Categorias
literatura pessoal sociedade

Hoje é finados

Sim, com a construção do título mal feita. Hoje é finados. Me toquei disso pela manhã, quando o parça Luiz Freitas me desejou, pelo zap, um “feliz dia de finados pra você”. Quem me veio à cabeça, quase que de imediato, foi o meu amigo Jamil, que faleceu no carnaval de 2010 (por volta de).

Mandei o link do texto pro Luiz e me lembrei do Venâncio, que se foi em 2009. De repente me toquei que mais de 600 mil pessoas morreram em menos de dois anos de uma única doença! 600 mil pessoas. 600 mil!

E de reflexão em reflexão, vi que este meu blog tem uma relação, digamos, estreita com a morte, já que textos como os do Jamil, do Venâncio, Steve Jobs e, por que não, Dorsal Atlântica, embora esta seja do tipo Fênix. A morte figura sob vários significados e não é possível que não se possa (ou se deva) refletir sobre as figurações da morte. E qual seria o melhor dia pra se conversar (e refletir) sobre este assunto que não o de finados?

Morte tem muitos significados. Antes de continuar, vale dizer que o surgimento recente de um grupo chamado Crypta, que gerou o disco Echoes Of The Soul que trata dessas figurações da morte. A ideia de concepção é polissêmica.

Continuando, que momento é este pelo qual passamos? Desde a morte de milhares diariamente (?!?), pelos assassinatos (também diários) de pretos pobres pela polícia, como a morte do processo democrático, a morte lenta das instituições, do meio ambiente. De que tipo de morte estamos fazendo parte atualmente?

Em casa, a patroa dizendo sobre acender velas e citando exemplos, se dá conta do número alterado para mais dos que já partiram, incluindo um primo dela de São Paulo, recentemente e numa condição que nos choca e me faz atentar ao fato que sigo, cada vez mais, para um caminho, mais ou menos parecido. Ok, mas quem não está? Seguimos no mesmo tempo, mas esta sensação não te traz nada à tona? O fato de que o mundo será bem pior nos anos posteriores, a algumas gerações depois da nossa?

É assustador, é (ou pode ser) gatilho às vezes. A que se pensar com calma que, por outro lado, tudo tem seu fim. A resignação tem sua função nesses momentos já que a morte é pior pra quem fica. Será? É possível, creio. Embora deva ser difícil para ambos os lados. O fato é que o fim provoca recomeços. Inicia e reinicia ciclos o tempo todo. Finados é todo dia, assim como o dia das mães, pais, crianças, etc. Todo dia é dia.

Mas, como o hoje é hoje, um brinde a quem se foi e nos faz falta, como a minha cunhada que me ensinou a fazer salgados, o Arthur Maia, o primo, que ia consertar nossa máquina de escrever da década de 30, o Jamil, além de tantos mais. Um brinde às relações que não existem mais, às amizades que findaram, às épocas que passaram. Ao Estado de direito, que caminha a passos largos para o cadafalso. Brindemos. Lembremo-nos dos momentos passados. A memória pode nos manter conectados. Saudemos os mortos e deixemo-los descansar seu sono profundo bem longe deste mundo. Não acordemo-los.

E para quem ainda não foi, vida longa! Seguimos num período genocida e tenebroso da história no qual centenas de pessoas morrerão ainda hoje de uma única doença e serão também lembradas no ano que vem. No finados.

Categorias
literatura pessoal sociedade

Crônica de uma amizade assassinada

Hoje a lembrança dela me veio à memória. Novamente. A lembrança junto com uma forte sensação de cobrança, seguida de um sentimento de culpa. Por que agi como agi? Era criança quando isso aconteceu. Mas eu poderia não ter agido como agi. Eu tinha esse direito? Poderia ter feito isso?

Não sei. Assim como não sei, ao certo, quando nossa amizade começou. Só sei que ela estava lá no meu aniversário de cinco anos. E já tinha um tempinho que nos conhecíamos. Lembro da gente como se fosse hoje (ela, um outro garoto e eu) destruindo o bolo no fim da festa com os dedos indicadores. Minha não gostou nada. Morávamos no mesmo bairro, há um quarteirão de distância. Num tempo em que as crianças ocupavam as ruas. Brincavam na pracinha e frequentavam as mesmas escolas públicas. Eu era um deles. Ela também. 

Caloi Dobravelzinha azul na vitrine de uma loja em Belo Horizonte/MG. Foto: Divulgação A Caloi Dobravelzinha bem parecida com a que tinha. Foto: Divulgação. Não sei quando, mas ficamos amigos. Que período ruim aquela época da pré-escola. Ia de perua escolar para uma particular católica. Às vezes fazia xixi na calça. A professora era extremamente mal educada. Frequentei esta por dois meses. Um verdadeiro transtorno. Um dia me recusei a entrar na perua. Saí correndo e me escondi embaixo da cama. Meus pais me tiraram de lá e me colocaram em outra perto de casa. Ela também estudava lá. Será que foi lá que nos conhecemos? Ela foi meu par na festa junina, ainda na década 70. Quando chegou a idade do primário, íamos à escola juntos, às vezes com outras crianças. Íamos também ao ginásio municipal, que fazia parte da faculdade de educação física, que oferecia aulas gratuitas de várias modalidades. Educação física, natação, judô, tênis, futebol, etc. Oferecia também capoeira. O pai dela era um hábil praticante. Ainda é. Chegou a lecionar lá, mas foi demitido por não ter ensino superior. Nós íamos juntos para a aula às vezes. Me lembro de ter uns sete anos. Quem com essa idade anda sozinho pelas ruas hoje? Eu tinha uma bicicleta Caloi dobravelzinha azul, que usava quando ia sozinho. Havia comprado um cadeado de segredo na cor verde, o qual tenho guardado até hoje.

De vez em quando, havia alguma rusga. Uma vez, um garoto tirou a nossa paciência. Eu e ela o botamos para correr. E ele correu. Entrou em casa por um vão no portão e nós fomos embora. Pouco tempo depois, a mãe do garoto nos perseguiu com um Fusca, o garoto no banco de trás. Estacionou ao lado, deu-nos aquela bronca, além do sermão, “sabia que vocês podem combater o mal com o bem?”. E eu: “Como?!”.

Ela sempre passava em casa para irmos tanto à escola quanto ao ginásio. Algumas vezes não íamos ao ginásio. Outras eu me recusava a ir. Ela disse: “não te chamo mais, você nunca vai”. Achava aquilo um tanto sacal. Não o fato de praticar esporte, mas a dificuldade em socializar. Ela me ajudava no que podia.

De vez em quando, vinha brincar em casa. Em outras ocasiões era eu que ia brincar na casa dela. Uma residência antiga, como todas as outras naquele bairro. Moravam várias pessoas lá, vários parentes. Lembro do avô dela, que trabalhava como pedreiro (daqueles que usava um saco de papel na cabeça). Lembro de quando a avó dela faleceu, de quando o avô casou novamente e teve um filho, um garotinho bem mais novo que ela dizia: este é meu tio.

Uma casa que estava sempre em construção ou reforma. Uma vez o pai dela transformou dois cômodos da casa, além da garagem, em uma escola de capoeira. Ainda lembro do letreiro que havia na entrada. Adorava brincar na mesa de escritório que ficou no espaço da garagem, aonde era a recepção. Me lembro de ter participado da comemoração de aniversário dela mais de uma vez. Tinha até show de mágica com mágico profissional, que me fez botar um ovo e lhe deu de presente um coelho de verdade, que ela batizou de “Gustavo”.

Quando a palavra “capoeira” me vem à mente, é deles que me lembro. Na época em que os aparelhos de TV eram preto e branco, havia um programa infantil chamado Pullman Júnior. Uma bela manhã, vejo um pessoal jogando capoeira no programa. Reconheci o pai dela, tocando berimbau. E não é que ela estava lá também? É vívido na minha memória ela tentando fazer um movimento qualquer e caindo sentada. À tarde tirei um sarro dela na escola.

Em boa parte das vezes, a mãe dela me convidava para almoçar. Extremamente gentil. Certa vez ela nos proibiu de sair de bicicleta logo após o almoço. Disse que fazia mal, no que prontamente respondi: não tem problema, é só peidar duas vezes e pronto. Disse e logo percebi que não deveria ter dito. Um tempinho depois, a filha disse: acho que está quase na hora, já foi um.

Certa vez, a mãe dela flagrou o momento em que ela estava em cima da máquina de lavar. Me lembro que a mãe pegou um cabide de madeira e gritou: desce! Ela, assustada, suplicou que a mãe não batesse e se prontificou a descer. Não aconteceu nada, mas era assim que as mães agiam naquele tempo.

Me lembro uma vez que brigamos e ficamos um certo tempo sem nos falar até que estávamos na escola em algum evento. Nossos pais também estavam. Meu pai me chamou e fez questão que eu retomasse o contato. Assim foi feito, reatamos na hora a nossa amizade. Com criança é tão fácil.

Noutra vez, um garoto quis arrumar uma briga comigo. Tanto encheu que um dia aconteceu. E como eu era ruim de briga. Eu era maior, mais forte e proporcionalmente medroso. Chegou uma hora que ela tomou a iniciativa. Me pegou pelo braço e saiu me puxando: “va-mo em-bo-ra!”. E quem acabou com a briga foi ela. Em outra ocasião, ela arrumou amizade com uma menina que eu não topava muito. Nesta época combinamos de ir à escola juntos e ela disse: “eu viro a cara com ela, mas você vai ter de ir comigo pra escola”. Topei na hora. Ao passar em frente à casa da garota, ela se juntou a nós e, simplesmente, a ignoramos. Era parceira.

Me lembro de uma vez que estávamos voltando da escola e ela bateu a cabeça numa lixeira fixada no muro sem maiores consequências. Era costume naquela época fixar a lixeira assim. Um dos meus primos foi parar no hospital depois de bater a cabeça em uma enquanto jogava bola. Um perigo. Mas, naquele dia, eu ri dela. Não sei se eu era tão amigo dela quanto ela era de mim.

Falando no meu primo, estava na casa dele quando recebi um telefonema da minha mãe dizendo que haveria um batizado dela na capoeira e que ela havia me escolhido para participar, não lembro ao certo o que era. Minha mãe disse que o pai dela me buscaria, se eu quisesse participar. Não quis. É que estava tão legal lá na casa do meu primo e, não sei porque, sempre tive um senão com a capoeira. Nunca descobri o porquê. O fato é que recusei o convite. Mas, lembro até hoje da sensação que tive depois. Não deveria ter recusado o pedido dela.

Certa vez, estávamos voltando da escola e a avó de um colega foi nos buscar (nem sempre íamos sozinhos). A mulher disse a ela: “então é você que costuma atrapalhar a amizade dos meninos?”. Demorei um pouco para entender que a avó falava sério. Num dado momento em que ela disse algo, a avó gritou: “CALA A BOCA!”. Violência gratuita. Não se trata alguém assim. Ainda mais por nada. Hoje, tenho certeza que foi por causa da cor da pele dela.

Uma outra vez, teve um garoto que implicava com ela (sempre na volta da escola). Chegou a cuspir no cabelo dela. Me senti incomodado. Ela era forte, não se abalava. Falava com os garotos na mesma altura. Tanto que o garoto, depois, passou a mão no cabelo dela e limpou o cuspe. Terá sido também pela cor-da-pele?

Numa outra ocasião, na quinta-série. O professor havia acabado de entregar a prova de inglês. Eu cursava o idioma em escola particular. Gostava e ia bem. Na escola, tirava de letra. Peguei a prova e, ao passar por ela, notei que chorava baixinho. Perguntei o que houve e ela me mostrou a prova. Tirou um “E”. Apesar das dificuldades, não reprovou.

No início da sexta série, meu pai comprou uma nova casa. Íamos nos mudar de bairro. Eu ia me mudar de escola também. Na casa havia até piscina. Minha mãe pediu que eu perguntasse a ela se tinha roupa de banho, na ideia de convidá-la. Perguntei, ela disse que sim. Mas, depois, não dei mais retorno. Um dia, na aula, ela perguntou: “você não ia me chamar no fim de semana?”. Não respondi. Depois disso, não tenho mais lembrança. Saí da escola, mudei de endereço e simplesmente a “esqueci”.

Meus pais ainda tinham certo contato com os vizinhos antigos. Um tempo depois, minha mãe disse que um deles a havia encontrado junto com a mãe e ela questionou o porquê d’eu não ter dado mais nenhuma notícia. Ela estava completamente coberta de razão. Tinha eu o direito de ter feito aquilo? De ter abandonado alguém que era a minha melhor amiga? Claro que não! Mas eu, naturalmente, tomei essa decisão de forma inconsciente. Juro! Vai ver, tive vergonha. Afinal, mudamos para uma casa grande, bonita. Ela ainda permanecia no mesmo endereço. Ainda guardo este sentimento, sem me atrever a dar-lhe um nome.

O fato é que não nos vimos mais e não sei explicar o motivo de ter agido assim. Eu poderia tê-la visitado. Ainda ia ao bairro às vezes. Lá havia uma família mais ou menos rica que construiu tipo uma mansão. Furaram um poço artesiano e construíram uma pia de granito para o lado de fora da casa. Assim, as pessoas faziam fila em frente a casa para pegar água. Nós, mesmo não morando mais lá, ainda íamos buscar água naquele local. E, mesmo assim, não fui visitá-la. Tenho um colega que mora até hoje naquele bairro e que, na segunda metade da década de 90, se mudou para uma casa exatamente em frente à dela, a qual eu visitava vez ou outra e em nenhuma dessas vezes eu fui visitá-la. Nenhuma!

Em 2001, tive um ímpeto de procurá-la, me justificar, me desculpar, sei lá. Cheguei a ter insônia pensando nisso. Perguntei a este colega se ela ainda morava lá. Ele disse que sim e brincou: “Por que? Tá a fim da mina?”. Não sei explicar o que houve, mas este ímpeto arrefeceu, sumiu. Não por completo, mas sumiu o suficiente para que eu não tomasse nenhuma atitude.

A vida seguiu, muita coisa aconteceu. Mudei de endereço umas tantas vezes, de cidade, de Estado. Mas, ontem me lembrei dela. Com toda força. Eis que tive um insight. Porra! O Facebook! Comecei a procurar. Encontrei. Achei o perfil dela, do pai dela. Achei uma fanpage dele. Descobri que ele ingressou no doutorado, que ainda é extremamente ativo no mundo da capoeira. Ele, aliás, é alguém de uma importância ímpar na cidade. Foi candidato a vereador algumas vezes. Ainda me lembro de ter chegado num bar em véspera de eleição com uns colegas e ter comprado bebida alcoólica escondido por conta da lei. Lá havia panfletos da campanha dele. Devia ter pegado o panfleto, mas não me lembro de ter votado nele.

Voltando ao facebook, confesso que fiquei contente com o que vi. Uma mulher bonita, com aspecto feliz, embrenhada na cultura negra, orgulhosa de si. Mãe. Forte como sempre. Vi a foto da mãe dela. Lembrei na hora. Mas, ao lado da foto, comentários tristes. Notei que a foto era, na verdade, a homenagem de um ano após o falecimento. Me veio à memória imediatamente o sorriso que ela tinha. Que pena. Como será que a filha está? Pensei em contatá-la. Devo? Depois de tudo o que fiz?

Perguntei à minha esposa, à minha filha. Ambas disseram que é complicado. Que a resposta poderia não ser agradável, que o tempo passou. Ou pior, ela poderia nem lembrar. Afinal, mais de 30 anos se passaram. Resolvi contatar meu colega, contei-lhe a situação. A resposta: “Sei como é. Acho que você devia deixar quieto”. Devia mesmo?

Na verdade, a dúvida permanece. Devo procurá-la? Devo me retratar pelo sumiço? Devo tentar entender o porquê de ter feito o que eu fiz? Afinal, eu era ainda criança. Teria eu agido de forma racista? Um racismo introjetado? Não sei. Nunca achei que pudesse agir assim com alguém. Especialmente ela. Mas o preconceito racial é algo tão forte e tão enfronhado que acaba funcionando como uma espécie de onda. Contamina até quem não tem intenção e nem vontade de ser. Mas dizem que de boa intenção o inferno tá cheio. Então, talvez tenha sido. Fui criado vendo as pessoas ao meu redor agindo de forma preconceituosa e, paradoxalmente, nunca tive a vontade de diminuir ninguém por conta da cor da pele, embora não perdesse a piada. Uma vez, a faxineira de casa estava lavando a calçada e eu gritei da janela: “Desse jeito as pessoas vão pensar que você é escrava!”. Fui repreendido prontamente pela minha mãe, que contou a meu pai mais tarde, que me fez correr atrás da moça pra pedir desculpas. Obedeci e nunca mais fiz isso.

Mas, será que foi o caso com a minha amiga? Não sei. O fato é que sinto remorso por não tê-la procurado depois. Vergonha de ter postergado o contato tipo pra sempre. Me sinto um covarde. O mesmo covarde e medroso que não deu uma lição no garoto folgado em frente à escola. O mesmo covarde que não a defendeu quando a avó do menino a mandou calar a boca. O mesmo covarde que não tomou as dores dela quando o outro garoto lhe deu a cuspida. Mas, racista seria demais. Será?

Ontem foi dia de finados. Dia de lembrar dos que se foram. Curioso me lembrar disso tudo de forma tão intensa justo neste dia. De uma bonita amizade que foi assassinada. Que poderia ter sido ressuscitada e não foi. Justamente num dia de finados. Devo me sentir culpado? Quem sabe?. Afinal, lembro dela de um jeito tão afetuoso. Ela foi uma das minhas primeiras amizades nos primeiros anos de vida. E olha que amizade de criança é sincera. A dela foi. Será que da minha parte foi também? Se não foi, que eu sofra com esse remorso para sempre. Talvez seja bem feito.

De todo modo, o que está feito, está feito. Talvez seja conveniente crer que tudo foi esquecido após quase quatro décadas. Mas é engraçado pensar nisso. Todas as vezes que ando por aquela cidade, saio procurando com os olhos por pessoas conhecidas. É raro, mas, às vezes, encontro quem não quero encontrar. Finjo que não reconheço, passo reto. Fico pensando se ela não fez o mesmo. Talvez tenha me visto e mudado de calçada. Pensou: “ficou rico e sumiu, playboy, racista!”. Será? Quem sabe? Se não fosse medroso, covarde. Talvez mandasse uma mensagem inbox: “Oi, lembra de mim?”. Ou, “quantos anos vai levar para você me perdoar?”. Quem sabe?

Categorias
artes sociedade sociedade e mídia

Eu, Daniel Blake: a realidade-dura mais próxima do que se imagina

“Quando a dignidade é perdida, tudo está perdido” (Daniel Blake)

Há muito tempo venho refletindo sobre algumas questões. Uma delas é como o Estado mínimo e as privatizações são interpretadas por determinados setores da sociedade. A impressão que tenho é a de que apenas eu consigo perceber uma voraz perversidade do Estado privatizado para com o cidadão. A impressão que tenho é a de que só eu consigo notar o que há por trás deste processo nefasto que esmaga, sem o menor pudor, qualquer política que venha a assegurar qualquer benefício que seja ao cidadão descente, honesto, que paga seus impostos em dia ou que, ao menos, o desejaria faze-lo se tivesse condições (no caso daqueles que estão abaixo da média). Fico muito satisfeito em saber que não sou o único a enxergar isso. Fico contente em saber que há uma verdadeira legião que compartilha da mesma visão. Fico muito satisfeito em ter assistido Eu, Daniel Blake.

Se você compartilha da mesma opinião que tenho, mas ainda não assistiu ao filme, sugiro que assista. Entretanto, se ainda não assistiu e não crê que as coisas sejam da forma como estou afirmando aqui, então pare de ler esse texto agora mesmo. Isto não é pra você.

O filme dispõe de uma narrativa extremamente simples: um homem doente, sem condições de trabalhar, segundo os médicos, tem o benefício do auxílio doença suspenso e necessita provar sua condição física ao Estado para reaver o valor e prover o sustento. Este, por sua vez, privatizou a previdência social e a empresa em questão afirma que o homem já pode retornar ao trabalho. Ou seja, o protagonista passa o filme inteiro como refém da burocracia instalada de forma proposital a fim de faze-lo desistir o mais rápido possível daquilo a que tem direito, conquistado pelo tempo de contribuição.

O enredo é sutil, Blake, de repente, se vê em uma situação surreal, o dinheiro acaba e o Estado vira-lhe as costas. Este é, na verdade, um verdadeiro banho de água fria naqueles que costumam exaltar o Welfare State britânico. Dizendo que lá sim as coisas funcionam, que lá não é como aqui. Infelizmente, não é. Segundo o filme, é até pior.

Eu, Daniel Blake. Filme de Ken Loach

Blake não consegue crer naquilo que vê. Tanto na própria situação como na de outros que ele presencia nos momentos em que esteve nas repartições públicas. A dignidade o convoca a declarar guerra contra o Estado. Porém, o sonho não existe, a trama discute a realidade, a dura realidade. Blake grita, mas ninguém o escuta. É mais um grito entre tantos outros. Todos mudos.

Adorei ter assistido Eu, Daniel Blake. Foi um alento. Não estou enlouquecendo, apenas enxergo a realidade. Na verdade, aqui no Brasil ainda não está como na Inglaterra, mas é perfeitamente possível perceber que o país caminha nessa direção. Me lembro do meu amigo Jamil, que morreu no hospital, porque o hospital entendeu que ele não merecia lutar pela vida, que ele merecia morrer porque, afinal, o hospital entendeu que ele já estava mais próximo da morte do que da vida. Assim é também a lógica do Estado privatizado. Eu consigo enxergar perfeitamente toda a perversidade que está por trás deste processo. Daniel Blake passou por isso. Ao Estado privatizado, interessa saber o quanto o cidadão ainda irá poderá contribuir. Caso não possa, considere-se morto, apenas morra. Simples assim. Se você é um moribundo sem fígado (assim ficou o meu amigo Jamil), não compensa ao hospital encaminha-lo para o transplante de um fígado novo. Você vai morrer de qualquer jeito. Melhor apressar a morte do que prolongar a vida. Não compensa ao Estado privatizado pagar aposentadoria a velhos moribundos porque eles irão morrer de qualquer jeito. Então é melhor que morram logo. Não foi isso que o ministro de Finanças do Japão, Taro Aso disse em 2013? Não foi isso que FHC disse em 11/05/1998? Por acaso não é esse conceito que estão tentando “colar” nos dias de hoje? O de que aposentados são vagabundos? No filme, Blake, enquanto aguarda a avaliação obrigatória, é obrigado a recorrer erroneamente ao seguro desemprego. Lá ele é obrigado a cumprir uma rotina, tem que procurar emprego, distribuir currículos e provar ao Estado privatizado que ele está buscando trabalho para manter o benefício, mesmo sabendo que está impedido de trabalhar. Ou seja, a intenção do Estado privatizado é mostrar que não-dá-dinheiro-a-vagabundo. Alguma semelhança com com o discurso que se pratica aqui? Aquele papo de que quem recebe o Bolsa Família é vagabundo? Não é só aqui, lá também existe esse (pre)conceito perverso e Blake, quando deu por si, já havia caído na armadilha criada pelo Estado privatizado.

Eu, Daniel Blake. Filme de Ken Loach

Em suma, a intenção do Estado privatizado não é sair por aí matando velhos moribundos, aposentados e/ou pessoas em situação de miséria. O Estado privatizado enxerga números. Tudo e todos são números. O Estado privatizado se pergunta: como é possível enxugar, cortar custos, minimizar prejuízos, como se a sociedade fosse uma linha de montagem. O filme ilustra muito bem como o Estado privatizado dificulta ao máximo o acesso do beneficiário ao benefício. Cria regras duras, cruéis com o simples propósito de “enxugar a máquina”. E o que acontece se, por ventura, o beneficiário vier a falecer? Para onde vai o dinheiro a que ele teria direito? Nesse sentido é que fica clara a afirmação do ex-ministro japonês Taro Aso: é melhor que morram. Aí reside a perversidade. Estressar o beneficiário, acelerar a sua morte à medida em que retardam ou lhe negam o benefício. Simples assim.

Ao que tudo indica, a privatização do Estado é uma tendência. Pior, é um caminho sem volta. Rumo ao precipício. Muitos Blakes, lá e aqui, pagaram caro por isso a vida toda e vêem o Estado privatizado virar-lhe as costas justamente no momento em que mais precisarão. Eu, Daniel Blake é realidade pura, não indicado para quem deseja permanecer na ilusão.

Categorias
artes mídia pessoal

O mercado do rock descobriu o óbvio

Hoje apareceu para mim o clipe “When The Sinner”, do Helloween, da época do Michael Kiske, na fase mais pop da banda, um pouco antes do fim, na minha opinião. Comecei a pensar no assunto: bandas com uma determinada pegada resolvem “tentar” se vender ao mercado pop e se dão mal. Celtic Frost fez isso, foi fatal. Outras tantas fizeram, até Metallica. Foi fatal, na minha opinião. Mas, nesse caso, o público que nem conhecia Metallica, abraçou a ideia. Deu certo, Bob Rock sabia o que fazia.

Metallica conseguiu. Helloween, não. Como eu disse, foi fatal. Custou a cabeça de Kiske e, de uma certa forma, a vida de Schwichtenberg. Uma pena. Uma perda irreparável, o mercado não poupa ninguém. Sim, o mercado. Afinal, é pouco provável que toda a mudança e investimento tenha ocorrido somente pela iniciativa dos jovens músicos. Claro que não, o mercado apostou nisso.

É uma pena que a arte esteja tão dependente do mercado. Muita coisa boa sucumbiu aos caprichos do mesmo. Caprichos estes que Kiske insistiu em levar adiante, com seus diversos projetos mal sucedidos ao longo dos anos, os quais praticamente não conheço.

Porém, o mercado entendeu que a nova fase do pop é resgatar o que os anos 80 tinham de bom: tentar juntar os caquinhos e ressuscitar o que o próprio mercado tratou de matar nos anos 90. Iron Maiden entendeu o recado bem antes da maioria e tratou de repatriar Bruce Dickinson. O quinteto virou sexteto e deu muito certo do ponto-de-vista do mercado. Mesmo fazendo um sonzinho fraco e enjoativo, a banda fez algumas visitas ao passado e trouxe muitas alegrias aos fãs. Se reinventou, inventou uma forma diferente de fazer turnês e conseguiu até emplacar o repertoriozinho de novos álbuns dos últimos anos. Apesar da atual fase, nunca romperam com o passado como o Helloween ou Celtic Frost quiseram fazer. Como o Metallica fez, apesar do êxito. Vale lembrar que Metallica também revisitou o passado, meio que obrigatoriamente após os sucessivos fracassos de Load, Reload, etc.

Cartaz da turnê do show do Helloween em 2017 Cartaz do lançamento da turnê do Helloween no Brasil em 2017 com participação de Michael Kiske e Kai Hansen. Foto: divulgação

E o mercado, não tendo mais “novidades” a explorar, resolveu seguir o caminho do Iron Maiden: foi revisitar o passado. Quantas e quantas bandas trataram de se reunir novamente? Até Helloween, quem diria? E se reuniram meio que no estilo Maiden, juntou todo mundo pra fazer uma grande festa. O público daqui adorou, ingressos quase esgotados um ano antes da apresentação. Meses atrás resolveram trazer Ronnie James Dio de volta à vida, ainda que em forma de holograma. Mas ele estava lá, emocionando o público novamente como sempre fez em vida.

Isso é uma coisa boa, não nego. Recordar é viver. Muita gente, inclusive, nem era nascida nesse tempo. Vai recordar o que não viveu e vai achar lindo, porque foi linda essa fase e será eternamente linda. Uma pena que ela retorne à tona pelo viés do mercado. Não sei se prefiro isso ou visitar os túmulos das bandas que se foram. Na verdade, isso me remete às bandas que nunca se foram e estão aí até hoje.

Um exemplo inusitado de uma dessas bandas que nunca se vendeu e praticamente criou um estilo dentro do Metal é o do Venom (essa banda é sempre inusitada). Cronos não se dá com os antigos membros, Mantas e Abaddon. Ele seguiu com a banda, tentou reunir a formação clássica em algum momento, mas não deu certo. Eis que os dissidentes resolvem criar o Venom Inc, um outro Venom sem o Cronos, com Demolition Man nos vocais (antigo membro do Venom sem o Cronos, enfim). Como eu disse, é inusitado e muito válido. Agora temos dois Venoms. Duas bandas com base naquela dos anos 80, no melhor estilo underground, que nunca abandonaram as raízes e nem a disposição. Já pensou se a moda pega?

Aqui na terrinha, vale citar o Dr. Sin, um exemplo em vários sentidos, foi uma banda que virou as costas ao mercado, quando o mesmo exigiu que assumissem um viés mais pop, letras em português, etc. A banda rompeu com a gravadora e lançou Brutal, um trabalho independente e considerado um dos mais criativos da trajetória do grupo, que se recusou a romper com os fãs. A banda morreu por outros motivos. Conflitos de ego, talvez, mas nunca perdeu o apreço dos fãs. O Golpe de Estado, há 30 anos, quase acabou por conta da morte do Helcio Aguirra, mas resolveu continuar. Aproveitou o momento, fez um show recentemente e resolveu convidar Catalau (o eterno frontman) para fazer uma participação especial. Não pude comparecer, mas soube que o show foi lindo, emocionante.

Demorou, mas caiu a ficha. A moda agora é “ressuscitar os mortos”, no bom sentido do termo, juntar os integrantes, relembrar os tempos idos. Fico em dúvida se foi a ficha que caiu ou se foi o universo que conspirou a favor. É um movimento forte, não creio que o mercado possa controlar isso. Resiliente que é, o mercado não é bobo, resolveu aderir e colaborar para que pudéssemos ter o alento dos bons tempos, da época de ouro do metal, do rock. Não me iludo. Não acho que isso venha pra ficar. Mas vai ser muito bom enquanto durar.

Categorias
artes sociedade

Entre a arte e a mediocridade

“Ao realizar a mostra, o Centro Cultural Banco do Brasil possibilita o contato da sociedade brasileira com obras-primas de grandes nomes da história da arte e reafirma seu comprometimento com a formação de público e com o acesso cada vez mais amplo à cultura” (Centro Cultural Banco do Brasil)

Que a proposta dos ditos Centros Culturais tenha como objetivo promover o “acesso” à cultura e, por sua vez, sensibilizar o cidadão comum com a experiência, ok, é um objetivo nobre, mas como fazer?

A pergunta poderia ter várias respostas, das mais óbvias às mais complexas, já que há várias maneiras de proporcionar tais experiências. Infelizmente, nem todo Centro Cultural é capaz de proporcioná-las, sendo alguns capazes, inclusive, de proporcionar não-experiências como é o caso do Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte.

Exposição Kandinsky no CCBB Belo Horizonte Imagem do site do CCBB Belo Horizonte da exposição Kandinsky: Tudo começa num ponto

Digo isso pois o espaço por si só é uma verdadeira contradição. Já visitei, pelo menos, três exposições ali. Em quase todas presenciei problemas com a “equipe” responsável por monitorar os visitantes. Não sei o que são, nem como são treinados e tampouco sei qual o objetivo do comportamento destes funcionários, que mais parecem cães-de-guarda, dando a impressão de protegerem verdadeiros tesouros do perigo oferecido por possíveis vândalos, que são os visitantes.

Me atenho à exposição que “tentei” visitar hoje, “Kandinsky: Tudo começa num ponto”, em cartaz de 15/04 até 22/06/2015. Confesso ainda não ter tido a oportunidade de conhecer o trabalho do artista. Acho que é para isso que servem as exposições de arte, para que pessoas como eu possam conhecer o trabalho de outras. Uma proposta nobre, mas com um modus operandi, no mínimo, discutível.

De início, cerca de 40 minutos de espera em uma fila. Ao chegar no ponto-de-partida da exposição, um rapaz vestindo o uniforme de uma empresa de comunicação chamou os visitantes para dar as orientações, a saber:

  • não é permitido portar garrafas d’água;
  • não é permitido mascar chicletes;
  • não é permitido atender celulares dentro das galerias;
  • não é permitido filmar (mas fotografar sem flash, sim);
  • não é permitido ultrapassar o limite que separa a obra do visitante.

Logo no início, notei a preocupação excessiva dos funcionários responsáveis por monitorar os visitantes durante a exposição. Vigiando para que os mesmos não tocassem ou se aproximassem das obras. Estava eu acompanhado de minha esposa, observando e conversando sobre o assunto. Não posso dizer pelos demais visitantes, mas quando compareço a uma exposição de arte gosto de observar a fundo, absorver as informações contidas nas obras, perceber a técnica utilizada, me apropriar do conhecimento oferecido pelo artista. Aprendi isso empiricamente, quando visitei, pela primeira vez, a Bienal das Artes no Ibirapuera, em São Paulo, em 1996. Desde então, é assim que visito exposições de arte. Se isso não for possível, prefiro não visitar. Até hoje, nunca fui acusado de danificar nenhuma peça com meus olhos. Enfim…

Ao notar dois pequenos quadros do artista que estavam com seus respectivos vidros quebrados (e justamente tratavam-se de óleo sobre vidro), veio-nos a curiosidade do porquê não haviam trocado o vidro e os expuseram quebrados mesmo. Seria a própria tela o vidro em questão? Ficamos curiosos e tentei aproximar os olhos das referidas telas quando surge uma funcionária informando que eu estava invadindo o limite obra X visitante. Olhei meus pés e eles estavam atrás da faixa, respondi à referida que não estava invadindo. Minha esposa ficou indignada e eu acabei ficando também. Claro que respondemos à funcionária e a mesma não se deu por satisfeita, foi atrás de nós e insistiu que respeitássemos a regra e que ela só estava fazendo o trabalho dela. Minha esposa ainda perguntou se o trabalho dela era tirar o prazer do visitante e a mesma ainda insistiu em seus argumentos quando pedi a minha esposa que não mais dirigisse a palavra à funcionária em questão e disse à referida: “você já deu seu recado, ok? Obrigado e boa noite”. Claro que a agradeci por ela ter cumprido a determinação que o rapaz no início se esqueceu de informar aos visitantes:

  • não é permitido ter qualquer tipo de prazer ao observar as obras em exposição.

Após o episódio, confesso ter perdido a vontade de continuar ali, acabei não vendo o restante do acervo, saímos. Na recepção, minha esposa procurou a pessoa responsável pelo setor e fez a devida reclamação. A funcionária ainda tentou explicar que os funcionários apenas cumprem ordens, no que minha esposa perguntou: “mas o olhar é capaz de danificar a obra?”, a funcionária não soube responder. Sim, eu estava apenas olhando, com os braços atrás da cintura, com uma mão segurando o punho do outro braço. Nesse instante, outro funcionário ainda argumentou: “é que já passaram umas 10 mil pessoas pela exposição, os funcionários estão estressados” (10 mil em três dias?!?). Enfim, argumentos que impossibilitam qualquer continuidade do diálogo. Nesse momento, eu já estava do lado de fora do prédio, jurando a mim mesmo não colocar mais meus pés naquele lugar novamente.

A curiosidade persiste e me remete à questão colocada no início do texto. De que forma o CCBB Belo Horizonte busca aproximar o cidadão comum ao mundo das artes com essa política medíocre e tacanha de cercear o visitante como se o mesmo fosse um vândalo em potencial? Alguém que aguardou 40 minutos na fila. Se essa é a forma que insistem em tratar o visitante (e não é primeira vez que presencio tal situação) então não tenho o menor interesse em retornar a esse espaço que, aliás, logo na saída, enquanto aguardava minha esposa, ouvi um garoto conversando com um adulto. Dizia ele: “que lugar chato, não pode colocar nem a mão na parede”.

Pelo visto, minhas dúvidas permanecerão enquanto a arte permanecer apenas como vitrine do CCBB de Belo Horizonte. Que diria Wassily Kandinsky sobre este episódio? Talvez o mesmo que eu: lamentável.

Categorias
mídia opinião pública

Mainardi é minha Anta

“A grande mídia é golpista e tendenciosa!”. Ela direciona o foco para aquilo que quer e manipula a opinião pública sem deixar explícita a própria opinião ou o porquê de sua atitude. Ela se auto-declara “isenta”, muito embora saibamos que este quesito não existe. Ela é muito bem organizada e articulada. Há pessoas muito inteligentes trabalhando nela e o foco, seja ele qual for, é fruto de algo elaborado, às vezes nem tanto. Muitos usam essa frase citada no começo do texto, inclusive eu. É uma tese que defendo, mas tenho dificuldades para encontrar exemplos para ilustrar o raciocínio. Eis o exemplo que aguardava.

Inicialmente, não tem a ver com enxergar o Brasil com otimismo ou pessimismo. É possível dosar ambos e enxergá-lo com esperança, mas ter senso crítico suficiente para não descambar para nenhum dos extremos é fundamental para não cair em armadilhas da mídia, cujo modelo vigente funcionou bem por muito tempo, mas as coisas mudam, a realidade muda e a realidade do Brasil tem se modificado ao longo dos últimos anos. A grande mídia sempre foi “o filtro” e o que não é noticiado por ela, não é fixado no imaginário da opinião pública de um modo geral, logo tende a não ser verdade. Felizmente, como se diz por aí: shit happens. O modelo já começa a dar sinais de que algo não vai bem. Foi o que percebi quando vi o vídeo no qual a CEO de uma das maiores redes de lojas de varejo do país desconcerta os apresentadores de um dos programas mais queridos das classes A e B e o mote vira hit na internet. #gênio.

Luíza Trajano (presidente do grupo Magazine Luiza) foi recentemente entrevistada no programa Manhattan Connection e, por sua vez, confrontada com a própria síntese do pessimismo (em todos os sentidos, inclusive profissional): Diogo Mainardi. Digo péssimo porque Mainardi é um personagem que figura no “jornalismo”, mas não é jornalista. É filho de publicitário, mas não atua na publicidade. Diz-se que é escritor (?!?), mas, na verdade, a profissão de Mainardi é ser comentarista em TV e revista. Não sei se isso é profissão. Até aí, problema nenhum. Porém, Mainardi ganhou espaço na grande mídia por ser polêmico (?!?) e pára por aí.

Mas algo deu errado na fórmula pronta da Globo, a coisa ficou tão evidente que Mainardi acabou desnudado. Tentou “emparedar” Luiza de várias formas, porém antes se esqueceu de ler, se informar. Por não ter feito a lição de casa, Mainardi (que se auto-intitulou: o copo vazio, e nisso ele tem toda a razão) deu várias gafes durante o debate. Como garoto mimado que é (e amparado pelo empregador), tentou de todo modo enfiar goela abaixo suas afirmações de que “os juros aumentaram”, “o crédito diminuiu”, “a inadimplência aumentou pelo segundo ano consecutivo”, “a inflação aumenta”, “a indústria nacional foi sucateada”, etc. Perguntou quando Luiza irá vender sua empresa para a Amazon. Disse ainda “eu não vejo caminho pro varejista brasileiro”. E como bom vidente que é, disse que “se ainda não há crise, vai haver”.

Luiza porém, foi bastante hábil. Comentou sobre a questão da inadimplência do varejo, que, segundo ela, diminuiu (depois foi amplamente confirmada pela própria grande mídia). Explicou que o setor varejista é um mercado bastante promissor e também mostrou dados interessantes que tenho certeza de que os espectadores do Manhattan Connection não conheciam: apenas 8% da população tem TV de tela plana (acredito que de LCD, LED, etc.). 54% tem lavadora de roupas em casa. Enfatizou também a ação do governo federal como o Minha Casa Minha Vida enquanto alavanca para proporcionar infra-estrutura necessária para a organização dessa fatia específica da sociedade, consumidor em potencial. Já Mainardi soltou um “me poupe, por favor, Luiza, hehehe” quando esta se ofereceu para lhe enviar dados sobre o que ela estava defendendo. O escritor (?!?) não gosta de ler.

Luiza levantou os problemas em relação à burocracia brasileira, mas que o aumento de vendas no varejo é uma tendência mundial, que a Amazon, inclusive, pretende criar lojas físicas. Esse fato, no Brasil, significa, que vale a pena investir em melhoria na infra-estrutura das classes mais baixas, pois são as que tem bom poder de consumo e potencial em contribuir para o aquecimento da economia e isso é fato comprovado, com base nos dos últimos anos. Luiza, após questionada por Ricardo Amorim acerca do baixo crescimento do varejismo em relação a outros setores, afirma que o mercado de vendas no varejo é novo e está praticamente começando no país, que é o setor que mais gera emprego depois do governo (um dos maiores empregadores). Considerei este dado muito importante e acredito que muitos o desconheçam já que a grande mídia sempre coloca a indústria como grande empregadora, em especial as montadoras, que são estrangeiras, além de “queimar” os sindicatos, enfim, sacou a manipulação?

Lucas Mendes foi obrigado a concordar com Luiza, fez o mea culpa, meio na base do “eu acho que” e mudou o foco do debate, perguntou acerca da segurança nas compras on line feitas no Brasil e depois sobre o atendimento ao cliente. Luiza comentou sobre ambos os assuntos e foi novamente surpreendida por Mainardi dizendo que o problema no Brasil é preço, que no “Brasil tudo custa três vezes mais”, justamente no momento em que ela explicava uma situação presenciada numa farmácia em Nova Iorque sobre atendimento ao cliente e que não tinha nada a ver com preço. Mais uma gafe, mas que se tornou um momento divertido no programa e, mais uma vez, Lucas Mendes vem em socorro da entrevistada e cita uma escritora norte-americana que afirma a importância do atendimento em detrimento do preço, corroborando com o comentário de Luiza.

E Luiza é uma senhora simpática, respeitada, com linguajar mais popular, amiga da presidenta Dilma, mas é, antes de tudo, capitalista, dona de uma rede de lojas, empreendedora, próspera e tem como público-alvo o consumidor de classe B e C emergente. É afinada com o governo federal, mesmo porque o setor no qual ela atua sai beneficiado. Sim, ela tem seus interesses. Uma vez tive problemas ao comprar no Magazine Luiza, fui muito bem atendido e meu problema foi prontamente resolvido. Luiza é uma capitalista, mas a empresa dela me tratou com respeito.

Já Mainardi é minha Anta, não aprecio a pessoa dele, bem como não sou fã do Manhattan Connection. Nas poucas vezes em que assisti a esse programa, percebi que existe um script. Se Mainardi não é bem informado, não fala bem, não é lá muito polido, então qual a função dele no programa? A resposta que me ocorre é que Mainardi é algo como um bobo-da-corte. Um arquétipo que se contrapõe aos demais apresentadores. Alguém que fala justamente para ser contestado. É o Didi do Manhattan Connection, ou seja, uma Anta. Digo isso pois ele teve o mesmo comportamento em outro episódio, o mesmo comentário sem-graça, no mesmo time e no mesmo momento do programa. Coincidência? De todo modo, qual o problema dele ser uma Anta? Um brasileiro que vive em Veneza (coincidentemente a cidade ícone das máscaras da Commedia Dell’Arte) bancar o bobo na TV paga para um público que o adora? Quantos brasileiros gostariam de ser uma Anta como ele? Mainardi, como ele mesmo disse, é uma personificação, um personagem pago para tal e que usa uma máscara: a de alguém que olha de longe o Brasil com desdém.

Mais anta é quem acredita.

Categorias
literatura pessoal sociedade

Ano-Bom

Stanislaw Ponte Preta

Felizmente somos assim, somos o lado bom da humanidade, a grande maioria, os de boa-fé. Baseado em nossa confiança no destino, em nossas sempre renovadas esperanças, é que o mundo ainda consegue funcionar regularmente deixando-nos a doce certeza – embora nossos incontornáveis amargores – de que viver é bom e vale a pena. E nós, graças as três virtudes teologais, às quais nos dedicamos suavemente, sem sentir, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos; graças a elas, achamos sinceramente que o ano que entra é o Ano-Bom, tal como aconteceu no dezembro que se foi e tal como acontecerá no dezembro que virá.

Todos com ar de novidade, olhares onde não se esconde a ansiedade pela noite de 31, vamos distribuindo os nossos melhores votos de felicidades:

Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

E os dois que se reciprocaram tão belas entradas seguem seus caminhos, cada qual para o seu lado, com um embrulho de presentes debaixo do braço e um mundo planos na cabeça.

Ninguém duvida de que este, sim, é o Ano-Bom.

Pois se o outro não foi!

E mesmo que tivesse sido, já não interessa mais – passou. E como este é o que vamos viver, este é o bom. Ademais, se é justo que desejemos dias melhores para nós, nada impede àqueles que foram felizes de se desejarem dias mais venturosos ainda. Por isso, lá vamos todos, pródigos em boas intenções, distribuindo presentes para alguns, abraços para muitos e bons presságios para todos:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

A mocinha comprou uma gravata de listas, convencida pelo caixeiro de que o padrão era discreto. O rapaz levou o perfume que o contrabandista jurou que era verdadeiro. Senhoras, a cada compra feita, tiram uma lista da bolsa e riscam um nome. Homens de negócios se trocarão aquelas cestas imensas, cheias de papel, algumas frutas secas, outras não e duas garrafas de vinho, se tanto. Ao nosso lado, no lotação, um senhor de cabeça branca trazia um embrulho grande, onde adivinhamos um brinquedo colorido. De vez em quando ele olhava para e embrulho e sorria, antegozando a alegria do neto.

No mais, os planos de cada um. Esta vai juntar dinheiro, aquele acaricia a possibilidade de ter o seu longamente desejado automóvel. Há uma jovem que ainda não sabe com quem, mas que quer casar. Há um homem e o seu desejo, uma mulher e a sua esperança. Uma bicicleta para o menininho, boneca que diz “mamãe” para a garotinha; letra “O” para o funcionário; viagens para Maria; uma paróquia para o senhor vigário; um homem – para Isabel – a sem pecados; Oswaldo não pensa noutra coisa; o diplomata quer Paris; o sambista um sucesso; a corista uma oportunidade; muitos candidatos vão querer a presidência; muitas mães querem filhos; muitos filhos querem um lar; há os que querem sossego; dona Odete, ao contrário, está louca para badalar; fulano finge não ter planos; por falta de imaginação, sujeitos que já tem, querem o que tem em dobro, e, na sua solidão, há um viúvo que só pensa na vizinha. Todos se conhecem com maior e menos grau de intimidade e, quando se encontram, saúdam-se:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Felizmente somos assim. Felizmente não paramos para meditar, ter a certeza de que este ano não é o Ano-Bom porque é um ano como outro qualquer e que, através dos seus 365 dias, teremos que enfrentar os mesmos problemas, as mesmas tristezas e alegrias. Principalmente erraremos da mesma maneira e nos prometeremos não errar mais, esquecidos de nossos defeitos e virtudes, os defeitos e virtudes que carregaremos até o último ano, o último dia, a última hora, a hora de nossa morte… amém!

Mas não vamos nos negar esperanças, porque assim é que é o ser humano; nem nos neguemos o arrependimento de nosso erros, embora, no Ano-Bom, voltemos a errar da mesma forma, o que é mais humano ainda.

Recomeçar, pois – ou, pelo menos, o desejo sincero de recomeçar – a cada nova etapa, com alento para não pensar que, tão pronto estejam cometidos todos os erros de sempre, um ano novo virá, um outro Ano-Bom, no qual entraremos arrependidos, a fazer planos para o futuro, quando tudo acontecerá outra vez.

Até lá, no entanto, teremos fé, esperança, caridade bastante para nos repetirmos mutuamente:

– Boas entradas no Ano-Bom!

– Igualmente, para você e todos os seus.

Categorias
pessoal

Dia 22 de julho, há quinze anos

Sempre gostei de tirar férias em julho ou dezembro/janeiro (ou melhor ainda, dividir as férias entre os dois períodos). Nesse ano, reservei uns dias em julho e resolvi conhecer a fazenda dos Hari Krishna em Pindamonhangaba/SP, Nova Gokula. Meu professor de ioga, na época, me deu as coordenadas, disse que havia uma pousada e me animei em passar uns dias por lá.

No dia 21, estava no quarto, dando aquela cochilada depois do almoço (pra quem conhece, praxada) e escutei uma voz feminina, conversando com a zeladora da pousada. Ela fazia muitas perguntas, queria saber como as coisas funcionavam por ali. Me interessei em saber quem era a dona daquela voz. Peguei meu livro e fui à varanda “ler um pouquinho”. Ela saiu do quarto e logo voltou. Pude ver quem era e continuei a leitura.

Minutos mais tarde, a dona da voz veio falar comigo. Me pediu licença, se apresentou e se desculpou por interromper minha leitura perguntando se eu tinha interesse em fazer uma caminhada ecológica, um passeio oferecido pelo dono da pousada, mas que só era feito com um número mínimo de pessoas. Eu já sabia da condição e disse a ela que poderia contar comigo, pois também queria fazer a caminhada. Ela ainda comentou sobre o lugar (um tanto incomum) e conversamos por alguns minutos. Logo ela se foi.

Ao anoitecer, bateu a fome e, como lá não ofereciam jantar (praxada era só de manhã e à tarde), acabei indo à lanchonete ao lado do templo. Vi que ela estava lá, conversando com um devoto. Demorei um pouco para entrar, antes fui visitar o templo, cujo altar estava aberto naquela hora. Entrei na lanchonete, cumprimentei-os e fui comer numa mesa próxima, parecia que ela estava meio entediada com o papo do devoto, mas ouvia-o educadamente.

Mais tarde ela resolveu voltar à pousada, pegou o guarda-chuva e me perguntou se eu queria uma “carona”. Agradeci mas recusei. Quis ficar um pouco mais e conversar com os Hari Krishna. Naquela época, entendia um pouco da filosofia deles. O suficiente para provocá-los até certo ponto.

No dia 22 fui ao refeitório, pela manhã, tomar a praxada e depois retornei à pousada. Ao sair do quarto, encontrei-a no pátio. Disse que ia fazer uma caminhada e perguntei se gostaria de me acompanhar. Demos uma volta pela fazenda, que é bem extensa, e pudemos nos conhecer melhor. Horas mais tarde, ela me pediu para avisá-la sobre a hora do almoço, já que tinha perdido o horário do café-da-manhã.

Fomos almoçar juntos e, mais tarde, ela teve a brilhante ideia de contrariar o dono da pousada e fazermos a tal caminhada ecológica por conta própria. E assim fizemos. Mal sabíamos que aquela caminhada seria o início de tantos outros “primeiros”. A primeira traquinagem, os primeiros papos, as primeiras afinidades, os primeiros olhares, o primeiro beijo, o primeiro por-do-sol.

Na volta, algumas horas depois, nos perdemos na trilha e já havia escurecido. Ela levou uma lanterna consigo, que nos ajudou a chegar a um lugar relativamente seguro: o quintal da casa do dono da pousada. Apesar de constrangidos (nós e ele), conseguimos voltar, rindo da situação em que os dois recém conhecidos haviam se metido. Eis a primeira história pra contar.

Momentos mais tarde, próximo à lanchonete, comentamos o assunto com alguns dos devotos. De repente, um deles apontou e disse, “olha lá”. A lua estava nascendo por detrás das montanhas. Nunca tinha visto aquilo e ela me disse que também não. Foi a primeira vez, foi assim que tudo começou.

Categorias
literatura mídia tecnologia

Suportes tecnológicos: a obra e os produtos derivados

Observar as diversas expressões de arte e seus respectivos suportes tecnológicos é algo muito interessante. Conforme a evolução da tecnologia, novos suportes são criados e, quando a obra é boa, ela “renasce” sob esses novos suportes, bem como obras lançadas originalmente em livro e que viram filmes. Ou filmes que viram jogos (ou o contrário). Gostaria de ater-me, nesse caso, exclusivamente ao primeiro exemplo.

Li vários livros e pensava, quando lia: “isso daria um ótimo filme”. Coincidência, ou não, a obra “renascia” como filme. Talvez, a idéia de filmar determinada obra fosse um tanto óbvia e outros também a tivessem, de preferência aqueles que tem condições de torná-la realidade. Sorte minha (ou não).

Obras devem ser apreciadas sempre no original, creio nessa afirmação, nunca se deve trocar um suporte tecnológico por outro, já que são distintos entre si e, nem sempre, visam o mesmo objetivo. Essa afirmação não se refere, obviamente a todas as obras. O mercado se encarregou de modificar a lógica ou de criar uma nova, criando obras que sugerem a continuação em outros diversos suportes tecnológicos. Hoje em dia existe uma infinidade destes. É algo planejado nesse caso.

Mas, produções distintas, isto é, quando o livro é escrito em uma época e o filme (por exemplo) é feito em outra, há que se ter a certeza de que um não deve substituir o outro, pois os formatos são diferentes e obviamente deve haver adaptações de um suporte para outro. Além destas, opiniões do diretor, roteirista e outros também são aspectos que interferem no resultado final, bem como no objetivo.

O expectador mais atento percebe a diferença entre ambos, quando consegue ter acesso a elas e, certamente ficará frustrado. É o meu caso. Já assisti a inúmeros filmes originados de livros. Na grande maioria dos casos, o resultado do produto é frustrante, se comparado à obra original. Alguns exemplos a citar: Carandiru, Diários de Motocicleta, Ensaio sobre a Cegueira, Crash – Estranhos prazeres e alguns tantos. Não há ordem que conduza à frustração, assistindo ao filme primeiro e lendo o livro depois, ou o contrário, ambos são incompatíveis entre si. O curioso é que são filmes belíssimos, possuem o aval dos respectivos autores – José Saramago, por exemplo, se emocionou ao assistir o filme de seu livro -, com exceção de Carandiru, cujo resultado achei péssimo, analisando-o individualmente e principalmente comparando-o com o excelente livro de Dráuzio Varella.

Esses filmes perdem muito do crédito, se comparados às respectivas obras originais. São tantas modificações feitas no roteiro, tantas “invenções”, tantas adaptações que o resultado fica quase outro. Se é assim, poderia-se criar uma outra narrativa diferente da obra original e não fazê-la parecer com a mesma do livro e ter tantas alterações que a tornam uma obra-original-mutante figurando noutro suporte tecnológico.

Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças. Imagem: Divulgação Cartaz do filme Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro, baseado no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano.Mudar o contexto no enredo, por exemplo, é uma saída muito interessante, como no caso do filme Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanski, que partiu da história no livro Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano, e a recriou em um contexto completamente diferente. O filme de Laís, cujo autor do livro foi um dos roteiristas, faz total referência à obra original, mas o filme tem um contexto próprio que o desvincula do livro, atribuindo identidade própria ao mesmo. Esse foi um dos livros que li pensando que daria um ótimo filme, e deu.

Porém, a maioria não é assim. Infelizmente, fazem modificações grotescas na história, inventam, mudam, costuram trechos e mudam muito o fluxo original da narrativa, o que torna o resultado muito diferente do original, uma pena. Sempre que assisto a filmes baseados em livros, procuro ler as obras e compará-las aos mesmos. Quase sempre é uma decepção.

A exceção à regra

Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do filme Meu Pé de Laranja Lima, uma delas. Imagem: Divulgação.Felizmente, há quem busque a preocupação de “verter” a obra em livro para o cinema sem destruir o original. Gostaria de saber de outros exemplos, mas conheço somente este: Meu Pé de Laranja Lima, lançado em 1970. Conheço a película desde a década de 80. Antes disso, assistia a novela de vez em quando, na TV Bandeirantes. E foi uma situação curiosa, em 1986, quando meu pai adquiriu o primeiro aparelho de videocassete. Nós todos empolgados em alugar filmes na locadora. A dúvida era sobre qual seria o primeiro filme a ser locado e minha mãe foi taxativa: “vai ser Meu Pé de Laranja Lima”! E foi. Todos assistimos, mas só eu fiquei com ele na memória. Já no início do século 21, achei o filme numa locadora e fiz questão de locar para a família assistir. Minha filha, ainda pequenina, chorou um bocado. Depois desse episódio, nunca mais vi esse filme em nenhuma locadora.

Apesar de gostar muito desse filme, nunca me interessei em ler a obra original e eis que, dia desses, fui ao shopping, precisava comprar o presente de aniversário para um colega de classe da minha filha. Qual não foi minha surpresa ao encontrar o próprio, comprei dois. E qual não foi minha surpresa ao ler todo o livro e descobrir que o enredo do filme é praticamente o mesmo do livro. Tive de procurar o referido filme na rede, achei e reassisti para ter certeza do que estou falando, posto que faz anos que não o assisto. Felizmente, não estava enganado.

Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima. Imagem: Divulgação Capa do livro Meu Pé de Laranja Lima, versão mais recente da editora Melhoramentos.O diretor Aurélio Teixeira (o “Portuga”), que é um dos atores principais e também um dos roteiristas, juntamente com o autor da obra, José Mauro de Vasconcelos, teve todo o cuidado de preservar o enredo original. A montagem deixou a desejar, a narrativa ficou um pouco rápida e o filme, em relação ao livro, perdeu um pouco da riqueza de detalhes. Mas, nada que o desabone. Manteve-se o respeito para com a obra original, até os diálogos do livro foram mantidos, algo raro. E o resultado é do tipo que eu gosto, bem próximo dos filmes de arte europeus, desprovido de efeitos, apenas a simplicidade de uma linda história, embora muito triste.

Nesse caso, é possível que a narrativa tenha contribuído para o desenvolvimento do filme como um todo, os atores desempenharam muito bem seus personagens, como o pequeno Júlio César Cruz, que interpreta Zezé, o protagonista da história. A ambientação do filme é muito boa, as locações, ou seja, uma confluência de fatores que permitiram, como resultado, um filme muito singelo, simples e direto, com um profundo respeito à obra original.

Meu Pé de Laranja Lima (o filme) é um exemplo de que é possível adaptar a narrativa de um livro para o cinema sem alterá-la geneticamente, como normalmente se faz, como manda a lógica da indústria “lucrativa” do entretenimento. Talvez, naquele tempo, a lógica fosse outra.

Fonte dos filmes: Filmow.com

Categorias
mídia social sociedade sociedade e mídia

Relações sociais: o passado e o presente-virtual

O motivo deste texto surgiu a partir de um ocorrido há alguns dias. Foi o estopim que me fez lembrar de outros exemplos que me levaram a uma reflexão mais aprofundada sobre o título-tema. O advento da internet tornou o computador (e também os dispositivos advindos dele) uma ferramenta, peculiar, de comunicação. Os aplicativos de redes sociais o consagraram com tal função. As relações de contato nesses aplicativos se transformaram em complexas redes de interconexão de pessoas (exclusivamente no ambiente virtual), o que, por si só, já é um universo interessantíssimo a ser abordado. Entretanto, as relações que se constituíram no passado e que, por algum motivo, retornaram ao presente de forma virtual, ou até mesmo presencial em alguns casos, trazem implicações intertemporais que mesclam aspectos do ontem e do hoje em uma coisa só. Eis os exemplos:

Tenho, ou melhor tinha, um antigo conhecido que chegou a ser meu “melhor amigo” na década de 80, na adolescência. Houve um distanciamento natural com o passar dos anos, na metade da década de 90, e uma re-aproximação, no ambiente virtual, na década seguinte. Um outro exemplo: Meu pai tinha um colega de trabalho de origem grega que morava no Brasil, que se casou com uma brasileira, tiveram um filho e se mudaram para a Grécia, em 1979, e perderam o contato conosco na década de 80, mas re-aproximaram-se virtualmente no início de 2011. Um reencontro virtual até emocionante após uma lacuna temporal de mais de 20 anos. Outro exemplo: Um primo que era muito amigo meu e não nos vemos presencialmente há mais de 15 anos. Nos re-aproximamos virtualmente há pouco mais de cinco anos, mas de uma maneira extremamente lacônica. Os três exemplos citados possuem, de certa forma, uma mesma estrutura: um passado presencial, uma lacuna temporal e uma re-aproximação virtual.

O passado, nas relações sociais, torna-se complexo quando associado ao ambiente virtual, por meio dos aplicativos de redes sociais, pois a noção de pertencimento entre ambos (o passado presencial e o contato no ambiente virtual) são incompatíveis entre si, apesar de conviverem juntos no presente. A lacuna temporal é responsável pela desconstrução da afinidade, que é o laço que, a rigor, mantém viva uma relação social (tanto presencial como virtual).

Reatar um antigo contato virtualmente pode ser perigoso, uma vez que corre-se o risco de anulá-lo definitivamente, dadas as “configurações” de ambos os lados no presente. Um re-enlace virtual traz à tona muitas das reminiscências do passado, mas também força o confronto de características do presente, como divergências de ordem política, social, religiosa, etc. Características essas que foram construídas individualmente durante a ausência de contato. De todo modo, seria leviano supor que todas as relações sociais com semelhante estrutura estão fadadas a ter o mesmo desfecho. Cada um dos três exemplos possui elementos próprios que os conduzem a desfechos distintos, assim como no período em que havia o contato presencial.

Além disso, em um ambiente de rede social (como o Facebook, por exemplo) há centenas de contatos ligados a um único usuário e que interagem entre si em uma linha do tempo. Ali todos estão no mesmo plano, independentemente das relações presenciais e de pertencimento, “tudo junto e misturado” e de forma atemporal, convivendo, inclusive com pessoas cuja interação iniciou-se de forma virtual, mas que está acontecendo ao mesmo tempo, junto com outras que trazem reminiscências do passado. Usuários que, às vezes, até interagem entre si.

Se a interação (virtual ou presencial) diária com pessoas constrói afinidades, modela conceitos (ou preconceitos muitas vezes) e gera convicções, é óbvio que essa construção de valores e sentidos vai esbarrar na construção de sentidos de outros, afinal, a pessoa pode ter uma leitura diferente do próprio passado em decorrência de experiências posteriores e que pode gerar divergências as características individuais desenvolvidas durante a lacuna temporal.

Isso, talvez, explique o que ocorre, nos meus exemplos, com pessoas cujo contato está findo há muitos anos e que, de repente, são reatados no ambiente virtual. São relações sociais de pouca intensidade, com pouca reciprocidade, pouco contato e interação mútua na rede. Na verdade, as reminiscências do passado são o único elemento disponível que tornam esses contatos possíveis.

De outro modo, uma pessoa é abruptamente “adicionada” ao cotidiano (virtual) de outra, acompanha o comportamento da mesma na rede social e manifesta-se positiva ou negativamente, ou nem se manifesta. A ausência presencial corrobora para que o contato permaneça com pouca intensidade e isso ocorre em dois dos exemplos acima, nos quais o contato persiste, mas há pouca ou nenhuma comunicação. No outro exemplo, a divergência de opiniões evoluiu para uma discussão que culminou no rompimento definitivo. Esse é típico exemplo do distanciamento entre passado e presente, no qual a pessoa faz uma re-leitura do próprio passado e a interação com o outro gerou o conflito.

Passado presencial, lacuna temporal e re-aproximação virtual são fatores que podem determinar o re-enlace de uma relação social, ou o fim da mesma. É necessário ter consciência de que uma relação baseada nos três itens será do tipo “museu”, na qual as reminiscências do passado serão o “fiapo-de-cabelo” que a sustentará. Afora isso, serão duas pessoas praticamente desconhecidas que, se não fosse por essas reminiscências, talvez nem se conhecessem. Portanto, a relação será de pouca intensidade. Mas, nada impede que a mesma possa evoluir para um novo convívio virtual ou até mesmo presencial. Mas, há que ser ter consciência de que tratar-se-á de uma nova relação, independentemente das reminiscências do passado.