido a problemas na vesícula, estava indo ao médico e o humor dele já não era o mesmo, igual a mim, embora eu não tivesse nada envolvendo a saúde. A esposa dele enfrentava alguns problemas com o filho mais velho dela, que vivia com o pai, o que a fez passar uns tempos com o mesmo na cidade onde o garoto morava. Por conta disso, passei a dar carona a Venâncio mais vezes até sua casa, mas o contato entre nós havia sido reduzido aos assuntos cotidianos envolvendo o trabalho. E assim foi até o final do ano. Me lembro de ter ficado um tanto chateado com Venâncio, pois fui demitido da instituição no fim do ano  junto com cerca de 50 professores, sendo alguns destes no mesmo bloco em que lecionávamos e ele sequer foi capaz de dar um telefonema ou mandar um e-mail, enfim. Respeitei a decisão dele e nunca mais o vi.

Dois anos se passaram, mudei de cidade, de Estado e apesar de ainda manter contato com outros demitidos da referida instituição, a pessoa de Venâncio quase nunca era lembrada durante os papos. Porém, dia desses encontrei com um amigo em comum em Belo Horizonte/MG. Na verdade, mais amigo do Venâncio do que meu, ele foi nomeado professor em uma instituição pública de ensino superior em BH. Fazia muito tempo que não nos víamos. Este professor, aliás, também havia lecionado naquela instituição apenas por um semestre, um tempo antes de mim. Não aguentou e pediu demissão. Foi ele, na época, que indicou o emprego ao Venâncio.

Dentre os tantos assuntos que conversamos, o amigo disse: “pois é, vocês comentaram do Venâncio naquela época, que ele estava distante…”. De pronto comentei que tinha ficado chateado e tal e ele disse, “então, até comigo ele estava estranho também. Um dia fui até a casa dele, um pouco antes de se mudar, pra saber o porque do sumiço e ele disse com um olhar meio opaco: ‘não posso te atender agora porque estou jogando'” (ele jogava World of Warcraft e muito, por sinal). Ele disse que Venâncio se separou da esposa e se mudou para a cidade aonde os pais dele moravam, alugou uma casa e vivia sozinho, não recebia praticamente ninguém e, apesar de fazer tratamento contra depressão, não estava seguindo a medicação prescrita e passou o último ano praticamente de licença médica. Excluiu o perfil no Orkut e criou um outro fake, no qual postava, segundo meu amigo, umas coisas esquisitas, suicidas. Ele tentou se comunicar com Venâncio por esta via, mas o mesmo não respondeu. Não sei como era a relação dele com os pais e/ou familiares, mas pude perceber que os mesmos respeitaram o isolamento.

O fato é que, segundo o nosso amigo, Venâncio, em dezembro de 2009, um dia depois do aniversário, bebeu um vinho (certamente de boa qualidade), colocou um réquiem pra tocar, bem alto, carregou a espingarda calibre 12 de cano serrado e disparou um tiro contra o próprio rosto (me lembrei do final do filme Tropa de Elite). O incidente só foi percebido uma ou duas semanas depois pelos vizinhos, por conta do mau cheiro que vinha da residência. O amigo lembrou bem: “imagine a mãe dele, como deve ter ficado?”. A notícia abalou a todos, queriam descobrir a causa, algum culpado, mas quem pode julgar? Fico pensando se a permanência naquela instituição decrépita não contribuiu para a decisão de Venâncio, eu mesmo pensei em coisas um tanto macabras enquanto estive por lá. A vida do professor em instituições privadas atualmente está bastante complicada, salários cada vez menores, desrespeito e o medo constante de ser demitido, independentemente da competência. Aliás, quanto maior a titulação, maior o perigo de cair da “corda bamba”, ranços da famigerada era FHC. Seria esta a meritocracia reversa?

De minha parte, perdoei Venâncio por não ter me dado os “pêsames” quando perdi o emprego, certamente estava com problemas bem maiores que o meu.

P.S. Para proteger a identidade do protagonista, o nome foi alterado.
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Sobre o “Mercado” e os “direitos” do consumidor

O título deste pode ser um tanto “pomposo”, já que trata de um caso isolado. Bem, isolado entre aspas, pois testemunhei que várias pessoas tiveram o mesmo problema que o meu. Talvez não seja um caso tão isolado assim. Mas traz à tona, ao mesmo tempo, a irresponsabilidade da pessoa-jurídica e a conivência do serviço que defende os direitos do consumidor pessoa-física (ou pelo menos deveria). Pude perceber isso hoje (16/11/2010), e foi bastante desagradável constatar esta “parceria”.

Confesso que nunca (ou quase nunca) havia tido quaisquer problemas com atraso na entrega de faturas, boletos e demais contas pelos Correios. Tudo sempre chegou no meu endereço com a devida antecedência e se algumas destas não foram quitadas na data correta, foi por negligência minha. Entretanto, depois de me mudar para a cidade na qual resido atualmente, desde março de 2009, tive alguns problemas por conta de boletos entregues em atraso. Foram casos isolados, mas, dentre eles, o campeão é o da Unimed Inconfidentes, convênio médico ao qual eu e minha família fazemos parte.

Unimed Inconfidentes Unimed Inconfidentes atrasa entrega de boleto de cobrança e, por lei, se exime de qualquer responsabilidade.Os boletos da Unimed Inconfidentes são entregues pelos Correios e os recebo sempre em cima da hora, muitas vezes no mesmo dia, às vezes apenas com um ou dois dias de antecedência. A sorte é que utilizo o serviço de Internet banking para quitá-los. Em outras situações, tive de ir pessoalmente ao escritório regional da Unimed e solicitar segunda via, já que a entrega do mesmo atrasou, lembrando que, certa vez, nem chegou a ser entregue. Entendo que este não deve ser considerado um “caso isolado”.

No mês passado, por descuido meu, a conta acabou não sendo quitada na data correta. Tive de solicitar um novo boleto e quitá-lo em dinheiro numa empresa de crédito, pegando fila e com todo aquele aborrecimento costumeiro. Já neste mês, a respectiva fatura chegou com nada menos que quatro dias de atraso, numa sexta-feira, quando fui olhar a caixa de cartas por volta das 17h. Não seria possível quitar o débito nem se quisesse/pudesse ir ao banco. Hoje (16/11/2010) fui à Unimed, expliquei o ocorrido e a funcionária me disse que posso solicitar o boleto via internet sem a necessidade de esperar a entrega física do mesmo pelos Correios e que, tendo esta alternativa, a Unimed não se responsabiliza pelo não pagamento do mesmo e, obviamente, não abre mão da multa nem tampouco dos juros.

Não sei o que você, leitor(a), acha disso. Eu fiquei estarrecido. A funcionária foi obrigada a ouvir todo aquele discurso de consumidor consciente e ciente dos seus direitos e deveres, que está sendo lesado no seu direto e etc. etc. etc. Ela me orientou a escrever uma carta de próprio punho que seria enviada à sede da Unimed Inconfidentes e só. Escrevi a tal carta e disse que iria procurar os meus direitos. Depois de receber um novo boleto (com a devida multa/juros) e quitá-lo na empresa de crédito. Lembrando que, na fila do caixa, havia um senhor com o mesmo problema que o meu e uma mulher, que estava lá por causa de uma duplicata do banco que também não havia sido entregue (coincidência?).

Mais tarde, liguei no escritório do Procon-MG da cidade em que resido e, se eu já estava estarrecido, fiquei perplexo quando a funcionária me disse: “infelizmente, quando a empresa dispõe de outra forma de acesso ao documento de pagamento (como a internet), o Procon nada pode fazer, é a lei”. E disse ainda: “não somos nós que criamos a lei”.

Digo novamente, não sei o que você acha disso, leitor(a). Eu acho um tremendo absurdo a empresa não se responsabilizar pela entrega física do documento de pagamento e atribuir a responsabilidade a terceiros (banco, correios etc.). Se é algo corriqueiro e existe uma solução paliativa, porque não informaram por meio de algum comunicado? Não houve nenhum informe sequer e os clientes, acredito que a grande maioria, não sabem disso! E o Procon é conivente? Sinto muito, não concordo com isso. Não sei qual é a lei que favorece a negligência de empresas como a Unimed Inconfidentes, mas seja qual for, lesa o consumidor e o Procon não deveria ser conivente com uma lei que estimula o prejuízo ao consumidor. Leis são leis, mas não sou obrigado a concordar com elas, principalmente quando ferem os direitos do consumidor. Uma pena que o Procon não pense da mesma forma.

Felizmente, a muleta de um pode ser arma do outro. Registrei duas reclamações no site Reclame Aqui, uma contra a Unimed Inconfidentes, pela negligência e desrespeito ao cliente e outra contra o Procon-MG, pela conivência com situações como essa.

Analisando por outro viés, é interessante observar como as empresas, de um modo geral, utilizam a internet e oferecem/impõem soluções “alternativas” às tradicionais. São soluções simples, práticas e relativamente baratas (a geração de boletos on line, por exemplo). Mas é mais interessante perceber o quão pouco (ou quase nada) as mesmas investem em informação ao cliente, avisando sobre essas “comodidades”, caso ocorra algum contratempo. De todo modo, é uma solução, que favorece à minoria. Há pessoas que não tem acesso à Internet (diga-se de passagem, são muitas). Nesse caso, o cliente gasta com transporte público, enfrenta fila, perde um tempo desnecessário, para sanar um problema que não foi criado por si próprio. Em outras palavras, a empresa investe pouco e cria uma solução barata que a exime de qualquer responsabilidade perante a lei. Perceba que este é um exemplo de mau uso da internet. Uma falha que lesa o consumidor e é amparada pelo poder público, e defendida pelo Procon, claro.

A exemplo dos bancos, quanto custa investir em auto-atendimento na internet em detrimento do atendimento presencial? Quanto o banco economizará com funcionários, equipamentos e infra-estrutura para cada cliente que optar por utilizar o Internet banking? Claro que isso favorece o cliente, desde que o mesmo esteja consciente dos mecanismos de uso da tecnologia. Do contrário, isso se torna uma armadilha e, fatalmente, o cliente acaba pagando a mais por isso.

A tecnologia está cada vez mais inserida na sociedade como um todo, isso é benéfico, mas é obrigação das mesmas investir em informação, auxiliar os clientes, ou seja, favorecer o acesso à tecnologia, mostrando todos os benefícios que ela pode oferecer, que são muitos, e não torná-la uma “armadilha” para clientes desavisados ou um mero paliativo que a exima de qualquer responsabilidade perante a justiça. Essa é uma forma predatória de gerar receita que traz mais prejuízos que benefícios. Há que se modificar este conceito mesquinho, transformando esclarecimento em satisfação do cliente. Insisto, uma pena que o Procon não pense da mesma forma.