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Hoje é finados

Sim, com a construção do título mal feita. Hoje é finados. Me toquei disso pela manhã, quando o parça Luiz Freitas me desejou, pelo zap, um “feliz dia de finados pra você”. Quem me veio à cabeça, quase que de imediato, foi o meu amigo Jamil, que faleceu no carnaval de 2010 (por volta de).

Mandei o link do texto pro Luiz e me lembrei do Venâncio, que se foi em 2009. De repente me toquei que mais de 600 mil pessoas morreram em menos de dois anos de uma única doença! 600 mil pessoas. 600 mil!

E de reflexão em reflexão, vi que este meu blog tem uma relação, digamos, estreita com a morte, já que textos como os do Jamil, do Venâncio, Steve Jobs e, por que não, Dorsal Atlântica, embora esta seja do tipo Fênix. A morte figura sob vários significados e não é possível que não se possa (ou se deva) refletir sobre as figurações da morte. E qual seria o melhor dia pra se conversar (e refletir) sobre este assunto que não o de finados?

Morte tem muitos significados. Antes de continuar, vale dizer que o surgimento recente de um grupo chamado Crypta, que gerou o disco Echoes Of The Soul que trata dessas figurações da morte. A ideia de concepção é polissêmica.

Continuando, que momento é este pelo qual passamos? Desde a morte de milhares diariamente (?!?), pelos assassinatos (também diários) de pretos pobres pela polícia, como a morte do processo democrático, a morte lenta das instituições, do meio ambiente. De que tipo de morte estamos fazendo parte atualmente?

Em casa, a patroa dizendo sobre acender velas e citando exemplos, se dá conta do número alterado para mais dos que já partiram, incluindo um primo dela de São Paulo, recentemente e numa condição que nos choca e me faz atentar ao fato que sigo, cada vez mais, para um caminho, mais ou menos parecido. Ok, mas quem não está? Seguimos no mesmo tempo, mas esta sensação não te traz nada à tona? O fato de que o mundo será bem pior nos anos posteriores, a algumas gerações depois da nossa?

É assustador, é (ou pode ser) gatilho às vezes. A que se pensar com calma que, por outro lado, tudo tem seu fim. A resignação tem sua função nesses momentos já que a morte é pior pra quem fica. Será? É possível, creio. Embora deva ser difícil para ambos os lados. O fato é que o fim provoca recomeços. Inicia e reinicia ciclos o tempo todo. Finados é todo dia, assim como o dia das mães, pais, crianças, etc. Todo dia é dia.

Mas, como o hoje é hoje, um brinde a quem se foi e nos faz falta, como a minha cunhada que me ensinou a fazer salgados, o Arthur Maia, o primo, que ia consertar nossa máquina de escrever da década de 30, o Jamil, além de tantos mais. Um brinde às relações que não existem mais, às amizades que findaram, às épocas que passaram. Ao Estado de direito, que caminha a passos largos para o cadafalso. Brindemos. Lembremo-nos dos momentos passados. A memória pode nos manter conectados. Saudemos os mortos e deixemo-los descansar seu sono profundo bem longe deste mundo. Não acordemo-los.

E para quem ainda não foi, vida longa! Seguimos num período genocida e tenebroso da história no qual centenas de pessoas morrerão ainda hoje de uma única doença e serão também lembradas no ano que vem. No finados.

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Crônica de uma amizade assassinada

Hoje a lembrança dela me veio à memória. Novamente. A lembrança junto com uma forte sensação de cobrança, seguida de um sentimento de culpa. Por que agi como agi? Era criança quando isso aconteceu. Mas eu poderia não ter agido como agi. Eu tinha esse direito? Poderia ter feito isso?

Não sei. Assim como não sei, ao certo, quando nossa amizade começou. Só sei que ela estava lá no meu aniversário de cinco anos. E já tinha um tempinho que nos conhecíamos. Lembro da gente como se fosse hoje (ela, um outro garoto e eu) destruindo o bolo no fim da festa com os dedos indicadores. Minha não gostou nada. Morávamos no mesmo bairro, há um quarteirão de distância. Num tempo em que as crianças ocupavam as ruas. Brincavam na pracinha e frequentavam as mesmas escolas públicas. Eu era um deles. Ela também. 

Caloi Dobravelzinha azul na vitrine de uma loja em Belo Horizonte/MG. Foto: Divulgação A Caloi Dobravelzinha bem parecida com a que tinha. Foto: Divulgação. Não sei quando, mas ficamos amigos. Que período ruim aquela época da pré-escola. Ia de perua escolar para uma particular católica. Às vezes fazia xixi na calça. A professora era extremamente mal educada. Frequentei esta por dois meses. Um verdadeiro transtorno. Um dia me recusei a entrar na perua. Saí correndo e me escondi embaixo da cama. Meus pais me tiraram de lá e me colocaram em outra perto de casa. Ela também estudava lá. Será que foi lá que nos conhecemos? Ela foi meu par na festa junina, ainda na década 70. Quando chegou a idade do primário, íamos à escola juntos, às vezes com outras crianças. Íamos também ao ginásio municipal, que fazia parte da faculdade de educação física, que oferecia aulas gratuitas de várias modalidades. Educação física, natação, judô, tênis, futebol, etc. Oferecia também capoeira. O pai dela era um hábil praticante. Ainda é. Chegou a lecionar lá, mas foi demitido por não ter ensino superior. Nós íamos juntos para a aula às vezes. Me lembro de ter uns sete anos. Quem com essa idade anda sozinho pelas ruas hoje? Eu tinha uma bicicleta Caloi dobravelzinha azul, que usava quando ia sozinho. Havia comprado um cadeado de segredo na cor verde, o qual tenho guardado até hoje.

De vez em quando, havia alguma rusga. Uma vez, um garoto tirou a nossa paciência. Eu e ela o botamos para correr. E ele correu. Entrou em casa por um vão no portão e nós fomos embora. Pouco tempo depois, a mãe do garoto nos perseguiu com um Fusca, o garoto no banco de trás. Estacionou ao lado, deu-nos aquela bronca, além do sermão, “sabia que vocês podem combater o mal com o bem?”. E eu: “Como?!”.

Ela sempre passava em casa para irmos tanto à escola quanto ao ginásio. Algumas vezes não íamos ao ginásio. Outras eu me recusava a ir. Ela disse: “não te chamo mais, você nunca vai”. Achava aquilo um tanto sacal. Não o fato de praticar esporte, mas a dificuldade em socializar. Ela me ajudava no que podia.

De vez em quando, vinha brincar em casa. Em outras ocasiões era eu que ia brincar na casa dela. Uma residência antiga, como todas as outras naquele bairro. Moravam várias pessoas lá, vários parentes. Lembro do avô dela, que trabalhava como pedreiro (daqueles que usava um saco de papel na cabeça). Lembro de quando a avó dela faleceu, de quando o avô casou novamente e teve um filho, um garotinho bem mais novo que ela dizia: este é meu tio.

Uma casa que estava sempre em construção ou reforma. Uma vez o pai dela transformou dois cômodos da casa, além da garagem, em uma escola de capoeira. Ainda lembro do letreiro que havia na entrada. Adorava brincar na mesa de escritório que ficou no espaço da garagem, aonde era a recepção. Me lembro de ter participado da comemoração de aniversário dela mais de uma vez. Tinha até show de mágica com mágico profissional, que me fez botar um ovo e lhe deu de presente um coelho de verdade, que ela batizou de “Gustavo”.

Quando a palavra “capoeira” me vem à mente, é deles que me lembro. Na época em que os aparelhos de TV eram preto e branco, havia um programa infantil chamado Pullman Júnior. Uma bela manhã, vejo um pessoal jogando capoeira no programa. Reconheci o pai dela, tocando berimbau. E não é que ela estava lá também? É vívido na minha memória ela tentando fazer um movimento qualquer e caindo sentada. À tarde tirei um sarro dela na escola.

Em boa parte das vezes, a mãe dela me convidava para almoçar. Extremamente gentil. Certa vez ela nos proibiu de sair de bicicleta logo após o almoço. Disse que fazia mal, no que prontamente respondi: não tem problema, é só peidar duas vezes e pronto. Disse e logo percebi que não deveria ter dito. Um tempinho depois, a filha disse: acho que está quase na hora, já foi um.

Certa vez, a mãe dela flagrou o momento em que ela estava em cima da máquina de lavar. Me lembro que a mãe pegou um cabide de madeira e gritou: desce! Ela, assustada, suplicou que a mãe não batesse e se prontificou a descer. Não aconteceu nada, mas era assim que as mães agiam naquele tempo.

Me lembro uma vez que brigamos e ficamos um certo tempo sem nos falar até que estávamos na escola em algum evento. Nossos pais também estavam. Meu pai me chamou e fez questão que eu retomasse o contato. Assim foi feito, reatamos na hora a nossa amizade. Com criança é tão fácil.

Noutra vez, um garoto quis arrumar uma briga comigo. Tanto encheu que um dia aconteceu. E como eu era ruim de briga. Eu era maior, mais forte e proporcionalmente medroso. Chegou uma hora que ela tomou a iniciativa. Me pegou pelo braço e saiu me puxando: “va-mo em-bo-ra!”. E quem acabou com a briga foi ela. Em outra ocasião, ela arrumou amizade com uma menina que eu não topava muito. Nesta época combinamos de ir à escola juntos e ela disse: “eu viro a cara com ela, mas você vai ter de ir comigo pra escola”. Topei na hora. Ao passar em frente à casa da garota, ela se juntou a nós e, simplesmente, a ignoramos. Era parceira.

Me lembro de uma vez que estávamos voltando da escola e ela bateu a cabeça numa lixeira fixada no muro sem maiores consequências. Era costume naquela época fixar a lixeira assim. Um dos meus primos foi parar no hospital depois de bater a cabeça em uma enquanto jogava bola. Um perigo. Mas, naquele dia, eu ri dela. Não sei se eu era tão amigo dela quanto ela era de mim.

Falando no meu primo, estava na casa dele quando recebi um telefonema da minha mãe dizendo que haveria um batizado dela na capoeira e que ela havia me escolhido para participar, não lembro ao certo o que era. Minha mãe disse que o pai dela me buscaria, se eu quisesse participar. Não quis. É que estava tão legal lá na casa do meu primo e, não sei porque, sempre tive um senão com a capoeira. Nunca descobri o porquê. O fato é que recusei o convite. Mas, lembro até hoje da sensação que tive depois. Não deveria ter recusado o pedido dela.

Certa vez, estávamos voltando da escola e a avó de um colega foi nos buscar (nem sempre íamos sozinhos). A mulher disse a ela: “então é você que costuma atrapalhar a amizade dos meninos?”. Demorei um pouco para entender que a avó falava sério. Num dado momento em que ela disse algo, a avó gritou: “CALA A BOCA!”. Violência gratuita. Não se trata alguém assim. Ainda mais por nada. Hoje, tenho certeza que foi por causa da cor da pele dela.

Uma outra vez, teve um garoto que implicava com ela (sempre na volta da escola). Chegou a cuspir no cabelo dela. Me senti incomodado. Ela era forte, não se abalava. Falava com os garotos na mesma altura. Tanto que o garoto, depois, passou a mão no cabelo dela e limpou o cuspe. Terá sido também pela cor-da-pele?

Numa outra ocasião, na quinta-série. O professor havia acabado de entregar a prova de inglês. Eu cursava o idioma em escola particular. Gostava e ia bem. Na escola, tirava de letra. Peguei a prova e, ao passar por ela, notei que chorava baixinho. Perguntei o que houve e ela me mostrou a prova. Tirou um “E”. Apesar das dificuldades, não reprovou.

No início da sexta série, meu pai comprou uma nova casa. Íamos nos mudar de bairro. Eu ia me mudar de escola também. Na casa havia até piscina. Minha mãe pediu que eu perguntasse a ela se tinha roupa de banho, na ideia de convidá-la. Perguntei, ela disse que sim. Mas, depois, não dei mais retorno. Um dia, na aula, ela perguntou: “você não ia me chamar no fim de semana?”. Não respondi. Depois disso, não tenho mais lembrança. Saí da escola, mudei de endereço e simplesmente a “esqueci”.

Meus pais ainda tinham certo contato com os vizinhos antigos. Um tempo depois, minha mãe disse que um deles a havia encontrado junto com a mãe e ela questionou o porquê d’eu não ter dado mais nenhuma notícia. Ela estava completamente coberta de razão. Tinha eu o direito de ter feito aquilo? De ter abandonado alguém que era a minha melhor amiga? Claro que não! Mas eu, naturalmente, tomei essa decisão de forma inconsciente. Juro! Vai ver, tive vergonha. Afinal, mudamos para uma casa grande, bonita. Ela ainda permanecia no mesmo endereço. Ainda guardo este sentimento, sem me atrever a dar-lhe um nome.

O fato é que não nos vimos mais e não sei explicar o motivo de ter agido assim. Eu poderia tê-la visitado. Ainda ia ao bairro às vezes. Lá havia uma família mais ou menos rica que construiu tipo uma mansão. Furaram um poço artesiano e construíram uma pia de granito para o lado de fora da casa. Assim, as pessoas faziam fila em frente a casa para pegar água. Nós, mesmo não morando mais lá, ainda íamos buscar água naquele local. E, mesmo assim, não fui visitá-la. Tenho um colega que mora até hoje naquele bairro e que, na segunda metade da década de 90, se mudou para uma casa exatamente em frente à dela, a qual eu visitava vez ou outra e em nenhuma dessas vezes eu fui visitá-la. Nenhuma!

Em 2001, tive um ímpeto de procurá-la, me justificar, me desculpar, sei lá. Cheguei a ter insônia pensando nisso. Perguntei a este colega se ela ainda morava lá. Ele disse que sim e brincou: “Por que? Tá a fim da mina?”. Não sei explicar o que houve, mas este ímpeto arrefeceu, sumiu. Não por completo, mas sumiu o suficiente para que eu não tomasse nenhuma atitude.

A vida seguiu, muita coisa aconteceu. Mudei de endereço umas tantas vezes, de cidade, de Estado. Mas, ontem me lembrei dela. Com toda força. Eis que tive um insight. Porra! O Facebook! Comecei a procurar. Encontrei. Achei o perfil dela, do pai dela. Achei uma fanpage dele. Descobri que ele ingressou no doutorado, que ainda é extremamente ativo no mundo da capoeira. Ele, aliás, é alguém de uma importância ímpar na cidade. Foi candidato a vereador algumas vezes. Ainda me lembro de ter chegado num bar em véspera de eleição com uns colegas e ter comprado bebida alcoólica escondido por conta da lei. Lá havia panfletos da campanha dele. Devia ter pegado o panfleto, mas não me lembro de ter votado nele.

Voltando ao facebook, confesso que fiquei contente com o que vi. Uma mulher bonita, com aspecto feliz, embrenhada na cultura negra, orgulhosa de si. Mãe. Forte como sempre. Vi a foto da mãe dela. Lembrei na hora. Mas, ao lado da foto, comentários tristes. Notei que a foto era, na verdade, a homenagem de um ano após o falecimento. Me veio à memória imediatamente o sorriso que ela tinha. Que pena. Como será que a filha está? Pensei em contatá-la. Devo? Depois de tudo o que fiz?

Perguntei à minha esposa, à minha filha. Ambas disseram que é complicado. Que a resposta poderia não ser agradável, que o tempo passou. Ou pior, ela poderia nem lembrar. Afinal, mais de 30 anos se passaram. Resolvi contatar meu colega, contei-lhe a situação. A resposta: “Sei como é. Acho que você devia deixar quieto”. Devia mesmo?

Na verdade, a dúvida permanece. Devo procurá-la? Devo me retratar pelo sumiço? Devo tentar entender o porquê de ter feito o que eu fiz? Afinal, eu era ainda criança. Teria eu agido de forma racista? Um racismo introjetado? Não sei. Nunca achei que pudesse agir assim com alguém. Especialmente ela. Mas o preconceito racial é algo tão forte e tão enfronhado que acaba funcionando como uma espécie de onda. Contamina até quem não tem intenção e nem vontade de ser. Mas dizem que de boa intenção o inferno tá cheio. Então, talvez tenha sido. Fui criado vendo as pessoas ao meu redor agindo de forma preconceituosa e, paradoxalmente, nunca tive a vontade de diminuir ninguém por conta da cor da pele, embora não perdesse a piada. Uma vez, a faxineira de casa estava lavando a calçada e eu gritei da janela: “Desse jeito as pessoas vão pensar que você é escrava!”. Fui repreendido prontamente pela minha mãe, que contou a meu pai mais tarde, que me fez correr atrás da moça pra pedir desculpas. Obedeci e nunca mais fiz isso.

Mas, será que foi o caso com a minha amiga? Não sei. O fato é que sinto remorso por não tê-la procurado depois. Vergonha de ter postergado o contato tipo pra sempre. Me sinto um covarde. O mesmo covarde e medroso que não deu uma lição no garoto folgado em frente à escola. O mesmo covarde que não a defendeu quando a avó do menino a mandou calar a boca. O mesmo covarde que não tomou as dores dela quando o outro garoto lhe deu a cuspida. Mas, racista seria demais. Será?

Ontem foi dia de finados. Dia de lembrar dos que se foram. Curioso me lembrar disso tudo de forma tão intensa justo neste dia. De uma bonita amizade que foi assassinada. Que poderia ter sido ressuscitada e não foi. Justamente num dia de finados. Devo me sentir culpado? Quem sabe?. Afinal, lembro dela de um jeito tão afetuoso. Ela foi uma das minhas primeiras amizades nos primeiros anos de vida. E olha que amizade de criança é sincera. A dela foi. Será que da minha parte foi também? Se não foi, que eu sofra com esse remorso para sempre. Talvez seja bem feito.

De todo modo, o que está feito, está feito. Talvez seja conveniente crer que tudo foi esquecido após quase quatro décadas. Mas é engraçado pensar nisso. Todas as vezes que ando por aquela cidade, saio procurando com os olhos por pessoas conhecidas. É raro, mas, às vezes, encontro quem não quero encontrar. Finjo que não reconheço, passo reto. Fico pensando se ela não fez o mesmo. Talvez tenha me visto e mudado de calçada. Pensou: “ficou rico e sumiu, playboy, racista!”. Será? Quem sabe? Se não fosse medroso, covarde. Talvez mandasse uma mensagem inbox: “Oi, lembra de mim?”. Ou, “quantos anos vai levar para você me perdoar?”. Quem sabe?

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O mercado do rock descobriu o óbvio

Hoje apareceu para mim o clipe “When The Sinner”, do Helloween, da época do Michael Kiske, na fase mais pop da banda, um pouco antes do fim, na minha opinião. Comecei a pensar no assunto: bandas com uma determinada pegada resolvem “tentar” se vender ao mercado pop e se dão mal. Celtic Frost fez isso, foi fatal. Outras tantas fizeram, até Metallica. Foi fatal, na minha opinião. Mas, nesse caso, o público que nem conhecia Metallica, abraçou a ideia. Deu certo, Bob Rock sabia o que fazia.

Metallica conseguiu. Helloween, não. Como eu disse, foi fatal. Custou a cabeça de Kiske e, de uma certa forma, a vida de Schwichtenberg. Uma pena. Uma perda irreparável, o mercado não poupa ninguém. Sim, o mercado. Afinal, é pouco provável que toda a mudança e investimento tenha ocorrido somente pela iniciativa dos jovens músicos. Claro que não, o mercado apostou nisso.

É uma pena que a arte esteja tão dependente do mercado. Muita coisa boa sucumbiu aos caprichos do mesmo. Caprichos estes que Kiske insistiu em levar adiante, com seus diversos projetos mal sucedidos ao longo dos anos, os quais praticamente não conheço.

Porém, o mercado entendeu que a nova fase do pop é resgatar o que os anos 80 tinham de bom: tentar juntar os caquinhos e ressuscitar o que o próprio mercado tratou de matar nos anos 90. Iron Maiden entendeu o recado bem antes da maioria e tratou de repatriar Bruce Dickinson. O quinteto virou sexteto e deu muito certo do ponto-de-vista do mercado. Mesmo fazendo um sonzinho fraco e enjoativo, a banda fez algumas visitas ao passado e trouxe muitas alegrias aos fãs. Se reinventou, inventou uma forma diferente de fazer turnês e conseguiu até emplacar o repertoriozinho de novos álbuns dos últimos anos. Apesar da atual fase, nunca romperam com o passado como o Helloween ou Celtic Frost quiseram fazer. Como o Metallica fez, apesar do êxito. Vale lembrar que Metallica também revisitou o passado, meio que obrigatoriamente após os sucessivos fracassos de Load, Reload, etc.

Cartaz da turnê do show do Helloween em 2017 Cartaz do lançamento da turnê do Helloween no Brasil em 2017 com participação de Michael Kiske e Kai Hansen. Foto: divulgação

E o mercado, não tendo mais “novidades” a explorar, resolveu seguir o caminho do Iron Maiden: foi revisitar o passado. Quantas e quantas bandas trataram de se reunir novamente? Até Helloween, quem diria? E se reuniram meio que no estilo Maiden, juntou todo mundo pra fazer uma grande festa. O público daqui adorou, ingressos quase esgotados um ano antes da apresentação. Meses atrás resolveram trazer Ronnie James Dio de volta à vida, ainda que em forma de holograma. Mas ele estava lá, emocionando o público novamente como sempre fez em vida.

Isso é uma coisa boa, não nego. Recordar é viver. Muita gente, inclusive, nem era nascida nesse tempo. Vai recordar o que não viveu e vai achar lindo, porque foi linda essa fase e será eternamente linda. Uma pena que ela retorne à tona pelo viés do mercado. Não sei se prefiro isso ou visitar os túmulos das bandas que se foram. Na verdade, isso me remete às bandas que nunca se foram e estão aí até hoje.

Um exemplo inusitado de uma dessas bandas que nunca se vendeu e praticamente criou um estilo dentro do Metal é o do Venom (essa banda é sempre inusitada). Cronos não se dá com os antigos membros, Mantas e Abaddon. Ele seguiu com a banda, tentou reunir a formação clássica em algum momento, mas não deu certo. Eis que os dissidentes resolvem criar o Venom Inc, um outro Venom sem o Cronos, com Demolition Man nos vocais (antigo membro do Venom sem o Cronos, enfim). Como eu disse, é inusitado e muito válido. Agora temos dois Venoms. Duas bandas com base naquela dos anos 80, no melhor estilo underground, que nunca abandonaram as raízes e nem a disposição. Já pensou se a moda pega?

Aqui na terrinha, vale citar o Dr. Sin, um exemplo em vários sentidos, foi uma banda que virou as costas ao mercado, quando o mesmo exigiu que assumissem um viés mais pop, letras em português, etc. A banda rompeu com a gravadora e lançou Brutal, um trabalho independente e considerado um dos mais criativos da trajetória do grupo, que se recusou a romper com os fãs. A banda morreu por outros motivos. Conflitos de ego, talvez, mas nunca perdeu o apreço dos fãs. O Golpe de Estado, há 30 anos, quase acabou por conta da morte do Helcio Aguirra, mas resolveu continuar. Aproveitou o momento, fez um show recentemente e resolveu convidar Catalau (o eterno frontman) para fazer uma participação especial. Não pude comparecer, mas soube que o show foi lindo, emocionante.

Demorou, mas caiu a ficha. A moda agora é “ressuscitar os mortos”, no bom sentido do termo, juntar os integrantes, relembrar os tempos idos. Fico em dúvida se foi a ficha que caiu ou se foi o universo que conspirou a favor. É um movimento forte, não creio que o mercado possa controlar isso. Resiliente que é, o mercado não é bobo, resolveu aderir e colaborar para que pudéssemos ter o alento dos bons tempos, da época de ouro do metal, do rock. Não me iludo. Não acho que isso venha pra ficar. Mas vai ser muito bom enquanto durar.

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Ano-Bom

Stanislaw Ponte Preta

Felizmente somos assim, somos o lado bom da humanidade, a grande maioria, os de boa-fé. Baseado em nossa confiança no destino, em nossas sempre renovadas esperanças, é que o mundo ainda consegue funcionar regularmente deixando-nos a doce certeza – embora nossos incontornáveis amargores – de que viver é bom e vale a pena. E nós, graças as três virtudes teologais, às quais nos dedicamos suavemente, sem sentir, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; graças a elas, achamos sinceramente que o ano que entra é o Ano-Bom, tal como aconteceu no dezembro que se foi e tal como acontecerá no dezembro que virá.

Todos com ar de novidade, olhares onde não se esconde a ansiedade pela noite de 31, vamos distribuindo os nossos melhores votos de felicidades:

Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

E os dois que se reciprocaram tão belas entradas seguem seus caminhos, cada qual para o seu lado, com um embrulho de presentes debaixo do braço e um mundo planos na cabeça.

Ninguém duvida de que este, sim, é o Ano-Bom.

Pois se o outro não foi!

E mesmo que tivesse sido, já não interessa mais – passou. E como este é o que vamos viver, este é o bom. Ademais, se é justo que desejemos dias melhores para nós, nada impede àqueles que foram felizes de se desejarem dias mais venturosos ainda. Por isso, lá vamos todos, pródigos em boas intenções, distribuindo presentes para alguns, abraços para muitos e bons presságios para todos:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

A mocinha comprou uma gravata de listas, convencida pelo caixeiro de que o padrão era discreto. O rapaz levou o perfume que o contrabandista jurou que era verdadeiro. Senhoras, a cada compra feita, tiram uma lista da bolsa e riscam um nome. Homens de negócios se trocarão aquelas cestas imensas, cheias de papel, algumas frutas secas, outras não e duas garrafas de vinho, se tanto. Ao nosso lado, no lotação, um senhor de cabeça branca trazia um embrulho grande, onde adivinhamos um brinquedo colorido. De vez em quando ele olhava para e embrulho e sorria, antegozando a alegria do neto.

No mais, os planos de cada um. Esta vai juntar dinheiro, aquele acaricia a possibilidade de ter o seu longamente desejado automóvel. Há uma jovem que ainda não sabe com quem, mas que quer casar. Há um homem e o seu desejo, uma mulher e a sua esperança. Uma bicicleta para o menininho, boneca que diz “mamãe” para a garotinha; letra “O” para o funcionário; viagens para Maria; uma paróquia para o senhor vigário; um homem – para Isabel – a sem pecados; Oswaldo não pensa noutra coisa; o diplomata quer Paris; o sambista um sucesso; a corista uma oportunidade; muitos candidatos vão querer a presidência; muitas mães querem filhos; muitos filhos querem um lar; há os que querem sossego; dona Odete, ao contrário, está louca para badalar; fulano finge não ter planos; por falta de imaginação, sujeitos que já tem, querem o que tem em dobro, e, na sua solidão, há um viúvo que só pensa na vizinha. Todos se conhecem com maior e menos grau de intimidade e, quando se encontram, saúdam-se:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Felizmente somos assim. Felizmente não paramos para meditar, ter a certeza de que este ano não é o Ano-Bom porque é um ano como outro qualquer e que, através dos seus 365 dias, teremos que enfrentar os mesmos problemas, as mesmas tristezas e alegrias. Principalmente erraremos da mesma maneira e nos prometeremos não errar mais, esquecidos de nossos defeitos e virtudes, os defeitos e virtudes que carregaremos até o último ano, o último dia, a última hora, a hora de nossa morte… amém!

Mas não vamos nos negar esperanças, porque assim é que é o ser humano; nem nos neguemos o arrependimento de nosso erros, embora, no Ano-Bom, voltemos a errar da mesma forma, o que é mais humano ainda.

Recomeçar, pois – ou, pelo menos, o desejo sincero de recomeçar – a cada nova etapa, com alento para não pensar que, tão pronto estejam cometidos todos os erros de sempre, um ano novo virá, um outro Ano-Bom, no qual entraremos arrependidos, a fazer planos para o futuro, quando tudo acontecerá outra vez.

Até lá, no entanto, teremos fé, esperança, caridade bastante para nos repetirmos mutuamente:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

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Dia 22 de julho, há quinze anos

Sempre gostei de tirar férias em julho ou dezembro/janeiro (ou melhor ainda, dividir as férias entre os dois períodos). Nesse ano, reservei uns dias em julho e resolvi conhecer a fazenda dos Hari Krishna em Pindamonhangaba/SP, Nova Gokula. Meu professor de ioga, na época, me deu as coordenadas, disse que havia uma pousada e me animei em passar uns dias por lá.

No dia 21, estava no quarto, dando aquela cochilada depois do almoço (pra quem conhece, praxada) e escutei uma voz feminina, conversando com a zeladora da pousada. Ela fazia muitas perguntas, queria saber como as coisas funcionavam por ali. Me interessei em saber quem era a dona daquela voz. Peguei meu livro e fui à varanda “ler um pouquinho”. Ela saiu do quarto e logo voltou. Pude ver quem era e continuei a leitura.

Minutos mais tarde, a dona da voz veio falar comigo. Me pediu licença, se apresentou e se desculpou por interromper minha leitura perguntando se eu tinha interesse em fazer uma caminhada ecológica, um passeio oferecido pelo dono da pousada, mas que só era feito com um número mínimo de pessoas. Eu já sabia da condição e disse a ela que poderia contar comigo, pois também queria fazer a caminhada. Ela ainda comentou sobre o lugar (um tanto incomum) e conversamos por alguns minutos. Logo ela se foi.

Ao anoitecer, bateu a fome e, como lá não ofereciam jantar (praxada era só de manhã e à tarde), acabei indo à lanchonete ao lado do templo. Vi que ela estava lá, conversando com um devoto. Demorei um pouco para entrar, antes fui visitar o templo, cujo altar estava aberto naquela hora. Entrei na lanchonete, cumprimentei-os e fui comer numa mesa próxima, parecia que ela estava meio entediada com o papo do devoto, mas ouvia-o educadamente.

Mais tarde ela resolveu voltar à pousada, pegou o guarda-chuva e me perguntou se eu queria uma “carona”. Agradeci mas recusei. Quis ficar um pouco mais e conversar com os Hari Krishna. Naquela época, entendia um pouco da filosofia deles. O suficiente para provocá-los até certo ponto.

No dia 22 fui ao refeitório, pela manhã, tomar a praxada e depois retornei à pousada. Ao sair do quarto, encontrei-a no pátio. Disse que ia fazer uma caminhada e perguntei se gostaria de me acompanhar. Demos uma volta pela fazenda, que é bem extensa, e pudemos nos conhecer melhor. Horas mais tarde, ela me pediu para avisá-la sobre a hora do almoço, já que tinha perdido o horário do café-da-manhã.

Fomos almoçar juntos e, mais tarde, ela teve a brilhante ideia de contrariar o dono da pousada e fazermos a tal caminhada ecológica por conta própria. E assim fizemos. Mal sabíamos que aquela caminhada seria o início de tantos outros “primeiros”. A primeira traquinagem, os primeiros papos, as primeiras afinidades, os primeiros olhares, o primeiro beijo, o primeiro por-do-sol.

Na volta, algumas horas depois, nos perdemos na trilha e já havia escurecido. Ela levou uma lanterna consigo, que nos ajudou a chegar a um lugar relativamente seguro: o quintal da casa do dono da pousada. Apesar de constrangidos (nós e ele), conseguimos voltar, rindo da situação em que os dois recém conhecidos haviam se metido. Eis a primeira história pra contar.

Momentos mais tarde, próximo à lanchonete, comentamos o assunto com alguns dos devotos. De repente, um deles apontou e disse, “olha lá”. A lua estava nascendo por detrás das montanhas. Nunca tinha visto aquilo e ela me disse que também não. Foi a primeira vez, foi assim que tudo começou.

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O “Mustang” e “O Martelo” de Carlos Lopes ou depois de quebrar a “Dorsal”

“Recordar é viver”, diz o ditado e quando recordo de algo recorro à rede para conferir a quantas anda esse algo, principalmente quando lembro de algumas bandas que curtia na minha adolescência. Corro pra rede pra saber se elas ainda existem, o que estão fazendo, se tem MP3 pra baixar e “relembrar” os tempos idos.

Dia desses me lembrei de uma banda dos tempos do thrash metal dos anos 80 chamada Dorsal Atlântica (nome curioso, não?). Procurei na rede por MP3, discografia ou algo parecido (já que não tenho nada dela no momento), achei praticamente toda a discografia, inclusive os dois álbuns que mais gosto: Antes Do Fim (1986) e Dividir E Conquistar (1988). Momento lembrança, foi bom poder recordar alguns riffs de guitarra, alguns trechos de letras e comecei a me questionar: por que Dorsal Atlântica não era uma banda como todas as outras?

Dorsal Atlântica - Guga, Carlos e Cláudio Lopes. Foto: Divulgação. Dorsal Altântica com o terceiro baterista, Guga, ao lado de Carlos Lopes e, atrás, Cláudio Lopes. Foto: DivulgaçãoSobre a banda, um trio inicialmente formado por Carlos “Vândalo” Lopes (vocal e guitarra), Cláudio “Cromagno” Lopes (baixo) e Hardcore (bateria), lançou o primeiro disco solo em 1986, o Antes Do Fim, as letras eram em português (este é um dos detalhes) e o som era, apesar da péssima gravação, algo muito bem elaborado. Vocal e instrumental casavam muito bem (mais um detalhe). Além disso, a banda tinha um respeito muito grande dos fãs, nunca escutei ninguém falar mal dela, com exceção da qualidade de gravação dos discos. Costumavam se referir a Dorsal Atlântica com muito respeito. Certa vez, em 1992, assisti a um show da banda (o único), no Move’s Bar, em Santo André/SP. Esse é outro caso a parte, era um espaço minúsculo para shows situado no andar de cima de uma padaria no centro da cidade. Achei interessante a postura do Carlos “Vândalo” e a forma como ele se dirigia ao público, uma postura séria e de muito respeito. Max Cavalera (nos tempos do Schizophrenia) também era assim. E o público retribuía da mesma forma. Dorsal Atlântica não era uma banda como todas as outras.

Nunca fui atrás pra saber mais sobre a banda, gostava daqueles dois discos, em especial duas faixas: Guerrilha (do Antes Do Fim) e Vitória (do Dividir e Conquistar). Mas agora, depois de ouvir novamente o som, depois de tanto tempo, achei o trabalho dela genial, algo inédito no metal brasileiro (nunca existiu outra igual). Ouça a faixa Violência É Real, do Dividir…, ela conta toda uma história, com começo, meio e fim. Você não encontra um trecho como esse em lugar algum: “Nascemos com a missão de fazer um sonho viver, mesmo com pessoas e pedras fechando nosso caminho. Faz-se necessário que não tenhamos nenhuma paz. Porque alma descansada não briga jamais” (faixa Vitória). E algo assim, para poder ser absorvido pelo público brasileiro, só estando em português. Mostrei o trecho a minha esposa, ela gostou tanto que o escreveu como dedicatória em um livro que iria dar de presente a um colega de trabalho. Comecei a me perguntar, por que a banda acabou (e isso foi em 2005)? O que deu errado?

Dei uma busca na rede para saber um pouco mais sobre a história da banda e o que ela havia feito enquanto eu estive ausente. Achei informações na Wikipédia, no Youtube e em diversos sites como este em que tem até um relato do próprio Carlos Lopes. Dorsal Atlântica foi uma banda incomum, mas com o mesmo destino de tantas outras. O caminho foi duro nesses quase 20 anos de existência. Dorsal Atlântica foi uma banda profissional com infra-estrutura amadora, apesar de ter mais de 10 trabalhos gravados. Soma-se também o fato de ter começado (tardiamente) a cantar em inglês. A proposta era ótima, mas, na minha opinião,  faltou uma maior reflexão sobre o que se havia construído até o Dividir E Conquistar. O fato é que a banda perdeu o bonde, que culminou no próprio fim e, pelo visto, é fato consumado.

Se morreu, que haja, ao menos, um obituário decente

Internet é, antes de tudo, um repositório de informações e, na minha opinião, isso é o mais importante, ela é um grande baú no qual pode-se achar de tudo. Apesar dessa rica possibilidade, não consegui encontrar informações precisas e concentradas sobre Dorsal Atlântica (bem como sobre seu fim). Encontrei algumas, mas informações desencontradas. Depois de um tempo, acabei achando um vídeo de uma entrevista recente com o Carlos Lopes, já mais velho, e pude então saber mais detalhes do que anda fazendo atualmente. Carlos tem uma banda chamada Mustang, que surgiu um pouco “antes do fim” do Dorsal, um rock n’ roll mais light, com algumas canções em português, nada a ver com a antiga banda, parece que Carlos resolveu esquecer o passado. “Um dia você acorda e decide que não rola mais”, disse nesta entrevista.

Achei o ex-Dorsal um tanto simpático, descolado, disse ele que é jornalista, gosta de literatura, comanda um programa de metal numa rádio on line, além da atual banda, enfim, vai vivendo depois de ter “quebrado a dorsal”. Recolhi os endereços virtuais que o mesmo citou: uma revista on line chamada O Martelo, a rádio Venenosa FM (na qual disse ter um programa de Metal) e o site da Banda Mustang. Fui conferir cada um deles e então pude. de fato, entender porque Dorsal Atlântica acabou e porque Carlos Lopes é e será um eterno underground, apesar do conteúdo profissional. Ninguém vive apenas de boas ideias e intenções, know how é fundamental no mundo dos negócios e ter uma banda profissional é estar no mundo dos negócios. Uma banda como Dorsal Atlântica, com a repercussão que teve, com a proposta que apresentou e com o que pôde mostrar durante sua existência, não merecia ter encerrado as atividades. Porém, a gerência da banda, por força das circustâncias, ficou muito na mão do próprio Carlos, e se você visitar os sites descritos acima, vai entender parcialmente porque Dorsal Atlântica acabou.

A internet hoje é um veículo de propaganda extremamente barato, é interativo e permite uma série de possibilidades que são bem pouco exploradas, principalmente por bandas mais antigas. Aliás, os músicos, de um modo geral, são os que menos sabem interagir na rede. Triste, porém, verdade e não é só no Metal, a inexperiência é percebida em todos os estilos e oriundos de diversos países. Eu me decepciono sempre que me aventuro nesta busca. Sites horríveis, navegação ruim, falta de coesão visual, arquitetura de informação deficiente, bem como o próprio conteúdo e, sobretudo, pouco aproveitamento das apps de mídia social. Na revista de Carlos Lopes, O Martelo, isso fica evidente.

No ambiente virtual não existe mídia alternativa, o paradigma se rompe quando uma plataforma oferece possibilidades multimídia e de interação. Não há mais a necessidade de fanzines, como existiam na mídia impressa. Acredito que, sabendo utilizá-las, não há porque uma banda encerrar as atividades, mesmo que as tenha encerrado. Mas, conteúdo e suporte são coisas que necessitam andar juntas e em sintonia. Stanislavski diz que “a arte está do detalhe”, mas se todos os detalhes estiverem fragmentados, então não haverá um conjunto. Não havendo um conjunto, a informação não será comunicada em totalidade. E o objetivo da arte não é comunicar?

Se a comunicação se dá a partir do conjunto da obra e internet é o suporte que sustenta o conteúdo, então ambos devem complementar-se. Deve haver coesão. O conteúdo é o principal, mas é o suporte visual que o conduz. É necessário ter equilíbrio para que o produto final seja adequado e legível ao visitante do site.

Em suma, é bem mais fácil ser profissional na rede, sendo independente ou não, muito embora o mercado queira criar meios de limitar esta independência. Apesar das tendências, a rede ainda é democrática, é cada vez mais orgânica, tem espaço para todos e não há necessidade de competição. Dorsal Atlântica, com o nome e o reconhecimento que tem por parte dos fãs, poderia ser independente, desde que soubesse utilizar melhor os recursos da rede e depender, cada vez menos, do mercado, que, de fato, é bastante tendencioso e injusto. Quem sabe Carlos Lopes, um dia, mude de ideia e resolva reconstituir Dorsal Atlântica, ainda que seja “depois do fim”.

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Réquiem Lenitivo: contrabaixo, macinstosh, suicídio e temas afins

Conheci Venâncio na van que leva os professores de Campinas/SP para Salto/SP, na Instituição de Ensino Superior de lá, ele era recém contratado enquanto eu já estava entrando no segundo semestre na casa. Demorou alguns dias até trocarmos alguma ideia, soube que iria lecionar para cursos de Cinema e Radio e TV, em disciplinas ligadas a música. Tivemos um longo papo quando, certa noite, um outro colega de trabalho estava de carro e nos ofereceu uma carona de volta pra casa, havia também uma outra professora de teatro. Fora eu, todos eles eram estreantes naquela instituição. Nessa viagem pude conhecê-lo melhor. Me disse que era contrabaixista, tocou na Orquestra Sinfônica de Campinas, era mestre e doutorando pela Unicamp, na qual havia se graduado em música. Era professor na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo/SP e estava contente por ter encontrado outro empregador, disse que a grana estava curta. Fazia uns freelas, criava trilhas sonoras para teatro e cinema, dava aulas particulares de música etc. Chegando em Campinas, ofereci carona até a casa dele, que era caminho pra minha. Foi um papo agradável, gostei de tê-lo conhecido, mas o adverti de que aquela instituição tinha vários e vários problemas, apesar de dar transporte de ida e volta e pagar o salário direitinho.

Quando soube que eu, apesar de ter parado, já havia estudado contrabaixo acústico, há alguns anos, e tinha tido aulas com um ex-colega de orquestra dele, Venâncio prometeu me dar alguns métodos de contrabaixo que tinha em casa e não usava mais. Achei legal a ideia, quem sabe eu poderia, um dia, retomar os estudos. Foi também um dos responsáveis por eu ter aderido à plataforma Mac e ter, inclusive, adquirido um Macbook. Ela era aficcionado pela Apple e já trabalhava com Mac há uma década. Nos laboratórios do prédio onde lecionávamos havia somente macintoshes, o que ajudou na minha tomada de decisão. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos, às vezes, no trajeto de ida e volta para o trabalho (com cerca de 40 minutos cada), eu sempre aprendia algo com ele (acho que é, ou pelo menos deveria ser, a função de todo ser humano nesta vida: aprender e evoluir).

Além do lado profissional, Venâncio era um bom conhecedor de vinhos, queijos e boa gastronomia. Ficou conhecido, na van, como um sujeito “sofisticado”, indicava marcas de azeites, queijos, vinhos e outros. E quando a conversa era no caminho de volta, servia de estímulo para que todos chegassem em casa com mais fome. Foram divertidas essas viagens, algumas das boas recordações que guardo desse período. Em uma delas, havia chovido e levei meu guarda-chuva (famoso entre os ex-colegas pela idade, hoje está com 21 anos). Por conta de um assunto que conversávamos, peguei o guarda-chuva e fingi carregar uma espingarda calibre 12 e disse: “tá vendo? Estou preparado, e é cano serrado”. Venâncio respondeu: “mas é pior ser cano serrado, o tiro sai com menos pressão”. Perguntei como ele sabia disso e ele respondeu: “porque eu tenho uma em casa”.

Certo dia, convidei Venâncio com sua esposa e enteado para almoçar em casa, havia preparado sushi e sashimi (hobby que pratico até hoje). Neste dia, fiquei conhecendo a família dele e os nossos respectivos filhos brincaram extremamente bem. Ele me trouxe alguns aplicativos para Mac e me deu alguns toques e dicas de como utilizá-lo. Já era fim de tarde quando sugeri tomarmos um vinho e ele disse: “Puxa, fica pra um outro dia, estou com mais de 60 provas pra corrigir das aulas em Itu, tenho que estar sóbrio pra encarar a ‘tarefa'”. Ele tinha razão, haja vista o sufoco que passou durante o semestre em que lecionou por lá. Tanto é que abriu mão das aulas, permanecendo exclusivamente no campus de Salto. O vinho acabou, de fato, ficando para uma “próxima”, mas ficamos de combinar um outro encontro gastronômico, que não também não aconteceu.

Durante o segundo semestre do ano letivo, tivemos um período turbulento com bastante trabalho, atribulações e muito pouca motivação. O ambiente acadêmico estava bem ruim e Venâncio vinha faltando bastante ao trabalho, disse que andava passando mal devido a problemas na vesícula, estava indo ao médico e o humor dele já não era o mesmo, igual a mim, embora eu não tivesse nada envolvendo a saúde. A esposa dele enfrentava alguns problemas com o filho mais velho dela, que vivia com o pai, o que a fez passar uns tempos com o mesmo na cidade onde o garoto morava. Por conta disso, passei a dar carona a Venâncio mais vezes até sua casa, mas o contato entre nós havia sido reduzido aos assuntos cotidianos envolvendo o trabalho. E assim foi até o final do ano. Me lembro de ter ficado um tanto chateado com Venâncio, pois fui demitido da instituição no fim do ano  junto com cerca de 50 professores, sendo alguns destes no mesmo bloco em que lecionávamos e ele sequer foi capaz de dar um telefonema ou mandar um e-mail, enfim. Respeitei a decisão dele e nunca mais o vi.

Dois anos se passaram, mudei de cidade, de Estado e apesar de ainda manter contato com outros demitidos da referida instituição, a pessoa de Venâncio quase nunca era lembrada durante os papos. Porém, dia desses encontrei com um amigo em comum em Belo Horizonte/MG. Na verdade, mais amigo do Venâncio do que meu, ele foi nomeado professor em uma instituição pública de ensino superior em BH. Fazia muito tempo que não nos víamos. Este professor, aliás, também havia lecionado naquela instituição apenas por um semestre, um tempo antes de mim. Não aguentou e pediu demissão. Foi ele, na época, que indicou o emprego ao Venâncio.

Dentre os tantos assuntos que conversamos, o amigo disse: “pois é, vocês comentaram do Venâncio naquela época, que ele estava distante…”. De pronto comentei que tinha ficado chateado e tal e ele disse, “então, até comigo ele estava estranho também. Um dia fui até a casa dele, um pouco antes de se mudar, pra saber o porque do sumiço e ele disse com um olhar meio opaco: ‘não posso te atender agora porque estou jogando'” (ele jogava World of Warcraft e muito, por sinal). Ele disse que Venâncio se separou da esposa e se mudou para a cidade aonde os pais dele moravam, alugou uma casa e vivia sozinho, não recebia praticamente ninguém e, apesar de fazer tratamento contra depressão, não estava seguindo a medicação prescrita e passou o último ano praticamente de licença médica. Excluiu o perfil no Orkut e criou um outro fake, no qual postava, segundo meu amigo, umas coisas esquisitas, suicidas. Ele tentou se comunicar com Venâncio por esta via, mas o mesmo não respondeu. Não sei como era a relação dele com os pais e/ou familiares, mas pude perceber que os mesmos respeitaram o isolamento.

O fato é que, segundo o nosso amigo, Venâncio, em dezembro de 2009, um dia depois do aniversário, bebeu um vinho (certamente de boa qualidade), colocou um réquiem pra tocar, bem alto, carregou a espingarda calibre 12 de cano serrado e disparou um tiro contra o próprio rosto (me lembrei do final do filme Tropa de Elite). O incidente só foi percebido uma ou duas semanas depois pelos vizinhos, por conta do mau cheiro que vinha da residência. O amigo lembrou bem: “imagine a mãe dele, como deve ter ficado?”. A notícia abalou a todos, queriam descobrir a causa, algum culpado, mas quem pode julgar? Fico pensando se a permanência naquela instituição decrépita não contribuiu para a decisão de Venâncio, eu mesmo pensei em coisas um tanto macabras enquanto estive por lá. A vida do professor em instituições privadas atualmente está bastante complicada, salários cada vez menores, desrespeito e o medo constante de ser demitido, independentemente da competência. Aliás, quanto maior a titulação, maior o perigo de cair da “corda bamba”, ranços da famigerada era FHC. Seria esta a meritocracia reversa?

De minha parte, perdoei Venâncio por não ter me dado os “pêsames” quando perdi o emprego, certamente estava com problemas bem maiores que o meu.

P.S. Para proteger a identidade do protagonista, o nome foi alterado.
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Sobre o “Mercado” e os “direitos” do consumidor

O título deste pode ser um tanto “pomposo”, já que trata de um caso isolado. Bem, isolado entre aspas, pois testemunhei que várias pessoas tiveram o mesmo problema que o meu. Talvez não seja um caso tão isolado assim. Mas traz à tona, ao mesmo tempo, a irresponsabilidade da pessoa-jurídica e a conivência do serviço que defende os direitos do consumidor pessoa-física (ou pelo menos deveria). Pude perceber isso hoje (16/11/2010), e foi bastante desagradável constatar esta “parceria”.

Confesso que nunca (ou quase nunca) havia tido quaisquer problemas com atraso na entrega de faturas, boletos e demais contas pelos Correios. Tudo sempre chegou no meu endereço com a devida antecedência e se algumas destas não foram quitadas na data correta, foi por negligência minha. Entretanto, depois de me mudar para a cidade na qual resido atualmente, desde março de 2009, tive alguns problemas por conta de boletos entregues em atraso. Foram casos isolados, mas, dentre eles, o campeão é o da Unimed Inconfidentes, convênio médico ao qual eu e minha família fazemos parte.

Unimed Inconfidentes Unimed Inconfidentes atrasa entrega de boleto de cobrança e, por lei, se exime de qualquer responsabilidade.Os boletos da Unimed Inconfidentes são entregues pelos Correios e os recebo sempre em cima da hora, muitas vezes no mesmo dia, às vezes apenas com um ou dois dias de antecedência. A sorte é que utilizo o serviço de Internet banking para quitá-los. Em outras situações, tive de ir pessoalmente ao escritório regional da Unimed e solicitar segunda via, já que a entrega do mesmo atrasou, lembrando que, certa vez, nem chegou a ser entregue. Entendo que este não deve ser considerado um “caso isolado”.

No mês passado, por descuido meu, a conta acabou não sendo quitada na data correta. Tive de solicitar um novo boleto e quitá-lo em dinheiro numa empresa de crédito, pegando fila e com todo aquele aborrecimento costumeiro. Já neste mês, a respectiva fatura chegou com nada menos que quatro dias de atraso, numa sexta-feira, quando fui olhar a caixa de cartas por volta das 17h. Não seria possível quitar o débito nem se quisesse/pudesse ir ao banco. Hoje (16/11/2010) fui à Unimed, expliquei o ocorrido e a funcionária me disse que posso solicitar o boleto via internet sem a necessidade de esperar a entrega física do mesmo pelos Correios e que, tendo esta alternativa, a Unimed não se responsabiliza pelo não pagamento do mesmo e, obviamente, não abre mão da multa nem tampouco dos juros.

Não sei o que você, leitor(a), acha disso. Eu fiquei estarrecido. A funcionária foi obrigada a ouvir todo aquele discurso de consumidor consciente e ciente dos seus direitos e deveres, que está sendo lesado no seu direto e etc. etc. etc. Ela me orientou a escrever uma carta de próprio punho que seria enviada à sede da Unimed Inconfidentes e só. Escrevi a tal carta e disse que iria procurar os meus direitos. Depois de receber um novo boleto (com a devida multa/juros) e quitá-lo na empresa de crédito. Lembrando que, na fila do caixa, havia um senhor com o mesmo problema que o meu e uma mulher, que estava lá por causa de uma duplicata do banco que também não havia sido entregue (coincidência?).

Mais tarde, liguei no escritório do Procon-MG da cidade em que resido e, se eu já estava estarrecido, fiquei perplexo quando a funcionária me disse: “infelizmente, quando a empresa dispõe de outra forma de acesso ao documento de pagamento (como a internet), o Procon nada pode fazer, é a lei”. E disse ainda: “não somos nós que criamos a lei”.

Digo novamente, não sei o que você acha disso, leitor(a). Eu acho um tremendo absurdo a empresa não se responsabilizar pela entrega física do documento de pagamento e atribuir a responsabilidade a terceiros (banco, correios etc.). Se é algo corriqueiro e existe uma solução paliativa, porque não informaram por meio de algum comunicado? Não houve nenhum informe sequer e os clientes, acredito que a grande maioria, não sabem disso! E o Procon é conivente? Sinto muito, não concordo com isso. Não sei qual é a lei que favorece a negligência de empresas como a Unimed Inconfidentes, mas seja qual for, lesa o consumidor e o Procon não deveria ser conivente com uma lei que estimula o prejuízo ao consumidor. Leis são leis, mas não sou obrigado a concordar com elas, principalmente quando ferem os direitos do consumidor. Uma pena que o Procon não pense da mesma forma.

Felizmente, a muleta de um pode ser arma do outro. Registrei duas reclamações no site Reclame Aqui, uma contra a Unimed Inconfidentes, pela negligência e desrespeito ao cliente e outra contra o Procon-MG, pela conivência com situações como essa.

Analisando por outro viés, é interessante observar como as empresas, de um modo geral, utilizam a internet e oferecem/impõem soluções “alternativas” às tradicionais. São soluções simples, práticas e relativamente baratas (a geração de boletos on line, por exemplo). Mas é mais interessante perceber o quão pouco (ou quase nada) as mesmas investem em informação ao cliente, avisando sobre essas “comodidades”, caso ocorra algum contratempo. De todo modo, é uma solução, que favorece à minoria. Há pessoas que não tem acesso à Internet (diga-se de passagem, são muitas). Nesse caso, o cliente gasta com transporte público, enfrenta fila, perde um tempo desnecessário, para sanar um problema que não foi criado por si próprio. Em outras palavras, a empresa investe pouco e cria uma solução barata que a exime de qualquer responsabilidade perante a lei. Perceba que este é um exemplo de mau uso da internet. Uma falha que lesa o consumidor e é amparada pelo poder público, e defendida pelo Procon, claro.

A exemplo dos bancos, quanto custa investir em auto-atendimento na internet em detrimento do atendimento presencial? Quanto o banco economizará com funcionários, equipamentos e infra-estrutura para cada cliente que optar por utilizar o Internet banking? Claro que isso favorece o cliente, desde que o mesmo esteja consciente dos mecanismos de uso da tecnologia. Do contrário, isso se torna uma armadilha e, fatalmente, o cliente acaba pagando a mais por isso.

A tecnologia está cada vez mais inserida na sociedade como um todo, isso é benéfico, mas é obrigação das mesmas investir em informação, auxiliar os clientes, ou seja, favorecer o acesso à tecnologia, mostrando todos os benefícios que ela pode oferecer, que são muitos, e não torná-la uma “armadilha” para clientes desavisados ou um mero paliativo que a exima de qualquer responsabilidade perante a justiça. Essa é uma forma predatória de gerar receita que traz mais prejuízos que benefícios. Há que se modificar este conceito mesquinho, transformando esclarecimento em satisfação do cliente. Insisto, uma pena que o Procon não pense da mesma forma.

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Negociar com a Oi, dá nisso

Confiar na Oi, dá nisso: decepção! Empresas de telecomunicação no Brasil exploram o mercado de forma predatória. Ranços da "era FHC".Com tantos exemplos por aí, apesar de tantas “vítimas” feitas por essas empresas de telecomunicações (oriundas da tenebrosa “Era FHC”), sempre há um panaca ainda por cair em algumas dessas tramóias. Dessa vez, este que vos escreve é o protagonista da história.

Ao me mudar para o Estado de Minas Gerais, procurei me informar acerca dos planos disponíveis para telefonia fixa, celular, internet banda-larga, etc. A única empresa que agrega todos estes serviços no Estado é a Oi. Detentora da antiga Telemar e também da Velox, a empresa oferece uma solução que, em princípio, parece ser interessante, tanto por agregar todos os serviços em uma única conta como também pelo valor: o Oi Conta Total. Além dessas vantagens, todas as linhas participantes do plano falam entre si gratuitamente, desde que esteja dentro da área de cobertura em que foi contratada.

Na época (março/2009), o serviço, que incluía, telefone fixo, dois celulares e conexão banda-larga de 1Mb saía por R$ 169,00 ao mês, já com um desconto de R$ 80,00 durante os primeiros 10 meses. Interessante o preço, não? Sim, inclusive pela possibilidade de cancelamento do plano após os tais 10 meses e recontratação de outro, conforme a promoção vigente.

Contratei o plano em março de 2009 (o Oi Conta Total 2). Tive aqueles problemas técnicos para fazer a conexão funcionar, o “modem grátis” não havia sido entregue  por conta de informações erradas de provedores (tanto do UOL quanto o da própria Oi), essas coisas. Mas, no geral, até que funciona bem. Porém, saiba desde já, que o valor previsto de R$ 169,00 foi cobrado apenas em julho/2009, em todos os outros meses, os valores vieram diferenciados do valor contratado, obviamente com a respectiva justificativa. Inclua-se aí também o aumento anual autorizado pela Anatel, que a funcionária não informa no ato da contratação.

Ao final dos 10 meses, a loja da cidade me procurou, oferecendo uma nova promoção e como minha filha estava precisando de um celular, aderi ao Oi Conta Total 3, que dá direito a mais um chip. Dessa forma, precisaria de mais um aparelho. Como já estava com aquela “vontade” de ter um smartphone (vinha cogitando a possibilidade há alguns meses), fui verificar a tal promoção do iPhone pela Oi. Diz o slogan “E você ganha até R$ 2000 de crédito para comprar seu iPhone”. Que interpretação você faria dessa frase? Pois é, acreditei nela. Mais um otário caindo na “propaganda” da Oi.

iPhone: na Oi é bem mais caro Propaganda esconde o valor real da promoçãoAo ligar na Central de Vendas, o funcionário disse que, pelo meu plano, eu receberia um crédito de R$ 1750 e que eu pagaria apenas a diferença, dependendo do modelo que escolhesse, junto ao Mercado Móvel (a empresa que comercializa o aparelho para a Oi). Pelas contas que fiz, optei pelo 3GS de 32Gb. Pensei comigo: R$ 2799 menos R$ 1750 é igual a R$ 1049. Bom preço, não? Pois é…

O valor do meu novo plano havia ficado em R$ 209, (incluindo fixo, três celulares e banda-larga de 1Mb). O funcionário ainda me disse, que, aderindo ao plano de dados eu teria mais um desconto (e quantos descontos a Oi oferece), de R$ 209, o valor do plano reduziria para R$ 175 e somado ao plano de dados, o total passaria a custar R$ 259 ao mês. Claro que fechei! Achei que foi um ótimo negócio. Porém, não percebi que estava prestes a “cair da cama” e acordar do meu “sonho”.

Ao fechar o plano, o funcionário me deu um número de protocolo para eu entrar em contato com o Mercado Móvel. Ao ligar na referida empresa, a primeira surpresa: Eu não pagaria “somente a diferença”, como havia sido dito, iria pagar o valor integral do aparelho em até 10 parcelas no cartão de crédito e me disseram que eu poderia escolher entre receber o crédito em forma de desconto pela fatura ou no próprio cartão de crédito. Mesmo achando a história muito esquisita, a “vontade” de ter o iPhone era mais forte e me impediu de perceber que estava para cair em uma emboscada. Resolvi comprar o aparelho e o mesmo foi entregue em alguns dias.

Ao ligar na Oi para fazer a habilitação do plano, percebi que já não rolava mais aquele papo de R$ 259 por mês, e, claro, o funcionário não conseguia esclarecer o porquê (eles nunca conseguem). Antes disso, porém, havia ligado na Oi algumas vezes para saber mais a respeito de como receberia o tal crédito. Me disseram que o mesmo viria somente creditado na fatura, a partir da segunda mensalidade, depois de contratado o plano de dados (a via pelo cartão de crédito estava descartada). Por não entender mais a situação e não ter ninguém que pudesse me explicar, resolvi aguardar a chegada das próximas faturas. E elas chegaram.

Em valores, a coisa ficou assim: eu (achei que) devia pagar pelo Oi Conta Total 3, R$ 209 nos 10 primeiros meses (desde que fosse feito débito em conta corrente, mais essa…), com a adesão ao plano de dados, o valor subiria para R$ 259 e eu (achei que) ainda receberia o tal crédito pela aquisição do iPhone. Ledo engano.

A fatura de abril veio no valor de R$ 254 líquidos e nada de crédito. Já a fatura de maio veio no valor de quase R$ 300 e também sem nenhum crédito. Fui à loja da Oi aqui na cidade, a funcionária perdeu um tempão comigo sem conseguir entender aqueles valores todos e (adiantando informalmente que, segundo ela, o tal crédito não existe) me orientou a ligar no *144. Liguei e a atendente disse não ter acesso às informações sobre o plano de dados e sugeriu abrir uma contestação (mais uma, aquela que eles nunca dão retorno). Não tem ninguém que possa esclarecer minhas dúvidas quanto ao plano de dados? Não seria este um direito meu? Pelo visto, não.

Conclusão

É triste, porém verdade. A moça da loja estava mais ou menos certa. Contratei o Oi Conta Total 3, que me garantia um desconto de R$ 140. Ao, adquirir 0 plano de dados, no valor de R$ 85, e um aparelho no valor de R$ 2799, na esperança de pagar somente R$ 1049, por conta do tal crédito de R$ 1750, o desconto que era de R$ 140 aumentou para R$ 175 (eis o tal crédito, sacou?), um ganho de apenas R$ 35 que, em 10 parcelas, dá um total de R$ 350, ou seja, o aparelho vai sair por uma bagatela de R$ 2449. Praticamente, troquei seis por meia-dúzia. E ainda estou vinculado por 10 meses a um plano de dados de 10Gb mensais, o qual não consigo usar nem 100Mb, já que passo a maior parte do tempo usando o aparelho com a conexão WiFi e vale lembrar que não tem cobertura 3G (somente Edge) na cidade onde resido e ainda que tivesse, a velocidade é bem inferior ao WiFi, pude comprovar isso quando fui à Belo Horizonte/MG. Como tudo tem um lado positivo, agora tenho um iPhone 3GS de 32Gb (por enquanto e se nada mais der errado :))

Pois é! Negociar com a Oi, dá nisso!

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O adeus ao Homem da Boa Sorte

Logo após o Carnaval de 2009, nos mudamos para esta cidade em Minas Gerais. Em busca de melhoria e conforto para a família, saíamos sempre à procura de casas para alugar (um assunto à parte…) e, “passando” pelo Distrito de Passagem de Mariana, nos deparamos com um senhor todo vestido de branco, cabeludo, barbudo, fumando um cigarro. Era, sem dúvida alguém incomum, perguntamos se ele sabia de alguma casa disponível, disse que não mas nos indicou um lugar onde pudéssemos obter a informação. Encontrar alguém, visualmente, parecido comigo, me fez sentir menos incomodado. Afinal, também sou cabeludo e barbudo e, até então, não estava sendo uma experiência das melhores.

Algum tempo depois, andando por Ouro Preto, paramos no café do espaço cultural da Fiemg, eis que surge um senhor todo vestido de branco e, educadamente, se ofereceu para mostrar seu trabalho. Eu, mau-humorado, de início não o reconheci e não dei muita atenção, achei que poderia ser mais um daqueles a nos aborrecer para comprarmos algo (e eu já estava aborrecido), mas minha esposa o reconheceu e ele também se lembrou de nós, me “desaborreci” por um instante. O trabalho dele consistia em anéis, brincos e outros objetos feitos com diversos metais, corais e pedras preciosas. Apesar de muito bonito, não compramos nada. Mais tarde, o encontramos na saída da cidade, pedindo carona, e o convidamos a ir conosco. Acabamos conhecendo sua casa, esposa, filha e o irmão, que passou por ali para visitá-los. Conheci seu ateliê e sua produção, bem como alguns experimentos de instrumentos musicais, os quais fez questão de me mostrar pra ver se, de repente, eu tinha alguma opinião ou contribuição a dar, já que soube que eu lido com música.

O senhor a que me refiro é Jamil Assaf. Libanês, chegou ao Brasil com cerca de seis anos de idade. Artesão da velha guarda de Belo Horizonte, na época da ditadura militar, foi um dos fundadores do Bairro Santo Antônio do Leite (em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto), bastante vivido e experiente na arte e ofício da vida. Eu sempre aprendia algo edificante com ele em pouco tempo de papo. Dizia que quando ia à Ouro Preto, “ia como um guerreiro”, referindo-se à energia ruim do lugar. Para ele, “sofrimento é importante, porque nos torna fortes”. Explicava-me sobre a matéria-prima do seu artesanato, aspectos históricos da região aonde morava (Passagem de Mariana), dizia que o Estado de Minhas Gerais se formou ali. Morava próximo à Mina da Passagem, de onde se extraía cerca de 500 kg de ouro por mês nos “áureos” tempos. Foi ele que me explicou uma das possíveis origens do termo “uai”, descobriu que foi por conta dos ingleses que diziam o tempo todo: “all right!” e os empregados, matutos, se apropriaram do termo e criaram a própria versão.

Jamil Assaf na companhia de seu 'vizinho'. Foto: Marta Maia. Na companhia dos "vizinhos", os macaquinhos saguis.Na última vez que fui visitá-lo, Jamil havia mudado de endereço, na mesma rua, uma casa com quintal de fundos para uma área de mata preservada, fez amizade com macaquinhos saguis e os recebia frequentemente, alimentando-os com frutas; as minhas filhas adoraram. Estava contente com a mudança, já que a casa antiga não tinha quintal. Mostrava o que havia conseguido plantar  em um pequeno pedaço de terra com pouco mais de 10 cm de profundidade, seu forno rústico para queimar objetos de cerâmica, cuja técnica lhe permitia atingir cerca de 1000 graus celsius. Porém, naquele dia, percebi que havia uma novidade na vida do Jamil, algo que ele ainda não havia tido a oportunidade de explorar: a tecnologia.

Logo que entramos, vi, pela janela, um computador em um dos quartos da casa, sem a tampa do gabinete, ele disse que havia ganhado há alguns dias, mas que ainda faltavam algumas peças (HD, memória RAM e fonte). Uma amiga que estava conosco ofereceu de presente um notebook antigo. Jamil estava animado com a novidade, comentou que já tinha uma conta no Orkut. O intuito era usar o equipamento para escrever suas memórias e, de repente, a internet para divulgar e ampliar seu trabalho e suas idéias. Dias depois, soube que ele estava um tanto chateado pois nem chegou a usar o notebook, que havia parado de funcionar, pediu para que eu desse uma olhada, um modelo Toshiba Tecra, bem antigo. Não havia muito o que fazer e deixei o equipamento guardado, até encontrar uma oportunidade para devolvê-lo. Entretanto, não houve tempo.

No dia 11 de fevereiro, quinta à noite, a esposa dele ligou e comentou que o mesmo estava hospitalizado há uma semana e que o estado de saúde dele era crítico, estava tentando transferí-lo para algum hospital em Belo Horizonte, disse que o fígado estava bastante comprometido e que era necessário um transplante, embora a equipe médica fosse incapaz de dar um parecer preciso sobre o caso. Na sexta, fui visitá-lo no hospital e fiquei impressionado com a situação em que Jamil se encontrava. Estava mal, com as pernas bastante inchadas, hemorragia no esôfago, com fome e sentido muita dor, a equipe do hospital parecia não dar muita importância ao paciente (outro assunto à parte…). Passei pouco mais de uma hora com ele, na esperança de atenuar-lhe o sofrimento. Entre os intervalos de crise de dor, conseguia conversar. Com a voz fraca, disse: “Você vê? Levaram o computador embora”. Fiquei surpreso: O de mesa? Como assim, Jamil? Não te deram a máquina? “Sim, mas a irmã do doador disse que não havia sido consultada e foi buscá-lo de volta”. Desfeitas à parte, Jamil não perdeu grande coisa, já que o equipamento estava incompleto. Ele lamentou também pela perda do notebook, mas “também, no estado em que me encontro, não poderia usá-los”. Notei que ele estava peculiarmente chateado com essa história, mas tinha algo mais “latente” que o incomodava naquele momento: a dor. Em uma das crises ele levantou os braços e disse: “Ô Deus, me livra desta dor!”.

O horário de visita havia acabado, me despedi dele e da família e saí. Ainda na porta do quarto, dei uma última olhada nele, estava pálido e transtornado, e de certa forma eu também. Saí de lá com vontade de chorar, me perguntando se a questão dos computadores não ajudou a agravar seu estado de saúde; se eu não poderia ter feito algo para ajudar (embora não soubesse como, sempre tive um “senão” em dar computadores velhos como presente, justamente por estarem velhos); se ele conseguiria sair vivo da situação em que estava. Passei o restante do dia bolado, com dor de cabeça e sem chegar a nenhuma conclusão.

Por volta de 6h30 do dia seguinte, o celular da minha esposa tocou. Ela se levantou correndo e atendeu. Eu estava um tanto insonado e a ouvi dizer, chorando: Ai não!! Jamil finalmente havia se livrado da dor, Deus lhe concedeu o pedido. Morreu por volta de 3h da madrugada, como o cavalheiro que sempre foi: no instante em que a esposa cochilou. Morreu com fome e com vontade de ter tido um computador.

Má sorte? Quem pode afirmar? É bem provável que não. Em Ouro Preto, Jamil é conhecido como “o Homem da Boa Sorte”. Decerto, a sorte o acompanhará, aonde quer que esteja.